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← Blog·Oncologia de Precisão07 de julho de 2026

Pembrolizumabe em Carcinoma do Colo Uterino (KEYNOTE-826) e Tisotumabe Vedotina (innovaTV 204/301): Revolução no Tratamento do Câncer Cervical

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Epidemiologia, HPV e biologia do carcinoma cervical

Carcinoma do colo uterino (CCU) — panorama epidemiológico: CCU é a 4ª causa de câncer feminino globalmente. >99% causados por HPV (Human Papillomavirus). HPV 16/18 responsáveis por ~70% dos cânceres cervicais. Outros oncogênicos: 31, 33, 45, 52, 58. No Brasil: ~17.000 novos casos/ano, 6.000 mortes — maior incidência em Norte e Nordeste.

Vacinação: Gardasil 9 (4HPV+HPV 6/11/16/18/31/33/45/52/58) protege contra 90% dos CCR e 90% de papilomas genitais. SUS oferece Gardasil 4 ou Gardasil 9 para meninas 9-14 anos (e meninos em algumas regiões). Cura se vacinada antes da exposição sexual: redução de lesões precursoras >90%.

Biologia molecular do CCU: HPV oncoproternas E6 e E7: E6 → degrada TP53 (inativa supressor tumoral de apoptose). E7 → degrada pRb (inativa freio do ciclo celular) → proliferação descontrolada.

Subtipo histológico:

  • Carcinoma escamoso: 70-80%. HPV 16/18 principalmente.
  • Adenocarcinoma: 20-25%. HPV 18 principalmente. Maior risco de metástases ocultas. Pior prognóstico que escamoso avançado.
  • Adenoescamoso: raro. Pior prognóstico.

Estadiamento FIGO (2018): IA (microinvasivo), IB1-3 (invasivo cervical localizado), IIA/IIB (extensão vagina/paramétrio), IIIA/B/C (extensão pélvica/linfonodos), IVA/B (bexiga/reto ou distante).

Tratamento por estágio:

  • IA-IB1 (≤2 cm): cirurgia (traquelectomia radical ou histerectomia radical)
  • IB2-IIB: radioquimio concomitante (cisplatina semanal 40 mg/m² + EBRT + braquiterapia intracavitária) — padrão de cura
  • IIIA-IVA: radioquimio — taxas de controle 40-70% em III, piores em IVA
  • IVB/Recidiva à distância → sistêmico

GOG 240, KEYNOTE-826 e a revolução da imunoterapia em 1ª linha do CCU metastático

GOG 240 (Tewari et al., NEJM 2014) — bevacizumabe na 1ª linha do CCU metastático: 452 pacientes CCU persistente/recorrente/metastático 1ª linha. Platinum (cisplatina ou topotecano) + paclitaxel ± bevacizumabe 15 mg/kg. SG: 17,0 vs. 13,3 meses com bevacizumabe (HR 0,71; P=0,004). ORR: 48% vs. 36%. Aprovação FDA: agosto 2014. Estabeleceu platina+taxano+bevacizumabe como padrão por quase 10 anos.

KEYNOTE-826 (Colombo et al., NEJM 2021) — pembrolizumabe adicionado ao padrão GOG 240: 617 pacientes CCU metastático/recorrente 1ª linha. Platina (cisplatina ou carboplatina) + paclitaxel + bevacizumabe (opcional se PD-L1 ≥1%) ± pembrolizumabe 200 mg q3sem.

Em PD-L1 CPS ≥1 (>90% dos tumores): SG: 24,4 vs. 16,5 meses (HR 0,64; P<0,001). SLP: 10,4 vs. 8,2 meses (HR 0,61; P<0,001). ORR: 66% vs. 48%.

Em todos os pacientes (independente de PD-L1): SG: 26,0 vs. 13,3 meses (HR 0,67; P<0,001). SLP: 10,4 vs. 8,2 meses.

Aprovação FDA: outubro 2021 para CCU metastático/recorrente PD-L1 CPS ≥1 (com ou sem bevacizumabe).

Cemiplimabe (CALLA — cemiplimabe pós-QRTX em estágio IIB-IVA): Cemiplimabe (anti-PD-1) após QRTX completada (radioquimio ± braquiterapia) em CCU localmente avançado (IIB-IVA). 608 pacientes. PFS: 0,68 (HR; P=0,003). Aprovação FDA: novembro 2023 para CCU IIB-IVA pós-QRTX.

Nivolumabe em CCU 2ª linha: CheckMate-358: nivolumabe em CCU/endométrio/vulva r/r. ORR: 26% em CCU pré-tratado. Sem aprovação específica.

Tisotumabe vedotina (TIVDAK®) — ADC anti-Fator Tecidual (TF) em CCU

Tisotumabe vedotina (TIVDAK®, TV-006): ADC: anticorpo anti-TF (Fator Tecidual, F3, CD142) + payload MMAE (monometil auristatina E — inibidor de tubulina, mesmo payload de brentuximabe vedotina). Linker: protease-clivável (catepsina B no endossomo/lisossoma).

TF (Fator Tecidual): receptor de membrana normalmente presente em fibroblastos/tecido extravascular. Função normal: iniciar cascata de coagulação ao ligar-se a FVII. Superexpresso em >80% dos carcinomas cervicais (escamoso e adenocarcinoma) e em outros tumores (CPNPC, CCRm, bexiga, endométrio). TF sinaliza também via PAR2 → proliferação, angiogênese. ADC anti-TF entrega MMAE para destruição da tubulina das células TF+.

innovaTV 204 (fase II) — tisotumabe em CCU 2ª linha: 101 pacientes CCU r/r pré-tratado (≥1 linha de platinum). Tisotumabe vedotina 2 mg/kg q3sem. ORR: 24%. DCR: 72%. Duração mediana de resposta: 8,3 meses. SG: 12,1 meses. Aprovação FDA (acelerada): setembro 2021 para CCU r/r pós-platinum.

innovaTV 301 (fase III, Vergote et al., NEJM 2023) — tisotumabe vs. quimio padrão em CCU r/r: 502 pacientes CCU r/r após 1 linha de platinum. Tisotumabe 2 mg/kg q3sem vs. quimio padrão (topotecan, vinorelbina, gemcitabina, irinotecano, ou pemetrexed — escolha do investigador).

SG: 11,5 vs. 9,5 meses (HR 0,70; P=0,004). SLP: 4,2 vs. 2,9 meses (HR 0,67; P<0,001). ORR: 17,8% vs. 5,2%.

Aprovação FDA (regular): março 2024 para CCU r/r pós-1ª linha.

Toxicidades específicas de tisotumabe vedotina: Toxicidade ocular: similar a mirvetuxumabe (MMAE e maytansinoide afetam córnea). Conjuntivite, lacrimejamento, visão turva: ~57% qualquer grau, grau ≥3 ~8%. Profilaxia: colírio vasoconstritor (tetrizolina/nafazolina) + colírio de corticoide (loteprednol) antes e após infusão + tampão de gel de dex intracamelar em alguns protocolos. Sangramento (anti-TF interfere com coagulação): epistaxe, sangramento gengival, hematúria — grau 1-2 em 31%, raro grau ≥3. Neuropatia periférica: MMAE acumula axonalmente (similar a brentuximabe). Alopecia moderada (~40%).

Sequência de tratamento e perspectivas futuras em CCU avançado

Algoritmo de tratamento CCU metastático/recorrente (2025): 1ª linha: pembrolizumabe + platinum + paclitaxel ± bevacizumabe (KEYNOTE-826) Critério: PD-L1 CPS ≥1 (>90% elegíveis). Bevacizumabe: se sem contraindicação (fístula pré-existente, função renal OK, sem hemorragia ativa).

2ª linha (pós-platinum + pembro): Tisotumabe vedotina (innovaTV 301) — PREFERIDO se TF expressão (maioria dos casos). Topotecan, vinorelbina, irinotecano, gemcitabina — alternativas por toxicidade ou indisponibilidade de TV.

3ª linha em diante: bevacizumabe (se não usado), anti-PD-1 (se não usado), nivolumabe.

Combinação tisotumabe + pembrolizumabe (iMOST + innovaTV 205): innovaTV 205 (fase Ib/II): tisotumabe + pembrolizumabe ± trastuzumabe em CCU 1ª linha (pré-platinum). ORR: 42% em 1ª linha. Explorando combinação ADC + IO como alternativa sem platinum.

HER2 em CCU: HER2 amplificado/superexpresso em ~25% dos adenocarcinomas de colo. Trastuzumabe + tisotumabe em iMOST: ORR melhorada. DESTINY-PanTumor02 (T-DXd em tumores HER2+): CCU incluído. Dados emergindo.

Câncer cervical localmente avançado — imunoterapia pós-QRTX: KEYNOTE-A18 (pembrolizumabe + QRTX): 1060 pacientes CCU locorregional (IB2-IVA). pembro + QRTX vs. QRTX. PFS: 0,70 (HR; P<0,001). Aprovação FDA: janeiro 2024 para CCU localmente avançado (IB2/II/IIIA/IIIB) com QRTX concorrente. Cemiplimabe pós-QRTX (CALLA): aprovado novembro 2023. Dois regimes de IO em CCU localmente avançado agora aprovados — combinado vs. consolidação pós-QRTX.

Vacinação terapêutica HPV: Vacinas HPV terapêuticas (não profiláticas) em desenvolvimento: ISA101b (peptídeo HPV16 E6/E7) + pembrolizumabe: ORR 33% em CCU r/r HPV16+ (estudo de fase II promissor). mRNA-2416 (HPV oncoproteínas): fase I/II.

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Pembrolizumabe mudou o tratamento do câncer de colo de útero avançado?+

Sim — de forma substancial. Por quase 10 anos (2014-2021), o padrão de 1ª linha para CCU metastático era platina + paclitaxel + bevacizumabe, com sobrevida global de ~13-17 meses. O estudo KEYNOTE-826 (2021) adicionou pembrolizumabe a esse esquema e aumentou a sobrevida para 24,4 meses em pacientes PD-L1+ (que são mais de 90% dos casos). Isso representa uma melhora de quase 8 meses de vida mediana — o maior avanço em 1ª linha de CCU metastático em décadas. Além disso, o percentual de pacientes vivos em 2 anos passou de ~30% para ~53% com pembrolizumabe. Hoje, a combinação platina + paclitaxel + bevacizumabe + pembrolizumabe é o novo padrão aprovado pelo FDA para CCU metastático PD-L1 positivo.

O que é tisotumabe vedotina e como funciona no câncer cervical?+

Tisotumabe vedotina (TIVDAK) é um 'anticorpo conjugado a fármaco' (ADC) que se liga ao Fator Tecidual (TF) — uma proteína envolvida na coagulação do sangue, mas que está muito superexpressa na superfície das células do câncer do colo uterino (~80% dos casos). Após a ligação, o ADC é internalizado e libera MMAE, um potente inibidor do esqueleto celular (microtúbulos), matando a célula. No estudo innovaTV 301, tisotumabe vedotina foi superior à quimioterapia convencional em 2ª linha: taxa de resposta 17,8% vs. 5,2%, e sobrevida global 11,5 vs. 9,5 meses. É o primeiro ADC aprovado para câncer cervical — abrindo um novo paradigma de tratamento dirigido a alvo nessa doença.

A vacina HPV previne câncer de colo de útero?+

Sim, de forma altamente eficaz — mas apenas quando administrada ANTES da exposição ao HPV (idealmente antes do início da vida sexual). A vacina Gardasil 9 protege contra 9 tipos de HPV responsáveis por ~90% dos cânceres cervicais. Estudos de acompanhamento de longo prazo mostram redução de >90% nas lesões precursoras do colo uterino (NIC 2/3) em mulheres vacinadas antes da exposição. Países com alta cobertura vacinal (Austrália, Escandinava) já relatam queda dramática em casos de CCU em mulheres jovens. No Brasil, o SUS oferece a vacina HPV gratuita para meninas de 9-14 anos e meninos de 11-14 anos. A vacinação não dispensa o Papanicolau — mulheres vacinadas ainda devem realizar rastreio regularmente, pois a vacina não cobre 100% dos tipos oncogênicos.

Qual é a diferença entre tratamento de câncer cervical localmente avançado e metastático?+

São situações muito diferentes em prognóstico e abordagem: Localmente avançado (estádios IB3-IVA, tumor grande ou com extensão para estruturas pélvicas mas sem metástases à distância): o tratamento padrão é radioquimioterapia concomitante (cisplatina semanal + radioterapia pélvica + braquiterapia intracavitária) — com intenção curativa, as taxas de controle chegam a 60-80% em estádio II e 40-60% em estádio III. Recentemente, pembrolizumabe (KEYNOTE-A18) e cemiplimabe (CALLA) foram aprovados nesse contexto — um concomitante à radioterapia, o outro como consolidação após. Metastático (estádio IVB ou recidiva à distância): tratamento sistêmico paliativo. Pembrolizumabe + platina + paclitaxel ± bevacizumabe é o padrão. O objetivo é controle da doença e qualidade de vida; a cura é rara mas possível em casos selecionados com resposta excepcional.

Referências Científicas

  1. . , .
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Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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