EGFR: biologia da via, mutações ativadoras e importância em CPNPC
EGFR (Epidermal Growth Factor Receptor, ErbB1, HER1): EGFR é um receptor de tirosina quinase (RTK) de membrana: domínio extracelular de ligação de EGF/TGFα + domínio intracelular de tirosina quinase (TK). Ligação de ligante → dimerização → autofosforilação → ativação de RAS/MAPK, PI3K/AKT, STAT3/5 → proliferação, sobrevivência, angiogênese, invasão.
Mutações ativadoras de EGFR em CPNPC: Presentes em 10-15% dos CPNPCs em populações ocidentais e 40-60% em asiáticos (população mais afetada por adenocarcinoma com EGFR). Principais (sensiblidade a TKIs de 1ª-2ª geração):
- Ex19del (deleção no éxon 19): 45-50%. Deleta frame LREA (aminoácidos 747-750). Mais sensível a osimertinibe 1ª linha.
- L858R (leucina→arginina no códon 858 do éxon 21): 40-45%. Ligeiramente menos sensível a osimertinibe vs. Ex19del.
- Mutações raras (<10%): G719X, S768I, L861Q — sensíveis a afatinibe/dacomitinibe; osimertinibe sensível a algumas.
Por que EGFR mutado responde a TKIs: EGFR mutado (Ex19del/L858R) está constitutivamente ativo → tumor "addicted" a EGFR → células tumorais DEPENDEM de EGFR → bloqueio de EGFR = apoptose maciça. "Oncogene addiction": retirar a sinalização do oncogene dominante → colapso do tumor.
Gerações de TKIs EGFR:
- 1ª geração: gefitinibe (Iressa), erlotinibe (Tarceva) — inibidores reversíveis, ATP competitivos.
- 2ª geração: afatinibe (Giotrif), dacomitinibe (Vizimpat) — inibidores irreversíveis pan-ErbB (EGFR, HER2, HER4). Mais potentes, mais toxicidade.
- 3ª geração: osimertinibe (Tagrisso), lazertinibe — inibição irreversível seletiva de EGFR mutante (poupa EGFR WT) + atividade em T790M.
TKIs de 1ª e 2ª geração: IPASS, LUX-Lung 7, ARCHER e a problemática da resistência T790M
Gefitinibe (IPASS) — primeiro grande ensaio em EGFR: IPASS (Mok et al., NEJM 2009): 1217 pacientes asiáticos CPNPC. Gefitinibe vs. carboplatina+paclitaxel. SLP global: gefitinibe inferior (HR 1,25 — surpreendente). Porém: em EGFR mutados (Ex19del/L858R): gefitinibe SUPERIOR (HR 0,48). Em EGFR selvagem: gefitinibe INFERIOR. IPASS revolucionou o paradigma: biomarker molecular obrigatório — não é histologia que guia tratamento, é genômica.
Erlotinibe (EURTAC — populações não-asiáticas): Cioffi et al., 2012: erlotinibe vs. quimio em EGFR mutado europeu. SLP: 9,7 vs. 5,2 meses. Confirmou IPASS em populações caucasianas.
Afatinibe 2ª geração — LUX-Lung 3/6: Afatinibe vs. cisplatina+pemetrexede (LUX-Lung 3) e vs. gemcitabina+cisplatina (LUX-Lung 6) em EGFR mutado 1ª linha. SLP: 11,1 e 11,0 meses (afatinibe) vs. 6,9 e 5,6 meses (quimio).
Dacomitinibe (ARCHER-1050 — 2ª geração vs. 1ª): Dacomitinibe vs. gefitinibe em 1ª linha EGFR mutado. SLP: 14,7 vs. 9,2 meses (HR 0,59; P<0,0001). SG: 34,1 vs. 26,8 meses (HR 0,76; P=0,0269). 2ª geração superior a 1ª geração em SG — porém mais toxicidade (cutânea/GI: acne, diarreia).
T790M — a mutação de resistência dominante: Após 12-18 meses de TKI 1ª/2ª geração, ~60% dos tumores desenvolvem T790M (treonina→metionina no códon 790 — "gatekeeper"). T790M: aumenta a afinidade de EGFR pelo ATP → TKI 1ª/2ª geração não conseguem mais competir com ATP para inibir EGFR T790M. Resistência intrínseca ao bloqueio ATP-competitivo.
Detecção de T790M: biópsia tecidual (padrão) OU biópsia líquida (cfDNA/ctDNA no sangue — sensibilidade 70-80% vs. tecido).
AURA3: osimertinibe vs. quimio em EGFR T790M+ após 1ª geração
Osimertinibe (Tagrisso®, AZD9291): TKI de 3ª geração irreversível. Inibe EGFR mutante (Ex19del, L858R) + T790M; pouquíssima atividade em EGFR wild-type → menos rash/diarreia que TKIs 1ª/2ª geração. Penetração no SNC: osimertinibe atravessa barreira hemato-encefálica eficientemente (ratio CSF/plasma ~7%) — crucial para metástases cerebrais. Dose: 80 mg/dia oral.
AURA3 (Mok et al., NEJM 2017) — T790M+ 2ª linha: 419 pacientes CPNPC EGFR T790M+ após progressão em TKI de 1ª/2ª geração. Osimertinibe 80 mg/dia vs. platina+pemetrexede.
SLP: 10,1 vs. 4,4 meses (HR 0,30; P<0,001). ORR: 71% vs. 31%. Benefício em metástases cerebrais: SLP cerebral NR vs. 5,1 meses.
Aprovação FDA: novembro 2015 (designação Breakthrough, aprovação acelerada baseada em AURA-extensão). Aprovação regular baseada em AURA3: março 2017 para CPNPC EGFR T790M+ 2ª linha.
AURA3 na prática — quando considerar: Após 1ª linha com gefitinibe/erlotinibe/afatinibe E progressão, testar T790M obrigatoriamente:
- T790M+: osimertinibe
- T790M-: outros mecanismos (amplificação MET em 5-20%, transformação neuroendócrina, outros). Opções: quimio platina-based; tepotinibe/capmatinibe se MET; lorlatinibe se ALK? (não aprovado aqui).
Metástases cerebrais — vantagem de osimertinibe: ~30% dos CPNPCs EGFR+ desenvolvem metástases cerebrais. Gefitinibe/erlotinibe: penetração ruim no SNC (~1-5% da concentração plasmática). Osimertinibe: penetração boa — ORR cerebral 70-90% em estudos dedicados. BLOOM: osimertinibe em leptomeningite por EGFR CPNPC: ORR intracraniana 62%, DCR 92%. Osimertinibe essencialmente substituiu radioterapia holocraniana em primeira intenção para metástases cerebrais de CPNPC EGFR+.
FLAURA: osimertinibe superior a TKIs de 1ª geração em 1ª linha
Hipótese do FLAURA: Se osimertinibe supera quimioterapia em T790M+, e T790M é a principal resistência aos TKIs de 1ª geração, por que não usar osimertinibe diretamente na 1ª linha? Assim, quando T790M surgir (resistência adquirida), o tumor já estará em osimertinibe e não haverá escape por esse mecanismo.
FLAURA (Soria et al., NEJM 2018) — osimertinibe vs. erlotinibe/gefitinibe em 1ª linha: 556 pacientes CPNPC EGFR+ (Ex19del, L858R) pós-menopausa. Osimertinibe 80 mg/dia vs. erlotinibe ou gefitinibe (escolha do investigador).
SLP: 18,9 vs. 10,2 meses (HR 0,46; P<0,001). ORR: 80% vs. 76% (NS — mas qualidade de resposta diferente). SG (NEJM 2020): 38,6 vs. 31,8 meses (HR 0,80; P=0,046) — benefício em SG.
Aprovação FDA: abril 2018 para CPNPC EGFR+ (Ex19del ou L858R) 1ª linha. Osimertinibe tornou-se o TKI EGFR padrão de 1ª linha em todo o mundo.
FLAURA2 — osimertinibe + quimio: osimertinibe + carboplatina + pemetrexede vs. osimertinibe mono. SLP: 25,5 vs. 16,7 meses (HR 0,62; P<0,001). SG: ainda imatura. Aprovação FDA: março 2024 para 1ª linha EGFR+ com osimertinibe+quimio.
Resistência ao osimertinibe: T790M não pode surgir "em cima" de osimertinibe (já está inibido). Novos mecanismos de resistência a osimertinibe:
- C797S: mutação na posição de ligação covalente de osimertinibe → osimertinibe não liga mais. T790M+C797S: sem TKI ativo disponível aprovado. T790M-C797S (adquirido sem T790M): gefitinibe pode ser ativo (ligação diferente).
- MET amplificação: ~15% após osimertinibe. Tepotinibe ou capmatinibe (inibidores MET) + osimertinibe em investigação.
- HER2 amplificação, BRAF V600E, KRAS: mecanismos raros de resistência.
- Transformação neuroendócrina: pequena percentagem de tumores → oncologia de CPPC.
LAURA: osimertinibe em CPNPC EGFR+ estágio III — novo paradigma pós-QRT
Contexto — CPNPC estágio III com EGFR: CPNPC estágio III (localmente avançado, inoperável): QRT concomitante é padrão. Depois do PACIFIC (durvalumabe após QRT em PD-L1≥1%), durvalumabe tornou-se padrão na maioria. Mas pacientes com EGFR+ são excluídos do PACIFIC por baixa probabilidade de resposta a IO. Qual é a alternativa?
LAURA (Lu et al., NEJM 2024) — osimertinibe pós-QRT em EGFR+ estágio III: 216 pacientes CPNPC EGFR+ (Ex19del ou L858R) estágio III, sem progressão após QRT concomitante. Osimertinibe 80 mg/dia por até 3 anos vs. placebo.
SLP: 39,1 vs. 5,6 meses (HR 0,16; P<0,001). A magnitude é extraordinária — HR de 0,16 significa ~84% redução no risco de progressão. SG: imatura no interim, mas tendência favorável (HR 0,81).
Aprovação FDA: setembro 2024 para CPNPC EGFR+ estágio III não progredido após QRT.
LAURA como paradigma: Duração de osimertinibe: 3 anos (vs. durvalumabe por 1 ano no PACIFIC). Pergunta clínica: pode combinar osimertinibe + durvalumabe em EGFR+? Estudos em curso mas combinação arriscada (pneumonite). Por ora: EGFR+ estágio III = QRT → osimertinibe por 3 anos.
Alectinibe/lorlatinibe para comparação (ALK) — adjuvante: ADAURA (osimertinibe adjuvante em estágio IB-IIIA ressecado): SLP livre de doença (DFS) 5 anos: 88% vs. 58% (HR 0,27). Osimertinibe padrão adjuvante por 3 anos após ressecção. ALEX (alectinibe ALK, 1ª linha): CROWN (lorlatinibe ALK 3ª geração): melhores SLPs que crizotinibe. Lorlatinibe 5 anos SLP: 60% vs. 8% (crizotinibe). Lorlatinibe padrão emergente para ALK 1ª linha.
Pontos-chave: EGFR+ CPNPC: sempre osimertinibe de 1ª linha (FLAURA). Pós-osimertinibe: investigação de C797S, MET amp → telotristat, tepotinibe+osimertinibe (estudos). Metástases cerebrais: osimertinibe praticamente eliminou indicação de radioterapia holocraniana como 1ª opção.