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← Blog·Saúde21 de junho de 2026

Ômega-3 (DHA e EPA): Mecanismos de Resolução da Inflamação, Cardiovascular e Neuroproteção

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Equipe PeptídeosBio
Equipe Peptídeos Bio
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Ômega-3: Essencial Mas Não Sintetizado

O Problema da Conversão

Família Ômega-3 (n-3 = dupla ligação no 3º carbono do final da cadeia):

  • ALA (Ácido Alfa-Linolênico, 18:3 n-3): Ômega-3 de cadeia curta — em linho, chia, nozes
  • EPA (Ácido Eicosapentaenoico, 20:5 n-3): Cadeia longa — em peixes, óleo de peixe
  • DHA (Ácido Docosaexaenoico, 22:6 n-3): Cadeia muito longa — em peixes, algas, óleo de algas

Por que EPA/DHA precisam ser ingeridos diretamente?:

  • O corpo pode converter ALA → EPA → DHA, mas de forma extremamente ineficiente
  • Taxa de conversão ALA → EPA: ~5% (otimista) — geralmente 0,2-8% dependendo do estudo
  • Taxa de conversão ALA → DHA: <0,5% (muito baixa)
  • Prático: Para obter 1g de EPA, seria necessário ~20g de ALA → impossível via dieta comum

Fontes ricas em EPA/DHA:

  • Salmão: ~2g EPA+DHA por 100g
  • Sardinha: ~1,5g EPA+DHA por 100g
  • Atum: ~0,5-1,5g EPA+DHA por 100g (varia com espécie e origem)
  • Cavala: ~2,5g EPA+DHA por 100g
  • Óleo de krill: ~0,5g EPA+DHA por 1g (mais ômega-3 em fosfolipídios — diferente)
  • Algas: Fonte vegana de DHA/EPA (microalgas como Schizochytrium, Nannochloropsis)

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Mecanismo Anti-Inflamatório

Competição por COX-2 e Biossíntese de Eicosanoides

Ácido Araquidônico (AA) — Ômega-6:

  • AA (20:4 n-6) é liberado de fosfolipídios de membrana por fosfolipase A2 (PLA2)
  • AA → COX-1/COX-2 → Prostaglandinas da série 2 (PGE2, TXA2 — pró-inflamatórias)
  • AA → 5-LOX → Leucotrienos B4 (LTB4 — quimioatração de neutrófilos) e LTC4/D4 (broncoespasmo)

EPA — Ômega-3 competindo:

  • EPA → COX-1/COX-2 → Prostaglandinas da série 3 (PGE3, TXA3 — 10-100× MENOS potentes que PG2)
  • EPA → 5-LOX → Leucotrienos da série 5 (LTB5 — muito menos quimioatraente que LTB4)
  • Resultado: Mais EPA → menos AA disponível para COX/LOX → eicosanoides menos inflamatórios

A Competição Funciona em Dieta:

  • Razão ômega-6/ômega-3 na dieta ocidental: ~15-20:1 (predomina AA → mais inflamação)
  • Razão recomendada: 4:1 ou menos (mais EPA/DHA → menos inflamação)
  • Dieta mediterrânea/japonesa: ~4:1 → menor incidência de DCV, doenças inflamatórias

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Resolvinas, Protectinas e Maresinas

A Resolução Ativa da Inflamação

A Nova Visão da Inflamação:

  • Inflamação aguda tem duas fases: Início (pró-inflamatório) + Resolução (retorno à homeostase)
  • A resolução é ATIVA, não passiva: Macrófagos M2, neutrófilos apoptóticos sendo fagocitados, lipoxinas geradas
  • Serhan CH (Harvard) descobriu as resolvinas nos anos 2000 — Nobel-worthy work

Resolvinas da Série E (de EPA):

  • EPA → via 15-LOX (endotélio) → pré-resolvin de série E → via 5-LOX (leucócitos) → RvE1 e RvE2
  • RvE1: Inibe migração de neutrófilos, estimula efferocitose (macrófagos comem neutrófilos apoptóticos), resolve inflamação
  • ChemR23 = receptor de RvE1 nos macrófagos

Resolvinas da Série D (de DHA):

  • DHA → via 15-LOX → pré-resolvin D → RvD1, RvD2, RvD3
  • Protectina D1 (= Neuroprotectina D1 no cérebro): DHA → proteção neuronal, inibe apoptose neuronal
  • Maresinas (Macrophage mediators in resolving inflammation): DHA → via 12-LOX → mais potentes resolvedores

Importância clínica das resolvinas:

  • Pacientes com DCV, obesidade, ou diabetes têm MENOS capacidade de gerar resolvinas (menos eficiência de COX-2/LOX na via resolvedora)
  • Suplementação EPA/DHA → mais substrato → mais resolvinas → melhor resolução de inflamação

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REDUCE-IT Trial

A Evidência Cardiovascular Mais Forte

REDUCE-IT (Bhatt DL et al., NEJM 2019):

  • 8.179 pacientes com DCV estabelecida ou DM2 + fatores de risco, em estatina, triglicerídeos elevados (135-499 mg/dL)
  • Intervenção: Icosapentaenoico puro (AMR101/Vascepa®) 4g/dia vs. placebo (óleo mineral)
  • Resultado (5 anos): Redução de 25% no endpoint primário MACE (morte CV, IAM não fatal, AVC, revascularização ou instabilidade angina) [HR 0,75; IC 95% 0,68-0,83]
  • Redução de 20% em morte CV (HR 0,80)

Controvérsia sobre o placebo (óleo mineral):

  • Crítica: Óleo mineral pode ter elevado levemente os marcadores inflamatórios no grupo controle → sobrestimou o benefício de EPA
  • STRENGTH Trial (Nicholls SJ et al.): Ômega-3 DHA+EPA 4g vs. óleo de milho → sem redução de MACE
  • Possível que EPA puro seja diferente de EPA+DHA? Debate em andamento

VITAL Trial (Manson JE et al., NEJM 2019):

  • 25.871 americanos, prevenção primária, ômega-3 1g/dia (EPA+DHA)
  • Resultado: Sem redução de MACE geral; subgrupo sem consumo de peixe → redução de IAM

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DHA e Neurodesenvolvimento

DHA no cérebro:

  • DHA é o ômega-3 mais abundante no cérebro (40% dos ácidos graxos poli-insaturados)
  • DHA na retina: 60% dos ácidos graxos de membrana dos bastonetes
  • Função: Mantém fluidez de membranas → receptor acoplamento (ex: rodopsina, receptores de serotonina, dopamina)

Gravidez e DHA:

  • Feto: Acúmulo rápido de DHA no cérebro durante 3º trimestre e 1º ano pós-natal
  • Grávidas: DHA transferido ativo via placenta → depleção materna
  • Estudos INNIS: DHA materno → melhor acuidade visual + desenvolvimento cognitivo infantil
  • Leite materno de mães com mais peixe → mais DHA → melhor neurodesenvolvimento (meta-análise Helland 2003)

DHA e Alzheimer:

  • Pacientes com Alzheimer têm DHA reduzido no córtex pré-frontal
  • DHA → menos processamento amiloidogênico (APP) → menos Aβ42?
  • MIDAS Trial (DeKosky ST, 2008): DHA 2g/dia × 18 meses em adultos com declínio cognitivo leve → NÃO melhorou declínio cognitivo
  • Complexo: Pode ser que DHA deva ser usado mais cedo (prevenção vs. tratamento)?

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Referências

  1. Bhatt DL, et al. "Cardiovascular risk reduction with icosapentaenoic acid for hypertriglyceridemia." *N Engl J Med.* 2019;380(1):11–22.
  2. Serhan CN. "Novel pro-resolving lipid mediators in inflammation are leads for resolution physiology." *Nature.* 2014;510(7503):92–101.
  3. Calder PC. "n-3 Fatty acids, inflammation and immunity: new mechanisms to explain old actions." *Proc Nutr Soc.* 2013;72(3):326–336.
  4. Manson JE, et al. "Marine n-3 Fatty Acids and Prevention of Cardiovascular Disease and Cancer." *N Engl J Med.* 2019;380(1):23–32.
  5. Innis SM. "Dietary omega 3 fatty acids and the developing brain." *Brain Res.* 2008;1237:35–43.
  6. Nicholls SJ, et al. "Effect of High-Dose Omega-3 Fatty Acids vs Corn Oil on Major Adverse Cardiovascular Events in Patients at High Cardiovascular Risk." *JAMA.* 2020;324(22):2268–2280.
Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

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