Síntese letal e o mecanismo de ação dos inibidores de PARP
Conceito de síntese letal: Dois genes são "sintéticamente letais" quando a perda de qualquer um individualmente é viável, mas a perda simultânea resulta em morte celular. Os iPARP exploram a síntese letal entre PARP1 e BRCA1/2:
PARP1 — o policiador de quebras de fita simples: PARP (Poly ADP-ribose Polymerase) detecta e repara SSBs (single-strand breaks, quebras de fita simples) de DNA. Quando PARP detecta um SSB:
- Liga-se ao DNA danificado
- Sintetiza cadeias de poli-ADP-ribose (PAR) no local
- Recruta proteínas de reparo (BER — Base Excision Repair)
- Se soltar do DNA após o reparo (PARP "trapping" é o mecanismo)
BRCA1/BRCA2 — guardiãs do reparo de dupla fita: BRCA1 e BRCA2 são cruciais para HRR (Homologous Recombination Repair) — o mecanismo preciso de reparo de DSBs (double-strand breaks, quebras de dupla fita). HRR usa a cópia irmã como molde, resultando em reparo sem erros.
A síntese letal na prática:
- Células normais (BRCA1/2 intacto): PARP inibido → SSBs não reparados → colapsam em DSBs na replicação → BRCA repara os DSBs via HRR → célula sobrevive
- Células BRCA-mutadas: PARP inibido → SSBs → DSBs → SEM HRR funcional → reparo de emergência (NHEJ, propenso a erros) → acúmulo de aberrações cromossômicas → morte celular
PARP trapping: Além de inibir a atividade catalítica, os iPARP "prendem" PARP no DNA (PARP trapping). A PARP presa é mais tóxica do que SSBs não reparados — bloqueia fisicamente a garfo de replicação. Diferentes iPARP têm diferentes potências de trapping: talazoparibe > niraparibe > olaparibe > rucaparibe.
HRD e além de BRCA: o espectro de biomarkers
BRCA germinal vs. somático: BRCA1/2 germinal: herdado — presente em ~5-10% dos cânceres de mama, ~15-20% dos cânceres de ovário hereditários. Síndrome hereditária de mama e ovário (HBOC). Testes genéticos identificam famílias em risco.
BRCA somático: ocorre exclusivamente no tumor — ~5-7% dos cânceres de mama esporádicos têm mutação somática de BRCA. São sensíveis aos iPARP similarmente às germinais.
HRD (Homologous Recombination Deficiency) — além de BRCA: O conceito foi expandido para identificar tumores com deficiência em HRR por qualquer mecanismo:
- BRCA1 hipermetilação do promotor: silenciamento epigenético funcional de BRCA1 (sem mutação)
- Mutações em outros genes de HRR: RAD51C, RAD51D (ovário), PALB2 (mama), CHEK2, ATM
- "BRCAness": fenótipo de deficiência em HRR mesmo sem BRCA mutado
Testes de HRD:
- LOH (loss of heterozygosity score) — FoundationOne, Myriad myChoice CDx: mede extensão de LOH no genoma como proxy de HRD
- Myriad myChoice CDx: LOH + TAI (telomeric allelic imbalance) + LST (large-scale state transitions) → HRD score ≥42 = HRD positivo
- Mutação em BRCA1/2 somática: detectada por NGS do tumor
Relevância clínica:
- Ovário: olaparibe aprovado para HRD+ (BRCA ou HRD score ≥42) em manutenção
- Niraparibe: aprovado para TODOS os cânceres de ovário avançados em manutenção (sem restrição de HRD — mas maior benefício em HRD+/BRCA+)
- Mama: olaparibe aprovado apenas para BRCA germinal mutado (sem HRD mais amplo)
OlympiAD, OlympiA e EMBRACA: olaparibe e talazoparibe em câncer de mama
OlympiAD (Robson et al., NEJM 2017) — mama metastático: 302 pacientes com câncer de mama metastático HER2-negativo, BRCA germinal mutado, pré-tratados. Olaparibe 300 mg BID vs. quimioterapia (capecitabina, eribulina ou vinorelbina, à escolha do médico). SLP: 7,0 vs. 4,2 meses (HR 0,58; P<0,001). ORR: 59,9% vs. 28,8%. SG: 19,3 vs. 17,1 meses (NS). Aprovação FDA: 2018 para mama metastático BRCA-germinal.
OlympiA (Tutt et al., NEJM 2021) — adjuvância: 1.836 pacientes com câncer de mama inicial HER2-negativo BRCA-germinal, pré-tratados com quimio, com doença residual pós-neoadjuvância ou estágio alto. Olaparibe 300 mg BID × 1 ano vs. placebo. iDFS em 3 anos: 85,9% vs. 77,1% (HR 0,58; P<0,001). SG em 3 anos: 92% vs. 88,3% (HR 0,68). Aprovação FDA: 2022 como primeiro adjuvante em mama BRCA. Transformador — adicionou 1 ano de iPARP após quimio em altíssimo risco.
EMBRACA (Litton et al., NEJM 2018) — talazoparibe: 431 pacientes com mama metastático BRCA-germinal. Talazoparibe 1 mg QD vs. quimioterapia (opção médico). SLP: 8,6 vs. 5,6 meses (HR 0,54; P<0,001). ORR: 62,6% vs. 27,2%. SG: NS. Aprovação FDA: 2018 para mama BRCA-germinal metastático.
Talazoparibe vs. olaparibe: Talazoparibe tem o mais potente PARP trapping — mais potente in vitro. Clinicamente, os resultados de SLP em EMBRACA foram numericamente similares ao OlympiAD. Talazoparibe dose única diária (1 mg) é mais conveniente. Ambos são aprovados em mama BRCA metastático.
SOLO-1, SOLO-2 e PRIMA: iPARP em câncer de ovário
O câncer de ovário foi o terreno mais fértil para iPARP — alta frequência de BRCA/HRD e sensibilidade a platina como contexto de uso.
SOLO-1 (Moore et al., NEJM 2018) — manutenção 1ª linha: 391 pacientes com câncer de ovário avançado BRCA-mutado, resposta completa/parcial a platina em primeira linha. Olaparibe 300 mg BID × 2 anos vs. placebo. SLP: 56% livres de progressão em 3 anos vs. 19% com placebo. HR 0,30 (P<0,001). Aprovação FDA: 2018 para manutenção 1ª linha em ovário BRCA-mutado. Em 5 anos (Moore et al., Lancet Oncol 2023): SLP 48% vs. 21% (HR 0,37). OS em 7 anos: 67% vs. 47% (dados preliminares) — sinal de SG.
SOLO-2 (Pujade-Laurain et al., Lancet Oncol 2017) — manutenção 2ª linha: 295 pacientes com ovário platina-sensível recidivado BRCA-mutado. Olaparibe vs. placebo. SLP: 19,1 vs. 5,5 meses (HR 0,30; P<0,0001). SG: 51,7 vs. 38,8 meses (HR 0,74; P=0,054 — tendência).
PRIMA/ENGOT-OV26 (González-Martín et al., NEJM 2019) — niraparibe manutenção 1ª linha: 733 pacientes com ovário avançado de alto risco, resposta a platina 1ª linha. Niraparibe 300 mg QD vs. placebo. HRD+: SLP 21,9 vs. 10,4 meses (HR 0,43). HRD-: SLP 8,1 vs. 5,4 meses (HR 0,68). Overall: SLP 13,8 vs. 8,2 meses (HR 0,62). Aprovação FDA: 2020. Niraparibe cobre TODOS os pacientes (não só BRCA) — mas maior benefício em HRD+.
ARIEL3 (Coleman et al., Lancet 2017) — rucaparibe: Rucaparibe 600 mg BID em manutenção 3ª linha+ platina-sensível. SLP melhora em todos os subgrupos (BRCA-mutado: 16,6 vs. 5,4 meses; HRD: 13,6 vs. 5,4; overall: 10,8 vs. 5,4).
Toxicidades dos iPARP e resistência
Toxicidades comuns a todos os iPARP: Anemia: a mais clinicamente relevante. Mecanismo: PARP1 também é importante para reparar danos de DNA em células eritroides em desenvolvimento. Anemia grau 3+ em ~15-25% com niraparibe, ~5-8% com olaparibe. Requer monitoramento de hemograma mensal × 12 meses.
Trombocitopenia: especialmente com niraparibe (30% grau 3+). Niraparibe tem ajuste de dose baseado em peso (<77 kg: 200 mg vs. 300 mg) introduzido após observação de toxicidade aumentada em pacientes leves.
Neutropenia: menos frequente, mas grave quando ocorre (infecções).
Náusea/vômito: olaparibe e rucaparibe: 70-80% náusea (maioria grau 1-2). Antiemético preventivo (metoclopramida, ondansetrona) é chave para adesão ao tratamento.
Fadiga: ~30-50%.
Leucemia mieloide aguda (LMA)/síndrome mielodisplásica (SMD) — risco a longo prazo: Eventos raros (~1-2%), mas aumentam com exposição prolongada a iPARP. Maiores risco nos primeiros 2 anos de tratamento. Os ensaios de adjuvância monitoram ativamente. Interromper se SMD/LMA confirmada.
Resistência:
- Reversão de mutação BRCA: restauração do reading frame de BRCA → HRR restaurada (mais comum em ovário recidivado)
- Deleção de exon de PARP1 (perda da âncora de ligação do inibidor): raro
- Upregulation de ABCB1 (P-gp): efluxo do iPARP para fora da célula
- Perda de 53BP1/RIF1: restaura HRR alternativa (fork protection)
- Mutações em RAD51: hiperativação de HRR compensatória