Alcaloides da vinca — mecanismo de despolimerização de microtúbulos e indicações
Alcaloides da vinca são derivados de *Catharanthus roseus* (pervinca-de-madagascar), uma planta medicinal originalmente usada para diabetes. Pesquisadores da Eli Lilly descobriram na década de 1950 que extratos da planta causavam leucopenia (redução de leucócitos) → investigações levaram ao isolamento da vincristina e vinblastina → primeiros uso em leucemia em 1961.
Mecanismo de ação — oposto dos taxanos:
- Taxanos: estabilizam microtúbulos (impedem despolimerização)
- Alcaloides da vinca: desestabilizam microtúbulos (inibem polimerização)
- Os alcaloides da vinca se ligam ao sítio específico na β-tubulina (diferente do sítio de taxanos) → previnem a adição de dímeros de tubulina ao filamento em crescimento → o fuso mitótico não se forma → células param em metáfase (com cromossomos condensados mas sem fuso funcional = bloqueio M) → ativação de SAC (spindle assembly checkpoint) → apoptose por morte mitótica
- Em doses muito baixas (abaixo de limiar de bloqueio mitótico): altera a dinâmica dos microtúbulos sem desestabilizá-los completamente → sensibiliza as células à morte por outras drogas
- Também afetam microtúbulos não-mitóticos: microtúbulos axonais dos neurônios periféricos → neuropatia periférica (toxicidade dose-limitante)
Vincristina (Oncovin® — Pfizer; genérico):
- 1 mg/m² IV bolus (dose máxima usualmente 2 mg por injeção — capping = cap para reduzir neuropatia)
- Indicações: protocolo CHOP (Ciclofosfamida + Doxorrubicina + vinCristina + Prednisona) = pilar de linfoma difuso de grandes células B (LDGCB) e outros NHL agressivos; CHOP-R (+ Rituximabe = R-CHOP) = padrão-ouro para LDGCB; ALL (leucemia linfoide aguda) em indução (vincristina + prednisona + asparaginase ± doxorrubicina); linfoma de Burkitt; linfoma de Hodgkin (BEACOPP, COPP); mieloma múltiplo (VAD, VDD); sarcomas em crianças (Ewing — VAC)
- Toxicidade específica — neuropatia periférica (a mais importante e limitante):
- Vincristina é altamente neurotóxica (mais que vinblastina, vinorelbina) - Tipo: neuropatia axonal predominantemente sensorial (depois motora) → parestesias simétricas em luva e meia → progride para fraqueza muscular, hiporreflexia, ataxia - Autonômica: constipação (íleo paralítico — cuidado em idosos e pós-operatório), retenção urinária, hipotensão ortostática - Cumulativa: a neuropatia piora com doses acumuladas → justifica o capping de dose (não mais que 2 mg por dose) mesmo em pacientes de grande superfície corporal - Reversibilidade: parcialmente reversível após suspensão, mas pode ser permanente em doses altas cumulativas
- SIADH (síndrome da secreção inapropriada de ADH): vincristina causa SIADH em ~1-5% → hiponatremia → confusão mental, convulsões; monitorar sódio
- CRÍTICO — só IV, JAMAIS intratecal: administração intratecal acidental de vincristina é invariavelmente fatal (desmielinização progressiva ascendente → morte em dias/semanas); deve ser dispensada em embalagem especial, nunca na mesma bandeja que quimioterápicos intratecais (metotrexato, citarabina)
Vinblastina (Velban® — Eli Lilly; genérico):
- Mecanismo idêntico à vincristina
- Perfil de toxicidade diferente: mielossupressão predominante (neutropenia — nadir em 7-10 dias) vs neuropatia (menor que vincristina)
- Indicações: linfoma de Hodgkin (ABVD = Adriamicina + Bleomicina + Vinblastina + Dacarbazina); câncer de bexiga (CMV = cisplatina + metotrexato + vinblastina); câncer testicular (BEP = bleomicina + etoposídeo + cisplatina alternativa); histiocitose de células de Langerhans
Vinorelbina (Navelbine® — Pierre Fabre; genérico):
- Semi-sintético; via IV ou oral (única vinca com formulação oral — cápsulas 20 e 30 mg)
- Menor neurotoxicidade que vincristina
- Indicações: NSCLC (vinorelbina + cisplatina = regime clássico 1ª linha não-selecionado); câncer de mama metastático (2ª/3ª linha ou combinado com trastuzumabe)
- Toxicidades: neutropenia (principal); flebite local na IV; náusea; constipação (mas menos que vincristina)
Vinflunina (Javlor® — Pierre Fabre): bisfluroalcaloide de vinca; aprovada na Europa para câncer de bexiga após falha de platina
Etoposídeo e teniposídeo — epipodofilotoxinas e inibição de topoisomerase II
Epipodofilotoxinas são derivadas semi-sintéticas da podofilotoxina, extraída da planta *Podophyllum peltatum* (mandrake — usada medicinalmente desde a Idade Média, mas altamente tóxica).
Etoposídeo (VP-16 — Vepesid® — Bristol-Myers Squibb; genérico):
Mecanismo — inibição de Topoisomerase II:
- A Topo II é uma enzima que resolve emaranhamentos topológicos do DNA durante replicação e transcrição: (1) corta ambas as fitas de DNA; (2) passa a outra fita pelo corte; (3) re-sela
- Etoposídeo estabiliza o complexo Topo II-DNA (cleavage complex) — impede a re-selagem após o corte → quebras de fita dupla permanecem abertas → dano fatal ao DNA → apoptose
- Diferença das antraciclinas: antraciclinas intercalam no DNA antes de inibir Topo II (mecanismo adicional) e geram radicais livres; etoposídeo NÃO intercala no DNA — age apenas na Topo II → menos cardiotoxicidade
- Fase-específico de ciclo celular: atua predominantemente em G2-M e G1-S (onde Topo II está mais ativa)
Administração:
- IV (Vepesid® — solução em PEG 400/etanol): infusão lenta 30-60 min (infundir rápido → hipotensão, anafilaxia); concentração máxima 0.4 mg/mL em SF ou SGI
- Oral (cápsulas 50 mg e 100 mg): biodisponibilidade oral ~50% variável → doses orais = 2x a dose IV para equivalência; usada em SCLC extenso e em regimes orais de manutenção
Indicações do etoposídeo:
- SCLC (câncer de pulmão de pequenas células): EP (etoposídeo + cisplatina ou carboplatina) = regime padrão de 1ª linha em doença extensiva → etoposídeo 100 mg/m² IV dias 1-3 + cisplatina 25 mg/m² dias 1-3 ou carboplatina AUC5 dia 1 → a cada 3 semanas × 4-6 ciclos; com atezolizumabe (IMpower133) ou durvalumabe (CASPIAN) adicionados = padrão atual de 1ª linha extensivo
- Câncer testicular (GCT — tumor de células germinativas): BEP (bleomicina + etoposídeo + cisplatina) = regime curativo para GCT avançado; também TIP, VIP para 2ª linha
- Linfoma: EPOCH (etoposídeo + prednisona + vincristina + ciclofosfamida + doxorrubicina) = regime intensivo para NHL agressivo; ICE (ifosfamida + carboplatina + etoposídeo) para linfoma recidivado
- Leucemia: ADE (citarabina + daunorrubicina + etoposídeo) em LMA; VCR-etoposídeo em LLA refratária
- Condicionamento de HSCT: etoposídeo em altas doses entra em regimes de condicionamento mieloablativo
- Leucemia secundária: similar a outros inibidores de Topo II → risco de LMA/SMD por dano genotóxico a células progenitoras; padrão: etoposídeo-AML tem características moleculares distintas (rearranjo 11q23/KMT2A = MLL)
Toxicidades do etoposídeo:
- Mielossupressão (nadir em 10-14 dias) — principal; neutropenia, anemia, plaquetopenia
- Hipotensão durante infusão (pelo solvente Cremophor-free PEG): infundir lentamente >30-60 min
- Náusea, vômito (emetogênico moderado)
- Alopecia
- Mucosite
- Sensibilização do DNA: potencializa ação de outros quimioterápicos (sinergismo com cisplatina — muito bem estabelecido; daí o regime EP para SCLC)
Teniposídeo (VM-26 — Vumon®): análogo de etoposídeo; maior lipofilicidade → penetra melhor no SNC → indicado em ALL com envolvimento de SNC (leucemia infantil); disponibilidade limitada