Via de apoptose intrínseca e o papel do BCL-2 em cânceres de células B
Apoptose (morte celular programada) — via intrínseca (mitocondrial):
- A via intrínseca é ativada por estresse intracelular (dano ao DNA, privação de fatores de crescimento, stress oxidativo) → integrada na mitocôndria:
1. Proteínas BH3-only sensoras (BIM, BAD, PUMA, NOXA, BID) detectam stress → ativam proteínas efetoras BAX/BAK 2. BAX/BAK oligomerizam na membrana mitocondrial externa → permeabilização (MOMP) 3. MOMP → liberação de citocromo C → forma apoptossomo com APAF-1 e caspase-9 → cascata de caspases efetoras (3, 7) → apoptose
- Família BCL-2 — os reguladores críticos da MOMP:
- Pró-apoptóticos (querem permeabilizar a mitocôndria): BAX, BAK (efetores); BIM, PUMA, NOXA, BAD (sensores BH3-only) - Anti-apoptóticos (bloqueiam MOMP): BCL-2, BCL-XL, MCL-1, BCL-W → sequestram BAX/BAK e neutralizam proteínas BH3-only → célula sobrevive mesmo com stress
- Em muitos cânceres hematológicos, BCL-2 é superexpresso → células malignas ficam "presas" acima da morte celular (primed for death mas BCL-2 segura o gatilho); isso também torna essas células dependentes de BCL-2 para sobreviver (oncogênico addiction a BCL-2)
BCL-2 em LLC (Leucemia Linfoide Crônica):
- LLC é definida por acúmulo de células B maduras clonais CD5+/CD19+/CD23+ de longa vida; a chave biológica é que essas células têm apoptose profundamente suprimida por múltiplos mecanismos, principalmente superexpressão de BCL-2 (cuja região codante pode estar translocada para próximo do locus IgH como em t(14;18) do folicular, ou simplesmente superexpressa por outras razões em LLC)
- LLC atualmente classificada por citogenética/FISH [del(17p) — TP53, del(11q) — ATM, trisomia 12, del(13q)] e mutação de TP53/IGHV: del(17p)/mutação TP53 = pior prognóstico, resistência à quimioterapia (a quimio exige TP53 funcional para induzir apoptose via DNA damage)
BCL-2 em LAM (Leucemia Mieloide Aguda):
- Células de LAM, especialmente as mais indiferenciadas (blast), frequentemente superexpressam BCL-2 + MCL-1; venetoclax em LAM funciona especialmente em combinação com azacitidina (agente hipometilante) → a azacitidina reduz MCL-1 (que sustenta as células mesmo com BCL-2 inibido) + venetoclax inibe BCL-2 → apoptose
Venetoclax (BCL-2 inhibitor) — mecanismo, protocolos de ramp-up e síndrome de lise tumoral
Venetoclax (Venclexta® — AbbVie/Roche):
- Inibidor seletivo de BCL-2 (proteína BH3-mimetic — mimetiza a ação das proteínas BH3-only endógenas pró-apoptóticas, ocupando o sítio de ligação de BCL-2 onde BIM se ligaria) → libera BAX/BAK do sequestro por BCL-2 → MOMP → apoptose rápida e maciça das células BCL-2 dependentes
- Comprimido oral (50 mg/dia no início → ramp-up até 400 mg/dia)
- Indicações aprovadas: LLC com del(17p) ou mutação TP53 (resistentes a quimio e fludarabina); LLC em qualquer linha como monoterapia ou combinação; LLC-FE (venetoclax + obinutuzumabe) de 1ª linha (CLL14 trial); LLC-RE (venetoclax + rituximabe) em segunda linha (MURANO trial); LAM não elegível a quimio intensiva em combinação com azacitidina ou decitabina (VIALE-A trial: mOS 14.7 vs 9.6 meses com azacitidina)
MURANO trial (2018, N Engl J Med): 389 pacientes com LLC recidivada/refratária → venetoclax + rituximabe (V+R) por 2 anos vs bendamustina + rituximabe (B+R) por 6 ciclos → PFS: 53.6 meses vs 17.0 meses (HR 0.17); OS a 4 anos: 85.3% vs 66.8%; taxa de MRD negativa (doença residual mínima indetectável no sangue) de 62.4% com V+R vs 13.3% com B+R; tratamento de duração fixada (2 anos, não contínuo) — inovação vs ibrutinibe que precisa ser contínuo
CLL14 trial (2019, N Engl J Med): LLC sem tratamento prévio → venetoclax + obinutuzumabe por 1 ano vs clorambucil + obinutuzumabe → PFS a 2 anos: 88.2% vs 64.1% (HR 0.35)
SÍNDROME DE LISE TUMORAL (SLT) — o maior risco do venetoclax:
- Venetoclax causa apoptose rápida e maciça → liberação de conteúdo intracelular no plasma: potássio (hipercalemia), fosfato (hiperfosfatemia → quelação de Ca²⁺ → hipocalcemia), ácido úrico (hiperuricemia → cristais nos túbulos renais → IRA) → tríade: hipercalemia + hiperfosfatemia + hiperuricemia ± hipocalcemia → IRA, arritmias, convulsões, morte
- Protocolo de ramp-up gradual obrigatório para minimizar SLT: semana 1: 20 mg/dia → semana 2: 50 mg/dia → semana 3: 100 mg/dia → semana 4: 200 mg/dia → semana 5 em diante: 400 mg/dia (dose terapêutica plena); esse escalonamento de 5 semanas distribui a apoptose ao longo do tempo
- Estratificação de risco de SLT antes de iniciar:
- Baixo risco: todos nódulos < 5 cm + contagem de linfócitos < 25.000/μL → ambulatorial com hidratação oral - Médio risco: qualquer nódulo 5-10 cm OU linfócitos ≥ 25.000/μL → hidratação IV hospitalizar para as primeiras 2 doses do ramp-up - Alto risco: qualquer nódulo > 10 cm OU nódulo ≥ 5 cm com linfócitos ≥ 25.000/μL → hospitalar e monitoramento laboratorial a cada 4h para as primeiras doses
- Profilaxia: alopurinol 2-3 dias antes de cada aumento de dose; hidratação vigorosa (1.5-2 L de água/dia); monitorar creatinina, eletrólitos, ácido úrico, LDH 6-8h após cada nova dose no ramp-up
- Rasburicase: indicada em hiperuricemia grave (enzima que converte ácido úrico em alantoína solúvel); usada em SLT estabelecida de alto risco
Ibrutinibe e acalabrutinibe — inibidores de BTK na via de sinalização BCR
Via de Sinalização do Receptor de Células B (BCR):
- O BCR (IgM de superfície + heterodímero Igα/Igβ) ativa cascata de quinases quando liga o antígeno (ou ligantes endógenos em LLC): LYN/SYK → PI3K-δ/AKT/mTOR + PLCγ2 (→ DAG + IP3 → PKC → NF-κB) + BTK (Bruton's Tyrosine Kinase) → NF-κB + NFAT + ERK → transcrição de genes de sobrevivência, proliferação e migração
- BTK é central na via BCR: células B malignas em LLC, linfoma do manto (MCL), macroglobulinemia de Waldenström (WM), linfoma difuso de grandes células B (DLBCL-ABC subtipo) são dependentes de BTK para sua sobrevivência; mutações de ganho de função na via BCR são comuns em NHL
- BTK também tem papel em mastócitos (via FcεRI → mast cell degranulation → anafilaxia) e macrófagos → efeitos off-target dos inibidores de BTK
Ibrutinibe (Imbruvica® — AbbVie/Janssen):
- 1º inibidor de BTK aprovado (FDA 2013); inibidor covalente (forma ligação covalente com Cys481 do sítio ativo de BTK → inibição irreversível); oral 420 mg (LLC) ou 560 mg (MCL) 1x/dia, contínuo
- Indicações (FDA/Anvisa): LLC (1ª linha e recidivada/refratária); MCL (recidivado/refratário); WM (macroglobulinemia de Waldenström, 1ª e 2ª linha); MZL (linfoma de zona marginal); PLL (leucemia prolinfocítica) com mutação MYD88
- ALLIANCE trial (2019, N Engl J Med): LLC sem tratamento prévio em pacientes ≥65 anos → ibrutinibe vs ibrutinibe + rituximabe vs bendamustina + rituximabe → ibrutinibe superior a B+R em PFS (hazard ratio 0.35 para ibrutinibe vs B+R); ibrutinibe + rituximabe não foi superior a ibrutinibe isolado na LLC (rituximabe não adiciona benefício em LLC de 1ª linha com ibrutinibe — diferente de CML)
- E1912 trial (2019, N Engl J Med): LLC jovem (< 65 anos) → ibrutinibe + rituximabe vs FCR (fludarabina+ciclofosfamida+rituximabe) → PFS e OS superiores com ibrutinibe+rituximabe
- Limitação maior de ibrutinibe: tratamento CONTÍNUO (não tem ponto final definido — enquanto houver resposta, continua) → custos, adesão, toxicidades acumulativas
- Efeitos adversos do ibrutinibe: (1) Fibrilação Atrial (5-11%): ibrutinibe inibe off-target a quinase PI3K, que é cardioprotector → risco aumentado de FA; muito importante em idosos com LLC; consultar cardiologista se FA surgir; (2) Sangramento: ibrutinibe inibe BTK nas plaquetas (BTK tem papel na hemostasia via GPVI) → tendência hemorrágica, especialmente com anticoagulantes; risco de sangramento grave em cirurgia → suspender 3-7 dias antes; (3) Hipertensão: aumenta PA em 70-80% dos pacientes ao longo do tempo; (4) Artralgia; (5) Diarréia; (6) Rash; (7) Infecções: reativação de vírus (herpes zóster, CMV), pneumocistose em imunossupressão severa
- Resistência ao ibrutinibe: mutação C481S no sítio de covalência de BTK → ibrutinibe não consegue ligar covalentemente → perde efeito; também amplificação de PLCγ2 (downstream de BTK) — bypass da via
Acalabrutinibe (Calquence® — AstraZeneca):
- Inibidor covalente de BTK de 2ª geração; mais seletivo que ibrutinibe (menos off-target: menos inibição de TEC, EGFR, ITK, etc.) → menor taxa de FA (3-5% vs 10-14% ibrutinibe) e menos sangramento → melhor perfil de segurança cardiovascular
- Dose: 100 mg 2x/dia; oral
- ELEVATE-TN trial (2020): LLC de 1ª linha → acalabrutinibe ± obinutuzumabe vs clorambucil + obinutuzumabe → acalabrutinibe superior a quimio; com obinutuzumabe ainda melhor em HRD+ (del17p)
- ASCEND trial: LLC recidivada → acalabrutinibe vs rituximabe + idelalisibe ou rituximabe + bendamustina → acalabrutinibe superior
- ELEVATE-RR trial (2021): acalabrutinibe vs ibrutinibe em LLC de alto risco (del17p ou del11q) → não-inferior em PFS com significativamente menos FA (9.4% vs 16.0%), menos cefaléia, menos artralgia → considerado substituição mais segura ao ibrutinibe
- FA e ibrutinibe/acalabrutinibe: contraindica anticoagulação? Não necessariamente — muitos pacientes toleram AVN ibrutinibe + NOAC mas risco hemorrágico é maior; avaliar individualmente (CHA₂DS₂-VASc vs risco de sangramento HAS-BLED)
Zanubrutinibe (Brukinsa® — BeiGene): inibidor de BTK de 3ª geração; ainda mais seletivo; aprovado para WM, MCL, MZL, LLC; menos FA ainda que acalabrutinibe em alguns estudos