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← Blog·peptideos17 de julho de 2026· 13 min de leitura

Biológicos para DII — vedolizumabe, ustekinumabe, tofacitinibe e infliximabe: integrinas α4β7, IL-12/23, JAK1/3 e TNF na doença de Crohn e colite ulcerativa

Doença inflamatória intestinal (DII) inclui doença de Crohn e colite ulcerativa — condições autoimunes mediadas por células T e citocinas pró-inflamatórias. Anti-TNF (infliximabe, adalimumabe) são os biológicos de primeira geração. Vedolizumabe bloqueia seletivamente a integrina α4β7 (seletividade intestinal). Ustekinumabe bloqueia IL-12 e IL-23 (via p40). Tofacitinibe e upadacitinibe (JAK1/3 inibidores) são pequenas moléculas orais para colite ulcerativa moderada-grave.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Doença inflamatória intestinal — fisiopatologia e alvos terapêuticos

DOENÇA INFLAMATÓRIA INTESTINAL (DII) — epidemiologia e definição: DII é termo coletivo para duas doenças crônicas autoimunes do trato GI: Doença de Crohn (DC) e Colite Ulcerativa (CU). Prevalência crescente no Brasil e no mundo (industrialização, exposição reduzida a helmintos, disbiose da microbiota). DC: inflamação transmural (todas as camadas da parede intestinal), qualquer ponto do TGI (boca a ânus), granulomas, fístulas, estenoses. CU: limitada à mucosa do cólon, sempre acomete o reto (proctite) e se estende proximalmente de forma contínua.

PATOGÊNESE DA DII — interação gene-microbiota-imunidade:

  • Predisposição genética: mais de 240 loci de suscetibilidade identificados (GWAS); os mais relevantes: NOD2 (DC — receptor intracelular de peptidoglicano bacteriano; mutações → resposta inata defeituosa → inflamação compensatória adaptativa), IL23R (Crohn e CU), ATG16L1 e IRGM (autofagia — depuração de bactérias intracelulares)
  • Disbiose da microbiota: redução de Firmicutes (Faecalibacterium prausnitzii — anti-inflamatório — produtor de butirato); aumento de Proteobacteria e Escherichia coli aderente-invasiva (AIEC)
  • Ativação imune inadequada contra bactérias comensais no intestino com barreira mucosa comprometida:

1. Células epiteliais intestinais ativadas liberam alarminas (IL-33, TSLP) e quimiocinas → recrutamento de neutrófilos, células dendríticas e macrófagos 2. Células dendríticas apresentam antígenos bacterianos a células T naive em linfonodos mesentéricos → diferenciação Th1 (DC: IFN-γ, IL-2, TNF — via IL-12 de DCs) e Th17 (DC e CU: IL-17, IL-22 — via IL-23 de DCs) 3. Linfócitos Th1 e Th17 migram ao intestino via integrinas MAdCAM-1/α4β7 (adesão ao endotélio intestinal) → traversam a parede → inflamação crônica 4. TNF (fator de necrose tumoral): citocina central na cascata — ativa macrófagos, estimula produção de IL-1/IL-6, aumenta permeabilidade epitelial, induz apoptose de enterócitos 5. IL-12 + IL-23: IL-12 (heterodímero p35/p40) → induz Th1; IL-23 (heterodímero p19/p40) → sustenta Th17; ambas compartilham a subunidade p40 (alvo do ustekinumabe) 6. Via JAK-STAT: citocinas (IL-6, IL-12, IL-23, IFN-γ) ativam receptores que sinalizam via JAK1 (Janus Kinase 1) e/ou JAK3 → fosforilação de STAT3/4 → transcrição de genes de inflamação → alvo dos inibidores de JAK (tofacitinibe: JAK1/3; upadacitinibe: JAK1 seletivo)

TRATAMENTO ESCALONADO DA DII (abordagem moderna — step-up ou top-down):

  • Aminossalicilatos (mesalazina/sulfassalazina): anti-inflamatório local; eficaz em CU leve-moderada; não funciona em Crohn (salvo colite de Crohn leve-moderada)
  • Corticosteroides (prednisona oral, budesonida — formulação de liberação íleo/cólon): indução de remissão; NÃO para manutenção (dependência/resistência); budesonida tem metabolismo de primeiro passo hepático alto → menos EAs sistêmicos
  • Imunossupressores convencionais (azatioprina/6-mercaptopurina — inibidores de TPMT → toxicidade; metotrexato): manutenção de remissão; lento início (8-12 semanas)
  • Biológicos (anti-TNF, anti-integrina, anti-IL-12/23, anti-IL-23) e inibidores de JAK: doença moderada-grave, refratária ou corticodependente

Infliximabe, vedolizumabe, ustekinumabe e tofacitinibe/upadacitinibe

ANTI-TNF na DII — infliximabe e adalimumabe:

INFLIXIMABE (Remicade® — Janssen; biosimilares: Inflectra®, Remsima®, Zessly®, Flixabi®):

  • Anticorpo monoclonal quimérico (75% humano, 25% murino) anti-TNF-α → liga-se ao TNF solúvel e transmembrana → neutraliza TNF → reduz cascata inflamatória → indução e manutenção de remissão em DC e CU moderada-grave
  • Administrado IV: 5 mg/kg (indução nas semanas 0, 2, 6 → manutenção a cada 8 semanas)
  • Monitoramento de nível de infliximabe: nível mínimo em manutenção (C-trough) ≥ 3-7 μg/mL para CU e DC; abaixo → dose insuficiente (aumentar dose ou reduzir intervalo) ou anticorpos anti-infliximabe (ATI) presentes (switch de biológico)
  • Adalimumabe (Humira® — AbbVie; biosimilares): anti-TNF humano; SC autoapplicado a cada 2 semanas; conveniência vs infliximabe IV; similar eficácia em DC; aprovado para CU moderada-grave

Triagem obrigatória antes de anti-TNF:

  • Tuberculose: RX tórax, PPD ou IGRA (QuantiFERON-TB Gold); se TB latente → profilaxia com isoniazida ± rifampicina por 9 meses ANTES ou concomitante ao anti-TNF
  • Hepatite B: HBsAg, anti-HBs, anti-HBc; portador inativo (HBsAg+) → profilaxia com tenofovir ou entecavir antes e durante + 6-12 meses após biológico; anti-HBc positivo com HBsAg negativo → monitorar carga viral regularmente
  • Hepatite C: investigar e tratar antes se ativa
  • Abscessos ou infecções ativas: CONTRAINDICAÇÃO absoluta (o anti-TNF piora infecções bacterianas, fúngicas e oportunistas)
  • CONTRAINDICAÇÃO: IC moderada-grave (NYHA III-IV), linfoma ativo recente (cuidado — anti-TNF pode aumentar risco de linfoma em uso prolongado; risco absoluto baixo)

VEDOLIZUMABE (Entyvio® — Takeda):

Mecanismo: anticorpo monoclonal humanizado anti-integrina α4β7 → bloqueia a ligação do α4β7 (expresso nos linfócitos de memória intestinais — gut-homing lymphocytes) ao MAdCAM-1 (Mucosal Addressin Cell Adhesion Molecule 1 — expresso exclusivamente no endotélio intestinal/mesentérico, não em outros órgãos) → os linfócitos T não conseguem migrar para a lâmina própria intestinal → seletividade GUT-SELECTIVE

Vantagem sobre anti-TNF: MENOR imunossupressão sistêmica → menor risco de infecções oportunistas (PCP, TB reativação — não requer triagem de TB); não atravessa a BHE → sem risco de LMP (diferente do natalizumabe anti-VLA4/α4β1 que também bloqueia migração ao SNC)

Administração: 300 mg IV (semanas 0, 2, 6, depois a cada 8 semanas); disponível formulação SC (vedolizumabe SC 108 mg) para manutenção após indução IV

Indicações: CU moderada-grave (GEMINI 1 trial) e DC moderada-grave (GEMINI 2 e 3 trials); aprovado para indução E manutenção; mais eficaz para manutenção que para indução aguda

Efeitos adversos: geralmente bem tolerado; ITRS, artralgia; reações infusionais; sem sinal de infecções oportunistas graves nos estudos; sem casos de LMP nos estudos de DII (ao contrário do natalizumabe em SM); artropatia (paradoxal — pode piorar manifestação extra-intestinal articular, pois os linfócitos não vão ao intestino mas continuam nas articulações)

USTEKINUMABE (Stelara® — Janssen):

Mecanismo: anticorpo monoclonal humano anti-p40 → bloqueia a subunidade p40 compartilhada pela IL-12 (p35/p40) e pela IL-23 (p19/p40) → sem ligação ao receptor IL-12Rβ1 (compartilhado pelos dois) → bloqueio simultâneo de IL-12 (→ sem diferenciação Th1, sem IFN-γ) e IL-23 (→ sem sustentação Th17, sem IL-17/IL-22)

Indicações: DC moderada-grave (UNIFI trial); CU moderada-grave (aprovação mais recente — UNIFI trial): 130 mg IV dose inicial → depois 90 mg SC a cada 8 ou 12 semanas

Perfil de segurança: excelente; aprovado há mais de 15 anos para psoríase/artrite psoriática → extensa experiência de segurança; menor imunossupressão sistêmica que anti-TNF; sem aumento de TB nos estudos; sem malignidade significativa; aprovado em idosos e em pacientes com comorbidades que contraindicam anti-TNF ou JAK

Anti-IL-23 p19 seletivos (rizankizumabe — Skyrizi® para DC e CU; mirikizumabe — Omvoh® para CU; guselkumabe — Tremfya® para psoríase e artrite psoriática): bloqueiam seletivamente IL-23 (via subunidade p19) sem bloquear IL-12 → manutenção mais fisiológica da resposta Th1 e da imunidade a micobactérias; dados de eficácia superiores aos anti-p40 em DC em comparações indiretas; em expansão de indicações

TOFACITINIBE (Xeljanz® — Pfizer):

Mecanismo: inibidor de JAK1 e JAK3 (Janus Kinases 1 e 3) → bloqueia a fosforilação intracelular de STAT3/STAT4 estimulada por múltiplas citocinas (IL-2, IL-4, IL-6, IL-7, IL-12, IL-23, IL-21, IFN-γ, γc-chain cytokines) → redução global da sinalização citocínica → imunossupressão ampla

Vantagem: PEQUENA MOLÉCULA ORAL (10 mg 2x/dia indução por 8 semanas → 5 mg 2x/dia manutenção; sem infusões IV) — conveniência e menor custo que biológicos em alguns cenários

Indicação na DII: CU moderada-grave apenas (não aprovado para Crohn — estudos em DC negativos); também aprovado para artrite reumatoide, artrite psoriática, espondilite anquilosante

Alertas de segurança — FDA Black Box Warnings (2021-2022):

  • Tromboembolismo venoso (TEV): risco aumentado de TVP e TEP (especialmente com dose 10 mg 2x/dia — dose de indução para CU); mecanismo: inibição de JAK2 → redução da produção de eritropoietina (anemia, menos relevante) + possível ativação de coagulação
  • MACE (Major Adverse Cardiovascular Events): infarto, AVC, morte cardiovascular — risco aumentado em pacientes > 50 anos com fatores de risco cardiovascular vs anti-TNF (estudo ORAL Surveillance com dose alta em AR)
  • Malignidade: linfoma e outros tumores sólidos (especialmente câncer de pulmão em tabagistas)
  • Infecções: reativação de herpes zoster (mais frequente que com anti-TNF); TB; infecções oportunistas (menor que anti-TNF mas significativo); vacinar contra Zoster antes de iniciar (Shingrix® — vacina recombinante, 2 doses)

Triagem antes de tofacitinibe: TB (como anti-TNF), hepatite B/C, lipidograma (aumento de colesterol LDL e HDL com JAK inibidores — efeito de classe), hemograma (neutropenia, anemia), creatinina

UPADACITINIBE (Rinvoq® — AbbVie) — JAK1 seletivo de nova geração:

  • Maior seletividade para JAK1 vs JAK2/JAK3 vs tofacitinibe → teoricamente menos hematotoxicidade (JAK2 — eritropoietina, trombopoietina), menos infecções (JAK3 — IL-2/γc) vs tofacitinibe
  • 45 mg/dia orais para indução (8 semanas) → 15 ou 30 mg/dia manutenção
  • Aprovado para CU e DC moderada-grave (U-ACCOMPLISH, U-ACHIEVE, U-EXCELLENCE trials em DC — dados de eficácia superiores a adalimumabe)
  • Alertas de segurança similares ao tofacitinibe (black box warnings FDA — MACE, TEV, malignidade, infecções)

Perguntas frequentes sobre tratamento biológico da DII

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Tenho doença de Crohn — quando devo iniciar biológico e qual escolher?+

A decisão de iniciar biológico na doença de Crohn depende da gravidade e das características da doença. Candidatos a biológico: Crohn moderado-grave (Harvey-Bradshaw Index ≥ 8, CDAI ≥ 220, ou sinais de doença grave: perda de peso > 10%, febre, complicações — fístula, abscesso, estenose sintomática); Crohn corticodependente (volta a inflamar ao tentar reduzir prednisona); Crohn corticorresistente (não responde ao corticoide); envolvimento de alto risco (duodenal, fístula perianal complexa, doença extensa > 100 cm do intestino delgado). A escolha do biológico é guiada por: presença de fístula perianal: anti-TNF (infliximabe especialmente — é o com mais dados em DC fistulizante e nos ensaios ACCENT II); DC luminal sem fístula: todos os biológicos são opções; comorbidades que contraindicam anti-TNF (IC grave, TB não tratada, linfoma recente, esclerose múltipla — sim, TNF piora EM): vedolizumabe ou ustekinumabe; falha a anti-TNF: vedolizumabe, ustekinumabe ou rizankizumabe; paciente com psoríase e Crohn: ustekinumabe ou rizankizumabe (cobertura de ambos); paciente com DII + artrite periférica: anti-TNF é preferível (vedolizumabe não cobre articulações). A abordagem top-down (iniciar biológico precocemente em pacientes de alto risco, antes de ciclos prolongados de corticoides) tem evidência crescente de melhor desfecho a longo prazo — previne complicações estruturais (fístulas, estenoses) antes de se instalarem.

Que diferença faz vedolizumabe vs infliximabe na prática — são equivalentes?+

Vedolizumabe e infliximabe têm perfis de eficácia e segurança distintos que guiam a escolha. Eficácia comparada: no estudo VARSITY (primeiro estudo head-to-head de biológicos em CU), vedolizumabe foi SUPERIOR ao adalimumabe (não ao infliximabe especificamente) na indução e manutenção de remissão clínica em CU. Para DC, anti-TNF (infliximabe/adalimumabe) tem mais dados de indução rápida de remissão e de fístula; vedolizumabe pode ser ligeiramente menos potente na indução mas é eficaz na manutenção. Segurança — a principal diferença: infliximabe/anti-TNF: maior imunossupressão sistêmica → maior risco de TB reativação (triagem obrigatória), infecções oportunistas graves, reativação de hepatite B, infecções fúngicas invasivas, risco aumentado de linfoma com uso prolongado em combinação com azatioprina (linfoma hepatoesplênico de células T — raro, mas fatal, especialmente em homens jovens usando combinação infliximabe + AZA > 2 anos). Vedolizumabe: seletividade GUT-SELECTIVE → menor imunossupressão sistêmica → menor risco de infecções oportunistas extrabdominais; sem necessidade de triagem de TB formal (embora o screeningde hepatite B ainda seja feito). Portanto: vedolizumabe é preferido em pacientes com maior risco infeccioso (idosos, imunossuprimidos, contato com TB), ou após falha/intolerância de anti-TNF (em CU — 30-40% dos pacientes que falham a anti-TNF respondem a vedolizumabe). Anti-TNF continua preferido em Crohn com fístula, DC de rápida necessidade de controle, e como primeira linha em pacientes jovens sem fatores de risco para infecção.

Referências Científicas

  1. Feagan BG, Rutgeerts P, Sands BE, et al. (GEMINI 1 — vedolizumab in ulcerative colitis — N Engl J Med) Vedolizumab as induction and maintenance therapy for ulcerative colitis. N Engl J Med, 2013.
  2. Sands BE, Peyrin-Biroulet L, Loftus EV Jr, et al. (VARSITY — vedolizumab vs adalimumab in UC — N Engl J Med) Vedolizumab versus adalimumab for moderate-to-severe ulcerative colitis. N Engl J Med, 2019.
  3. Sands BE, Sandborn WJ, Panaccione R, et al. (UNIFI — ustekinumab in ulcerative colitis — N Engl J Med) Ustekinumab as induction and maintenance therapy for ulcerative colitis. N Engl J Med, 2019.
  4. Sandborn WJ, Su C, Sands BE, et al. (OCTAVE Induction 1 & 2 — tofacitinib in UC — N Engl J Med) Tofacitinib as induction and maintenance therapy for ulcerative colitis. N Engl J Med, 2017.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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