HER2 como alvo oncológico — amplificação, teste e subgrupos de câncer de mama
HER2 (Human Epidermal growth factor Receptor 2 / ErbB2) é um receptor tirosina quinase da família EGFR (HER1/EGFR, HER2, HER3, HER4). HER2 não tem ligante conhecido — funciona como co-receptor em heterodímeros com HER1, HER3, HER4 → aumenta potência e duração da sinalização de proliferação (RAS/MAPK, PI3K/AKT).
HER2 em câncer de mama:
- Amplificação de HER2 (número de cópias do gene HER2/ERBB2 aumentado) → superexpressão da proteína HER2 na superfície celular → sinalização mitogênica constitutiva → fenótipo agressivo (crescimento rápido, metástase precoce)
- Prevalência: 15-20% dos cânceres de mama são HER2-positivos (HER2+)
- Característica clínica antes da terapia alvo: pior prognóstico, recorrência precoce, maior índice de metástase cerebral; após trastuzumabe: o HER2+ passou de um dos piores prognósticos para um dos melhores subgrupos em termos de resposta a tratamento
Testes diagnósticos de HER2:
- IHC (imuno-histoquímica): detecta proteína HER2 na membrana celular; 0 = negativo; 1+ = fraco; 2+ = equivocado → FISH; 3+ = positivo
- ISH/FISH (in situ hybridization / fluorescência): detecta número de cópias do gene HER2 por FISH ou CISH; HER2/CEP17 > 2.0 = amplificado
- HER2 3+ por IHC ou IHC 2+ com ISH amplificado = HER2-positivo → candidato à terapia anti-HER2
- HER2-low (conceito novo e revolucionário — 2022): IHC 1+ ou IHC 2+ com ISH não-amplificado (anteriormente classificado como HER2-negativo) → responde a T-DXd (trastuzumabe-deruxtecan) com eficácia significativa apesar de baixa expressão de HER2; estima-se que 40-50% dos cânceres de mama são HER2-low
Subtipos moleculares de câncer de mama e HER2:
- HER2+/HR- (HER2 enriquecido puro): mais agressivo; tratamento central: anti-HER2 + quimioterapia
- HER2+/HR+ (luminal B HER2+): anti-HER2 + quimio + hormonioterapia
- HER2- (inclui luminal A/B, triple-negativo = TNBC): sem terapia anti-HER2 convencional → mas HER2-low dentro desse grupo agora tem indicação de T-DXd
Trastuzumabe, pertuzumabe, T-DM1 e T-DXd — mecanismos e indicações
Trastuzumabe (Herceptin® — Roche; biossimilares: Herzuma, Ontruzant, Kanjinti etc.):
- Anticorpo monoclonal IgG1 humanizado que se liga ao domínio extracelular IV (domínio justa-membrana) de HER2
- Mecanismos de ação (múltiplos):
1. Bloqueio de HER2: liga ao domínio IV → estabiliza conformação inativa → impede heterodimerização de HER2 com outros HER → reduz sinalização de proliferação 2. ADCC (citotoxicidade celular dependente de anticorpo): a porção Fc do trastuzumabe recruta células NK e macrófagos → lise celular do tumor por imunidade inata — contribui significativamente para a eficácia antitumoral 3. Inibição de shed de HER2 (clivagem do domínio extracelular): impede liberação do fragmento p95 HER2 truncado e constitutivamente ativo 4. Inibição de PI3K/AKT via HER3 (receptor parceiro de HER2 na sinalização)
- Indicações:
- Câncer de mama metastático HER2+: 1ª linha → trastuzumabe + pertuzumabe + taxano (THP = docetaxel + trastuzumabe + pertuzumabe = CLEOPATRA trial — padrão ouro 1ª linha HER2+ metastático) - Câncer de mama inicial HER2+: adjuvante pós-cirurgia → trastuzumabe × 1 ano reduz recorrência em 50% (HERA, NSABP B-31, N9831 trials) → trastuzumabe + quimio → neoadjuvante (pré-cirurgia) + adjuvante; pertuzumabe adicionado na neoadjuvância (NEOPHEARA) e adjuvante (APHINITY) - Câncer gástrico HER2+: trastuzumabe + cisplatina + fluorouracil ou capecitabina = 1ª linha HER2+ (ToGA trial, 2010)
- Cardiotoxicidade — a principal toxicidade: trastuzumabe inibe HER2 nos cardiomiócitos → disfunção miocárdica; diferente das antraciclinas (que causam dano oxidativo irreversível), a cardiotoxicidade do trastuzumabe é reversível na maioria dos casos ao suspender; monitorar ecocardiograma basal e a cada 3 meses; suspender se FEVE cair > 10% de valores normais ou < 50%; combinação com antraciclinas aumenta risco → sequenciar antraciclinas ANTES de trastuzumabe
Pertuzumabe (Perjeta® — Roche):
- Anticorpo monoclonal humanizado IgG1 que se liga ao domínio extracelular II de HER2 (epítopo diferente do trastuzumabe → complementar)
- Mecanismo: bloqueia a heterodimerização HER2-HER3 (o par mais potente da família ErbB) → maior supressão da sinalização PI3K/AKT; combinado com trastuzumabe → duplo bloqueio de HER2 por dois ângulos diferentes = sinergia
- CLEOPATRA trial (2012): pertuzumabe + trastuzumabe + docetaxel (PHD) vs trastuzumabe + docetaxel em HER2+ metastático → melhora de sobrevida global de 56.5 para 57.1 meses (HR 0.69) — 1 dos maiores ganhos de OS em oncologia
- APHINITY trial: pertuzumabe adicionado ao trastuzumabe adjuvante → reduz risco de recorrência em ~2-3% absolutos (benefício maior em HR- e linfonodo-positivo)
- Toxicidade adicional: diarreia (grade 3/4 ~10%); cardiotoxicidade similar ao trastuzumabe; rash
T-DM1 / ado-trastuzumabe emtansina (Kadcyla® — Roche):
- Conjugado Anticorpo-Droga (ADC — Antibody-Drug Conjugate): trastuzumabe ligado covalentemente por um linker estável a DM1 (derivado de maytansina = inibidor de polimerização de tubulina, altamente tóxico se usado sistemicamente)
- Mecanismo: trastuzumabe entrega a DM1 seletivamente para células HER2+ → T-DM1 se liga ao HER2 → internalização do complexo ADC-HER2 por endocitose → lisossomos degradam o anticorpo → DM1 livre dentro da célula → inibe microtúbulos → morte celular
- Dupla ação: efeitos do próprio trastuzumabe (ADCC, bloqueio sinalização) + citotoxicidade direta da DM1
- Indicações: câncer de mama HER2+ metastático 2ª linha (após falha de trastuzumabe + taxano — EMILIA trial: T-DM1 vs lapatinibe + capecitabina → OS 30.9 vs 25.1 meses); adjuvante residual (KATHERINE trial 2019): pacientes com HER2+ que não atingiram pRC (resposta patológica completa) após quimioterapia neoadjuvante + trastuzumabe → T-DM1 × 14 ciclos adjuvante reduz recorrência em 50% vs continuar trastuzumabe → ENORME impacto na prática (T-DM1 padrão adjuvante em quem não teve pCR na neoadjuvância)
- Toxicidade: plaquetopenia (comum — nadir dia 8, recupera por dia 21); hepatotoxicidade (AST/ALT — monitorar); neuropatia periférica; pneumonite intersticial rara
Trastuzumabe-deruxtecan / T-DXd (Enhertu® — AstraZeneca / Daiichi Sankyo):
- ADC de nova geração: trastuzumabe + linker clivável + DXd (deruxtecan = derivado de exatecan = inibidor de topoisomerase I, forma análoga ao SN-38 ativo do irinotecan)
- Inovações em relação ao T-DM1:
1. Drug-to-antibody ratio (DAR) de 8 (vs 3.5 do T-DM1) → mais payload por anticorpo → mais citotóxico 2. Linker clivável: linker tetrapeptídico que é clivado por catepsina B nos lisossomos → DXd liberado dentro e FORA da célula HER2+ (linker T-DM1 era mais estável e o payload ficava na célula alvo) 3. Bystander killing: DXd liberado de células HER2+ difunde para células HER2-negativas vizinhas no tumor → mata também células HER2-negativas; explica a eficácia no HER2-low (onde nem todas as células expressam muito HER2)
- DESTINY-Breast03 (2021): T-DXd vs T-DM1 em HER2+ metastático 2ª linha → SLP mediana 28.8 vs 6.8 meses (HR 0.33!); OS favorável; T-DXd tornou-se padrão 2ª linha HER2+ metastático após 1ª linha com pertuzumabe + trastuzumabe
- DESTINY-Breast04 (2022): T-DXd vs quimioterapia em HER2-low metastático (IHC 1+ ou 2+/ISH-) → SLP 9.9 vs 5.1 meses; OS 23.4 vs 16.8 meses → primeiro tratamento aprovado especificamente para HER2-low → novo subgrupo terapêutico com 40-50% dos cânceres de mama
- Toxicidade característica: doença pulmonar intersticial (DPI)/pneumonite (incidência 10-15%, alguns casos fatais grau 5) → vigilância com TC e sintomas; parar em grau ≥2; náusea (60% — antiemético profilático; menos emetogênico que cisplatina mas relevante)
Neratinibe, lapatinibe e tucatinibe — TKIs de HER2/HER1:
- Lapatinibe (Tykerb® — Novartis): TKI dual HER1/HER2 reversível oral; usado com capecitabina em HER2+ 2ª/3ª linha; menos eficaz que T-DXd nas linhas tardias; indicação residual em pacientes com progressão para SNC (penetra BHE)
- Neratinibe (Nerlynx® — Puma/Pierre Fabre): TKI irreversível pan-HER (HER1/HER2/HER4); aprovado na adjuvância extendida (após trastuzumabe × 1 ano, mais 1 ano de neratinibe em HR+/HER2+ → reduz recorrência — ExteNET trial)
- Tucatinibe (Tukysa® — Seagen): TKI seletivo HER2 oral; sem atividade em HER1 (menos toxicidade cutânea); HER2CLIMB trial: tucatinibe + trastuzumabe + capecitabina vs trastuzumabe + capecitabina em HER2+ pré-tratado (incluindo metástase cerebral) → OS 21.9 vs 17.4 meses; aprovado para HER2+ metastático com/sem SNC após ≥2 regimes anti-HER2