HER2 — receptor e patobiologia do câncer de mama HER2+
HER2 (Human Epidermal Growth Factor Receptor 2 / ErbB2 / neu):
- Receptor tirosina-quinase transmembrana da família EGFR (ErbB): HER1 (EGFR), HER2 (ErbB2), HER3 (ErbB3), HER4 (ErbB4)
- Codificado pelo gene ERBB2 (cromossomo 17q12)
- Particularidade de HER2: é um receptor órfão — nenhum ligante direto identificado; funciona como parceiro de dimerização preferencial para os outros membros da família (especialmente HER3)
- Homodimerização HER2:HER2 e heterodimerização HER2:HER3 → ativação da via de sinalização intracelular → PI3K/AKT/mTOR (proliferação, sobrevivência) + RAS/MAPK (proliferação)
AMPLIFICAÇÃO e SUPEREXPRESSÃO de HER2:
- ~20% dos cânceres de mama têm amplificação do gene ERBB2 (mais cópias do gene no cromossomo) ou superexpressão da proteína HER2 (3+++ por IHQ)
- Em células normais: HER2 tem expressão baixa/moderada — o sinal é controlado
- Em tumores HER2+: 10-100x mais cópias de ERBB2 → tanta proteína HER2 na superfície da célula que forma homo/heterodímeros constitutivos sem precisar de ligante → sinalização de proliferação contínua
- Prognóstico sem tratamento específico: HER2+ é biologicamente agressivo — maior taxa de recorrência, metástase cerebral mais frequente, menor sobrevida comparado a HER2-negativo (sem terapia alvo)
DIAGNÓSTICO de HER2:
- IHQ (Imunohistoquímica): 0 (negativo), 1+ (negativo), 2+ (equívoco — requer confirmação por ISH), 3+ (positivo)
- ISH (In Situ Hybridization — FISH ou CISH/SISH): detecta amplificação do gene; positivo = razão HER2/CEP17 ≥ 2.0 OU número absoluto de cópias de HER2 ≥ 6
- HER2-low: definição emergente — IHQ 1+ ou IHQ 2+/ISH negativo; não HER2-positivo clássico mas responde ao trastuzumabe deruxtecan (ver abaixo) — mudança paradigmática 2022
- Recomendações ASCO/CAP: IHQ + ISH para confirmação de casos 2+; standardização laboratorial é crucial
CANCERES HER2+ além da mama:
- Gástrico/gastroesofágico: HER2+ em ~15-20%; trastuzumabe aprovado (ToGA trial)
- Colorretal: HER2-amplificado em ~2-3%; pertuzumabe + trastuzumabe; trastuzumabe deruxtecan em estudo
- Pulmão: HER2 mutante (exon 20 insertion) → trastuzumabe deruxtecan aprovado (DESTINY-Lung)
Trastuzumabe, pertuzumabe, T-DM1 e trastuzumabe deruxtecan
TRASTUZUMABE (Herceptin® — Genentech/Roche; biossimilares disponíveis: Herzuma®, Ogivri®, Trazimera® etc.):
Mecanismo: anticorpo monoclonal humanizado IgG1 contra o domínio IV extracelular de HER2 → mecanismos múltiplos:
- Bloqueia a sinalização de HER2: impede a dimerização do HER2 → menos sinalização PI3K/AKT
- ADCC (Citotoxicidade Celular Dependente de Anticorpo): a fração Fc do trastuzumabe recrutam células NK e macrófagos → morte da célula tumoral; mecanismo relevante in vivo
- Downregulation do HER2: o receptor é internalizado e degradado após ligação do trastuzumabe
- Inibição da clivagem do ectodomínio: HER2 pode ser clivado (por ADAM metaloproteases) — o fragmento p95 (transmembrana) fica mas sem o sítio de ligação do trastuzumabe; o trastuzumabe previne parte dessa clivagem
Aprovações e uso:
- Câncer de mama HER2+ metastático: 1ª linha (com pertuzumabe e docetaxel — CLEOPATRA trial)
- Câncer de mama HER2+ precoce: adjuvante (HERA trial, FinHer; 1 ano de trastuzumabe → sobrevida superior) + neoadjuvante + adjuvante
- Câncer gástrico HER2+ avançado (ToGA trial)
Cardiotoxicidade do trastuzumabe — o principal EA:
- Incidência de disfunção sistólica assintomática (redução de FEVE ≥ 10% ou abaixo de 50%): 10-20%
- ICC sintomática: 1-5%
- Mecanismo: HER2 é expresso em cardiomiócitos e é ESSENCIAL para a sobrevivência e reparação do miocárdio — o trastuzumabe ao bloquear HER2 cardíaco → compromete a resposta cardioprotetora → disfunção de VE
- Diferença crucial: a cardiotoxicidade do trastuzumabe é geralmente reversível (não fibrótica — ao contrário das antraciclinas) — na maioria dos casos a FEVE se recupera após suspensão ± tratamento com IECAs/BRA + betabloqueadores
- Monitoramento: FEVE (ecocardiograma ou MUGA) baseline + a cada 3 meses durante o tratamento + ao final
- Critérios de suspensão: FEVE cai ≥ 16% do baseline OU cai para abaixo de 50% + sintomas de ICC → suspender + iniciar tratamento cardíaco + reavaliar em 4-6 semanas
PERTUZUMABE (Perjeta® — Genentech/Roche):
- Anticorpo monoclonal humanizado IgG1 anti-HER2, mas liga ao domínio II (em vez do domínio IV do trastuzumabe) → bloqueia a dimerização de HER2 com HER3 especificamente
- Duplo bloqueio HER2: trastuzumabe + pertuzumabe = bloqueio de domínio IV + domínio II → inibição mais completa da sinalização HER2
- CLEOPATRA trial (2012, NEJM): pertuzumabe + trastuzumabe + docetaxel vs trastuzumabe + docetaxel + placebo em câncer de mama HER2+ metastático → SLP de 18.5 vs 12.4 meses; SG: 56.5 vs 40.8 meses (5.7 meses a mais de sobrevida global — impacto sem precedente em 1ª linha metastático)
- Aprovado em: 1ª linha metastática (com trastuzumabe + taxano) + neoadjuvante (doença localmente avançada/inflamatória ou ≥T2 ou N+) + adjuvante (APHINITY trial)
- EA adicionais vs trastuzumabe: diarreia (aumentada com pertuzumabe); sem cardiotoxicidade adicional ao trastuzumabe
T-DM1 / TRASTUZUMABE EMTANSINA (Kadcyla® — Roche):
- ADC (Antibody-Drug Conjugate): trastuzumabe + linker estável + DM1 (derivado da maitansina — inibidor de tubulina/microtúbulo, citotóxico)
- Mecanismo: T-DM1 liga ao HER2 na superfície tumoral → internalização via endocitose → degradação lisossomal → liberação do DM1 DENTRO da célula tumoral → destruição do fuso mitótico → apoptose; o trastuzumabe por si também contribui (ADCC + bloqueio HER2)
- EMILIA trial: T-DM1 vs lapatinibe + capecitabina em HER2+ metastático após trastuzumabe e taxano → SG 30.9 vs 25.1 meses; aprovado em 2ª linha
- KATHERINE trial: T-DM1 vs trastuzumabe adjuvante em HER2+ precoce com doença residual após neoadjuvante → redução de 50% no risco de recorrência invasiva → mudança de paradigma na adjuvância
TRASTUZUMABE DERUXTECAN (T-DXd / DS-8201) (Enhertu® — Daiichi-Sankyo/AstraZeneca) — a revolução mais recente:
- ADC de 3ª geração: trastuzumabe + linker clivável por peptidase + DXd (derivado da topoisomerase I inibidora, análogo de exatecan) — payload muito mais potente que o DM1
- Drug-to-antibody ratio (DAR) de 8 (vs DAR de 3.5 do T-DM1): mais payload por anticorpo
- Bystander effect: o DXd é lipofílico e pode difundir para células vizinhas → mata células tumorais HER2-negativas ao redor — mecanismo único e importante
- HER2-LOW: DESTINY-Breast04 (2022, NEJM): T-DXd vs quimioterapia de escolha do médico em câncer de mama HER2-low (IHQ 1+ ou 2+/ISH-) → SLP: 9.9 vs 5.1 meses; SG: 23.4 vs 16.8 meses → APROVADO para HER2-low — expandiu o universo de HER2+ de 20% para ~55% dos cânceres de mama elegíveis para anti-HER2!
- HER2+ metastático refratário: DESTINY-Breast03 vs T-DM1 → SLP 28.8 vs 6.8 meses (hazard ratio 0.33!) → 1ª/2ª linha metastática
- EA específico e grave: DLD (doença pulmonar intersticial)/pneumonite (10-15%, incluindo ~2% grau 4 ou fatal) → monitoramento rigoroso com TCAP se sintomas respiratórios; manejo com esteroides e descontinuação precoce reduz mortalidade
LAPATINIBE (Tykerb® — GSK; genérico): TKI duplo que inibe HER1 (EGFR) e HER2 intracelular; indicado em combinação com capecitabina em HER2+ metastático após antraciclina + taxano + trastuzumabe; hoje substituído em grande parte por T-DM1 e T-DXd mas ainda usado em metástase cerebral (pequenas moléculas penetram melhor na BHE)