Eixo HPG masculino, testosterona e ação dos andrógenos
Eixo HPG masculino:
- Hipotálamo: GnRH pulsátil (pulsos de 2-4h) → hipófise anterior → LH + FSH → testículos
- LH → células de Leydig → testosterona (produção de 5-7 mg/dia)
- FSH + testosterona local → células de Sertoli → espermatogênese
- Testosterona → feedback negativo em hipotálamo e hipófise → reduz GnRH e LH/FSH
Testosterona e DHT:
- Testosterona total normal em homens adultos: 300-1000 ng/dL (10.4-34.7 nmol/L); testosterona livre: 5-30 ng/dL
- 5α-redutase (tipo 1: fígado, pele; tipo 2: próstata, vesícula seminal, pele genital) → converte testosterona em DHT (di-hidrotestosterona) → 2-3x mais potente que testosterona no receptor de andrógeno (AR)
- Aromatase → converte testosterona em estradiol → efeitos na densidade óssea, libido, SNC; essencial em homens também
Receptor de Andrógeno (AR):
- NR3C4 (Nuclear Receptor superfamily); ligante-ativado; 8 exons
- Testosterona/DHT → liga AR no citoplasma → dissociação de heat shock proteins → translocação ao núcleo → homodimerização → liga elementos de resposta a andrógeno (ARE) → transcrição de genes como KLK3 (PSA), TMPRSS2, SLC45A3
- Amplificação/mutação de AR: mecanismo de resistência à terapia de privação androgênica no câncer de próstata resistente à castração (CRPC)
Funções dos andrógenos:
- Desenvolvimento sexual masculino (pré-natal: virilização, genitália externa; puberal: espermatogênese, caracteres sexuais secundários)
- Massa muscular e força (testosterona é anabolizante): ↑ síntese proteica muscular, ↑ IGF-1 local, ↑ células satélite musculares
- Densidade óssea: ↑ formação, ↓ reabsorção (via AR em osteoblastos e via conversão em E2)
- Hematopoiese: testosterona → EPO renal e direta → eritropoiese → ↑ hematócrito (razão por que homens têm hematócrito mais alto que mulheres)
- Libido e função erétil: DHT principalmente
- Cognição e humor: testosterona correlaciona com bem-estar, concentração, motivação (relação complexa, não-linear)
PSA (Prostate-Specific Antigen = KLK3):
- Serina protease produzida pelas células epiteliais prostáticas; estimulada pelo AR → gene alvo direto dos andrógenos
- PSA sérico normal: <4 ng/mL (ajuste por idade); zona cinza 4-10 ng/mL; >10 ng/mL: alta probabilidade de câncer
- Elevado em: câncer de próstata, HBP (hiperplasia benigna prostática), prostatite, após biópsia/RT prostática
- PSA é suprimido por ADT (privação androgênica) → resposta ao tratamento monitorada por PSA
Terapia de privação androgênica (ADT) para câncer de próstata: análogos de GnRH e antagonistas
Câncer de Próstata — dependência androgênica:
- 80-90% dos cânceres de próstata são andrógeno-dependentes no início → privação de testosterona (<50 ng/dL = "castração") → regressão tumoral
- Huggins & Hodges (Nobel 1966): orquidectomia bilateral (castração cirúrgica) → resposta em câncer de próstata → base da ADT
Análogos de GnRH (Agonistas de LHRH) — castração química:
Leuprolida (Lupron® — AbbVie) e Goserrelina (Zoladex® — AstraZeneca), Triptorelina:
- GnRH análogos agonistas de longa ação → administração contínua (não pulsátil) → saturação e downregulação dos receptores de GnRH → depois de flare inicial, supressão profunda de LH e FSH → testosterona cai para níveis de castração em 2-4 semanas
- Flare inicial (semana 1-2): agonismo inicial causa pico de LH → pico transitório de testosterona → pode exacerbar sintomas tumorais (dor óssea, obstrução urinária, compressão medular em metástases densas) → antiandrogênio periférico (bicalutamida) deve ser iniciado 2-4 semanas ANTES do análogo de GnRH para bloquear o flare
- Formulações depot: Lupron® 1m (7.5 mg), 3m (22.5 mg), 4m (30 mg), 6m (45 mg) IM; Zoladex® subcutâneo q4 ou q12 semanas
- Castração mantida enquanto droga administrada; testosterona sobe se interrompida → ADT intermitente pode ser usada para reduzir efeitos adversos em resposta estável
Antagonistas de GnRH (sem flare) — supressão imediata:
- Degarelix (Firmagon® — Ferring): bloqueia receptores de GnRH sem agonismo inicial → sem flare → testosterona cai em 3 dias; SC 240 mg loading → 80 mg q4 semanas; reações no sítio de injeção (70%)
- Relugolix (Orgovyx® — Myovant): oral! 120 mg/dia → primeira ADT oral; CS50: relugolix superior à leuprolida em manter castração (96.7% vs 88.8%) com menores eventos cardiovasculares (MACE 2.9% vs 6.2%); preferido em pacientes com alto risco cardiovascular
Efeitos adversos da ADT (de classe):
- Sintomas vasomotores (fogachos/hot flashes): 50-80%; semelhante à menopausa; tratamento: venlafaxina ou desvenlafaxina, medroxiprogesterona 5 mg/dia
- Disfunção erétil e perda de libido: virtual em ADT prolongada; inibidores de PDE5 ajudam na DE
- Ginecomastia e sensibilidade mamária: pelo desequilíbrio E:T após castração; prevenção: RT mamária prophylactic ou tamoxifeno 20 mg/dia
- Perda de massa muscular e ganho de gordura (sarcopenia): testosterona é essencial para músculo; ADT → sarcopenia + aumento de gordura visceral → exercício resistido muito importante
- Perda de densidade óssea (osteoporose): testosterona (convertida em E2) protege o osso; ADT → perda de 2-3% de DMO/ano → risco de fratura → bifosfonatos (zoledronato) ou denosumabe preventivos; suplementar Ca + vitamina D obrigatoriamente
- Risco cardiovascular aumentado: MetS, dislipidemia, hiperglicemia, DM2 → monitorar glicemia, lipídeos; relugolix com menor risco CV que agonistas de GnRH
- Efeitos cognitivos: possível declínio de memória de trabalho, concentração; reversível (parcialmente) com reintrodução de testosterona ou descontinuação de ADT
Antiandrogênios periféricos (AR antagonistas):
Bicalutamida (Casodex® — AstraZeneca / genérico): antiandrogênio não-esteroidal de 1ª geração; 50 mg/dia (em combinação com LHRH) ou 150 mg/dia (monodoterapia para localizado — menos eficaz que ADT em metastático); bloqueia AR competitivamente sem reduzir testosterona (mantém testosterona → menos fogachos, menos disfunção sexual, melhor qualidade de vida em monoterapia para localizado); hepatotoxicidade: monitorar TFH; ginecomastia (pelo desequilíbrio E:T sem supressão periférica de E)
Enzalutamida (Xtandi® — Astellas/Pfizer): antiandrogênio de 2ª geração; 160 mg/dia oral; sem interação entre ligando e AR → AR não transloca ao núcleo; também bloqueia o co-ativador recrutamento e a transativação genômica; sem antagonismo parcial; AFFIRM trial (CRPC pós-docetaxel): OS 18.4 vs 13.6 meses; PREVAIL trial (CRPC pré-quimio): OS 32.4 vs 30.2 meses; ARCHES/ENZAMET: mCSPC (castration-sensitive, hormonossensível) + ADT → redução de progressão e OS; efeitos adversos: convulsões (<1%, mas Black Box), fadiga, hipertensão, diarreia
Apalutamida (Erleada® — Janssen) e Darolutamida (Nubeqa® — Bayer): antiandrogênios de 2ª geração; M0CRPC (sem metástases) → SPARTAN: apalutamida + ADT → MFS 40.5 vs 16.2 meses; darolutamida (menos penetração no SNC → menos convulsões/fadiga que enzalutamida)
Abiraterona (Zytiga® — Janssen / genérico): inibidor de CYP17A1 (17α-hidroxilase/17,20-liase) → bloqueia síntese de andrógenos nos testículos, adrenais e tumor prostático; com prednisona 5 mg 2x/dia (pois supressão adrenal causa ↑ ACTH → hiperaldosteronismo → hipertensão, hipocalemia → prednisona bloqueia o feedback); 1000 mg/dia em jejum (absorção muito reduzida com alimento — única droga importante onde alimento aumenta exposição imprevisível 5-10x → tomar 1h antes ou 2h após comer); COU-AA-302 (CRPC pré-quimio) e COU-AA-301 (pós-docetaxel): OS melhora; combinado com ADT em câncer de próstata localmente avançado (LATITUDE, STAMPEDE: benefício de sobrevida significativo) — padrão de 1ª linha em mCSPC de alto risco
Reposição de testosterona (TRT) no hipogonadismo masculino
Hipogonadismo Masculino — testosterona total < 300 ng/dL (com sintomas):
Hipogonadismo primário (hipergonadotrófico — LH/FSH elevados, testículo não responde):
- Síndrome de Klinefelter (47,XXY), orquite, orquidectomia, criptorquidia, quimioterapia/RT prévia
Hipogonadismo secundário (hipogonadotrófico — LH/FSH baixos, testículo normal mas não estimulado):
- Hipopituitarismo, macroprolactinoma, Síndrome de Kallmann (ausência de GnRH por hipoplasia de bulbo olfatório + anosmia), uso crônico de opioides (opioid-induced androgen deficiency), obesidade (aromatase no tecido adiposo converte testosterona em E2 → feedback negativo), anabolizantes exógenos (suppressão eixo HPG)
Sintomas do hipogonadismo: libido reduzida, disfunção erétil, fadiga, depressão, redução de massa muscular, ganho de gordura visceral, diminuição de pelos, anemia normocítica, osteoporose, subfertilidade
TRT (Testosterone Replacement Therapy) — formulações:
- Gel transdérmico (Testogel® 1%, AndroBel® 2%, Axiron®): 25-100 mg/dia aplicado em ombros/abdome/axilas; absorção variável; transferência a parceiras/crianças se contato com pele não lavada (cubrir ou lavar); fácil ajuste de dose; preferido por muitos
- Patch transdérmico (Testoderm®, Androderm®): 2.5-7.5 mg/24h; prático; pode causar irritação cutânea local
- Injeção de esterato de testosterona IM (Durateston®, Deposteron® = cipionato OU enantato OU mistura de ésteres): 100-250 mg IM q2-4 semanas; picos e vales pronunciados ("peak-and-trough"); econômico; durações variam por formulação
- Cipionato de testosterona (genérico): 200 mg IM q2 semanas; muito usada nos EUA; pico após 2-4 dias, vale antes da próxima dose
- Undecanoato de testosterona IM (Nebido® — Bayer): 1000 mg IM q10-14 semanas (após 2 injeções de loading); meia-vida muito longa → nível estável; preferido para adesão; injeção a cada 3 meses
- Pellets subdérmicos: implante SC de testosterona cristalina; libera testosterona por 3-6 meses; procedimento cirúrgico mínimo
- Oral (undecanoato oral — Andriol®): absorção com alimento lipídico; biodisponibilidade muito variável; menos usado
- Bucal (Striant®): mucoadesivo gengival 30 mg q12h; gosto amargo, irritação gengival
Monitoramento da TRT:
- Antes de iniciar: testosterona total (manhã, 8-10h), LH/FSH, hemograma, hematócrito, PSA, toque retal, lipídeos, TFH, exame de sono (se suspeita de apneia)
- Após 3-6 meses: testosterona sérica (timing depende da formulação — colher no meio do intervalo para IM), hematócrito, PSA
- Meta de testosterona: 400-700 ng/dL (meio da faixa normal)
- Contraindicações absolutas: câncer de mama ou de próstata (conhecidos — testosterona alimenta tumores AR+), policitemia (hematócrito >54%), TEV não-tratado, IC descompensada, síndrome metabólica grave com obesidade extrema não-tratada
- Hematócrito elevado (>52-54%): principal efeito adverso em TRT → risco de tromboembolismo; reduzir dose ou pausa; flebotomia se necessário
- PSA e câncer de próstata: TRT não causa câncer de próstata, mas pode estimular tumor já existente → PSA baseline + exame urológico prévio obrigatório; monitorar PSA a cada 6-12 meses; elevação >1 ng/mL em 1 ano → investigar
- Apneia do sono: testosterona piora apneia obstrutiva do sono → tratar AOS antes/durante TRT
- Fertilidade: TRT suprime eixo HPG → azoospermia; para homens que desejam fertilidade → usar gonadotrofinas (hCG + FSH recombinante) em vez de testosterona, ou citrato de clomifeno (agonista parcial do ER → bloqueia feedback negativo E2 → mais GnRH → mais LH/FSH → mais testosterona endógena — off-label mas usado)
Anabolizantes androgênicos (AAS — não-médico):
- Testosterona e derivados sintéticos (nandrolona, stanozolol, oxandrolona, trembolona) usados por atletas e fisiculturistas para aumento de massa muscular
- Riscos: supressão eixo HPG (azoospermia, atrofia testicular), policitemia (AVC, TEP), hepatotoxicidade (compostos 17-alfa alquilados — oral), dislipidemia grave (↓ HDL, ↑ LDL), cardiotoxicidade (cardiomiopatia dilatada, morte súbita), acne grave, virilização em mulheres (irreversível), dependência psicológica, agressividade