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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 13 min de leitura

Receptor androgênico, enzalutamida, apalutamida e abiraterona: do CRPC sensível a castração ao resistente — via AR e eixo HPA

O receptor androgênico (AR) é o principal motor do câncer de próstata. Agonistas castração (LHRH agonistas/antagonistas) + novos agentes (enzalutamida, apalutamida, darolutamida, abiraterona) transformaram sobrevida no CRPC. Revisão molecular, splicing variants, e resistência.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Receptor androgênico e sinalização em câncer de próstata

Receptor Androgênico (AR / NR3C4) — receptor nuclear de hormônio da superfamília de receptores de esteroides:

Estrutura:

  • NTD (N-terminal domain): ativação da transcrição; local de interação AF-1
  • DBD (DNA-binding domain): dois zinc fingers → liga ARE (Androgen Response Elements) no DNA
  • Hinge region: NLS (nuclear localization signal)
  • LBD (ligand-binding domain): liga testosterona e DHT; AF-2 (ativation function 2); alvo de antiandrogênios

Via de sinalização clássica:

  1. Testosterona circulante → entra na célula → convertida a DHT por 5α-redutase (afinity ~10x maior que testosterona ao AR)
  2. DHT/testosterona → liga AR no citoplasma → dissocia proteínas de choque térmico (Hsp90, Hsp70) → AR muda conformação
  3. AR dimeriza → transloca para núcleo (via NLS)
  4. AR no núcleo → liga ARE → recruta co-ativadores (SRC-1, GRIP1, CBP) → transcreve genes alvos:

- PSA (KLK3): calicreína glandular — biomarcador; função: líquida seminal - TMPRSS2: protease serina — TMPRSS2:ERG fusions em ~50% de cânceres de próstata - AR (autorregulação positiva) - Genes de ciclo celular e anti-apoptóticos

Fontes de androgênios:

  • Testículos (95%): células de Leydig → testosterona sob controle de LH/LH-surge de GnRH/LHRH
  • Glândulas adrenais (5%): DHEA, androstenediona → convertidas a testosterona/DHT no tumor de próstata
  • Síntese intratumoral (de novo): o tumor pode sintetizar androgênios de colesterol via CYP17A1 → mecanismo de resistência à castração

Eixo hipotálamo-hipófise-gonadal:

  • Hipotálamo → GnRH/LHRH → hipófise → LH + FSH → Leydig cells → testosterona → feedback negativo no hipotálamo

Castração e agonistas de LHRH: leuprolida, goserelina, degarelix

Castração médica — padrão histórico do câncer de próstata avançado:

Agonistas de LHRH (leuprolida, goserelina, triptorelina, buserelina):

  • Paradox farmacológico: GnRH/LHRH endógeno é secretado em pulsos → agonista contínuo dessensibiliza receptores hipofisários → após flare inicial (1-2 semanas de aumento de LH/FSH/testosterona) → supressão profunda de LH e testosterona (castração médica)
  • Flare inicial: nos primeiros 7-14 dias → aumento de testosterona pode piorar sintomas (dor óssea, retenção urinária, compressão medular) → pré-tratar com antiandrogênio oral (bicalutamida 50 mg por 4 semanas) antes de iniciar LHRH agonista
  • Formulações long-acting: depósito mensal (1M), 3 meses, 6 meses SC ou IM
  • Exemplos: Leuprolida (Lupron® — vários), Goserelina (Zoladex® — AstraZeneca)

Antagonistas de LHRH (sem flare):

  • Liga GnRH-R imediatamente e competitivamente → supressão de LH/FSH SEM flare inicial
  • Degarelix (Firmagon® — Ferring): 1ª injeção 240 mg SC, depois 80 mg mensalmente; supressão de testosterona em 3 dias (vs 3-4 semanas dos agonistas); sem flare; útil em urgência (obstrução urinária, dor grave)
  • Relugolix (Orgovyx® — Myovant): 1ª antagonista de LHRH oral; HERO trial: relugolix vs leuprolida → castração mais rápida e sustentada; menos eventos cardiovasculares (MACE) — agonistas associados a maior risco CV, antagonistas parecem mais cardio-seguros

Hormonioterapia de privação androgênica (ADT) — efeitos colaterais:

  • Fogachos (hot flashes): 60-80% — medroxiprogesterona, venlafaxina, gabapentina ajudam
  • Disfunção erétil + perda de libido: universal
  • Osteoporose: redução de massa óssea 2-3%/ano → denosumabe (anti-RANKL) ou zoledronato profilático
  • Sarcopenia e ganho de gordura: composição corporal muda; exercício físico é fundamental
  • Síndrome metabólica: resistência à insulina, dislipidemia, maior risco CV
  • Depressão e declínio cognitivo: monitorar; apoio psicológico
  • Anemia: leve a moderada

Quando iniciar ADT:

  • Doença metastática (M1): ADT contínua + novos agentes hormonais
  • Doença localmente avançada/alto risco após RT: ADT 2-3 anos (RTOG 92-02, DART 01/05)
  • Recidiva bioquímica (PSA): debatido — ADT intermitente vs contínua

Novos agentes hormonais de 2ª geração: enzalutamida, apalutamida, darolutamida e abiraterona

Contexto: câncer de próstata CRPC (Castration-Resistant Prostate Cancer) — PSA progressivo ou progressão radiológica apesar de testosterona castrada (<50 ng/dL) — ainda depende de AR mas precisa de agentes mais potentes

Enzalutamida (Xtandi® — Pfizer/Astellas):

  • AR antagonista competitivo de nova geração (sem agonismo parcial como flutamida/bicalutamida)
  • Liga LBD de AR com alta afinidade (~5-8x mais que bicalutamida); também inibe translocação nuclear e recrutamento de co-ativadores
  • Sem atividade agonista parcial mesmo em CRPC com AR superexpresso
  • AFFIRM (CRPC pós-docetaxel): enzalutamida → OS 18.4 vs 13.6 meses
  • PREVAIL (CRPC pré-quimio): enzalutamida → OS 32.4 vs 30.2 meses; rPFS 65% vs 14%
  • ENZAMET (hormônio-sensível mCSPC): enzalutamida + ADT → OS melhorada
  • Toxicidade: convulsões (risco ~1% em doses terapêuticas — barreira de GABA-A antagonism sutil; histórico de convulsão é contraindicação relativa), fatiga, hipertensão, disfunção cognitiva

Apalutamida (Erleada® — Janssen):

  • Similar a enzalutamida em mecanismo AR antagonista; menor risco de convulsão
  • SPARTAN (CRPC não-metastático, M0, PSA crescendo rápido): apalutamida + ADT → mFS (metastasis-free survival) 40.5 vs 16.2 meses; OS superior
  • TITAN (mCSPC hormônio-sensível): apalutamida + ADT → rPFS 68.2% vs 47.5%; OS 82.4% vs 73.5% a 24 meses

Darolutamida (Nubeqa® — Bayer/Orion):

  • Estrutura química diferente (não deriva de enzalutamida) → não cruza BHE significativamente → menor risco de neurotoxicidade/fadiga/convulsão
  • ARAMIS (M0-CRPC): darolutamida + ADT → mFS 40.4 vs 18.4 meses; OS 83.4% vs 76.7% a 3 anos
  • ARASENS (mCSPC com docetaxel): darolutamida + ADT + docetaxel → OS 62.7% vs 50.4% a 4 anos

Abiraterona (Zytiga® / Yonsa® — Janssen):

  • Inibidor de CYP17A1 (17α-hydroxilase/17,20-liase) → bloqueia síntese de androgênios em adrenal E no tumor
  • Deve ser co-administrado com prednisona 5 mg 2x/dia (porque bloqueio adrenal → baixo cortisol → aumento de ACTH → excesso de mineralocorticoides → hipertensão, hipocalemia; prednisona suprime ACTH)
  • Yonsa: formulação nanomills → pode ser tomada com ou sem alimento (Zytiga exige jejum)
  • COU-AA-302 (CRPC pré-QT): abiraterona + prednisona → OS 34.7 vs 30.3 meses
  • COU-AA-301 (CRPC pós-docetaxel): OS 15.8 vs 11.2 meses
  • LATITUDE (mCSPC alto risco): abiraterona + prednisona + ADT → OS superior
  • Toxicidade: hipertensão, hipocalemia, edema (mineralocorticoide excess), insuficiência adrenal (se corticoide interrompido)

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AR-V7, mutações de AR e mecanismos de resistência ao CRPC

Mecanismos de resistência aos novos agentes hormonais:

1. AR amplificação: mais cópias do gene AR → mais proteína → saturação do antagonista; ocorre em 20-30% de CRPC

2. Mutações em AR LBD:

  • Mutações que tornam o AR resistente a antagonistas ou ganham atividade promíscua
  • T878A (H874Y): abiraterona metabolita (3-keto-5α-abirasterona) pode agonizar esse mutante
  • F877L e T877A: permitem agonismo de enzalutamida (enzalutamida age como agonista em vez de antagonista)
  • Detectáveis por liquid biopsy (ctDNA)

3. AR splicing variants — AR-V7 (o mais importante):

  • Splicing alternativo do pré-mRNA de AR → AR-V7 (androgen receptor splice variant 7): exon 1-3 + exon 3b → sem LBD → constitutivamente ativo NO NÚCLEO independente de androgênio e de antiandrogênios
  • AR-V7 positivo: resistência a enzalutamida E abiraterona — esses agentes agem no LBD que está ausente em AR-V7
  • Detecção: no RNA de CTCs (circulating tumor cells) — Epic Sciences assay (nuclear AR-V7) — FDA-cleared como complementary diagnostic
  • Implicação clínica: AR-V7+ → quimioterapia (docetaxel, cabazitaxel) superior a enzalutamida/apalutamida; taxanos não dependem de AR

4. Ativação de bypass:

  • Glucocorticoide receptor (GR) pode compensar perda de AR → transcrevendo genes alvos de AR; GR sobrexpresso como escape
  • MAPK, PI3K/AKT: ativadas em CRPC; AKT fosforila AR em S213 → aumenta atividade

Tratamentos pós-progressão em CRPC:

  • Cabazitaxel (Jevtana® — Sanofi): taxano de 2ª geração que supera resistência a docetaxel (menos substrato de P-gp que paclitaxel); TROPIC trial: OS 15.1 vs 12.7 meses pós-docetaxel
  • PARP inibidores em BRCA/HRD: olaparibe (PROfound), rucaparibe; 15-20% de CRPC têm mutações em genes HRR
  • Lutetium PSMA-617 (Pluvicto® — Novartis): radioligand therapy; PSMA é expresso em células de próstata; Lu-177 emite beta para matar células tumorais; VISION trial: OS 15.3 vs 11.3 meses pós-docetaxel+ARSI
  • Pembrolizumabe: em CRPC MSI-H (raro, ~2-5%) ou em CDK12-mutado (imune-responsivo)
  • Sipuleucel-T (Provenge® — Dendreon): vacina de células dendríticas autólogas — IMPACT trial: OS +4.1 meses assintomático CRPC

Perguntas frequentes sobre câncer de próstata e hormonioterapia

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

O que é CRPC e como difere do câncer de próstata hormônio-sensível?+

CRPC (Castration-Resistant Prostate Cancer) é definido como progressão da doença (PSA aumentando ou progressão radiológica) apesar de testosterona em nível de castração (<50 ng/dL). NÃO significa que o AR deixou de funcionar — na maioria dos casos, o tumor encontrou maneiras de reativar a via AR sem precisar de testosterona testicular (amplificação de AR, mutações, síntese intratumoral de androgênio, splice variants). Hormônio-sensível (ou castration-sensitive) significa que a doença ainda responde à supressão de testosterona. A nomenclatura atual: mCSPC (metastatic castration-sensitive prostate cancer) → tratado com ADT + enzalutamida/apalutamida/darolutamida ou + abiraterona ou + docetaxel; mCRPC → docetaxel, cabazitaxel, enzalutamida, apalutamida, Lu-177 PSMA, olaparibe se BRCA+.

Abiraterona é melhor ou pior que enzalutamida?+

Nenhuma é claramente superior à outra no setting de CRPC ou mCSPC — ambas são eficazes e aprovadas. Diferenças práticas: abiraterona requer coadministração de prednisona (para suprimir ACTH e evitar excesso de mineralocorticoides) → potencial imunossupressão; enzalutamida não precisa de corticoide mas tem risco baixo de convulsão e fadiga mais proeminente. Darolutamida tem o melhor perfil de tolerabilidade neurológica (não cruza BHE). Mecanismos diferentes: abiraterona bloqueia síntese de androgênio; enzalutamida bloqueia diretamente o receptor AR. Em resistência cruzada: paciente que progrediu em enzalutamida tem ~20% de chance de responder a abiraterona e vice-versa (resistência parcialmente cruzada mas não universal). A sequência ideal ainda é debatida.

PSA elevado sempre significa progressão em câncer de próstata?+

Não necessariamente. O PSA precisa ser interpretado no contexto: (1) PSA flare após iniciar novos agentes (enzalutamida, abiraterona) — PSA pode subir transitoriamente nas primeiras 4-12 semanas antes de cair (denominado 'PSA flare' ou 'PSA spike') — não confundir com progressão real; (2) PSA bounce após radioterapia — pode subir transitoriamente 12-24 meses pós-RT sem indicar recidiva; (3) PSA em CRPC avançado — tumores muito desdiferenciados podem perder expressão de PSA e progressão ocorre sem aumento de PSA (neuroendócrino CRPC). Critérios PCWG3 de progressão em CRPC: PSA precisa subir ≥25% (e ≥2 ng/mL) de nadir, confirmado em segunda medição 3 semanas depois, com início de novo ponto de progressão.

O que é Lu-177 PSMA e como funciona?+

Lu-177-PSMA-617 (Pluvicto®) é uma 'radioligand therapy' (RLT) — une um ligante de PSMA (Prostate-Specific Membrane Antigen, proteína superexpressa em células de câncer de próstata) com lutécio-177 (radionuclídeo emissor de partículas beta). Quando injetado IV, o ligante PSMA-617 encontra células com alta expressão de PSMA no tumor → internaliza → lúcio-177 emite beta (elétrons de alta energia) que destrói localmente células tumorais com mínima dispersão a tecidos normais (alcance <1 mm das partículas beta). VISION trial (CRPC progressivo após docetaxel e ARSI): Lu-177 PSMA-617 → OS 15.3 vs 11.3 meses; rPFS 8.7 vs 3.4 meses. Pré-requisito: PSMA-PET scan (Ga-68-PSMA ou F-18-PSMA) deve ser positivo (alta captação no tumor) pois tumores PSMA-negativos não captam o radioligante.

Referências Científicas

  1. Beer TM, Armstrong AJ, Rathkopf DE, et al. (PREVAIL) Enzalutamide in metastatic prostate cancer before chemotherapy (PREVAIL). N Engl J Med, 2014.
  2. Fizazi K, Tran N, Fein L, et al. (LATITUDE) Abiraterone plus prednisone in metastatic, castration-sensitive prostate cancer (LATITUDE). N Engl J Med, 2017.
  3. Fizazi K, Shore N, Tammela TL, et al. (ARAMIS) Darolutamide in nonmetastatic, castration-resistant prostate cancer (ARAMIS). N Engl J Med, 2019.
  4. Sartor O, de Bono J, Chi KN, et al. (VISION) Lutetium-177-PSMA-617 for metastatic castration-resistant prostate cancer (VISION). N Engl J Med, 2021.
  5. Chi KN, Chowdhury S, Bjartell A, et al. (TITAN) Apalutamide in patients with metastatic castration-sensitive prostate cancer (TITAN 30-month update). J Clin Oncol, 2021.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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