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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 11 min de leitura

ACE2, angiotensina 1-7 e entrada do SARS-CoV-2: spike, receptor de entrada viral e o eixo RAAS protetora

ACE2 (enzima conversora de angiotensina 2) converte Ang II em Ang 1-7 — vasodilatadora e anti-inflamatória — contrapondo o eixo ACE/Ang II/AT1. ACE2 também é o receptor de entrada do SARS-CoV-2 (via glicoproteína spike). TMPRSS2 facilita a fusão viral. Implicações clínicas em COVID-19 e cardioproteção.

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BioPeptídeos Editorial
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ACE2: do RAAS à cardioproteção

ACE2 (Angiotensin-Converting Enzyme 2) — ectoenzima de membrana (tipo I) de 805 aa, carboxipeptidase mono-zinco:

Descoberta: identificada em 2000 (Donoghue et al. e Tipnis et al.) como homóloga à ECA (50% de identidade no domínio catalítico) mas com função diferente

Função como enzima RAAS:

  • ECA (ACE) converte Ang I → Ang II (pró-inflamatório, vasoconstritor)
  • ACE2 converte Ang II → Ang 1-7 (C-terminal Phe removido) → efeito oposto ao de Ang II
  • ACE2 também converte Ang I → Ang 1-9 (menos relevante)

Ang 1-7 e receptor Mas (MAS1):

  • Ang 1-7 → age via receptor Mas (GPCR, acoplado a Gi) → vasodilatação (↑ NO, ↑ PGI₂), anti-fibrótico, anti-proliferativo, anti-inflamatório (inibe NF-κB), natriurese
  • Eixo ECA2/Ang 1-7/Mas = eixo protetor contra o eixo pró-inflamatório ACE/Ang II/AT1

Expressão de ACE2:

  • Alta: pulmões (células epiteliais tipo II / pneumócitos), intestino delgado (enterócitos do íleo), células β pancreáticas, coração (cardiomiócitos), rins (células tubulares), testículos, SNC
  • Relevante: células endoteliais vasculares (por todo corpo)

ACE2 como cardioprotetor:

  • Em IC e IAM: ECA2 aumenta localmente → mais Ang 1-7 → less cardiac fibrosis, less hypertrophy, better cardiac function
  • Camundongos knockout de ACE2: desenvolvem cardiomiopatia dilatada mais grave após IAM
  • IECA e BRA: regulam positivamente a expressão de ACE2 (feedback) → potencial proteção cardíaca adicional via eixo ECA2/Ang 1-7

ACE2 e pulmão:

  • Regulação de surfactante pulmonar, proteção contra lesão pulmonar aguda (ARDS)
  • Na sepse e ARDS: ECA2 reduzida na superfície → menos Ang 1-7 → mais Ang II → vasoconstrição pulmonar, inflamação → IECA/BRA podem "restaurar" equilíbrio

SARS-CoV-2, spike e o uso do ACE2 como porta de entrada

SARS-CoV-2 e ACE2 — a pandemia revelou a importância do eixo RAAS alternativo:

Ciclo de entrada do SARS-CoV-2:

  1. Spike (S) do SARS-CoV-2: glicoproteína trimérica na superfície do vírus, 2 subunidades:

- S1: domínio RBD (Receptor-Binding Domain) → liga ACE2 com altíssima afinidade (Kd ~15 nM vs ~115 nM do SARS-CoV-1) - S2: domínio de fusão → medeia a fusão da membrana viral com a da célula hospedeira

  1. RBD de S1 → liga ao domínio extracelular de ACE2 (domínio similar à carboxipeptidase) → mudança conformacional
  2. TMPRSS2 (Transmembrane Serine Protease 2): serina protease expressa em pneumócitos tipo II e células nasais → cliva spike no sítio S2' → ativa o peptídeo de fusão → fusão de membrana e entrada direta (via plasmática, mais eficiente)
  3. Alternativa via endossomo: catepsina B/L lysosomal → cliva spike → permite entrada via endocitose

Variantes de SARS-CoV-2 e ACE2:

  • Omicron (BA.1, XBB.1.5, JN.1): mutações em RBD (mais de 30 mutações no spike) → afinidade aumentada por ACE2 E fuga imune de anticorpos anti-spike de variantes anteriores
  • A evolução do SARS-CoV-2 favorece mutações que aumentam a afinidade por ACE2 enquanto escapam imunidade → tensão seletiva dupla

Implicações clínicas de ACE2 no COVID-19:

  • Infecção → spike liga ACE2 → "secuestra" ACE2 → menos ACE2 disponível para converter Ang II → Ang II sobe → mais AT1 ativado → vasoconstrição, inflamação → agrava lesão pulmonar
  • Hipótese: "COVID-19 = lesão pulmonar por desregulação do RAAS local" (Imai et al., Nature 2005 originalmente para SARS-CoV)

TMPRSS2 como alvo terapêutico:

  • Camostat mesilato: inibidor de serina protease (de uso clínico no Japão para pancreatite) → inibe TMPRSS2 → bloqueia entrada de SARS-CoV-2 in vitro (Hoffmann et al., Cell 2020) → trials em COVID-19 (ACTIV-2): sem benefício clínico claro provavelmente por dose ou outros fatores

ACE2 solúvel recombinante:

  • hrsACE2 (human recombinant soluble ACE2): pode atuar como "decoy receptor" → liga spike circulante antes da célula → bloqueia entrada; também restaura Ang 1-7
  • APN01 (Apeiron Biologics): hrsACE2 — fase piloto em COVID-19 (APROCCHSS-like smaller) → mostrou reduziu carga viral mais rapidamente; estudos maiores em andamento

Interação IECA/BRA e COVID-19: mito ou realidade?

Controvérsia no início da pandemia: IECA e BRA aumentam expressão de ACE2 → teoricamente poderiam aumentar a vulnerabilidade ao SARS-CoV-2 → pacientes hipertensos (usuários de IECA/BRA) tinham maior mortalidade em COVID-19?

A questão foi respondida: estudos observacionais e ensaios clínicos não demonstraram que IECA/BRA aumentam gravidade de COVID-19:

  • BRACE CORONA trial (Brasil, 2021): pacientes hospitalizados com COVID-19 → suspender vs manter IECA/BRA: mesma mortalidade e desfechos clínicos
  • REPLACE COVID trial e várias meta-análises: IECA/BRA não aumentam mortalidade nem desfechos adversos em COVID
  • A confusão: pacientes hipertensos têm mais risco de COVID grave por HAS em si (e co-morbidades associadas), não por IECA/BRA

Recomendação: NÃO suspender IECA ou BRA em pacientes crônicos durante COVID-19 — guias da ACC, ESH, ESC e SBC

Expressão de ACE2 e proteção vs. suscetibilidade:

  • Aparentemente a expressão aumentada de ACE2 não aumenta o risco de COVID grave — possivelmente porque o eixo ACE2/Ang 1-7/Mas tem efeitos protetores pulmonares
  • Estrogênio aumenta ACE2 no pulmão → possível explicação de menor mortalidade por COVID em mulheres
  • Fumantes: redução de ACE2 nasal → mas pior desfecho de COVID (DPOC, inflamação crônica)

Anticorpos terapêuticos e vacinas — spike e ACE2:

  • Anticorpos monoclonais de neutralização (bamlanivimabe, casirivimabe/imdevimabe, bebtelovimab): ligam ao RBD → bloqueiam ligação ao ACE2 → neutralizam; perderam eficácia contra Omicron pois mutações no RBD evitam ligação
  • Vacinas de mRNA (Pfizer BioNTech, Moderna): codificam spike pré-fusão estabilizado → imunização contra RBD/S → anticorpos neutralizantes que bloqueiam ligação a ACE2 → proteção clínica

BPC-157 e peptídeos citoprotetores: proteção gastrointestinal via RAAS local

BPC-157 e o Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona Gastrointestinal:

O peptídeo de proteção gástrica BPC-157 (Body Protection Compound-157) é conhecido por seus efeitos reparadores no trato gastrointestinal, endotélio e músculo esquelético. A pesquisa emergente sugere interações com o sistema RAAS local e com ACE2/Ang 1-7:

  • BPC-157 e ECA2 gastrointestinal: o intestino delgado expressa abundantemente ACE2 (especialmente nos enterócitos do duodeno e jejuno); BPC-157 promove regeneração de enterócitos e pode modular a expressão de ACE2 local
  • NO (óxido nítrico): BPC-157 aumenta produção de NO via eNOS → vaso dilatação → cicatrização de mucosa; Ang 1-7 via Mas também aumenta NO → os dois sistemas convergem
  • Proteção contra lesão por AINES: BPC-157 demonstrou proteção contra lesão gástrica induzida por AAS e ibuprofeno; mecanismo parcialmente via upregulação de eNOS e estabilização da mucosa — convergente com efeitos anti-inflamatórios de Ang 1-7
  • BPC-157 e Ang 1-7 em modelo de ARDS: ambos (BPC-157 e Ang 1-7 exógeno) atenuam lesão pulmonar aguda em modelos animais — BPC-157 via estabilização de endotélio + redução de IL-6; Ang 1-7 via MAS + redução de NF-κB
  • Pesquisa em combinação: ainda experimental — dados de modelos animais sugerem efeitos aditivos de BPC-157 com Ang 1-7 em lesão intestinal inflamatória, mas estudos humanos não foram conduzidos

Outros peptídeos e ACE2:

  • Thymosin β4 (Tβ4): peptídeo de 43 aa de ação cardioprotetora — aumenta expressão de ACE2 em cardiomiócitos → proteção pós-IAM em modelos animais
  • Semaglutida (GLP-1): reduz inflamação sistêmica, melhora função endotelial → efeito adicional sobre RAAS; GLP-1 receptores co-localizam com ACE2 em pneumócitos

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Perguntas frequentes sobre ACE2 e SARS-CoV-2

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

ACE2 é a mesma coisa que ECA (enzima conversora de angiotensina)?+

Não — são enzimas relacionadas mas com funções opostas no sistema RAAS. ECA (ACE/ACE1): dipeptidil carboxipeptidase que remove 2 aminoácidos → converte Ang I → Ang II (pró-inflamatório, vasoconstritor) e degrada bradicinina. ACE2: monopeptidil carboxipeptidase que remove 1 aminoácido → converte Ang II → Ang 1-7 (vasodilatador, anti-inflamatório). IECA bloqueiam ACE1 → menos Ang II, mais bradicinina (tosse). Não existem inibidores de ACE2 aprovados — pelo contrário, aumentar ACE2 tem potencial terapêutico.

Long COVID tem relação com ACE2 e RAAS?+

A hipótese tem evidências crescentes. Proposta: infecção aguda por SARS-CoV-2 → spike sequestra ACE2 → desregulação crônica do RAAS local → persistência de Ang II elevada → inflamação crônica, disfunção endotelial, coagulação → sintomas de Long COVID (fadiga, neuroinflamação, disfunção autonômica). Estudos mostram que Long COVID está associado a autoanticorpos anti-RAAS (anti-AT1, anti-ACE2) que persistem meses. Ang 1-7 exógena (farmacêutica — em estudos) e IECA/BRA podem teoricamente restaurar o equilíbrio — sendo investigados em Long COVID (RECOVER trial da NIH inclui esses braços).

TMPRSS2 também está ligado ao câncer de próstata?+

Sim — curiosamente, TMPRSS2 no contexto da próstata ganhou destaque por outra razão: fusão TMPRSS2:ERG. Em ~50% dos cânceres de próstata, o promotor andrógeno-responsivo de TMPRSS2 se funde ao gene do fator de transcrição ERG → ERG é superexpresso por andrógenos → proliferação tumoral. Essa fusão é o rearranjo genômico mais frequente em CaP. A expressão de TMPRSS2 na próstata é regulada por andrógenos (AR) — o mesmo que regula o receptor de entrada viral na próstata e no pulmão (onde é menos dependente de AR). Isso levantou questões sobre se androgênios influenciam suscetibilidade à COVID-19 — alguns estudos preliminares sugerem correlação mas não causalidade.

Posso tomar suplementos de ACE2 para me proteger do COVID?+

Não existe suplemento oral de ACE2 disponível nem validado. ACE2 é uma proteína transmembrana e de grande tamanho molecular — não seria absorvida intacta por via oral. ACE2 solúvel recombinante (APN01) está sendo investigada como medicamento IV em estudos clínicos, não como suplemento. O que pode modular o eixo ACE2/Ang 1-7: IECA/BRA (aumentam expressão de ACE2 em uso crônico), exercício físico regular (modula RAAS favoravelmente), estatinas (efeito pleiótropico anti-inflamatório e sobre RAAS). Evitar tabagismo (que reduz ACE2 nasal).

Referências Científicas

  1. Hoffmann M, Kleine-Weber H, Schroeder S, et al. SARS-CoV-2 cell entry depends on ACE2 and TMPRSS2 and is blocked by a clinically proven protease inhibitor. Cell, 2020.
  2. Ferrario CM, Jessup J, Chappell MC, et al. Effect of angiotensin-converting enzyme inhibition and angiotensin II receptor blockers on cardiac angiotensin-converting enzyme 2. Circulation, 2005.
  3. Lopes RD, Macedo AVS, de Barros e Silva PGM, et al. (BRACE CORONA investigators) Effect of discontinuing vs continuing angiotensin-converting enzyme inhibitors and angiotensin II receptor blockers on days alive and out of the hospital in patients admitted with COVID-19. JAMA, 2021.
  4. Donoghue M, Hsieh F, Baronas E, et al. A novel angiotensin-converting enzyme-related carboxypeptidase (ACE2) converts angiotensin I to angiotensin 1-9. Circ Res, 2000.
  5. Walls AC, Park YJ, Tortorici MA, Wall A, McGuire AT, Veesler D Structure, function, and antigenicity of the SARS-CoV-2 spike glycoprotein. Cell, 2020.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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