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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 11 min de leitura

Progesterona, receptor PR e progestinas: anticoncepcionais hormonais, DIU de levonorgestrel e terapia hormonal

Progesterona ativa receptor PR-A/PR-B nucleares — essencial para implantação, gestação e ciclicidade menstrual. Progestinas sintéticas são usadas em anticoncepcionais combinados, minipílulas, DIU Mirena e terapia hormonal. Mifepristona (RU-486) bloqueia PR.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Síntese e fisiologia da progesterona

Progesterona — pregnano-esteróide C-21; hormônio de gestação e segunda metade do ciclo menstrual:

Síntese:

  • Corpo lúteo (fase lútea, após ovulação): progesterona 15-30 ng/mL — prepara endométrio para implantação; mantida pelo HCG trofoblástico na gestação inicial
  • Placenta (2ª metade da gestação): substitui o corpo lúteo como fonte principal → progesterona 100-200 ng/mL no 3º trimestre
  • Adrenal: pequena quantidade de progesterona (e precursor de outros esteroides)
  • SNC (neuroesteroides): neurônios e glia sintetizam progesterona localmente → alopregnanolona (3α-redução → agonista GABA-A — sedação, anxiolítica)

Progesterona vs Progestinas:

  • Progesterona natural/bioidêntica (P4): a própria molécula fisiológica; Utrogestan®/Prometrium® = cápsulas de progesterona micronizada em óleo
  • Progestinas (progestagênios sintéticos): moléculas que ativam o receptor PR mas com estruturas diferentes e perfis de seletividade variados

Gerações de progestinas e seus efeitos colaterais androgênicos:

  • 1ª geração (derivados de 19-nortestosterona): noretisterona (NET, nomeada como norgestrel) — atividade androgênica maior, usado em pílulas antigas
  • 2ª geração: levonorgestrel (LNG) — androgenicidade moderada; usado em pílulas, DIU Mirena, pílula do dia seguinte
  • 3ª geração: gestodeno, desogestrel, norgestimato — menos androgênicos, mais progestogênicos; usados em pílulas combinadas atuais
  • 4ª geração: drospirenona (derivada da espironolactona) — anti-androgênica + anti-mineralocorticoide (menos retenção de líquidos, pode ↑ K⁺); nomogestrol acetato, dienogest (anti-androgênico — útil em endometriose, acne, SOP)

Fisiologia da progesterona:

  • Prepara endométrio secretor (pré-decídua) para implantação
  • Mantém gestação (suprime contrações uterinas, mantém plug cervical, imunotolerância fetal)
  • Termogênese: eleva temperatura basal (0.2-0.5°C) — base do método de tabela/temperatura para contracepção
  • SNC: anxiolítica e sedativa via alopregnanolona (modulação positiva de GABA-A → Brexanolona/SAGE-217 = alopregnanolona sintética IV para depressão pós-parto e SAGE-217 oral para TDM)

Receptor de Progesterona (PR): isoformas e mecanismo

Receptor de Progesterona (PR / NR3C3) — membro da superfamília de receptores nucleares (Classe I):

Isoformas:

  • PR-A (menor, 83 kDa): expressão ubíqua; pode inibir a atividade transcricional de PR-B e ER-α
  • PR-B (maior, 120 kDa): transcrivamente mais ativo; promove proliferação e diferenciação
  • Razão PR-A:PR-B varia por tecido e ciclo — crucial para resposta biológica final

Mecanismo genômico:

  1. P4 liga ao LBD de PR → dissociação de HSP90/70 → dimerização
  2. Dímero transloca para núcleo → liga PREs (Progesterone Response Elements — similar a GREs: 5'-GGTACA n3 TGTTCT-3')
  3. Coativadores SRC, AIB1 → ativação de genes

Genes-alvo do PR:

  • Endométrio: IGFBP-1 (marcador de diferenciação), genes anti-proliferativos (contrapõe E2), glicogênio (nutrição embrionária)
  • Mama: genes de diferenciação, inibição de mitoses (contrapõe ER-α em combinação com E2)
  • Hipotálamo: retroalimentação negativa sobre GnRH (responsável pela supressão do eixo LH/FSH pelos anticoncepcionais)
  • Útero (miométrio): bloqueio de receptor de ocitocina → suprime contrações

PR como fator prognóstico/preditivo no câncer de mama:

  • CA mama ER+/PR+: melhor prognóstico, mais sensível a hormonioterapia
  • CA mama ER+/PR-: pior prognóstico, mais provável de ter resistência de PI3K/AKT/mTOR (ativação alternativa)
  • PR+ é marcador de ER funcional (ER ativa o gene do PR)

Sinalização não-genômica:

  • PR em membrana → ativa Src, MAPK, PI3K rapidamente
  • Efeitos neuroprotores e em sinapses (via alopregnanolona)

Receptor de Progesterona Membranoso (PGRMC1, PGRMC2): família distinta de proteínas de membrana que ligam progesterona — papel em ovócito, oogênese, angiogênese tumoral

Anticoncepcionais hormonais: mecanismo e classificação

Mecanismo de ação dos anticoncepcionais hormonais:

  1. Supressão do pico de LH → inibição da ovulação (principal mecanismo dos ACO combinados)
  2. Espessamento do muco cervical → impede penetração espermática (principal de mini-pílula e DIU)
  3. Atrofia endometrial → ambiente desfavorável para implantação
  4. Inibição da peristalse tubária (secundário)

Anticoncepcionais Combinados (ACC — Estroprogestínicos):

  • Contêm EE (Etinilestradiol) ou E4 (Estetrol) + progestina
  • Pílulas monofásicas (dose constante) ou bifásicas/trifásicas (dose variável)
  • Vias: oral, transdérmica (adesivo Evra®), anel vaginal (NuvaRing® — EE+etonogestrel)
  • Contraindicações absolutas (WHOMEC 4): TVP/TEP atual ou histórico, hipertensão grave (>160/100), tabagismo >35 anos, enxaqueca com aura, DM com complicações vasculares, amamentação <6 semanas, câncer de mama, hepatopatia grave
  • EE aumenta SHBG (menos testosterona livre → melhora acne) e fatores de coagulação (II, VII, X → ↑ TEV)
  • Vantagens não-contraceptivas: redução de cólica (dismenorreia), sangramento, anemia; proteção contra CA ovariano e endometrial; melhora de acne, SOP e endometriose

Minipílula (Progestina Isolada):

  • Levonorgestrel, desogestrel (maior inibição ovulatória), norgestimate
  • Indicadas em: amamentação, contraindicações a estrogênio, HAS, tabagismo
  • Desogestrel 75 μg/dia (Cerazette®): alta taxa de inibição ovulatória; tolerância de 12h de atraso na toma
  • Drospirenona 4 mg (Slinda®): anti-androgênica, sem EE → útil em quem não tolera estrogênio

Pílula do dia seguinte (contracepção de emergência):

  • Levonorgestrel 1.5 mg (dose única até 72h, ou 2×0.75 mg) — inibe/atrasa ovulação; não é abortifaciente
  • Acetato de ulipristal (EllaOne®): antagonista parcial de PR → eficaz até 120h; levemente superior ao LNG no dia 3-4
  • DIU de cobre: inserção até 120h → >99% de eficácia (mecanismo espermicida e anti-implantação)

DIU de Levonorgestrel (Mirena® 52 mg, Kyleena® 19.5 mg, Jaydess® 13.5 mg):

  • Libera LNG localmente no útero → muco cervical espesso + endométrio atrófico
  • Duração: 3-8 anos; eficácia >99.8%
  • Ausência de sistemia significativa → pode usar em HAS, amamentação
  • Benefício adicional: reduz sangramento (tratamento de menorragia, endometriose, adenomiose)

Mifepristona e antiprogesterona; progesterona na gestação e depressão pós-parto

Mifepristona (RU-486, Mifegyn®, Mifeprex®):

  • Antagonista competitivo de PR (e GR, em doses altas)
  • Bloqueia progesterona → prepara o útero para contração (suprime o efeito tocolítico da P4)
  • Usada com misoprostol (análogo da PGE1) para:

- Interrupção médica da gestação até 9-10 semanas: mifepristona 200 mg VO d0 → misoprostol 800 μg vaginal ou sublingual d1-2; eficácia 95-98% - Maturação cervical pré-parto em gestações inviáveis

  • Síndrome de Cushing (Korlym® 300 mg/dia): bloqueia GR → controla hiperglicemia/DM2 causada pelo hipercortisolismo (não reduz cortisol, mas bloqueia receptor)
  • Leiomioma uterino e endometriose: mifepristona em baixas doses reduz miomas

Ulipristal Acetato (Esmya® — para miomas):

  • Modulador seletivo de receptor de progesterona (SPRM) — agonista/antagonista parcial dependente do tecido
  • 5 mg/dia por até 3 meses pré-cirurgia de mioma → redução de volume e controle de sangramento
  • Suspensão na UE por hepatotoxicidade rara (4 casos de transplante hepático) — retirado do mercado EU em 2020 (revisão EMA); disponível em alguns países com monitoramento rigoroso

Progesterona e manutenção da gestação:

  • Insuficiência lútea: suplementação de P4 vaginal (Utrogestan®, Crinone®) nas primeiras 12-16 semanas
  • Ameaça de aborto com evidência ecográfica de vitalidade: meta-análise EPPPIC (2021) — progesterona vaginal 400 mg 2x/dia reduz risco de aborto em sangramento do 1º trimestre
  • Pré-termo em risco: progesterona vaginal (200 mg) ou IM (17-OHPC) — dados mistos; meta-análises recentes questionam eficácia do 17-OHPC IM

Brexanolona (Zulresso® — SAGE Therapeutics) e Zuranolona (Zurzuvae®):

  • Alopregnanolona (neuroesteroide, metabólito da progesterona) ou análogo oral
  • Brexanolona: modulador alostérico positivo de GABA-A → IV infusão 60h → depressão pós-parto (DPP) — FDA aprovado 2019; 1º medicamento aprovado especificamente para DPP
  • Zuranolona: análogo oral → aprovado FDA 2023 para DPP (14 dias de tratamento) e TDM; efeito rápido (dias vs semanas dos ISRSs)

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Perguntas frequentes sobre progesterona e anticoncepcionais

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Qual o risco real de trombose com anticoncepcionais orais?+

Os ACO combinados aumentam o risco de TVP/TEP — o risco depende da progestina e da dose de EE. Risco basal de TVP em mulheres férteis sem ACO: ~5-10 por 100.000/ano. Com ACO de 2ª geração (levonorgestrel): ~20-40 por 100.000/ano. Com ACO de 3ª/4ª geração (gestodeno, desogestrel, drospirenona): ~50-80 por 100.000/ano. Na gravidez: 100-200 por 100.000. Em persepctiva: risco muito menor que o da própria gestação. O mecanismo: EE ativa fatores de coagulação e reduz proteína S. Trombofilia hereditária (Fator V Leiden, Protrombina G20210A) + ACO = risco sinérgico muito alto.

Anticoncepcionais afetam permanentemente a fertilidade?+

Não — a fertilidade retorna aos níveis basais após suspensão dos ACO. No entanto, o retorno pode ser gradual: pílulas combinadas levam 1-3 ciclos para normalização completa do eixo HPO; injetável trimestral (DMPA/Depo-Provera) pode levar 6-12 meses. DIU hormonal: fertilidade retorna quase imediatamente após remoção. Implante subdérmico: retorno também rápido após remoção. Estudos de coorte mostram que taxas de gestação em 12 meses são similares a mulheres que nunca usaram anticoncepcionais.

A progesterona micronizada (Utrogestan) é diferente da progestina sintética do DIU?+

Sim — são moléculas e perfis diferentes. Progesterona micronizada (P4 = molécula idêntica à endógena): metabolizada em alopregnanolona (neurosteróide sedativo), sem efeitos androgênicos, metabolismo hepático → preferida na terapia hormonal da menopausa (combinada com E2 transdérmico = perfil de risco mais favorável). Levonorgestrel (progestina sintética do DIU/pílulas): derivado da 19-nortestosterona, atividade androgênica leve, não vira alopregnanolona, ação local (DIU) ou sistêmica baixa (minipílula).

O que é a pílula do dia seguinte e ela é abortiva?+

Levonorgestrel 1.5 mg (Postinor®, Plan B®) e ulipristal acetato (EllaOne®) agem principalmente inibindo ou atrasando a ovulação — se tomadas antes do pico de LH, evitam a ovulação completamente. Se tomadas após a ovulação, têm eficácia mínima (não impedem implantação de forma comprovada nos estudos). Elas não interrompem gestações estabelecidas (ciclo já implantado). O ponto regulatório varia: no Brasil, o Conselho Federal de Medicina não classifica como abortiva; a OMS e FDA também não. Distinção importante: mifepristona + misoprostol são medicamentos abortivos que interrompem gestações estabelecidas.

Referências Científicas

  1. Graham JD, Clarke CL Physiological action of progesterone in target tissues. Endocr Rev, 1997.
  2. Bixo M, Johansson M, Timby E, Michalski L, Bäckström T Effects of GABA active steroids in the female brain with a focus on the premenstrual dysphoric disorder. J Neuroendocrinol, 2018.
  3. Mäkinen JI, Jukkola A, Heinonen PK Progesterone receptors in gynecological conditions. Maturitas, 2008.
  4. Mody SK, Farala JP, Jimenez B, Nishikawa M, Ngo LL Pausing oral contraceptives during breastfeeding: a systematic review. Contraception, 2018.
  5. van der Linden M, Buckingham K, Farquhar C, Kremer JA, Metwally M Luteal phase support for assisted reproduction cycles. Cochrane Database Syst Rev, 2015.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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