Dor neuropática — fisiopatologia, classificação e abordagem farmacológica geral
Dor neuropática: dor causada por lesão ou doença do sistema nervoso somatossensorial (central ou periférico), com características específicas que a diferenciam da dor nociceptiva:
- Características clínicas: queimação, choque elétrico, agulhadas, formigamento (parestesias), dormência com dor; alodinia (dor com estímulo normalmente não-doloroso, como leve toque) e hiperalgesia (dor exagerada a estímulo levemente doloroso)
- Etiologias comuns: neuropatia diabética periférica, neuralgia pós-herpética (zona zóster), neuropatia por quimioterapia (neuropatia induzida por cisplatina, paclitaxel, oxaliplatina, bortezomibe), lesão medular, neuralgia do trigêmeo, dor do membro fantasma, fibromialgia (dor centralizada)
Fisiopatologia da dor neuropática (bases para o tratamento):
- Sensibilização periférica: dano a axônios → expressão anormal de canais de Na+ (Nav1.7, Nav1.8 — subtipos periféricos) e de canais de Ca²+ voltagem-dependentes (VGCC com subunidade α2δ) nos nociceptores → disparos espontâneos + limiar de ativação reduzido = alodinia
- Sensibilização central (wind-up): ativação repetida de neurônios da medula espinal → facilitação progressiva → ↑liberação de glutamato → ativação de receptores NMDA → ↑cálcio pós-sináptico → facilitação de longo prazo; base da fibromialgia e dor central
- Redução de controle inibitório descendente: axônios noradrenérgicos e serotonérgicos da rafe e do locus coeruleus inibem a transmissão de dor no corno dorsal → danos a esses sistemas → menos inibição → mais dor
Escada analgésica da OMS para dor neuropática (diferente da dor nociceptiva):
- Os opioides clássicos têm eficácia LIMITADA na dor neuropática (ao contrário de dor nociceptiva onde são muito eficazes) — mecanismos são diferentes
- 1ª linha para dor neuropática: gabapentinoides (pregabalina, gabapentina) + ISRSN (duloxetina, venlafaxina) + ATCs (amitriptilina, nortriptilina)
- 2ª linha: lidopoches tópicos (lidocaína), capsaicina de alta concentração (8%)
- 3ª linha: tramadol, opioides fortes (com ressalvas), buprenorfina
- Não-farmacológicos: TENS (estimulação elétrica), acupuntura, psicoterapia (TCC para dor)
Meta-análise de referência (Finnerup 2015, Lancet Neurol): hierarquia de tratamentos para dor neuropática periférica com NNT (Number Needed to Treat para redução ≥50% da dor): ATCs NNT ~3.6, SNRIs NNT ~6.4, gabapentinoides NNT ~7.7, lidocaína tópica NNT ~4.0, opioides NNT ~4.3
Pregabalina e gabapentina — gabapentinoides: mecanismo, diferenças e usos clínicos
Mecanismo dos gabapentinoides (pregabalina e gabapentina):
- Ambos são análogos estruturais do GABA mas NÃO agem em receptores GABA (apesar do nome)
- Alvo real: subunidade α2δ (alpha-2-delta) dos canais de cálcio voltagem-dependentes (VGCC) do tipo N e P/Q, presentes em neurônios sensoriais periféricos e na pré-sinapse do corno dorsal
- Bloqueio de α2δ → ↓abertura de canais de Ca²+ → ↓influxo de Ca²+ pré-sináptico → ↓liberação de neurotransmissores excitatórios (glutamato, substância P) → redução da transmissão de dor
- Também reduzem a expressão aumentada de subunidades α2δ que ocorre em dor crônica (downregulation terapêutica)
- Nota: subunidade α2δ é DIFERENTE dos canais L-type (bloqueados por bloqueadores de Ca²+ cardíacos como amlodipina, verapamil) → gabapentinoides NÃO têm efeito cardiovascular
Gabapentina (Neurontin® — Pfizer; genérico amplamente):
- Farmacocinética NÃO-LINEAR: absorção intestinal via transportador L-amino-ácido saturável → absorção depende da dose (50-60% de biodisponibilidade com 300 mg cai para ~30-35% com 1600 mg) → doses altas não dobram o efeito
- Sem metabolismo hepático; excreção renal inalterada → ajuste rigoroso em IR
- Doses: iniciar 100-300 mg 3x/dia → aumentar a cada 1-3 dias → alvo 900-3600 mg/dia em 3 tomadas (3x ao dia obrigatório pela meia-vida curta ~5-7h)
- Indicações aprovadas: neuropatia diabética, neuralgia pós-herpética, epilepsia (adjuvante para crises parciais); off-label: fibromialgia, ansiedade, abstinência de álcool, dor pós-operatória
- Efeitos adversos: sonolência e tontura (dose-dependentes, especialmente no início — aumentar gradualmente), ataxia, ganho de peso, edema periférico, distúrbio cognitivo em idosos
Pregabalina (Lyrica® — Pfizer; genérico aprovado):
- Farmacologicamente superior à gabapentina em vários aspectos:
- Absorção linear e mais alta (~90% biodisponibilidade oral, independente da dose) — farmacocinética mais previsível - Meia-vida ~6h mas pode ser usada em 2 doses/dia (diferente da gabapentina que precisa ser 3x/dia) - Início de efeito analgésico mais rápido (1ª semana vs 2-4 semanas da gabapentina em muitos estudos)
- Doses: iniciar 75 mg 2x/dia → aumentar conforme tolerância → 150-300 mg 2x/dia (300-600 mg total/dia) para maioria; máximo: 600 mg/dia (doses acima de 600 mg/dia não aumentam eficácia)
- Indicações aprovadas: neuropatia diabética periférica, neuralgia pós-herpética, fibromialgia, neuropatia da lesão medular; epilepsia (adjuvante)
- Efeitos adversos: similares à gabapentina (sonolência, tontura, ganho de peso, edema); potencial de abuso (pregabalina tem potencial de euforia em doses altas → classificada como Classe V nos EUA, e regulada mais rigorosamente em vários países europeus)
- ATENÇÃO: Pregabalina + opioides + benzodiazepínicos = risco aumentado de depressão respiratória e morte; combinação requer cautela
Quando preferir pregabalina vs gabapentina:
- Pregabalina: inicio de ação mais rápido necessário; melhor adesão (2x/dia vs 3x/dia); neuropatia pós-herpética aguda; fibromialgia
- Gabapentina: custo muito mais baixo (genérico muito barato); epilepsia pediátrica (mais dados); dor pós-operatória aguda
- Efficacy: comparáveis quando ajustadas para doses equieficazes
Capsaicina (TRPV1) e lidocaína IV para dor neuropática refratária
Capsaicina tópica (Capsico® — Johnson & Johnson; Zostrix® HP 0.075% — genérico; Qutenza® 8% — adesivo de alta dose):
Mecanismo elegante via TRPV1:
- Capsaicina (composto ativo da pimenta) → ativa receptor TRPV1 (Transient Receptor Potential Vanilloid 1) — o receptor do calor e da acidez; canal catiônico não-seletivo em nociceptores C e Aδ
- Aplicação contínua ou de alta dose → dessensibilização de TRPV1: no início, TRPV1 é ativado → influxo de cálcio → depleção de substância P dos terminais nervosos; com exposição contínua → TRPV1 inativa irreversivelmente (por processo chamado defunctionalization) → nociceptores ficam insensíveis temporariamente → analgesia (sem destruição permanente do nervo)
- O nervo pode regenerar normalmente após semanas-meses, mas a analgesia pode persistir enquanto a regeneração não é completa
Formulações:
- Creme/gel de baixa concentração (0.025-0.075%): uso domiciliar 3-4x/dia; queimação intensa nas primeiras semanas de uso → melhora gradualmente conforme TRPV1 é dessensibilizado; 4-8 semanas para efeito analgésico; orientar que a queimação NÃO é dano tissular real e que é esperada
- Adesivo de alta concentração 8% (Qutenza® — Grünenthal): aplicação única de 30-60 min em clínica, sob supervisão; aplicação de anestésico local antes para tolerar; proporciona alívio por 12 semanas após uma única aplicação; especialmente para neuralgia pós-herpética (PHN) e neuropatia HIV
- Indicações: neuralgia pós-herpética, neuropatia diabética, dor musculoesquelética regional (artralgia de pequenas articulações), dor oncológica neuropática
Lidocaína tópica (adesivo de lidocaína 5% — Lidoderm® / Versatis® — Teikoku/Grünenthal):
- Aplica-se 1-3 adesivos sobre área dolorosa por 12h/dia (12h com / 12h sem)
- Bloqueia canais de Na+ nos nociceptores locais → reduz disparos ectópicos periféricos
- Absorção sistêmica mínima → poucos efeitos adversos sistêmicos; local: irritação de pele leve
- Indicações: neuralgia pós-herpética (PHN) → 1ª linha em muitos países; dor musculoesquelética localizada; dor pós-cirúrgica em cicatriz
Lidocaína IV para dor neuropática crônica refratária:
- Infusão IV de lidocaína em doses sub-anestésicas: 1-5 mg/kg em 30-60 min (tipicamente 1-1.5 mg/kg → 100-200 mg para um adulto de 70 kg)
- Mecanismo: bloqueia canais de Na+ tanto na periferia quanto centralmente (lidocaína atinge SNC); reduz sensibilização central
- Evidências moderadas para: neuropatia diabética periférica refratária, fibromialgia refratária, síndrome de dor regional complexa (SDRC/CRPS), dor neuropática central (lesão medular, pós-AVC)
- Uso em contexto de clínica de dor especializada — não é tratamento de rotina; efeito pode persistir por semanas após a infusão
- Mexiletina oral: análogo oral da lidocaína para uso crônico; disponível nos EUA (off-label para dor); menos disponível no Brasil
Tramadol (Tramal® — Grunenital; genérico):
- Mecanismo duplo: (1) agonista fraco de receptores opioides μ; (2) inibidor de recaptação de NE e 5-HT (efeito ISRSN fraco)
- Eficácia em dor neuropática: moderada; pode ser útil quando gabapentinoides e ATCs falham
- Doses: 50-100 mg a cada 4-6h (liberação imediata) ou 100-300 mg/dia (liberação prolongada)
- Conversão em O-desmetiltramadol (M1) via CYP2D6 → M1 tem atividade opioide principal; metabolizadores lentos (CYP2D6 PM) têm menos efeito analgésico; metabolizadores ultrarrápidos têm mais toxicidade opioide
- Efeitos adversos: náusea, tonturas, constipação; convulsões (risco em epilepsia, ao combinar com ISRS — síndrome serotonérgica, ao combinar com ATC); potencial de abuso (opioides); síndrome de serotonina quando combinado com antidepressivos serotonérgicos
- CONTRAINDICADO com IMAO (fenelzina, tranilcipromina) — risco de síndrome serotonérgica grave
- Evitar em epilepsia (reduz limiar convulsivo)