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← Blog·peptideos04 de julho de 2026· 13 min de leitura

Penicilinas, cefalosporinas e carbapenêmicos — antibióticos β-lactâmicos: mecanismo de inibição da PBP, gerações de cefalosporinas, ESBL e carbapenemase

β-lactâmicos inibem a transpeptidase/PBP (proteína ligadora de penicilina) — enzima que forma as ligações cruzadas de peptidoglicano na parede bacteriana → lise osmótica. Penicilinas (amoxicilina/piperacilina) cobrem Gram-positivos e alguns Gram-negativos. Cefalosporinas de 1ª-5ª geração ampliam espectro. Carbapenêmicos (imipenem/meropenem) são de amplo espectro. ESBL e carbapenemases são os principais mecanismos de resistência.

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Parede celular bacteriana e o mecanismo dos β-lactâmicos

Parede celular bacteriana — a estrutura essencial do alvo dos β-lactâmicos:

  • A parede celular bacteriana é composta por peptidoglicano (mureína): polímero de NAM (N-acetilmuramato) e NAG (N-acetilglucosamina) alternados, conectados por cadeias laterais de pentapeptídeos; essas cadeias são ligadas transversalmente (cross-linked) por transpeptidases (= PBPs — Penicillin-Binding Proteins) → formam uma malha rígida que resistem à pressão osmótica interna (que seria 5-20 atm em bactérias Gram-positivas) e mantêm a forma bacteriana
  • Bactérias Gram-positivas: parede espessa de peptidoglicano (múltiplas camadas, 30-100 nm) na face externa; SEM membrana externa
  • Bactérias Gram-negativas: camada de peptidoglicano FINA (única camada, 5-10 nm) entre a membrana interna (citoplásmica) e a membrana externa (contém LPS — lipopolissacarídeo → endotoxina; e porinas que formam canais para nutrientes e antibióticos)
  • Síntese do peptidoglicano: ocorre em 3 fases: citoplásmica (síntese dos precursores UDP-NAM-pentapeptídeo e UDP-NAG), na membrana (transportador lipídico = bactoprenol; formação de unidades monoméricas); na face extracelular: transpeptidase / PBP realiza a transpeptidação — reação onde o D-Ala-D-Ala terminal do pentapeptídeo é cortado e a serina do sítio ativo da PBP ataca covalentemente → ligação cruzada entre as cadeias → estrutura rígida

Mecanismo dos β-lactâmicos:

  • O anel β-lactama mimetiza estruturalmente o substrato normal da PBP (o D-Ala-D-Ala): a serina do sítio ativo da PBP ataca covalentemente o carbonil do anel β-lactama → forma um complexo acil-enzima ESTÁVEL (ao contrário do substrato normal que é rapidamente hidrolisado → o β-lactama TRAVA a PBP de forma prolongada) → PBP inativada → sem síntese de novas ligações cruzadas → parede enfraquecida → lise osmótica (quando a bactéria tenta se dividir, a parede nova é fraca → pressão osmótica interna → explosão → morte)
  • Bactericidas: β-lactâmicos são bactericidas (matam a bactéria); dependentes de tempo (T>MIC — o tempo em que a concentração livre supera a MIC é o preditor de eficácia — não o pico); infusão prolongada ou contínua de carbapenêmicos e piperacilina-tazobactam melhora a eficácia farmacêutica por maximizar T>MIC
  • β-lactâmicos NÃO são eficazes em: Mycobacterium tuberculosis (parede com alto teor de ácidos micólicos em vez de peptidoglicano acessível); micoplasmas e ureaplasmas (sem parede celular); bactérias intracelulares (os β-lactamas não penetram bem intracelularmente)

Resistência bacteriana aos β-lactâmicos — mecanismos:

  1. β-lactamases: enzimas que hidrolisam o anel β-lactama antes de chegar à PBP; TEM, SHV (em Gram-negativos); ESBL (Extended-Spectrum β-Lactamase — hidrolisam penicilinas E cefalosporinas de 3ª/4ª geração → resistência ampla); Carbapenemases (KPC, NDM, OXA, VIM, IMP — hidrolisam também carbapenêmicos = resistência a quase todos os β-lactâmicos)
  2. Alteração de PBP: MRSA (S. aureus resistente à meticilina) tem PBP2a (gene mecA) com baixa afinidade por todos os β-lactâmicos → resistência completa à classe; PRSP (S. pneumoniae) → PBPs modificadas; Enterococcus resistente (pbp5 de alta afinidade reduzida)
  3. Redução de permeabilidade: perda de porinas nos Gram-negativos → β-lactâmico não consegue atravessar membrana externa
  4. Bombas de efluxo: expulsam ativamente o antibiótico da bactéria

Penicilinas, inibidores de β-lactamase, cefalosporinas e carbapenêmicos

PENICILINAS:

Penicilina G e Penicilina V:

  • Penicilina G (Benzetacil® — EMS; genérico): injetável (IM, IV); Benzilpenicilina benzatina (Benzetacil® 1.2 MUI IM) = penicilina de depósito → IM → liberação lenta por semanas; indicação ÚNICA: faringite estreptocócica (profilaxia de febre reumática), sífilis, erisipela
  • Penicilina V (Pen-Ve-Oral® — genérico): oral, ácido-estável; faringite estreptocócica
  • Espectro estreito: principalmente Gram-positivos (Streptococcus, Treponema pallidum); S. aureus (produtores de penicilinase: > 95% hoje)

Aminopenicilinas — Amoxicilina e Ampicilina:

  • Amoxicilina (Amoxil® — GSK; genérico): oral 500-875 mg 3x/dia ou 1g 2x/dia; espectro estendido para alguns Gram-negativos (E. coli comunitária sensível, Haemophilus influenzae sensível, Salmonella); indicações: otite média, sinusite bacteriana, pneumonia comunitária leve, faringite estreptocócica, H. pylori (triple terapia)
  • Ampicilina (genérico): IV equivalente à amoxicilina; meningite por Listeria (ampicilina + gentamicina); enterococos sensíveis
  • Amoxicilina + clavulanato (Augmentin® — GSK; Clavulin® — GSK; Amoxil BD® — GSK; genérico): IBLQ (Inibidor de β-Lactamase) clavulanato inibe irreversivelmente β-lactamases TEM e SHV → restaura atividade da amoxicilina contra produtores de β-lactamase; espectro: S. aureus produtor de penicilinase, Haemophilus, Moraxella, anaeróbios da orofaringe → indicações: sinusite bacteriana, DPOC exacerbada, mordedura de animal, celulite
  • Ampicilina + sulbactam (Unasyn® — Pfizer; genérico): IV; sulbactam inibe β-lactamases + tem atividade intrínseca contra Acinetobacter; indicações: infecções intra-abdominais, infecções de pele/partes moles

Penicilinas anti-Pseudomonas:

  • Piperacilina-tazobactam (Pip-Tazo, Tazocin® — Pfizer; genérico): 4,5 g IV a cada 6h (ou infusão prolongada 4h para otimizar T>MIC); tazobactam inibe β-lactamases TEM/SHV (mas NÃO ESBL e NÃO carbapenemases); espectro: Gram-positivos + Gram-negativos incluindo Pseudomonas aeruginosa e anaeróbios (Bacteroides fragilis); indicações: pneumonia hospitalar, infecções intra-abdominais graves, sepse de foco urinário, infecções de pele e partes moles necrotizantes
  • Ticarcilina-clavulanato: similar, pouco usado

CEFALOSPORINAS (evolução por geração):

1ª Geração (cefazolina IV, cefalexina VO): principalmente Gram-positivos (S. aureus MSSA, Streptococcus) + alguns Gram-negativos (E. coli, Klebsiella, Proteus mirabilis comunitários); indicação: profilaxia cirúrgica (cefazolina 1-2g IV 30-60 min antes da incisão); infecções de pele e partes moles; infecções do trato urinário comunitárias (cefalexina)

2ª Geração (cefuroxima, cefoxitina, cefaclor): melhor cobertura de Gram-negativos que 1ª geração; cefoxitina (cefamicina → estruturalmente modificada → estável contra cefalosporinases) cobre anaeróbios (Bacteroides fragilis) → cirurgia abdominal

3ª Geração (ceftriaxona IV, cefotaxima IV, ceftazidima IV, cefdinir VO, cefixima VO):

  • Ótima cobertura de Gram-negativos; ceftazidima cobre Pseudomonas
  • Ceftriaxona (Rocefin® — Roche; genérico): 1-2 g IV/IM 1x/dia (meia-vida 8h); biliar como principal via de eliminação (pode ser usada em IR sem ajuste); indicações: pneumonia comunitária hospitalizada, meningite bacteriana (+ dexametasona), gonorréia (dose única 500 mg IM), celulite grave, infecção de trato urinário complicada, febre tifóide, doença de Lyme, sepse de foco urinário e abdominal (sem Pseudomonas)

4ª Geração (cefepima IV): cobre Pseudomonas + Gram-positivos + ESBL parcialmente (debate); 1-2 g IV a cada 8-12h; pneumonia hospitalar, sepse, neutropenia febril

5ª Geração (ceftarolina, ceftolozano-tazobactam, ceftazidima-avibactam):

  • Ceftarolina (Teflaro® — EUA): cobre MRSA (liga-se à PBP2a com alta afinidade!) + MSSA + Gram-negativos; pneumonia comunitária grave, infecções de pele
  • Ceftolozano-tazobactam (Zerbaxa® — MSD): excelente cobertura de Pseudomonas MDR (multidrug resistant) incluindo ESBL producers; não cobre carbapenemase-produtores; pneumonia por Pseudomonas, infecções urinárias complicadas
  • Ceftazidima-avibactam (Avycaz® — Pfizer): avibactam inibe KPC, OXA, ESBL mas NÃO NDM (metalo-β-lactamase); cobertura de carbapenemase KPC-produtores; última reserva em Enterobacterales KPC e Pseudomonas MDR

CARBAPENÊMICOS (amplo espectro):

  • Estrutura: anel β-lactama + sistema bicíclico modificado → resistentes às β-lactamases comuns + ESBLs; NÃO resistentes às carbapenemases (KPC, NDM, OXA, VIM, IMP)
  • Espectro: virtualmente todos os Gram-positivos (exceto MRSA, Enterococcus resistente) + todos os Gram-negativos (exceto MRSA) + anaeróbios; considerados o último recurso para infecções graves
  • Imipenem-cilastatina (Tienam® — MSD; genérico): cilastatina inibe a desidrogenase renal que degradaria o imipenem nos túbulos → mantém nível urinário ativo; espectro levemente mais ativo contra Gram-positivos; desvantagem: provoca convulsões (especialmente em dose alta ou IR — reação do imipenem com GABA-A nos neurônios) → limitar em neurológicos
  • Meropenem (Meronem® — AstraZeneca; genérico): sem potencial convulsivante; espectro similar ao imipenem; preferido em meningite (imipenem contraindicado por convulsões)
  • Ertapenem (Invanz® — MSD): 1x/dia (meia-vida longa); NÃO cobre Pseudomonas ou Acinetobacter; bom para ESBL-produtores comunitários (E. coli, Klebsiella); Infecções comunitárias complicadas sem Pseudomonas
  • Doripenem: similar ao meropenem; menor potencial convulsivante
  • Combinações com novos inibidores de β-lactamase: meropenem-vaborbactam (Vabomere®), imipenem-cilastatina-relebactam (Recarbrio®): cobrem carbapenemase KPC; meropenem-imipenem + ceftazidima-avibactam ou aztreonam: para NDM (metalo-carbapenemase que avibactam não inibe, mas aztreonam — azeonam não é hidrolisado por NDM → combinação com inibidor ESBL)
  • Tigeciclina (Tygacil® — Pfizer): glicilciclina (derivado da minociclina); bacteriostático; cobertura pan-resistente (MRSA, Enterococcus resistente, ESBL, Acinetobacter MDR); NÃO indicado em bacteremia (penetração tissular excessiva, baixo nível sérico) e NÃO para pneumonia (pior outcomes no trial vs comparadores); reserva para infecções de partes moles e intra-abdominais sem bacteremia

Perguntas frequentes sobre antibióticos β-lactâmicos

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Alergia à penicilina descarta o uso de cefalosporinas?+

Não necessariamente — a reatividade cruzada entre penicilinas e cefalosporinas é muito menor do que se pensava historicamente. A estimativa antiga de 10% de reatividade cruzada era baseada em dados de baixa qualidade e está desatualizada. Dados atuais: a reatividade cruzada é de aproximadamente 1-2% entre penicilinas e cefalosporinas, e é mais associada à cadeia lateral R1 (não ao anel β-lactama em si). Orientação prática: (1) Alergia leve à penicilina (rash cutâneo maculo-papular não urticariforme, sem angioedema, sem anafilaxia — especialmente em criança que 'tomou amoxicilina e teve manchas'): cefalosporinas podem ser usadas, especialmente as de cadeia lateral diferente; (2) Alergia moderada (urticária, edema não-angioedematoso): usar cefalosporina com cautela e monitoramento, ou fazer teste skin test (disponível em centros de referência); (3) Anafilaxia grave (hipotensão, broncoespasmo, angioedema imediato após penicilina): evitar todas as cefalosporinas de cadeia lateral similar à penicilina causadora; ceftriaxona e cefazolina têm cadeia lateral muito diferente da ampicilina/amoxicilina e são consideradas seguras na maioria dos casos de alergia à aminopenicilina. Alternativas em anafilaxia a penicilinas: aztreonam (β-lactâmico monocíclico sem reatividade cruzada com penicilinas — exceto ceftazidima com que compartilha cadeia lateral), quinolonas, macrolídeos, ou encaminhar a alergista para dessensibilização se penicilina for indispensável.

O que é ESBL e por que é importante no tratamento de infecções urinárias?+

ESBL (Extended-Spectrum β-Lactamase) é uma enzima produzida por bactérias Gram-negativas (mais frequentemente Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae) que hidrolisa o anel β-lactama de penicilinas E cefalosporinas até a 4ª geração. Isso significa que as infecções por bactérias produtoras de ESBL são resistentes à amoxicilina, amoxicilina-clavulanato, cefalexina, cefazolina, ceftriaxona, cefotaxima — ou seja, à maioria dos antibióticos usados ambulatorialmente para infecções urinárias. Os genes de ESBL (principalmente TEM e CTX-M) são frequentemente transmitidos em plasmídeos entre bactérias — podem se espalhar rapidamente em famílias, comunidades e hospitais. Prevalência no Brasil: E. coli produtora de ESBL responde por 15-25% das infecções urinárias comunitárias e até 40-60% nas hospitalares (dados variáveis por hospital/região). Como detectar ESBL: cultura de urina com antibiograma completo; o laboratório reporta resistência a cefalosporinas e confirma ESBL por teste de sinergia com ácido clavulânico. Tratamento: ESBL comunitária leve (cistite sem complicações): fosfomicina oral (3 g dose única — ESBL geralmente sensível), nitrofurantoína (nitrofurantoína 100 mg 5-7 dias — mas não usar em pielonefrite), trimetoprim-sulfametoxazol (se sensível no antibiograma); ESBL grave (pielonefrite, bacteremia): ertapenem IV é o padrão (carbapenêmico não hidrolisado por ESBL); ou meropenem em infecções muito graves. Prevenção: evitar uso desnecessário de antibióticos de amplo espectro; higiene hospitalar; triagem de portadores em admissão de UTI.

Referências Científicas

  1. Blumenthal KG, Ryan EE, Li Y, et al. (Penicillin allergy and cross-reactivity with cephalosporins — systematic review) The Relationship Between a Reported Penicillin Allergy and Surgical Site Infection Risk. JAMA Surg, 2018.
  2. Rodríguez-Baño J, Navarro MD, Retamar P, et al. (β-Lactam/β-Lactam inhibitor combinations for ESBL-producing E. coli) Beta-Lactam/Beta-Lactam Inhibitor Combinations for the Treatment of Bacteremia Due to Extended-Spectrum Beta-Lactamase-Producing Escherichia coli. Clin Infect Dis, 2012.
  3. van Boeckel TP, Gandra S, Ashok A, et al. (Global antibiotic consumption 2000-2010 and projections) Global antibiotic consumption 2000 to 2010: an analysis of national pharmaceutical sales data. Lancet Infect Dis, 2014.
  4. Tamma PD, Aitken SL, Bonomo RA, et al. (IDSA antimicrobial resistant guidance update 2022) Infectious Diseases Society of America Guidance on the Treatment of AmpC β-Lactamase–Producing Enterobacterales, Carbapenem-Resistant Acinetobacter baumannii, and Stenotrophomonas maltophilia Infections. Clin Infect Dis, 2022.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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