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← Blog·peptideos29 de junho de 2026· 12 min de leitura

Olaparibe, niraparibe e rucaparibe — inibidores de PARP em BRCA+: mecanismo de letalidade sintética, câncer de ovário e mama (SOLO-1, PRIMA, OlympiAD)

Inibidores de PARP (olaparibe/Lynparza®, niraparibe/Zejula®, rucaparibe/Rubraca®) exploram o conceito de letalidade sintética: células com mutação BRCA1/2 dependem de PARP para reparar DNA de fita simples — ao inibir PARP, essas células acumulam quebras de DNA de dupla fita que não conseguem reparar (HRD) → apoptose seletiva. Aprovados como manutenção em câncer de ovário BRCA+ e câncer de mama BRCA+. SOLO-1 mostrou melhora de 70% no PFS em ovário platina-sensível.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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PARP, reparo de DNA e o conceito de letalidade sintética

PARP (Poly ADP-Ribose Polymerase) — enzima central no reparo de DNA de fita simples:

  • PARP-1 e PARP-2 detectam quebras de fita simples (SSB — single-strand breaks) no DNA → são ativadas → poliadenilam substratos com cadeias de PAR (poli-ADP-ribose) → sinalização para o complexo de reparação BER (Base Excision Repair) → recrutamento de enzimas que reparam a SSB antes de se tornar DSB
  • PARP Trapping: inibidores de PARP não apenas inibem a atividade enzimática mas também aprisionam o complexo PARP-DNA (o complexo permanece preso ao DNA danificado) → bloqueio mecânico da replicação → SSBs se convertem em DSBs quando a replicação encontra o complexo PARP preso → DSBs requerem maquinaria de reparo de dupla fita (HR — homologous recombination)

Recombinação Homóloga (HR) e BRCA1/2:

  • DSBs normalmente são reparadas por HR em células em fase S/G2 (quando há cromátide irmã disponível como template): BRCA1 sinaliza o DSB → PALB2 → BRCA2 carrega RAD51 ao DSB → RAD51 invade a cromátide irmã → síntese de DNA usando o template → reparo fiel do DSB
  • BRCA1 e BRCA2 são supressores tumorais que orquestram a HR; mutações de perda de função em BRCA1 ou BRCA2 → HR deficiente → células dependentes de NHEJ (Non-Homologous End Joining — propenso a erros) para reparar DSBs → mais instabilidade genômica → predisposição ao câncer

Letalidade Sintética (Synthetic Lethality) — conceito-chave de oncologia de precisão:

  • Definição: quando a perda de DUAS funções simultaneamente é letal para a célula, mas cada perda isolada é tolerável
  • No contexto dos inibidores de PARP: (1) Perda de BRCA1/2 isolada → célula cancerosa sobrevive (via NHEJ, instável mas viável); (2) Inibição de PARP isolada → célula normal sobrevive (tem HR intacta para reparar as DSBs acumuladas); (3) Perda de BRCA1/2 + Inibição de PARP = LETAL → célula BRCA-mutada perde também o PARP (seu "backup") → acumula DSBs sem conseguir reparar via HR (ausente) nem via BER (PARP inibida) → catástrofe genômica → morte celular
  • Seletividade: as células normais do paciente (que são BRCA+/- — heterozigotas — com pelo menos uma cópia funcional de BRCA) têm HR funcional → sobrevivem à inibição de PARP → baixa toxicidade a tecidos normais

HRD (Homologous Recombination Deficiency): conceito mais amplo que BRCA-mutation; inclui outras alterações moleculares que causam deficiência da HR (mesmo sem mutação germinativa de BRCA): mutações somáticas de BRCA1/2, metilação de promotor de BRCA1, mutações de PALB2/RAD51/ATM/CDK12; testes de HRD (Myriad myChoice®, Foundation Medicine) identificam essas tumores além de BRCA-mutados → ampliam a população candidata a inibidores de PARP

Inibidores de PARP em câncer de ovário — olaparibe, niraparibe e veliparibe

Câncer de ovário e a epidemiologia de BRCA:

  • Câncer de ovário de alto grau seroso (HGSOC) é o subtipo mais comum e mais mortal (60-70% dos cânceres de ovário epiteliais); maioria apresenta-se em estágios avançados (III/IV)
  • 15-20% dos HGSOC têm mutação germinativa de BRCA1 ou BRCA2; outros 30-50% têm HRD somática — totalizando 50% de tumores HRD-positivos
  • Tratamento de primeira linha: cirurgia citorredutora + quimioterapia com carboplatina + paclitaxel por 6 ciclos; recidiva após platina é muito comum → daí a importância do tratamento de manutenção

Olaparibe (Lynparza® — AstraZeneca/MSD):

  • 1º inibidor de PARP aprovado (FDA 2014, UK/EMA 2014, Anvisa 2015); comprimido oral 300 mg 2x/dia
  • Estudos principais em ovário:

- SOLO-1 trial (2018, N Engl J Med): 391 pacientes com ovário BRCA1/2+ após resposta a platina de primeira linha → olaparibe vs placebo como manutenção → PFS mediana: NR vs 13.8 meses (HR 0.30, 95% CI 0.23-0.41; redução de 70% no risco de progressão!); benefício de OS em análise posterior (SOLO-1 7-year data — mOS 75.2 vs 55.1 meses, HR 0.55) - SOLO-2 trial: ovário BRCA1/2+ platina-sensível em segunda linha → PFS 19.1 vs 5.5 meses (HR 0.30) - PAOLA-1 trial: olaparibe + bevacizumabe vs bevacizumabe em manutenção após quimio+bevacizumabe de 1ª linha → benefício maior em HRD+ (HR 0.33)

  • Indicações aprovadas olaparibe (ovário): manutenção em 1ª linha após resposta a platina em BRCA1/2-mutado (SOLO-1); manutenção em platina-sensível em recidiva (BRCA+ e/ou HRD+); monoterapia em BRCA1/2+ após ≥3 linhas de quimioterapia

Olaparibe em câncer de mama (OlympiAD e OlympiA trials):

  • OlympiAD (2017, N Engl J Med): câncer de mama metastático BRCA1/2-mutado (HER2-negativo) → olaparibe vs quimioterapia da escolha do médico → PFS: 7.0 vs 4.2 meses (HR 0.58) — first targeted therapy to show superiority over chemotherapy in BRCA+ breast
  • OlympiA (2021, N Engl J Med): câncer de mama precoce HER2- BRCA1/2+ de alto risco (pós-neoadjuvante ou adjuvante) → olaparibe 1 ano vs placebo → iDFS (invasive disease-free survival): 85.9% vs 77.1% (HR 0.58); OS benefit confirmed 2023; aprovação no adjuvante em mama BRCA+ de alto risco

Niraparibe (Zejula® — GSK/Tesaro):

  • Comprimido oral 300 mg 1x/dia; vantagem sobre olaparibe em termos de seleção de pacientes (PRIMA trial não requer BRCA+ como critério obrigatório)
  • PRIMA trial (2019, N Engl J Med): ovário estágio III/IV após resposta a platina 1ª linha → niraparibe vs placebo → PFS em HRD+: 21.9 vs 10.4 meses (HR 0.43); PFS em população total: 13.8 vs 8.2 meses (HR 0.62); aprovação na manutenção de 1ª linha independente de status BRCA
  • NOVA trial: ovário BRCA-mutado platina-sensível em recidiva → PFS 21.0 vs 5.5 meses (HR 0.27)
  • Toxicidade específica: trombocitopenia (mais com niraparibe que outros PARP inhibitors; dose ajustada individualizada por peso e contagem plaquetar inicial reduziu incidência)

Rucaparibe (Rubraca® — Clovis Oncology — aprovação EUA; status Brasil limitado):

  • ARIEL3 trial: ovário platina-sensível em recidiva → manutenção vs placebo
  • Toxicidade específica: elevação de creatinina (sem toxicidade renal real — inibe secreção tubular de creatinina)

Efeitos adversos comuns dos inibidores de PARP:

  • Náusea e vômito (40-70%): mais com olaparibe em 1ª semanas → antiemético, tomar com alimento
  • Anemia (30-40%): PARP-1 é necessário na eritropoiese; monitorar hemograma mensalmente; transfusão ou redução de dose se Hb < 8 g/dL
  • Fadiga: muito comum (50-60%)
  • Trombocitopenia: mais com niraparibe; plaquetas < 100.000 → reduzir dose
  • Neutropenia: monitorar
  • Síndrome Mielodisplásica / Leucemia Mieloide Aguda (SMD/LMA): risco < 1-2% com uso prolongado — relacionado à mutagênese por NHEJ em células tronco hematopoéticas; parar PARP inhibitor se SMD confirmada
  • Todas as decisões de iniciar/interromper inibidores de PARP devem ser tomadas por oncologista com expertise em ginecologia oncológica ou oncologia mamária

Perguntas frequentes sobre inibidores de PARP

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Como saber se uma paciente com câncer de ovário ou mama é candidata a inibidores de PARP?+

A candidatura aos inibidores de PARP é determinada por testes moleculares específicos e pelo histórico de tratamento. Os critérios variam pelo medicamento e pela indicação, mas em geral: Teste de BRCA1/2 germinativo (sangue): identifica mutações hereditárias; em câncer de ovário de alto grau seroso, todas as pacientes devem ser testadas; em câncer de mama, testadas as pacientes que preenchem critérios (HER2-negativo + triple negative ou luminal com características de alto risco + histórico familiar ou idade < 60). Teste BRCA somático (tumor): identifica mutações adquiridas no tumor mesmo sem mutação hereditária; especialmente relevante em ovário. Teste de HRD (Homologous Recombination Deficiency): mais amplo — identifica tumores com deficiência de HR por outras causas além de BRCA (instabilidade de LOH, etc.); Myriad myChoice CDx®, Foundation One CDx®. No câncer de ovário: após quimioterapia de 1ª linha com resposta a platina → testar BRCA/HRD → candidata a manutenção com olaparibe (se BRCA+), niraparibe (BRCA+ ou HRD+ ou qualquer paciente), ou olaparibe+bevacizumabe (HRD+). No câncer de mama: BRCA1/2-mutado, HER2-negativo, metastático → olaparibe ou talazoparibe; BRCA1/2-mutado, HER2-negativo, alto risco early-stage → olaparibe adjuvante. O oncologista é quem indica e interpreta os testes — nunca iniciar sem avaliação especializada.

BRCA positivo e sem câncer: qual o risco e como acompanhar?+

Ser portador de mutação germinativa em BRCA1 ou BRCA2 aumenta significativamente o risco de certos cânceres ao longo da vida. Riscos estimados (até os 70-80 anos): BRCA1: câncer de mama 55-72% (vs 12% na população geral), câncer de ovário 40-46% (vs 1-2% geral); BRCA2: câncer de mama feminino 45-69%, câncer de ovário 11-17%, câncer de mama masculino 5-9% (vs 0.1% geral), câncer de pâncreas 3-7% (vs 1.5% geral), melanoma, próstata. BRCA2 também tem risco aumentado de câncer de próstata de alto grau. Protocolo de rastreamento para portadores BRCA sem câncer (baseado em NCCN, ESMO guidelines): Mulheres BRCA1/2: mamografia + ressonância magnética de mama anualmente a partir dos 25-30 anos; cirurgia redutora de risco (mastectomia bilateral profilática) pode ser discutida — reduz risco de câncer de mama em 90-95%; salpingo-ooforectomia bilateral profilática (BSSO) entre 35-45 anos após completar prole — reduz risco de câncer de ovário em 95%+ e reduz mortalidade por ovário; BSSO antes da menopausa = menopausa cirúrgica → reposição hormonal de curto prazo geralmente segura até os 50 anos. Homens BRCA2: rastreamento de próstata com PSA anual a partir dos 40-45 anos; exame clínico testicular. Aconselhamento genético é fundamental antes e após o teste — decisões muito individuais.

Referências Científicas

  1. Moore K, Colombo N, Scambia G, et al. (SOLO-1 trial — olaparib maintenance in BRCA-mutated ovarian cancer 1st line) Maintenance Olaparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer (SOLO-1). N Engl J Med, 2018.
  2. González-Martín A, Pothuri B, Vergote I, et al. (PRIMA trial — niraparib in newly diagnosed ovarian cancer) Niraparib in Patients with Newly Diagnosed Advanced Ovarian Cancer (PRIMA/ENGOT-OV26/GOG-3012). N Engl J Med, 2019.
  3. Tutt ANJ, Garber JE, Kaufman B, et al. (OlympiA trial — adjuvant olaparib in BRCA-mutated early breast cancer) Adjuvant Olaparib for Patients with BRCA1- or BRCA2-Mutated Breast Cancer (OlympiA). N Engl J Med, 2021.
  4. Robson M, Im SA, Senkus E, et al. (OlympiAD — olaparib vs chemotherapy in BRCA-mutated metastatic breast cancer) Olaparib for Metastatic Breast Cancer in Patients with a Germline BRCA Mutation (OlympiAD). N Engl J Med, 2017.
  5. Lord CJ, Ashworth A. (PARP inhibitors: synthetic lethality in the clinic — review) PARP inhibitors: Synthetic lethality in the clinic. Science, 2017.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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