Metotrexato (MTX): mecanismo, indicações e monitoramento em reumatologia
Metotrexato (Rheumatrex®, Trexall® / genérico) — DMARD (Disease-Modifying Antirheumatic Drug) âncora:
Síntese histórica: desenvolvido como antineoplásico (1940s); introduzido em AR nos anos 1980; hoje é o DMARD mais prescrito mundialmente por custo-benefício
Mecanismo de ação:
- Inibição de DHFR (Dihydrofolate Reductase): MTX → poliglutamato de MTX (forma ativa) → inibe DHFR → bloqueia conversão de dihidrofolato (DHF) a tetrahidrofolato (THF) → menos THF → menos síntese de purinas e timidilato → menos síntese de DNA → antiproliferativo
- Inibição de ATIC (AICAR transformylase): leva a acúmulo de AICAR → libera adenosina → receptor A2A em macrófagos e linfócitos → anti-inflamatório independente do folato
- Em AR: dose semanal baixa (7.5-25 mg) → efeito predominantemente anti-inflamatório (via adenosina) mais que antiproliferativo
Via de administração:
- Oral (comprimidos 2.5 mg ou 10 mg), SC, IM, IV
- Dose semanal em reumatologia (7.5-25 mg/semana) — regime semanal (NÃO diário!)
- Biodisponibilidade oral variável (40-60%); SC/IM mais confiável (especialmente >15 mg/semana)
- Suplementação de ácido fólico 1-5 mg/dia (exceto no dia do MTX) é OBRIGATÓRIA — reduz efeitos adversos GI e mucosite sem reduzir eficácia anti-reumática
Indicações:
- AR (artrite reumatoide): âncora — 1ª linha de DMARD; usado isolado em AR leve-moderada ou combinado com biológicos (anti-TNF, abatacepte, tocilizumabe) em AR moderada-grave; MTX + adalimumabe = mais eficaz que cada um isolado (PREMIER trial)
- Psoríase e artrite psoriásica: responde muito bem ao MTX
- LES (Lúpus Eritematoso Sistêmico): artrite lúpica, lesões cutâneas, redução de corticoide poupador
- Vasculites (poliangiite granulomatosa, poliangiite microscópica): indução com ciclofosfamida → manutenção com MTX ou azatioprina
- Ectópico (Gravidez): MTX IM 50 mg/m² dissolve gravidez ectópica precoce → substitui cirurgia em casos selecionados
- Crohn: 25 mg SC/semana em doença moderada-grave
- Oncologia: dose alta (1-12 g/m²) com leucovorina (resgate de folato) em linfoma, osteossarcoma, leucemia
Toxicidade e Monitoramento:
- GI: náusea, estomatite (mucosite), diarreia — muito reduzidos com ácido fólico
- Hepática: fibrose e cirrose com uso crônico (dose cumulativa >1.5g de risco; álcool potencializa MUITO); monitorar TGO/TGP + albumina q8-12 semanas; biópsia hepática se TGP persistentemente elevada
- Pulmonar (pneumonite por MTX): 0.5-5%; tosse seca, dispneia, febre — suspender imediatamente se suspeita; diagnóstico de exclusão
- Supressão medular: leucopenia, anemia — mais risco com DRC, alcoolismo, deficiência de folato
- Teratogênico (FDA categoria X): contraindicado em gravidez e amamentação; suspender 3 meses antes de tentar engravidar (homens e mulheres)
- Nefrotóxico em altas doses (oncológico): excretado renal; dose alta requer hidratação e alcalinização urinária + leucovorina
- Monitoramento padrão em AR: hemograma completo + hepatograma q4-8 semanas nos primeiros 6 meses → q12 semanas se estável
Azatioprina, 6-mercaptopurina e tiopurina metiltransferase (TPMT): farmacogenômica na prática
Azatioprina (Imuran® / Azasan® — genérico) — pró-droga imunossupressora:
Metabolismo (farmacogenômica importante):
- Azatioprina → por reação não-enzimática e tiopurina metiltransferase (TPMT) → 6-mercaptopurina (6-MP)
- 6-MP → 3 vias metabólicas:
1. TPMT → metilação → 6-metilmercaptopurina (6-MMP) — inativo; via que desvia da toxicidade 2. HPRT → 6-tioinosina-5'-monofosfato (TIMP) → 6-tioguanina nucleotídeos (6-TGN) — metabólito ativo e tóxico 3. XO (Xantina Oxidase) → ácido tioúrico (inativo) — via de detoxificação alternativa
Farmacogenômica de TPMT — a mais clinicamente importante na reumatologia:
- TPMT alta (wild-type): 89% da população → metaboliza bem, segura em doses padrão
- TPMT intermediária (heterozigoto): ~11% → acúmulo moderado de 6-TGN → dose reduzida (30-50% da normal)
- TPMT baixa/ausente (homozigoto mutante): ~0.3% → acúmulo massivo de 6-TGN → risco de mielossupressão fatal em dose padrão → contraindicado sem redução drástica ou substituição
- Genotyping de TPMT ou mensuração de atividade enzimática antes de iniciar azatioprina/6-MP → padrão de cuidado
- TPMT também inibida por: alopurinol (inibe XO → mais 6-TGN → toxicidade) — se usar azatioprina + alopurinol, reduzir azatioprina para 25% da dose
Indicações da azatioprina:
- Transplante de órgãos: imunossupressão de manutenção (substituída em parte por micofenolato, que tem melhor perfil em rejeição renal)
- DII (Crohn e RCU): manutenção de remissão; onset tardio (2-3 meses) → frequentemente associada a corticoide inicial
- Miastenia gravis: redução de corticoide (steroid-sparing)
- LES: nefrite lúpica (manutenção) + artrite + citopenias
- Vasculites: manutenção após ciclofosfamida na indução
- AR: 2ª/3ª linha; menos usada que MTX
- Hepatite autoimune: com prednisolona
6-Mercaptopurina (6-MP, Purinethol®) — ativa direta (sem necessidade de conversão):
- Leucemia linfoblástica aguda (ALL): pedra angular da fase de manutenção
- DII: uso pediátrico e adultos (via menos comum que azatioprina)
- Mesmo perfil TPMT para monitoramento
Efeitos adversos de azatioprina/6-MP:
- Mielossupressão: neutropenia, anemia, plaquetopenia — monitorar hemograma q2-4 semanas inicialmente
- Hepatotoxicidade: elevação de transaminases; colestase rara (síndrome veno-oclusiva com doses altas)
- Pancreatite aguda: rara (1-3%), idiossincrásica → suspender imediatamente; contraindica reintrodução
- Risco oncológico: aumento de linfoma (especialmente linfoma não-Hodgkin) com uso prolongado; squamous cell carcinoma de pele em transplantados (evitar exposição solar excessiva); monitoramento dermatológico anual
- GI: náusea, vômito (geralmente passageiros)
- Teratogênico: categoria D — uso em gravidez somente quando benefício supera risco (menor risco que ciclofosfamida; usado em LES durante gravidez sob monitoramento rigoroso)
Ciclofosfamida e imunossupressores em vasculites, nefrite lúpica e doenças graves
Ciclofosfamida (CFA / Cytoxan® / Endoxan®) — agente alquilante:
Mecanismo:
- Pró-droga → CYP3A4/2B6 (hepático) → ativada a mostarda de fosforamida (metabolito citotóxico) + acroleína (tóxico urothelial) + cloro-acetaldeído
- Mostarda fosforamida → alquila N7 de guanina no DNA → ligações cruzadas inter e intra-fitas → apoptose em células de alta proliferação
- Escopo: limfócitos B e T (especialmente B), mas afeta qualquer célula em divisão
Doses e regimes em reumatologia/imunologia (muito diferentes da oncologia!):
- Nefrite lúpica classe III/IV (proliferativa): Protocolo NIH: ciclofosfamida IV 0.5-1 g/m² mensal por 6 meses → manutenção com azatioprina ou micofenolato
- Euro-Lupus Nephritis Trial: ciclofosfamida IV baixa dose (500 mg q2sem × 6 = 3g total) → não inferior ao NIH; mais seguro, preferido na Europa
- Vasculites ANCA (GPA/granulomatose com poliangiite, PAM/poliangiite microscópica, eGPA): indução com CFA oral (2 mg/kg/dia) ou IV mensal por 3-6 meses + corticosteroide → manutenção com RTX (rituximabe) ou azatioprina
- RAVE trial: rituximabe = ciclofosfamida na indução de GPA/PAM; rituximabe superior para recidivantes
- Nefrite lúpica grave refratária: CFA IV pulsada
- Doença intersticial pulmonar (DIP) em esclerodermia: SLS I (Scleroderma Lung Study): CFA oral melhora CVF levemente vs placebo; SLS II: micofenolato similar a CFA mas melhor tolerado → micofenolato preferido
Toxicidades principais:
Cistite hemorrágica — causada pela acroleína:
- Acreolína concentra-se na urina → epitélio urotelial → cistite, hematúria, fibrose vesical, carcinoma urotelial com uso crônico
- Prevenção obrigatória: Mesna (UROMITEXAN®) — 2-mercaptoetanossulfonato de Na + hidratação IV abundante antes, durante e após CFA IV
- Mesna se liga à acroleína na urina → inativa
- Oral diária: MESNA VO q4h ou hidratar >2-3L/dia de água
Supressão medular: neutropenia (nadir 8-14 dias); profilaxia com G-CSF (filgrastima) em oncologia; hemograma frequente
Gonadotoxicidade:
- Mulheres: insuficiência ovariana prematura (30-70% dependente de dose e idade — mais grave >30 anos); dose cumulativa >20g de alto risco; criopreservação de óvulos/embriões ANTES de iniciar em mulheres jovens; GnRH-a (análogos de GnRH) durante CFA podem proteger parcialmente os ovários
- Homens: oligospermia a azoospermia; criopreservação de esperma antes de iniciar
Risco oncológico: leucemia mieloide aguda secundária (0.5-5%), carcinoma de bexiga (uso crônico oral)
Teratogênico: categoria D; evitar no 1º trimestre; usar apenas em indicação imperiosa
Infecções oportunistas: Pneumocystis jirovecii (PCP) — profilaxia com trimetoprima-sulfametoxazol (TMP-SMX) 1 comp/dia 3x/semana em todos os pacientes em CFA; zoster (VZV) — monitorar
Outros imunossupressores em reumatologia/transplante (breve):
Micofenolato de Mofetila (MMF, CellCept® — Roche) / Sódio de Micofenolato (Myfortic®):
- Inibe IMPDH (inosina-5'-monofosfato desidrogenase) — enzima limitante da síntese de purinas de novo; linfócitos B e T dependem mais desta via que outros tecidos → seletivo
- Transplante renal + nefrite lúpica (manutenção) + DIP de esclerodermia; menos mielotóxico que CFA; efeitos GI (diarreia) são a limitação
Ciclosporina (Sandimmune® / Neoral®) — calcineurina inibidor (CNI):
- Liga ciclofilina → complexo inibe calcineurina → menos defosforilação de NFAT → menos transcrição de IL-2 → inibe ativação de linfócitos T
- Transplante + AR refratária + psoríase + síndrome nefrótica; nefrotóxica (grande problema), hipertensão, hipertricose, hiperplasia gengival, interações CYP3A4 extensas
Tacrolimus (Prograf® — Astellas) — CNI mais potente:
- Liga FKBP12 → bloqueia calcineurina; similar à ciclosporina mas mais potente; menos hirsutismo e hiperplasia gengival; mais nefrotóxica, mais diabetogênica, mais neurotóxica; padrão em transplantes renais, hepáticos e cardíacos atualmente