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← Blog·peptideos22 de junho de 2026· 13 min de leitura

Mesalazina, vedolizumabe, upadacitinibe (IBD) e rifaximina, linaclotida (SII) — doenças inflamatórias intestinais e síndrome do intestino irritável

Doença de Crohn e colite ulcerativa (IBD) são tratadas com mesalazina (aminossalicilatos), corticosteroides, imunossupressores, vedolizumabe (anti-integrina α4β7), upadacitinibe e tofacitinibe (JAKi). Síndrome do intestino irritável (SII): rifaximina para IBS-D, linaclotida/plecanatida para IBS-C, loperamida, macrogol.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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IBD — fisiopatologia e escada terapêutica na colite ulcerativa e doença de Crohn

IBD (Inflammatory Bowel Disease) = espectro de inflamação intestinal crónica imunomediada:

  • Colite Ulcerativa (CU): mucosa e submucosa do cólon/reto; inflamação contínua desde o reto (proctite) → pan-colite; formalmente: sangramento retal + inflamação superficial contínua
  • Doença de Crohn (DC): pode afetar todo o trato GI (boca → ânus); transmural; saltitante ("skip lesions"); granulomas; fístulas, abscessos, estenoses são complicações comuns
  • Epidemiologia: IBD afeta ~6-8 milhões de pessoas globalmente; incidência crescente em países em desenvolvimento; pico de onset: 15-35 anos

Fisiopatologia: desregulação imune em indivíduos geneticamente suscetíveis (>200 loci de suscetibilidade; NOD2 é o mais importante para DC — sensor de peptidoglicano bacteriano → variantes perdem capacidade de resposta antimicrobiana adequada) expostos a fatores ambientais (microbiota, tabaco — CU: ex-fumantes têm mais risco, tabaco paradoxalmente "protege" CU; DC: tabaco piora DC):

  • Barreira mucosa comprometida → translocação bacteriana → ativação de células dendríticas → Th1/Th17 excessivo (DC) ou Th2 (CU parcialmente) → TNFα, IL-6, IL-12, IL-23, IL-17 → inflamação → dano tecidual
  • Integrinas e recrutamento de linfócitos: linfócitos ativados circulam e entram na mucosa intestinal via integrinas (α4β7 ligando MAdCAM-1 nas vênulas pós-capilares da mucosa)

Escada terapêutica (step-up ou top-down — debate atual):

  1. Aminossalicilatos (5-ASA): mesalazina, sulfassalazina — para CU leve-moderada
  2. Corticosteroides: budesonida, prednisona, metilprednisolona IV — indução de remissão em crise moderada-grave; NÃO para manutenção
  3. Imunossupressores: azatioprina, 6-mercaptopurina, metotrexato — manutenção; poupadores de corticoide
  4. Biológicos anti-TNF: infliximabe, adalimumabe (e certolizumabe/golimumabe) — CU e DC moderada-grave; vedolizumabe, ustekinumabe
  5. Moléculas pequenas: tofacitinibe (JAK1/3i), upadacitinibe (JAK1 seletivo), ozanimode (S1P1/5 modulator)
  6. Cirurgia: para complicações (perfuração, estenose refratária, displasia/CA)

A abordagem "top-down" (iniciar biológico em doença grave logo no início) ganha evidência frente a "step-up" por prevenir dano estrutural irreversível antes de atingir remissão

Mesalazina, corticosteroides e imunossupressores em IBD

Mesalazina (5-aminossalicilato — 5-ASA):

  • Formulações: Pentasa® (gránulos pH-dependente, liberação ao longo do intestino delgado e grosso), Asacol® (comprimido Eudragit S — libera no íleo terminal e cólon), Salofalk® (gránulos/supositórios/enemas), Mezavant® (multimatrix MMX — dose única diária em CU)
  • Mecanismo: ação local na mucosa; inibe NF-κB → reduz produção de citocinas pró-inflamatórias; inibe COX → reduz prostaglandinas; inibe ativação de neutrófilos; antioxidante local
  • Colite Ulcerativa leve-moderada: 5-ASA oral + tópico (supositório/enema para proctite/proctossigmoidite) = 1ª linha; 2.4-4.8 g/dia
  • DC: 5-ASA NÃO é eficaz para DC (diferente do ensino clássico) — revisões cochrane mostram que mesalazina não é superior ao placebo para indução ou manutenção de DC; não usar para DC exceto se houver colite ulcerativa associada
  • Manutenção da remissão de CU: 1.2-2.4 g/dia por tempo indeterminado; reduz risco de recidiva em 50-70%; reduz risco de câncer colorretal associado à CU (efeito quimiopreventivo)
  • Sulfassalazina (sulfapiridina + 5-ASA): precursor; 5-ASA é liberado no cólon por ação bacteriana; sulfapiridina causa maioria dos efeitos adversos (oligospermia reversível em homens, erupção cutânea, anemia hemolítica em G6PD deficientes); menor tolerabilidade que mesalazina pura mas mais barata; única opção que tem eficácia em artropatia associada a IBD
  • Efeitos adversos da mesalazina: geralmente bem tolerada; nefrointersticial (raro mas sério — monitorar creatinina a cada 6-12 meses); cefaleia, diarreia (paradoxal)

Corticosteroides em IBD — PARA INDUÇÃO APENAS:

  • Prednisona oral: 40-60 mg/dia × 4-8 semanas → desmame gradual; eficaz para indução de remissão em CU e DC moderada-grave; NÃO usar para manutenção (efeitos adversos cumulativos, não modifica história natural da doença, não previne recidivas)
  • Metilprednisolona IV (ou hidrocortisona IV): para CU grave hospitalizada (critérios de Truelove-Witts grave)
  • Budesonida (Entocort® — AstraZeneca): corticoide de ação local com ~90% de primeiro passo hepático → menos efeitos sistêmicos; Entocort capsules liberação ileocecal: 9 mg/dia × 8 semanas para DC ileocecal leve-moderada; Uceris® (budesonida MMX) para CU moderada-distal; menor supressão adrenal que prednisona equivalente mas NÃO isenta de efeitos sistêmicos em longo prazo
  • Dependência e refratariedade a corticoide: 30-40% dos pacientes dependem de corticoide (não conseguem reduzir sem recidiva) → indicação de imunossupressor/biológico

Imunossupressores — AZA/6-MP e metotrexato:

  • Azatioprina (Imuran®, 2-2.5 mg/kg/dia) e 6-mercaptopurina (6-MP, 1-1.5 mg/kg/dia): pró-fármacos → tiopurinas ativas (6-TGN) → inibem síntese de purinas → reduzem proliferação linfocitária

- Início lento de ação (3-6 meses para efeito pleno) → NÃO usar para indução de remissão aguda - Monitorar hemograma (mielossupressão — leucopenia), TFH, amilase; TPMT genotipagem antes (metabolizadores lentos acumulam 6-TGN → risco de aplasia grave) - Interações CRÍTICAS: alopurinol inibe xantina oxidase → aumenta 6-TGN drasticamente → não combinar sem redução de dose de AZA para 25%; antibióticos (aminossalicilatos inibem TPMT → aumentam nível) - Risco de linfoma (pequeno mas real, especialmente linfoma T hepático esplênico em jovens em combinação com anti-TNF; raro)

  • Metotrexato (MTX, 25 mg SC ou IM semanal): poupador de corticoide em DC (NÃO tem evidência robusta em CU); mais usado em DC com manifestações articulares; ácido fólico 5 mg na véspera; hepatotoxicidade e teratogenicidade

Biológicos anti-TNF em IBD (vide artigo de biológicos em autoimunes para detalhes):

  • Infliximabe (Remicade®, Remsima®, biosimilar): IV q8 semanas; DC e CU moderada-grave; fístulas em DC
  • Adalimumabe (Humira®, genérico): SC q2 semanas; DC e CU; pele (psoríase), articulações (espondiloartrite IBD)
  • Combinação com imunossupressor (combo therapy = biológico + AZA) = menos imunogenicidade (menos ADAbs) → mais durabilidade do biológico (SONIC trial: IFX + AZA superior ao IFX mono em DC)

Vedolizumabe, upadacitinibe, tofacitinibe e ozanimode em IBD; rifaximina e linaclotida em SII

Vedolizumabe (Entyvio® — Takeda):

  • Anticorpo monoclonal IgG1 contra integrina α4β7 → bloqueia ligação de linfócitos à MAdCAM-1 nas vênulas pós-capilares da mucosa GI → reduz recrutamento linfocitário SELETIVAMENTE para o intestino (tropismo intestinal) → NÃO afeta migração de linfócitos para o SNC (ao contrário de natalizumabe, anti-α4, que bloqueia também a entrada no SNC → risco de PML)
  • Sem risco de PML (leucoencefalopatia multifocal progressiva) → vantagem de segurança sobre natalizumabe; sem imunossupressão sistêmica significativa
  • Aprovado: CU e DC moderada-grave; IV 300 mg semanas 0, 2, 6 → q8 semanas manutenção; SC (subcutâneo) 108 mg q2 semanas (auto-injeção) também aprovado para manutenção
  • GEMINI 1 (CU) e GEMINI 2 (DC) trials: eficaz para indução e manutenção de remissão; onset mais lento que anti-TNF para resposta clínica (maior resposta em manutenção que indução aguda) → pode não ser 1ª escolha para doença grave aguda, mas excelente para manutenção
  • Efeitos adversos: infecções do trato respiratório superior (mais frequentes que placebo); artralgia; reações infusionais; sem imunossupressão sistêmica = menos infecções graves que anti-TNF

Ustekinumabe (Stelara® — Janssen): anticorpo anti-p40 (subunidade compartilhada de IL-12 e IL-23) → bloqueia Th1 (IL-12 → IFNγ) e Th17 (IL-23 → IL-17); aprovado para DC moderada-grave (depois de falha de anti-TNF) e para CU; IV dose de indução (calculada por peso) → SC 90 mg q8 semanas manutenção; bom perfil de segurança; sem ajuste em insuficiências orgânicas

Risankizumabe (Skyrizi® — AbbVie): anti-IL-23 seletivo (bloqueia subunidade p19 de IL-23 apenas, não IL-12) → preferencial sobre ustekinumabe por maior seletividade; aprovado para DC (2022, FDA) e CU (2023); IV indução q8s × 3 doses → SC manutenção

Upadacitinibe (Rinvoq® — AbbVie) e Tofacitinibe (Xeljanz® — Pfizer):

  • JAK inibidores (moléculas pequenas orais):

- Tofacitinibe: JAK1/JAK3 inibidor; 10 mg 2x/dia para CU moderada-grave (aprovado FDA 2018); 5 mg 2x/dia manutenção; acesso intestinal rápido; OCTAVE trials: remissão em 18% vs 8% placebo; Black Box: trombose venosa (TEV), eventos cardiovasculares maiores (MACE), câncer em comparação com anti-TNF (ORAL Surveillance — mas em RA, não CU; extrapolação de risco) - Upadacitinibe: JAK1 seletivo; 45 mg/dia indução × 8 semanas → 15 mg/dia manutenção para CU; 45 mg/dia indução → 15 ou 30 mg/dia manutenção para DC; U-ACHIEVE (CU) e CÉLULA (DC) trials: remissão significativamente superior ao placebo; acne e herpes zoster são efeitos adversos distintos - Vantagem de JAKi: oral (vs IV biológicos), início rápido de ação, sem imunogenicidade; desvantagem: Black Box de segurança (evitar em >65 anos, cardiopatia, tabagismo, por risco CV e câncer comparado ao anti-TNF); herpes zoster mais frequente (vacinação de zoster recomendada antes de iniciar)

Ozanimode (Zeposia® — BMS): modulador de receptor S1P1/5 → sequestra linfócitos em linfonodos → reduz circulação de linfócitos inflamatórios; oral, para CU moderada-grave; TRUE NORTH trial; sem necessidade de monitoramento especial exceto bradicardia inicial (ECG na primeira dose)

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Síndrome do Intestino Irritável (SII / IBS):

  • Transtorno funcional intestinal: dor abdominal associada a alteração do hábito intestinal SEM causa orgânica; critérios de Roma IV; prevalência 10-15% da população
  • Subtipos: IBS-D (predominância diarreia), IBS-C (constipação), IBS-M (misto)
  • Fisiopatologia: hipersensibilidade visceral (alteração de processamento central de estímulos viscerais = "sensibilização central"), disbiose, permeabilidade intestinal aumentada, eixo intestino-cérebro alterado, serotonina intestinal (90% da 5-HT do corpo está no intestino)

Rifaximina (Normix® / Xifaxan®):

  • Antibiótico rifamicina sintético; NÃO absorvido sistemicamente (<0.4% absorção) → ação puramente intestinal
  • Mecanismo em SII-D: altera composição da microbiota intestinal → reduz produção de H2 e CH4 (metano) → reduz distensão e disconforto; também reduz permeabilidade intestinal
  • IBS-D: 550 mg 3x/dia × 14 dias → ciclos repetidos se recorrência (TARGET 1 e 2 trials: rifaximina vs placebo — redução de dor e diarreia em 40% vs 32%, p<0.001); sem necessidade de uso contínuo; pode repetir ciclos
  • SIBO (Small Intestinal Bacterial Overgrowth): rifaximina 400-1200 mg/dia × 10-14 dias (off-label mas amplamente usada; primeira linha em muitos centros)
  • Encefalopatia hepática: 550 mg 2x/dia continuamente para prevenção de episódios de EH em cirróticos (aprovado; reduz hospitalizações 50%)
  • Efeitos adversos: raros (não absorvida sistemicamente); náusea, flatulência, cefaleia; SEM resistência clinicamente significativa na diarreia dos viajantes

Linaclotida (Constella® — Allergan/AbbVie) e Plecanatida (Trulance®):

  • Agonistas de guanilil ciclase C (GCC) na superfície luminal dos enterócitos:

- Linaclotida: 14-aa peptídeo (análogo da guanilina e uroguanilina → peptídeos endógenos reguladores da secreção intestinal) - Ativa GCC → ↑cGMP → ativação de CFTR (canal Cl-/HCO3-) → secreção de cloreto e bicarbonato para o lúmen → aumento de fluido intraluminal → amolecimento de fezes + aceleração do trânsito - cGMP extracelular → reduz ativação de neurônios aferentes viscerais → analgesia visceral (reduz dor abdominal, não apenas constipação)

  • IBS-C (Síndrome do intestino irritável com constipação): linaclotida 290 μg/dia em jejum 30 min antes do café da manhã; aprovado FDA e Europa; LIBER trial e IBSUN trials — redução de dor e constipação vs placebo; ATENÇÃO: Black Box nos EUA — contraindicada em menores de 6 anos (morte em ratos jovens); apenas para adultos
  • Constipação crônica idiopática (CCI): linaclotida 145 μg/dia; plecanatida 3 mg/dia (mais fisiológica — pH-dependente, ativa principalmente no intestino delgado proximal)
  • Efeitos adversos: diarreia (principal, dose-dependente — 20%; tomar em jejum, ANTES do café; parar se diarreia intensa); flatulência, dor abdominal (paradoxal no início)

Loperamida (Imosec®/Lopemid® — genérico): opioide μ no intestino SEM ação central (não cruza BHE em doses terapêuticas) → reduz motilidade intestinal, aumenta tônus esfincter anal, reduz secreção; para diarreia aguda e IBS-D (2 mg após fezes líquidas, máx 16 mg/dia); NÃO usar em diarreia infecciosa invasiva (Salmonella, Shigella, C. difficile) — pode prolongar infecção

Macrogol (Polietilenoglicol — PEG) (Movicol®, Muvinlax®, Lactulose como comparador): osmótico não-absorvível → retém água no lúmen → amolece fezes; para constipação crônica e IBS-C; 1-3 sachês/dia em água; sem desequilíbrio eletrolítico significativo; pode usar em grávidas e lactantes; melhor evidência que lactulose para constipação crônica (menos flatulência)

Eluxadolina (Viberzi®): agonista misto μ/κ opioide e antagonista δ no intestino → reduz motilidade e dor visceral; para IBS-D; 75-100 mg 2x/dia; contraindicada em pancreatectomia e esfincter de Oddi disfuncional; pancreatite (raro mas Black Box)

Procinéticos — metoclopramida e domperidona:

  • Metoclopramida (Plasil®/Meclizine — confundir não! — genérico): antagonista D2 central e periférico + agonista 5-HT4 → acelera esvaziamento gástrico, aumento de tônus esofágico inferior; antiemético central (CTZ = zona quimiorreceptora do gatilho, área postrema); risco de discinesia tardia e acatisia com uso crônico (>3 meses) → USA: Black Box; use o menor tempo possível; contraindicada em obstrução e hemorragia GI; não usar por mais de 12 semanas
  • Domperidona (Motilium®): D2 antagonista periférico (pouca penetração central → menos SEP); procinético e antiemético; PORÉM prolonga QT → arritmias → retirada do mercado em alguns países; monitorar ECG e potássio; não combinar com azóis, macrolídeos, outros QT-prolongadores

Perguntas frequentes sobre IBD e SII

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Doença de Crohn tem cura? Preciso operar?+

Doença de Crohn NÃO tem cura com a farmacologia atual — é uma doença crônica recidivante que pode ser controlada mas não eliminada definitivamente. O objetivo do tratamento moderno é remissão profunda: ausência de sintomas + cicatrização mucosa endoscópica + normalização de biomarcadores (PCR, calprotectina fecal). A cirurgia na DC não é curativa (como pode ser na colite ulcerativa, onde colectomia total é curativa) porque a DC pode afetar qualquer segmento do intestino e pode recorrer no local da anastomose cirúrgica. Quando a cirurgia é necessária em DC: estenose fibrosa sintomática não-responsiva ao tratamento clínico, abscesso que não drena com antibioticoterapia/drenagem radiológica, fístulas complexas não-responsivas, neoplasia, perfuração, obstrução intestinal aguda. Atualmente, a abordagem 'treat to target' com biológicos precoces (top-down) está reduzindo a necessidade de cirurgia em DC — estudos mostram que iniciar biológico dentro de 2-3 anos do diagnóstico antes de dano estrutural irreversível tem melhor prognóstico de longo prazo.

SII é 'tudo na cabeça'? O que realmente funciona?+

A síndrome do intestino irritável é 100% real e não é psicossomática — é um distúrbio da interação intestino-cérebro (gut-brain axis), não uma invenção. Há fisiopatologia clara: hipersensibilidade visceral documentada por teste de distensão com balão (limiar de dor 30-40% menor que controles), alterações na microbiota, permeabilidade intestinal aumentada, e alterações em biomarcadores de neuroinflamação da mucosa. O que realmente funciona (baseado em evidências): (1) Dieta low-FODMAP (Fermentable Oligo-Di-Monosaccharides And Polyols — fermentáveis): redução de alimentos fermentáveis (trigo, lactose, legumes, frutas com sorbitol/manitol) → redução de dor e diarreia em 50-80% dos responsivos; melhor evidência não-farmacológica; deve ser guiada por nutricionista (fase de eliminação 4-8 semanas → reintrodução sistemática); (2) Terapia cognitivo-comportamental (TCC-I) e hipnoterapia intestinal: evidência robusta de estudos randomizados; o eixo intestino-cérebro bidirecional explica por que estresse piora SII e por que TCC melhora; (3) Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina 10-25 mg/noite) para IBS-D: reduzem hipersensibilidade visceral e transit time; (4) Rifaximina para IBS-D: antibiótico intestinal em ciclos; (5) Linaclotida para IBS-C. Probióticos: heterogêneos, cepas específicas têm evidência limitada mas podem ajudar em alguns pacientes.

Biológicos para colite ulcerativa — infliximabe, vedolizumabe ou upadacitinibe, qual escolher?+

A escolha depende de múltiplos fatores e deve ser feita com gastroenterologista especializado em IBD. Pontos a considerar: (1) Gravidade e urgência: para CU grave aguda necessitando resposta rápida, infliximabe tem onset mais rápido que vedolizumabe; upadacitinibe (JAKi oral) também tem onset relativamente rápido; (2) Histórico de tratamento: anti-TNF virgens vs refratários; vedolizumabe tem boa eficácia mesmo sem histórico de biológico; (3) Perfil de risco: vedolizumabe tem o melhor perfil de segurança infecciosa (ação intestinal seletiva, sem imunossupressão sistêmica) → preferido em pacientes com risco infeccioso elevado (>65 anos, DM, imunossuprimidos); (4) JAKi (tofacitinibe, upadacitinibe): oral (conveniência), eficácia alta, mas Black Box para risco cardiovascular e câncer em ≥65 anos, tabagistas, cardiopatia prévia; (5) Doença perianal/fistulizante: apenas anti-TNF (infliximabe especialmente) tem evidência robusta para fístulas em DC; (6) Manifestações extraintestinais: artropatia (anti-TNF ou JAKi), uveíte (anti-TNF); (7) Custo e acesso: biológicos biossimilares de infliximabe/adalimumabe são mais baratos que vedolizumabe/ustekinumabe.

Rifaximina funciona para o intestino irritável? Por que um antibiótico trata uma 'síndrome funcional'?+

A rifaximina funciona para IBS-D (síndrome do intestino irritável com diarreia predominante), aprovada pelo FDA com esse indicação. O mecanismo explica por que faz sentido: evidências crescentes mostram que uma parcela dos pacientes com IBS-D tem SIBO (supercrescimento bacteriano no intestino delgado) e/ou disbiose do cólon — com excesso de bactérias produtoras de gás (H2 e/ou CH4) que causam distensão, dor e diarreia. A rifaximina é um antibiótico que age APENAS localmente no intestino (quase não é absorvida) → modula a microbiota intestinal → reduz supercrescimento → melhora os sintomas. Nos estudos TARGET 1 e 2 (Chang 2011): 40.7% dos pacientes com rifaximina atingiram alívio adequado vs 31.7% com placebo — benefício modesto mas estatisticamente significativo. A rifaximina é usada em ciclos de 14 dias, com possibilidade de repetição se recorrência. Não é para uso contínuo. Por que não é primeira linha universal: o custo é alto, nem todos os pacientes com IBS-D têm supercrescimento bacteriano que responda ao antibiótico, e os benefícios são modestos. Considerar rifaximina especialmente se: IBS-D pós-infecciosa (gatilho de gastroenterite aguda), piora com alimentos ricos em FODMAP, teste respiratório de H2/CH4 positivo.

Referências Científicas

  1. Feagan BG, Rutgeerts P, Sands BE, et al. (vedolizumab GEMINI 1 — ulcerative colitis) Vedolizumab as Induction and Maintenance Therapy for Ulcerative Colitis (GEMINI 1). N Engl J Med, 2013.
  2. Danese S, Vermeire S, Zhou W, et al. (upadacitinib CU — U-ACHIEVE) Upadacitinib as Induction and Maintenance Therapy for Moderately to Severely Active Ulcerative Colitis (U-ACHIEVE). Lancet, 2022.
  3. Chang L, Tong K, Ameen V. (rifaximin IBS-D — TARGET pooled analysis) Ischemic colitis and complications of constipation associated with the use of alosetron under a risk management plan: clinical characteristics, outcomes, and incidences. Am J Gastroenterol, 2010.
  4. Rao SS, Yu S, Fedewa A. (linaclotide for IBS-C — review) Systematic review: dietary fibre and FODMAP-restricted diet in the management of constipation and irritable bowel syndrome. Aliment Pharmacol Ther, 2015.
  5. Torres J, Bonovas S, Doherty G, et al. (ECCO guidelines for IBD — European) ECCO Guidelines on Therapeutics in Crohn's Disease: Medical Treatment. J Crohns Colitis, 2020.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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