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← Blog·peptideos20 de julho de 2026· 12 min de leitura

Medicamentos para tireóide — levotiroxina, metimazol e propiltiouracil: hipotireoidismo, hipertireoidismo de Graves, crise tireoidiana e iodo radioativo

A tireóide produz T3 e T4 regulados pelo eixo hipotalâmico-hipofisário (TRH-TSH). Hipotireoidismo: reposição com levotiroxina (T4 → T3 periférico); alvo TSH 0.4-4 mU/L. Hipertireoidismo: metimazol (MMI) inibe a síntese de T4/T3 via tireoperoxidase; propiltiouracil (PTU) preferido na gravidez (1º trimestre). Doença de Graves: autoanticorpos anti-TSH-R (TRAb). Crise tireotóxica: PTU + betabloqueador + iodeto + corticoide. Iodo radioativo (I-131) ablata a tireóide.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Eixo hipotalâmico-hipofisário-tireoidiano e síntese de hormônios tireoidianos

FISIOLOGIA DA TIREÓIDE:

Eixo HHT (hipotalâmico-hipofisário-tireoidiano):

  • Hipotálamo → libera TRH (tireotropina releasing hormone) → hipófise anterior → libera TSH (tireotropina) → células foliculares tireoidinas → síntese e liberação de T4 (tiroxina) e T3 (triiodotironina)
  • T4 e T3 fazem feedback negativo no hipotálamo e hipófise: T4/T3 altos → TSH cai → menos estímulo à tireóide; T4/T3 baixos → TSH sobe → mais estímulo
  • TSH é o melhor marcador do status tireoidiano: TSH alto = hipotireoidismo (eixo tentando estimular uma tireóide insuficiente); TSH baixo/suprimido = hipertireoidismo (T4/T3 estão suprimindo o TSH)

SÍNTESE DOS HORMÔNIOS TIREOIDIANOS (nas células foliculares tireoidinas):

  1. Captação de iodeto (I⁻) da circulação por symporter Na⁺/I⁻ (NIS — sódio-iodeto simportador) na membrana basolateral; estimulado pelo TSH
  2. Transporte do I⁻ para o coloide (espaço folicular) pela pendrina e outros transportadores
  3. Oxidação de I⁻ a I₂ pela tireoperoxidase (TPO) usando H₂O₂ gerado pela DUOX2 (dual oxidase)
  4. Organificação: TPO oxida e incorpora iodo à tirosina → forma MIT (monoiodotirosina) e DIT (diiodotirosina) nos resíduos de tirosina da tireoglobulina (proteína do coloide)
  5. Acoplamento: TPO também catalisa o acoplamento de: DIT + DIT = T4 (tiroxina, dois iodos em cada anel); DIT + MIT = T3 (triiodotironina, mais ativa)
  6. A tireoglobulina iodada é armazenada no coloide; quando necessário: células foliculares endocitam o coloide → lisossomos clivam a TG → liberam T4 e T3 para a circulação
  7. Na circulação: a maior parte de T4 e T3 estão ligadas a TBG (thyroxine-binding globulin), albumina e pré-albumina (só a fração livre = ativa); 80% do T3 circulante é derivado da deiodinação periférica de T4 → T3 (remoção de um iodo) pela deiodinase tipo 1 e 2

Ação dos hormônios tireoidianos: T3 (10x mais potente que T4) → entra na célula → liga-se a receptores nucleares TR (alfa e beta) → dímero TR-T3 → liga-se a TRE (thyroid response elements) no DNA → transcrição de genes: aumento do metabolismo basal (termogênese — UCP1 no tecido adiposo marrom), síntese proteica, lipolipólise, gliconeogênese, desenvolvimento neurológico fetal (crucial); nos ossos: turnover; no coração: cronotropismo e inotropismo (β1)

HIPOTIREOIDISMO — tipos e causas:

  • Primário (tireóide): mais frequente; TSH alto + T4L baixo; causas: tireoidite de Hashimoto (autoimune — anticorpos anti-TPO, anti-TG — mais comum), pós-tireoidectomia, pós-iodo radioativo, iodeto em excesso (Efeito Wolff-Chaikoff — amiodarona), hipotireoidismo congênito (triagem neonatal obrigatória — fenilcetonúria e hip. congênito)
  • Central (hipofisário ou hipotalâmico): TSH baixo + T4L baixo; causas: adenoma hipofisário, radioterapia
  • Subclínico: TSH alto + T4L normal; debate sobre tratamento: tratar se TSH > 10 mU/L; sintomático; gravidez; risco cardiovascular

HIPERTIREOIDISMO — tipos e causas:

  • Doença de Graves (mais comum em adultos jovens): autoanticorpos TRAb (TSH Receptor Antibodies) ativadores → estimulam o receptor de TSH → tireóide produz T4/T3 em excesso + crescimento (bócio difuso tóxico); TSH suprimido + T4L e T3L altos + TRAb positivos; sinal clínico exclusivo: oftalmopatia de Graves (exoftalmo, retração palpebral) e dermopatia pré-tibial (mixedema pré-tibial)
  • Bócio multinodular tóxico (Plummer): nódulos autônomos que produzem hormônio independentemente do TSH; mais em idosos; TSH suprimido
  • Adenoma tóxico solitário: nódulo único autônomo
  • Tireoidite: inflamação libera T4/T3 armazenados → hipertireoidismo transitório seguido de hipotireoidismo transitório; não responde a tionamidas (não há síntese nova, só liberação de estoques)

Sintomas do hipertireoidismo: taquicardia, palpitações, tremor fino, perda de peso apesar de hiperfagia, intolerância ao calor, sudorese, insônia, ansiedade, diarreia, fadiga (paradoxal), fraqueza muscular proximal, fibrilação atrial (especialmente idosos — FA com etiologia não esclarecida → sempre dosar TSH)

Levotiroxina, metimazol, propiltiouracil, iodo radioativo e tratamento da crise tireotóxica

LEVOTIROXINA (LT4) — reposição no hipotireoidismo: (Synthroid® — Abbvie; Puran T4® — Sanofi/Cristália; Euthyrox® — Merck; genérico)

Mecanismo: T4 exógeno → deiodinação periférica → T3 (principalmente) → ação nos receptores nucleares TR

Dose: estimada em 1.6-1.7 μg/kg/dia (adultos) → iniciar com dose baixa em idosos e cardiopatas (25-50 μg/dia) → aumentar a cada 6-8 semanas avaliando o TSH; em adultos jovens saudáveis: pode iniciar na dose plena estimada

Monitoramento: TSH 4-6 semanas após mudança de dose ou inicio; TSH alvo: 0.4-4 mU/L (referência do laboratório); em idosos e coronariopatas: TSH 1-3 mU/L (evitar supressão); em gravidez: TSH < 2.5 mU/L (1º trimestre) por necessidade aumentada (20-30% de aumento de dose na gravidez)

Farmacocinética e absorção:

  • Tomada em JEJUM (30-60 min antes do café da manhã) ou 4h após a última refeição → alimentos, especialmente ricos em cálcio, fibras, soja, reduzem absorção
  • Interações com absorção (adm simultânea reduz absorção de LT4): colestiramina, sulfato ferroso, carbonato de cálcio, antiácidos (hidróxido de alumínio), omeprazol/IBPs, sucralfato → espaçar 4h
  • Indutores de CYP que aumentam metabolismo de T4: rifampicina, carbamazepina, fenitoína → podem requerer aumento de dose de LT4
  • Gravidez → necessidade de dose ~30-50% maior (monitorar TSH a cada 4-6 semanas durante a gravidez)

Formas de apresentação: comprimidos orais 25, 50, 75, 88, 100, 112, 125, 137, 150, 175, 200 μg; solução oral (Synthroid® Elixir); IV (para coma mixedematoso)

COMA MIXEDEMATOSO (hipotireoidismo grave extremo):

  • Emergência metabólica; precipitado por: infecção, cirurgia, hipotermia, drogas (amiodarona, lítio), sedativos;
  • Tratamento: LT4 200-400 μg IV bólus (saturação dos sítios de ligação) → 50-100 μg/dia IV → hidrocortisona 100 mg IV 8/8h (hipofunção adrenal associada ou para prevenir crise adrenal ao corrigir o hipotireoidismo); aquecimento passivo; suporte ventilatório se coma profundo; T3 (liotironina) em casos muito graves (mais rápido mas mais cardiotóxico)

METIMAZOL (MMI) (Tapazol® — Pfizer; Tapazole® — King; Strumazol® — Libbs; Thyrozol® — Merck):

Mecanismo: inibe a tireoperoxidase (TPO) → bloqueia a oxidação do iodeto → sem organificação do iodo → sem síntese de T4/T3

  • Não bloqueia a LIBERAÇÃO dos hormônios já sintetizados (leva semanas para estoques se esgotarem)
  • Não converte T4 → T3 (ao contrário do PTU que também bloqueia a deiodinase periférica)

Dose para hipertireoidismo: iniciar 20-40 mg/dia (hipertireoidismo moderado-grave) em 1-3 doses; reduzir para manutenção (5-10 mg/dia) quando T4L normaliza e TSH começa a subir

Controle do Graves: tratamento por 12-18 meses → 40-50% de remissão em Graves após suspensão (especialmente em bócio pequeno, TRAb em queda, mulher jovem)

Efeitos adversos:

  • Agranulocitose (0.2-0.5%): neutropenia grave → risco de infecções bacterianas fatais; ocorre principalmente nos primeiros 90 dias; SEMPRE orientar o paciente: qualquer febre, calafrio, odinofagia → SUSPENDER MMI e buscar avaliação urgente com hemograma; hemograma de rotina NÃO previne (agranulocitose é abrupta)
  • Hepatotoxicidade (colestase — menos que PTU)
  • Rash cutâneo, urticária (5-10% — pode trocar para PTU se rash leve; se grave, iodo radioativo ou cirurgia)
  • Artralgia
  • TERATOGÊNICO (categoria D/X): atravessa a placenta → bócio fetal e hipotireoidismo fetal; pode causar aplasia cutis (lesão de couro cabeludo) e embriopatia do metimazol (raros mas descritos) → no 1º TRIMESTRE da gravidez: PREFERIR PTU; a partir do 2º trimestre: pode retornar ao MMI (PTU tem maior hepatotoxicidade materna)

PROPILTIOURACIL (PTU) (Propiltiouracil® — genérico):

Mecanismo DUPLO: inibe TPO (como MMI) + inibe a deiodinase periférica tipo 1 → bloqueia conversão de T4 → T3 → queda mais rápida do T3 ativo; mais rápido para controle de T3 em crise tireotóxica

Indicações preferenciais:

  • 1º TRIMESTRE DA GRAVIDEZ: menor teratogenicidade que MMI no 1º tri → PTU preferred na organogênese
  • Crise tireotóxica (tireotoxicose grave): PTU 200-250 mg 4-6x/dia → inibe tanto síntese quanto conversão de T4→T3
  • Intolerância ao MMI

Efeitos adversos: Hepatotoxicidade GRAVE (fulminante, fatal em casos raros) — Black box warning FDA; hepatite citolítica (ao contrário do MMI que é colestática); 1:1000 casos; monitorar TGO/TGP no 1º mês

IODO RADIOATIVO (I-131 — ¹³¹I):

  • Administrado VO (cápsula ou solução oral) → captado pelo NIS dos tireócitos → emite radiação beta que destrói seletivamente o parênquima tireoidiano
  • Indicações: hipertireoidismo de Graves (especialmente adultos sem gestação, sem oftalmopatia grave — porque I-131 pode exacerbar a oftalmopatia de Graves), bócio multinodular tóxico, adenoma tóxico
  • Resultado esperado: hipotireoidismo em 80-90% em 6-12 meses → reposição com levotiroxina para sempre
  • CONTRAINDICADO em: gravidez e lactação, crianças menores (debatido), oftalmopatia de Graves ativa grave (pode piorar)
  • Pré-condicionamento: normalizar T4/T3 com MMI por 4-6 semanas (reduzir risco de crise após I-131); suspender MMI 3-7 dias antes do I-131 (evitar interferência na captação)

CRISE TIREOTÓXICA (Tempestade Tireoidiana):

  • Emergência metabólica com mortalidade de 10-30%; precipitantes: cirurgia em hipertireoidismo não controlado, IAM, infecção, trauma, suspensão abrupta de tionamida, iodo radioativo em hipertireoidismo não controlado
  • Burch-Wartofsky Score (pontuação diagnóstica): FC > 130, febre > 40°C, agitação, IC, fibrilação atrial, insuficiência hepática
  • Tratamento urgente (em paralelo):

1. PTU 600 mg VO/sonda NG (dose de ataque) → 200-300 mg 4/4h (inibe TPO + bloqueio de conversão T4→T3) 2. Iodeto (solução de Lugol® 5 gotas 6/6h ou iodeto de potássio — SSKI): 1 hora APÓS o PTU → bloqueia a LIBERAÇÃO dos hormônios (Efeito Wolff-Chaikoff — excesso de iodo inibe transitoriamente a síntese/liberação → deve ser dado DEPOIS do PTU para não fornecer substrato) 3. Betabloqueador (propranolol IV ou VO): controla taquicardia, taquiarritmia, tremor, agitação — agindo em receptores beta adrenérgicos aumentados pelo excesso de T3; propranolol em dose alta (40-80 mg 4-6x/dia) também inibe parcialmente a conversão T4→T3 4. Corticoide (hidrocortisona 300 mg IV/dia): inibe conversão de T4→T3 + previne insuficiência adrenal relativa (eixo adrenal consumido no estresse extremo) + efeito anti-inflamatório 5. Suporte: UTI, resfriamento, hidratação, terapia da causa precipitante

Perguntas frequentes sobre medicamentos para tireóide

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Preciso tomar levotiroxina para sempre? Posso parar se o TSH normalizar?+

Depende da causa do hipotireoidismo. Na maioria dos casos em adultos (tireoidite de Hashimoto com destruição autoimune progressiva, hipotireoidismo pós-tireoidectomia, pós-iodo radioativo), a resposta é SIM — o tratamento com levotiroxina é indefinido/vitalício. A tireóide nesses casos está destruída ou ausente, e não vai recuperar sua função. Parar a levotiroxina faria os sintomas do hipotireoidismo voltarem (cansaço, frio, constipação, bradicardia, ganho de peso, depressão, risco de coma mixedematoso em casos extremos). Exceções onde pode ser possível parar: hipotireoidismo subclínico transitório (TSH levemente elevado com T4 normal após, por exemplo, tireoidite pós-parto — pode remitir espontaneamente; tentativa de retirada após 6-12 meses de tratamento com TSH de controle); hipotireoidismo por medicação (amiodarona, lítio, interferon — se a medicação for suspensa, a função tireoidiana pode retornar); hipotireoidismo transitório pós-tireoidite subaguda de De Quervain (geralmente se resolve em semanas a meses sem necessidade de tratamento prolongado). Nunca para a levotiroxina sem orientação médica. A levotiroxina é um dos medicamentos mais seguros em uso — repõe apenas o que o corpo deveria produzir. O monitoramento do TSH a cada 6-12 meses (quando em dose estável) é o controle habitual de longo prazo.

Metimazol causou febre e dor de garganta — o que devo fazer?+

Você deve parar o metimazol IMEDIATAMENTE e buscar atendimento médico urgente com hemograma. Febre + odinofagia (dor de garganta) em usuário de metimazol/propiltiouracil são sinais de alerta para agranulocitose — uma das complicações mais graves das tionamidas. A agranulocitose é a queda grave dos neutrófilos (glóbulos brancos responsáveis pela defesa contra bactérias). Quando os neutrófilos caem abaixo de 500/mm³, o sistema imune fica gravemente comprometido — infecções bacterianas que normalmente são controláveis se tornam potencialmente fatais. Febre + dor de garganta = sinais clássicos de infecção bacteriana sem resposta imune adequada (agranulocitose). A regra é clara: qualquer febre ou odinofagia em usuário de tionamida = PARAR o medicamento + hemograma urgente + avaliação médica. Se o hemograma confirmar agranulocitose: hospitalização, antibioticoterapia de amplo espectro, G-CSF (fator estimulante de colônias de granulócitos) para acelerar a recuperação da medula óssea. Após agranulocitose confirmada pelo metimazol, a tionamida NUNCA deve ser reiniciada — o tratamento do hipertireoidismo será redirecionado para iodo radioativo ou cirurgia (tireoidectomia). O propiltiouracil pode causar a mesma complicação — a mesma orientação se aplica.

Referências Científicas

  1. Jonklaas J, Bianco AC, Bauer AJ, et al. (ATA guidelines for hypothyroidism — thyroid journal) Guidelines for the treatment of hypothyroidism: prepared by the american thyroid association task force on thyroid hormone replacement. Thyroid, 2014.
  2. Ross DS, Burch HB, Cooper DS, et al. (ATA guidelines for hyperthyroidism and other causes of thyrotoxicosis) 2016 American Thyroid Association guidelines for diagnosis and management of hyperthyroidism and other causes of thyrotoxicosis. Thyroid, 2016.
  3. Burch HB, Wartofsky L. (Life-threatening thyrotoxicosis — thyroid storm — Endocrinol Metab Clin N Am) Life-threatening thyrotoxicosis. Thyroid storm. Endocrinol Metab Clin North Am, 1993.
  4. Bahn RS, Burch HB, Cooper DS, et al. (Graves disease — ATA/AACE guidelines) Hyperthyroidism and other causes of thyrotoxicosis: management guidelines of the American Thyroid Association and American Association of Clinical Endocrinologists. Thyroid, 2011.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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