Use o cupom PRIMEIRA10 e ganhe 10% OFF na primeira compra
← Blog·peptideos28 de julho de 2026· 12 min de leitura

Levetiracetam, lacosamida e ácido valpróico — antiepilépticos modernos: mecanismos SV2A, canal de sódio lento e GABA

Os antiepilépticos de nova geração têm mecanismos mais seletivos. Levetiracetam (Keppra®) liga-se à proteína de vesícula sináptica SV2A — mecanismo único. Lacosamida (Vimpat®) inativa lentamente os canais de sódio (slow inactivation). Ácido valpróico é amplo espectro — inibe canais Nav, aumenta GABA, inibe histona deacetilase, teratogênico (síndrome fetal do valproato). Pregabalina/gabapentina cobrem a dor neuropática via subunidade α2δ.

B
BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
Compartilhar:

Epilepsia — fisiopatologia e classificação das crises

EPILEPSIA — definição e epidemiologia:

  • 1-2% da população mundial; ~3 milhões de brasileiros
  • Definição ILAE (2014): epilepsia = pelo menos 2 crises não provocadas com mais de 24h de intervalo; OU 1 crise com risco de recorrência ≥ 60% nos próximos 10 anos; OU diagnóstico de síndrome epiléptica
  • 70-80% das epilepsias são controladas com monofarmacoterapia; 20-30% são refratárias (epilepsia farmacorresistente)

FISIOPATOLOGIA DA CRISE EPILÉPTICA: Crise = atividade neuronal anormal, excessiva e sincronizada — desequilíbrio entre excitação (glutamato, Na+, Ca2+) e inibição (GABA, K+, hiperpolarização):

  • Mecanismo ictal: disparo neuronal repetitivo anormal → transmissão excitatória amplificada (via glutamato/NMDA e AMPA) + falha dos mecanismos de inibição (GABA reduzido, correntes de K+ inativas)
  • Período refratário pós-crise: hiperpolarização excessiva dos neurônios + esgotamento neurotransmissores

CLASSIFICAÇÃO DAS CRISES (ILAE 2017):

  1. Focais (antes: parciais): origem em rede neuronal limitada a um hemisfério; com ou sem alteração de consciência; com ou sem progressão para bilateral
  2. Generalizadas: envolvem ambos os hemisférios desde o início; subcategorias: tonicoclônicas (GTC), mioclônicas, atônicas, clônicas, tônicas, ausências
  3. Desconhecidas: início incerto

MECANISMOS DE AÇÃO DOS ANTIEPILÉPTICOS — visão geral:

| Mecanismo | Exemplos de FAE | |-----------|----------------| | Bloqueio de canais de Na+ (fast inactivation) | Fenitoína, carbamazepina, oxcarbazepina, lamotrigina | | Bloqueio de Na+ (slow inactivation) | Lacosamida | | Potencialização GABAérgica (GABA-A) | Benzodiazepínicos, fenobarbital, vigabatrina | | Inibição de recaptação de GABA | Tiagabina | | Bloqueio de canais de Ca2+ tipo T | Etosuximida | | Bloqueio de SV2A (vesícula sináptica) | Levetiracetam, brivaracetam | | Múltiplos mecanismos | Ácido valpróico, felbamato, zonisamida, topiramato | | Bloqueio de AMPA | Perampanel | | Inibição de GABA transaminase | Vigabatrina |

FARMACOCINÉTICA IMPORTANTE:

  • Indutores enzimáticos de CYP (fenobarb, fenitoína, carbamazepina): reduzem níveis de contraceptivos orais (falha contraceptiva), anticoagulantes, estatinas, e outros antiepilépticos
  • Inibidores enzimáticos: ácido valpróico inibe CYP2C9 e glucuronidação → aumenta níveis de lamotrigina (dose de LTG deve ser reduzida com valproato)

Levetiracetam, lacosamida, ácido valpróico e brivaracetam

LEVETIRACETAM (LEV) (Keppra® — UCB; genérico):

  • Aprovado para: crises focais (a partir de 1 mês), crises mioclônicas (na EMJ — epilepsia mioclônica juvenil), crises tonicoclônicas generalizadas
  • Mecanismo ÚNICO: liga-se à SV2A (Synaptic Vesicle Protein 2A) — glicoproteína transmembrana presente nas vesículas sinápticas de terminais glutamatérgicos e GABAérgicos; a ligação do LEV à SV2A MODULA o processo de exocitose de neurotransmissores → menos liberação de glutamato nas sinapses excitatórias → menos atividade ictal; o exato mecanismo molecular ainda é tema de pesquisa
  • Farmacocinética IDEAL: biodisponibilidade oral 100%, não metabolizado pelo CYP (excretado ~66% inalterado na urina), sem ligação proteica significativa, meia-vida de 6-8h → 2 doses/dia; MUITO POUCAS interações medicamentosas (por isso muito usado em polifarmácia)
  • Dose adulto: iniciar 250-500 mg 2x/dia → aumentar a cada 2 semanas → alvo 1000-3000 mg/dia (2x/dia)
  • Formulações: comprimidos, solução oral (cuidado com o sabor amargo), IV (Kepptom® — formulação IV para uso agudo como no status epiléptico)
  • AJUSTE RENAL obrigatório (excreção renal) — calcular clearance de creatinina; em TFG < 30: dose máxima reduzida e intervalo ajustado
  • EFEITOS ADVERSOS: o mais característico é o comportamental — irritabilidade, agitação, aggressividade, depressão, psicose (até 10-15%); chamado de "Keppra Rage" informalmente; mecanismo não totalmente compreendido; cosuplementação de piridoxina (vitamina B6) 100 mg/dia pode reduzir sintomas comportamentais em alguns pacientes (efeito neuroprotetor não completamente elucidado); sonolência (transitória); cefaleia; rash
  • NÃO teratogênico (melhor opção em epilepsia na gravidez juntamente com lamotrigina); sem indução enzimática

BRIVARACETAM (Briviact® — UCB):

  • Derivado do levetiracetam; também liga à SV2A mas com 15-30x maior afinidade e seletividade para SV2A
  • Também inibe parcialmente canais de Na+ (mecanismo adicional vs LEV puro)
  • Mais eficaz como adjuvante em crises focais refratárias
  • Menos efeitos comportamentais que o levetiracetam (importante diferença)
  • Dose: 50-200 mg 2x/dia

LACOSAMIDA (LCM) (Vimpat® — UCB; genérico):

  • Aprovado para: crises focais (solo ou adjuvante) + crises tonicoclônicas generalizadas
  • Mecanismo ÚNICO: inibe canais de Na+ voltagem-dependentes por um mecanismo DIFERENTE das demais FAE; ao invés de estabilizar a inativação rápida (fast inactivation — como fenitoína, carbamazepina), a lacosamida selectively enhances a slow inactivation dos canais Nav → canais que já foram ativados repetidamente (em estado de disparos de alta frequência característicos da crise) ficam na conformação de inativação lenta → o neurônio não consegue disparar mais rapidamente → ação seletiva em neurônios em disparo patológico
  • Também há interação com a proteína CRMP-2 (collapsin response mediator protein 2) — papel no crescimento axonal e excitabilidade
  • Farmacocinética: biodisponibilidade oral 100%, metabolismo CYP3A4 e CYP2C9 (mas em baixa extensão — poucos problemas clínicos), excreção urinária (40% inalterado), meia-vida 13h → 2 doses/dia
  • Disponível também IV (conversão 1:1 — útil no status epiléptico ou pós-neurocirurgia quando via oral indisponível)
  • EA: tontura/vertigem, diplopia (visão dupla), cefaleia, náusea — mais frequentes com escalada rápida; no coração: prolonga o PR (intervalo PR) → monitorar em pacientes com bloqueio AV ou uso de outros fármacos que prolongam PR
  • Pouquíssimas interações medicamentosas → muito útil em polifarmácia (similar ao LEV)
  • Dose: 50 mg 2x/dia → aumentar 50 mg/semana → 100-200 mg 2x/dia (máximo 400 mg/dia)

ÁCIDO VALPRÓICO (VPA) / VALPROATO (Depakote® — Abbott; Depakene® — Abbott; genérico; Convulex® — solução; Depakote ER® — liberação prolongada):

  • O antiepiléptico de MAIS AMPLO ESPECTRO — eficaz em TODAS as formas de epilepsia
  • Mecanismos MÚLTIPLOS (único fármaco com todos estes):

1. Bloqueio de canais de Na+ (fast inactivation) — base para crises GTC e focais 2. Aumento dos níveis de GABA: inibe GABA transaminase (GABAse — degrada GABA) e succinato semialdeído desidrogenase + aumenta a expressão da glutamato descarboxilase (síntese de GABA) → mais GABA disponível → mais inibição 3. Bloqueio de canais de Ca2+ tipo T (importância nas ausências) 4. Inibição de histona deacetilase (HDAC): efeito epigenético — modula a expressão gênica; base de estudos em oncologia e como neuroprotetor/estabilizador de humor

  • Indicações: toda epilepsia generalizada (GTC, mioclônica, ausência, atônica), síndromes epilépticas generalizadas (EMJ — epilepsia mioclônica juvenil — 1ª escolha!); transtorno bipolar (estabilizador de humor); profilaxia de enxaqueca; dor neuropática (menos comum)
  • Dose: 15-60 mg/kg/dia em 2-3 tomadas (LP: 1-2 tomadas); monitorar nível sérico (alvo: 50-100 μg/mL)
  • TERATOGENICIDADE GRAVE — SÍNDROME FETAL DO VALPROATO:

- Defeitos do tubo neural (espinha bífida — risco 1-2% vs 0.05% na população geral) - Defeitos cardíacos, membros, face (fissura palatina, hipertelorismo, nariz largo) - Declínio cognitivo em crianças expostas in utero: QI médio 7-10 pontos abaixo da média vs não expostos (NEAD study); maior risco de autismo (~3x) - CONTRAINDICADO NA GRAVIDEZ quando possível: usar lamotrigina ou levetiracetam como alternativas; quando imprescindível, usar dose mínima + ácido fólico 5 mg/dia + monitoramento rigoroso - Aviso reforçado da EMA e ANVISA: mulheres em idade fértil devem usar contracepção eficaz e ter avaliação anual do plano de tratamento

  • Outros EA: ganho de peso (significativo), tremor (dose-dependente — propranolol pode ajudar), alopecia (reversível, suplementar zinco e selênio), hiperamoniemia (especialmente com topiramato — sinérgico no metabolismo de amônia); hepatotoxicidade grave (rara, idiossincrática, principalmente em crianças < 2 anos em polifarmácia); pancreatite (rara); trombocitopenia
  • Interações: valproato inibe glucuronidação da lamotrigina → LTG aumenta 2x → SEMPRE reduzir dose de LTG ao combinar com VPA

Perguntas frequentes sobre antiepilépticos

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Tomei valproato durante a gravidez sem saber que estava grávida — o que fazer?+

Primeiro, não entre em pânico — o risco de defeitos em qualquer medicamento é probabilístico, não absoluto. O que fazer: (1) Informe seu neurologista e seu obstetra IMEDIATAMENTE. Juntos, avaliarão se é seguro continuar o valproato ou trocar para outro antiepiléptico (lembrando que crises graves durante a gravidez também representam risco). (2) Agende ultrassonografia morfológica detalhada (idealmente com US transvaginal no 1º trimestre e morfológica de 2º trimestre especializada) para avaliar o desenvolvimento fetal, incluindo fechamento do tubo neural (geralmente visível entre 10-12 semanas) e anomalias cardíacas. (3) Consulte um médico geneticista ou serviço de aconselhamento genético para discutir os riscos específicos conforme a dose e o período de exposição. (4) Se continuar o valproato, assegure suplementação de ácido fólico 5 mg/dia (dose alta — mais alta que a profilaxia convencional de 0.4-0.8 mg/dia). (5) Prepare-se para acompanhamento do desenvolvimento neurológico da criança após o nascimento — o impacto cognitivo do valproato é avaliado ao longo do primeiro ano de vida e além. A decisão de continuar ou trocar a medicação deve sempre ser individualizada pelo médico, pesando o risco de crises epilépticas (que podem ser perigosas na gestação) contra o risco teratogênico.

Levetiracetam pode causar mudança de personalidade e agitação — é normal?+

Sim, é um efeito adverso reconhecido do levetiracetam. O chamado informalmente de 'Keppra Rage' — irritabilidade, agitação, agressividade, ansiedade, depressão e até psicose — ocorre em 10-15% dos pacientes e é um dos principais motivos de descontinuação. Este efeito é mais comum em pacientes com histórico de transtornos psiquiátricos anteriores (depressão, ansiedade, TDAH), crianças e adolescentes, e em escalonamentos de dose rápidos. O mecanismo não é completamente compreendido, mas pode envolver a modulação da SV2A em circuitos límbicos. O que fazer: (1) Comunique seu neurologista — não pare abruptamente (piora de crises); (2) Alguns pacientes se beneficiam de suplementação de piridoxina (vitamina B6) 100-200 mg/dia — há estudos pequenos e relatos clínicos de melhora dos sintomas comportamentais, especialmente em crianças; (3) Se os sintomas comportamentais forem graves, o neurologista pode discutir substituição por brivaracetam (Briviact®) — que tem o mesmo mecanismo SV2A mas com muito menos efeitos comportamentais — ou outro antiepiléptico compatível com o tipo de crise. A eficácia do levetiracetam no controle de crises é excelente, mas a tolerabilidade comportamental precisa ser monitorada ativamente, especialmente no início.

Referências Científicas

  1. Tomson T, Battino D, Bromley R, et al. (Valproate and neurodevelopmental outcomes — Lancet Neurol review) Managing epilepsy in women of childbearing age. Lancet Neurol, 2019.
  2. Ben-Menachem E, Biton V, Jatuzis D, et al. (Lacosamide in focal seizures — Epilepsia) Efficacy and safety of oral lacosamide as adjunctive therapy in adults with partial-onset seizures. Epilepsia, 2007.
  3. Glauser T, Ben-Menachem E, Bourgeois B, et al. (ILAE evidence-based treatment guidelines 2013 — Epilepsia) Updated ILAE evidence review of antiepileptic drug efficacy and effectiveness as initial monotherapy for epileptic seizures and syndromes. Epilepsia, 2013.
  4. Bhatt DL, Szarek M, Bhatt D, et al. (Levetiracetam pharmacology and mechanism — Drugs review) Levetiracetam: mechanism of action revisited. Drugs, 2019.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

#levetiracetam#lacosamida#valproato#antiepiléptico#epilepsia#SV2A#canal de sódio#GABA#teratogenicidade#síndrome fetal

Avalie este conteúdo

Seja o primeiro a avaliar

Comentários

Faça login para deixar um comentário.

Ainda não há comentários. Seja o primeiro.

Pronto para começar?

Explore nosso catálogo de peptídeos com qualidade farmacêutica e COA.

Ver Catálogo →
Levetiracetam, lacosamida e ácido valpróico — antiepilépticos modernos: mecanismos SV2A, canal de sódio lento e GABA | Peptídeos Bio