Leptina: o hormônio da saciedade do tecido adiposo
Leptina — adipocina (16 kDa, 167 aa) produzida pelo tecido adiposo branco em proporção à massa de gordura:
Descoberta: ob/ob mouse (1950s) → fator circulante faltante → clonagem do gene ob em 1994 (Zhang, Coleman) → proteína: leptina. db/db mouse: sem receptor de leptina → obesos + leptina alta (análogo humano da deficiência do receptor)
Regulação da secreção:
- ↑ com: massa de gordura, insulina, glucocorticoides (agudo), infecção/inflamação (IL-1, TNF-α), alimentação
- ↓ com: jejum (queda rápida, antes da perda de gordura!), exercício, andrógenos, frio, agonistas β₃-AR
Receptor de Leptina (LepR, ObR) — família do receptor de citocinas de classe I; isoformas LepRa-e; a funcional é LepRb (longa, com domínio intracelular completo) → ativa JAK2/STAT3:
Centros de ação hipotalâmica da leptina:
- Núcleo arqueado (ARC): dois subtipos neurais principais:
1. Neurônios POMC/CART (pró-opiomelanocortina + cocaine-and-amphetamine-regulated transcript): leptina → STAT3 → ↑ expressão de POMC → α-MSH (agonista de MC4R no PVN) → saciedade + gasto energético 2. Neurônios AgRP/NPY (Agouti-related peptide + Neuropeptídeo Y): leptina os inibe → ↓ AgRP (antagonista de MC4R) e ↓ NPY (orexigênico) → menos fome
- Outras áreas: VTA (dopamina, recompensa), DMH, LH, NTS (tronco encefálico)
Resistência à Leptina (o paradoxo da obesidade):
- Obesos têm leptina plasmática alta (muita gordura), mas hiperfagia paradoxal
- Mecanismos de resistência: (1) transporte reduzido de leptina pelo plexo coroide para SNC; (2) supressão de JAK2/STAT3 por SOCS3 (upregulado pela própria leptina → feedback negativo); (3) estresse do RE hipotalâmico; (4) inflamação hipotalâmica (microgliose por dieta hiperlipídica)
- Resultado: mesmo com leptina alta, o cérebro não "vê" o sinal adequadamente → continua com apetite como se fosse magro
Deficiência congênita de leptina (raridade, LEP mutation):
- Obesidade infantil grave, hiperfagia extrema, hipogonadismo hipogonadotrópico, imunossupressão
- Tratamento: Metreleptina (Myalept®): leptina recombinante SC → tratamento revolucionário em deficiência de leptina; aprovada para lipodistrofia generalizada
Grelina: hormônio da fome e eixo gástrico-hipotalâmico
Grelina — peptídeo de 28 aa produzido pelas células X/A do fundo gástrico (e menores quantidades no hipotálamo, intestino):
Peculiaridade estrutural: único hormônio com modificação acil-ester — octanoil (C8) no resíduo Ser³ → acilação por GOAT (Ghrelin O-acyl transferase); a acil-grelina (active) ativa receptor GHSR-1a; des-acil-grelina (majority, ~80-90%) é inativa em GHSR-1a mas tem efeitos via receptores distintos
Receptor GHSR-1a (Growth Hormone Secretagogue Receptor): GPCR acoplado a Gq — expresso em hipotálamo (especialmente ARC e NPY/AgRP), pituitária, coração, estômago
Regulação da grelina:
- ↑ com: jejum, restrição calórica, cirurgia de bypass gástrico (Roux-en-Y — contraria-intuitivamente, grelina sobe menos que esperado pós-RYGB → papel na perda de peso pós-cirúrgica)
- ↓ com: alimentação, glicose, insulina, leptina, depois de bariátrica vertical (sleeve gastrectomia remove corpo gástrico — maior fonte de grelina → grelina cai 65%)
Ações da grelina:
- Orexigênica (principal): grelina → ARC → ativa AgRP/NPY → ↑ apetite; inibe POMC diretamente
- Secreção de GH: grelina → pituitária → secreção pulsátil de GH (segundo maior estímulo após GHRH)
- Lipogênese e adipogênese: grelina → promove acúmulo de gordura via ativação do SNS e lipogênese
- Recompensa: grelina em VTA → ativa dopamina → busca por alimentos palatáveis, comportamento motivado
- Gastroprotegem: grelina → trato GI → motilidade, proteção de mucosa
- Cardioprotegem: grelina → vasodilatação, cardioproteção (dados em IC)
Grelina em distúrbios alimentares:
- Anorexia nervosa: grelina paradoxalmente alta (resposta compensatória — fome não é o problema, mas cognição/controle)
- Síndrome de Prader-Willi: hiperfagia + grelina altíssima (origem genética da hipersecreção)
- Obesidade: grelina basal baixa (adaptação ao excesso calórico), mas não suprimida adequadamente pós-prandial
Antagonistas de grelina / inibidores de GOAT (em desenvolvimento para obesidade):
- GOAT inibidores: previnem acilação → menos grelina ativa
- Anticorpos anti-grelina: reduzem apetite em modelos animais; estudos humanos limitados
Via melanocortínica hipotalâmica e MC4R
Via Melanocortínica — circuito neuronal central do controle do peso:
POMC (Pró-Opiomelanocortina) — precursor de múltiplos peptídeos:
- Processado por PC1/2 no ARC → α-MSH (13 aa), β-MSH, γ-MSH, β-endorfina, ACTH
- α-MSH = agonista endógeno dos receptores melanocortínicos MC3R e MC4R
- Clivagem diferente na pituitária anterior: POMC → ACTH (estímulo adrenal), β-MSH, β-lipotropin
AgRP (Agouti-related Peptide) — antagonista endógeno de MC3R/MC4R + agonista inverso:
- Co-expresso com NPY em neurônios do ARC
- Suprimido por leptina, insulina; ativado por jejum
- Bloqueia α-MSH dos receptores MC4R → mais apetite + menos gasto energético
Receptor MC4R:
- GPCR expresso em PVN (núcleo paraventricular), NTS, outras áreas
- Ativação por α-MSH → Gs → cAMP → PKA → anorexia + termogênese (↑ gasto energético)
- Bloqueio por AgRP → apetite + obesidade
Melanocortinas como reguladores de pigmentação e além:
- MC1R: melanócitos — α-MSH → pigmentação (melanina)
- MC2R: córtex adrenal — ACTH → cortisol (veja glucocorticoides)
- MC3R: hipotálamo, intestino — regulação energética, ciclo feed-forward
- MC4R: SNC — balanço energético (mais relevante em humanos para obesidade)
- MC5R: glândulas exócrinas
Mutações no MC4R:
- Mutação de perda de função em MC4R = causa mais comum de obesidade monogênica severa (~4-6% de obesos graves precoces)
- Heterozigose já causa obesidade (haploinsuficiência); homozigose — obesidade grave infantil, hiperfagia, resistência à insulina
- Não responsivos a setmelanotida (agonista MC4R não funciona se MC4R ausente/não-funcional)
Setmelanotida (Imcivree® — Rhythm Pharmaceuticals):
- Agonista seletivo de MC4R (também MC3R)
- Aprovado FDA 2020 para: deficiência de POMC, de PCSK1 (PC1/3), de receptor de leptina (LepRb) — causas genéticas raras de obesidade
- SC diária; redução de >10% do peso em >45% dos pacientes com obesidade por LEPR/POMC/PCSK1
- Efeitos adversos: hiperpigmentação (via MC1R), náusea, reações no local de injeção, ereções espontâneas, hipertensão
Adipocinas e síndrome metabólica
Adipocinas — citocinas e hormônios secretados pelo tecido adiposo com efeitos sistêmicos:
Adiponectina:
- Abundante no plasma (μg/mL — 1000x maior que leptina)
- Inversamente proporcional à adiposidade visceral (quanto mais gordura visceral, menos adiponectina)
- Receptores: AdipoR1 (músculo/fígado) e AdipoR2 (fígado) — ativam AMPK e PPAR-α
- Efeitos: anti-inflamatório, sensibilizador de insulina, anti-aterogênico, hepatoprotetor
- Baixa adiponectina: biomarcador de RI, risco cardiovascular, DM2, DHGNA/MASLD
- Análogo: AdipoRon (não aprovado) — ativa AdipoR1/2 em camundongos obesos → melhora metabolismo
Resistina:
- Humanos: secretada mais por macrófagos; correlação com inflamação e RI
- Roedores: mais específica de adipócitos; claramente ligada à RI
- Mecanismo: ativa TLR4 → NF-κB → citocinas pró-inflamatórias → RI hepática
Visfatina (NAMPT/PBEF):
- Enzima limitante da síntese de NAD⁺ (NAMPT); insulinomimética mas mecanismo controverso
- Pró-inflamatória; correlaciona com obesidade visceral e placa aterosclerótica instável
Apelina:
- GPCR ligante (APJ receptor) — cardioprotegem, vasodilatador, melhora RI
- Reduzida na obesidade/DM2; anti-fibrótica em fígado e pulmão
FGF-21 (Fibroblast Growth Factor 21):
- Secretado pelo fígado em jejum → tecido adiposo (receptor FGFR1+βKlotho) → oxidação de gordura, melhora RI
- Análogos/agonistas em desenvolvimento para MASLD/obesidade: efruxifermin (Phase 3 MASLD), pegbelfermin
Síndrome Metabólica e adipocinas:
- Critérios NCEP-ATP III/IDF: obesidade abdominal + ≥2 de (TG alto, HDL baixo, HAS, glicemia jejum ≥100)
- Perfil de adipocinas: ↑ leptina, ↓ adiponectina, ↑ resistina, ↑ TNF-α e IL-6 → inflamação crônica de baixo grau
- Tecido adiposo visceral = endócrino inflamatório (drena diretamente para circulação portal → fígado mais exposto a citocinas e AGL)
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