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← Blog·peptideos13 de julho de 2026· 12 min de leitura

Anestesia geral — ketamina, propofol e sevoflurano: receptores NMDA, GABA-A, mecanismo de ação, indução e manutenção anestésica

Anestesia geral combina hipnose, amnésia, analgesia e imobilidade. Propofol (GABA-A potenciador) é o agente de indução e TIVA padrão. Sevoflurano/desflurano (anestésicos inalatórios — GABA-A/NMDA) são usados para manutenção. Ketamina (antagonista NMDA) é o único anestésico com propriedades analgésicas fortes. Etomidato tem o maior estabilidade cardiovascular — preferido no choque. Remifentanil é o opioide sintético ultracurto de anestesia.

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Anestesia geral — componentes, alvos moleculares e mecanismo de ação dos agentes

ANESTESIA GERAL — conceito e componentes:

A anestesia geral é o estado controlado de reversível de: hipnose (perda de consciência), amnésia (ausência de memória do procedimento), analgesia (ausência de dor), relaxamento muscular (imobilidade) e abolição de reflexos autonômicos

Alvos moleculares dos anestésicos gerais (teorias modernas — não há um único receptor universal):

  1. Receptor GABA-A (ionotrópico — canal de Cl⁻): o principal alvo de hipnóticos IV e anestésicos inalatórios; o receptor GABA-A é um pentâmero de subunidades (α, β, γ, δ) que forma um canal iônico → quando ativado pela ACh (GABA) → influxo de Cl⁻ → hiperpolarização → inibição neuronal; anestésicos POTENCIAM o GABA-A (aumentam a frequência e/ou duração da abertura do canal Cl⁻ → neurônios mais inibidos)
  • Agentes que potenciam GABA-A: propofol, etomidato, barbitúricos (tiopental/fenobarbital), benzodiazepínicos, anestésicos inalatórios (sevoflurano, isoflurano, desflurano), álcool etílico
  1. Receptor NMDA (ionotrópico de glutamato — canal de Na⁺/Ca²⁺): receptor excitatório; anestésicos que bloqueiam o NMDA reduzem a excitação cortical; também importante para analgesia (receptores NMDA na medula espinhal são chave na sensibilização central e transmissão de dor)
  • Agentes que bloqueiam NMDA: ketamina (principal), óxido nitroso (N₂O), xenônio, memantina, fenciclidina
  1. Canais de K⁺ de vazamento (two-pore domain K⁺ channels — TREK, TRAAK): anestésicos inalatórios também ativam esses canais → hiperpolarização → sedação
  1. Canal HCN (Hyperpolarization-activated cyclic nucleotide-gated — Ih): alvo dos anestésicos inalatórios; modulação do ritmo de marcapasso neuronal; propofol também inibe Ih

Concentração Alveolar Mínima (CAM / MAC):

  • Para anestésicos inalatórios: define a potência = fração de volume (%) de anestésico inalatório na mistura gasosa alveolar que previne movimento em 50% dos pacientes em resposta à incisão cirúrgica
  • MAC de sevoflurano: 2.05% (adulto jovem); 1.4% em idosos (dose menor necessária)
  • MAC de isoflurano: 1.15%; desflurano: 6.0-7.3%; halotano: 0.77%; N₂O: 104% (não atinge MAC 1 no ar ambiente → deve ser combinado com outros agentes)
  • MAC é reduzida por: opioides, propofol (adjuvante), benzodiazepínicos, hipotermia, hipotireoidismo, idade avançada, opioides crônicos, álcool
  • MAC é aumentada por: febre, hipertermia, hipertireoidismo, infância, alcoolismo agudo (em abstinência)

Propofol, ketamina, etomidato, sevoflurano e remifentanil

PROPOFOL (Diprivan® — AstraZeneca; Fresofol® — Fresenius Kabi; genérico):

Mecanismo: potenciação do receptor GABA-A (liga-se em sítio de β-subunidade → aumento da condutância de Cl⁻ → hiperpolarização cortical rápida) → hipnose e amnésia

Farmacologia: emulsão lipídica branca IV (1% = 10 mg/mL em 10% Intralipídeo/10% soja/1.2% glicerofosfatídio); início em 30-45s IV; metabolizado pelo fígado (glucuronidação) + extrahepaticamente (pulmões) → metabolitos inativos; meia-vida de eliminação rápida → despertar rápido e limpo (mínima ressaca — o paciente acorda mais lúcido que com barbitúricos)

Indicações:

  • Indução anestésica: 1.5-2.5 mg/kg IV (idosos: 1-1.5 mg/kg — sono mais rápido, dose menor)
  • Manutenção de TIVA (Total IV Anesthesia): infusão contínua 4-12 mg/kg/h (+ opioides); usado em TIVA-TCI (target controlled infusion — bomba de infusão que ajusta a infusão para atingir concentração plasmática alvo calculada por modelo farmacocinético — Schnider ou Marsh models)
  • Sedação em UTI/procedimentos: 5-50 μg/kg/min (doses menores que para indução)
  • Sedação para endoscopia, colonoscopia, cardioversão

Efeitos adversos:

  • Hipotensão (principal): reduz resistência vascular periférica (vasodilatação) + reduz débito cardíaco moderadamente → PA cai 20-35% após indução; pré-carregar com 500 mL de cristaloide reduz; etomidato é preferido quando estabilidade cardiovascular é crítica
  • Dor na injeção (30-50% dos pacientes sem pré-medicação) → injetar em veia grande (antecubital) + lidocaína 40 mg IV 30s antes
  • PRIS (Propofol Infusion Syndrome): síndrome rara mas frequentemente fatal em infusões de longa duração (>48h) e dose alta (>4-5 mg/kg/h) em UTI → acidose metabólica grave, rabdomiólise, insuficiência renal aguda, colapso cardiovascular; possível por disfunção da cadeia respiratória mitocondrial pelos derivados de fenol do propofol
  • Contém triglicérides: monitorar triglicérides em infusão prolongada; 1,1 kcal/mL (contar nas calorias da nutrição)
  • Bacteriostático por pH ácido e lipídeo → contaminação rara; preparar assepticamente; trocar frascos a cada 12h

KETAMINA (Cetamina® — Cristália; Ketalar® — Pfizer):

Mecanismo: bloqueador OPEN-CHANNEL do receptor NMDA → bloqueia o canal de Ca²⁺/Na⁺ quando aberto (use-dependent blocker) → inibição da excitação glutamatérgica → anestesia + analgesia poderosa

  • ÚNICO anestésico geral com propriedades ANALGÉSICAS significativas (diferente do propofol que é apenas hipnótico/amnésico)
  • Também interage com receptores opioides (μ, κ, δ — fraco), canais de Na⁺ e Ca²⁺ voltagem-dependentes, receptores nicotínicos e muscarínicos, receptores de dopamina

Perfil clínico diferenciado — "anestesia dissociativa":

  • Induz um estado de transe com analgesia intensa, amnésia e inconsciência parcial, mas SEM perda de reflexos protetores de vias aéreas (tosse e deglutição preservados)
  • Estimula o sistema nervoso SIMPÁTICO: hipertensão, taquicardia, broncodilatação (único anestésico que NÃO causa hipotensão → muito útil em choque hemorrágico, broncoespasmo grave, asma)
  • Aumento do FSC e da PIC (pressão intracraniana) → contraindicado em TCE com hipertensão intracraniana estabelecida (controverso; estudos recentes sugerem que com ventilação adequada e normocapnia, o efeito na PIC é mínimo)

Indicações:

  • Indução em pacientes hemodinamicamente instáveis (choque hemorrágico, trauma — a catecolamina central que libera mantém a PA)
  • Indução em broncoespasmo grave ou asma: broncodilatação (estimulação simpática + relaxamento direto da musculatura brônquica)
  • Procedimentos de emergência sem acesso venoso estabelecido: ketamina IM (4-8 mg/kg IM) — único anestésico com boa absorção intramuscular → útil em crianças não-cooperativas ou em campo (medicina de emergência/guerra)
  • Analgesia por queimaduras (curativos dolorosos) e procedimentos dolorosos de curta duração
  • Sub-anestésico (antidepressivo): doses sub-anestésicas IV (0.5 mg/kg em 40 min) → efeito antidepressivo rápido (horas) em depressão refratária → esketamina intranasal (Spravato® — Janssen; aprovada FDA 2019 para depressão refratária e ideação suicida) → via intranasal 56-84 mg 2x/semana (sob supervisão em consultório, monitorar dissociação e PA)
  • Efeito adverso principal: reações de emergência (emergence reactions) — delírio, alucinações, sonhos vívidos e perturbadores ao acordar; ocorrem em 10-30% dos adultos; muito menos frequentes em crianças; prevenir com benzodiazepínico (midazolam 0.05-0.1 mg/kg) antes da ketamina → midazolam suprime a componente serotoninérgica das alucinações de ketamina

ETOMIDATO (Hypnomidate® — Janssen; genérico): imidazol

  • Potencia o receptor GABA-A; MENOR depressão cardiovascular de todos os hipnóticos → PREFERIDO em: pacientes em choque (hipovolêmico, séptico, cardiogênico), doença cardíaca grave, idosos frágeis
  • 0.2-0.3 mg/kg IV; início em 30-60s; meia-vida curta
  • Supressão adrenocortical: bloqueia a 11β-hidroxilase → reduz cortisol sérico por 6-8h após dose única (etomidato inibe a síntese de cortisol pela adrenal); dose única para indução: clinicamente irrelevante; em uso prolongado (sedação em UTI — raramente usado assim) → insuficiência adrenal grave → NÃO usar etomidato em infusão contínua (reservado para indução de dose única)
  • Dor na injeção, mioclonias (movimentos musculares involuntários na indução)

SEVOFLURANO (Sevoflurane® — AbbVie/Baxter; Abbott; genérico):

  • Anestésico inalatório halogenado de terceira geração; odor agradável (não irritante) → preferido para indução inalatória em crianças (indução por máscara sem acesso venoso)
  • MAC 2.05%; início rápido (menos solúvel que isoflurano → equilíbrio alveolar/sangue mais rápido); despertar rápido
  • Não irrita vias aéreas → excellent para indução inalatória; mínima depressão cardiovascular;
  • Composto A (fluormetilvinil éter): formado pela reação do sevoflurano com a cal sodada (absorbente de CO₂ do circuito anestésico) → nefrotóxico em ratos em doses altas/prolongadas; sem evidência de nefrotoxicidade clínica humana relevante nas concentrações usadas

REMIFENTANIL (Ultiva® — AstraZeneca; genérico):

  • Opioide μ sintético (estrutura de 4-anilidopiperidina com éster metílico) → hidrolisado por esterases inespecíficas plasmáticas e teciduais em metabólito inativo → meia-vida de 3-5 min (mais curto que qualquer outro opioide); contexto-sensitivo = mesmo após infusão de horas, 50% clearance em 3-5 min
  • Analgesia intraoperatória POTENTE durante TIVA ou anestesia balanceada; infusão 0.1-0.5 μg/kg/min
  • Ao suspender a infusão → analgesia desaparece em minutos → NECESSÁRIO planejar analgesia pós-operatória antes de finalizar a cirurgia (morfina IV, cetoprofeno, dipirona, bloqueio regional) para evitar dor aguda intensa na sala de recuperação (despertar com dor severa = hiperalgesia por remifentanil — OIHA: opioid-induced hyperalgesia — possível com infusões prolongadas/altas)
  • Bradiacardia e hipotensão dose-dependentes (receptores μ → bradicardia vagal); rigidez muscular em infusão rápida
  • Indicado em neurocirurgia (onde despertar rápido e avaliação neurológica imediata são necessários), cirurgias curtas de alta intensidade de dor (laparoscopia, craniotomia)

Perguntas frequentes sobre anestesia geral

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Propofol é o mesmo que anestesia geral — tem risco de morte?+

O propofol é o agente hipnótico intravenoso mais usado na indução e manutenção da anestesia geral, e também na sedação para procedimentos. A anestesia moderna com propofol é muito segura, mas requer administração por profissional qualificado (anestesista) com equipamento de monitoramento e suporte de vias aéreas disponíveis. O risco de morte relacionado à anestesia geral (incluindo propofol) em pacientes ASA I-II (saudáveis) é estimado em 1:100.000 a 1:200.000 na era moderna. Os riscos específicos do propofol: hipotensão (queda de PA de 20-35% após indução — manejada com fluidos e vasopressores se necessário); apneia transitória (passageira, 30-60s — o anestesista está presente com equipamento de via aérea); dor na injeção (desconfortável mas não perigosa). PRIS (Propofol Infusion Syndrome) ocorre com infusões prolongadas de alta dose em UTI e é raro na anestesia cirúrgica de rotina. A morte de Michael Jackson em 2009 (usando propofol como hipnótico do sono administrado por médico não-anestesista, sem monitoramento adequado, sem suporte de via aérea) chamou atenção para os riscos do propofol fora do ambiente hospitalar adequado — nesse contexto, qualquer depressor do SNC pode ser fatal. Dentro do ambiente cirúrgico, com anestesista experiente e monitores completos (ECG, SpO2, pressão arterial, capnografia), o propofol é considerado extremamente seguro. Para procedimentos menores (colonoscopia, endoscopia, cardioversão) sob sedação com propofol, o risco é ainda menor — mas ainda requer monitoramento e profissional qualificado.

Ketamina está sendo usada para depressão — como funciona e é eficaz?+

Sim — a ketamina e sua forma mais pura esketamina (enantiômero S) representam um avanço importante na psicofarmacologia do humor, especialmente para depressão resistente a tratamento. A esketamina intranasal (Spravato® — Janssen) foi aprovada pelo FDA em 2019 para depressão resistente (que não respondeu a dois antidepressivos de diferentes classes) e para ideação suicida com urgência. Como funciona o efeito antidepressivo: diferente dos antidepressivos convencionais (ISRS, IRSN) que precisam de 2-6 semanas para agir — a ketamina age em horas (horas! não semanas). O mecanismo exato está sendo estudado, mas inclui: bloqueio rápido de receptores NMDA nos neurônios GABAérgicos (desinibição dos neurônios piramidais PFC — "springing loose" de circuitos corticais deprimidos); liberação de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro) → plasticidade sináptica → reparação de sinapses perdidas pela depressão crônica; hipótese alternativa: ativação de receptores AMPA e de vias de mTOR. Evidência clínica: estudos randomizados e o TRANSFORM program da Janssen mostraram redução rápida dos sintomas depressivos e de ideação suicida em 24-72h (vs início de semanas com SSRIs). Regime: Spravato 56-84 mg intranasal 2x/semana por 4 semanas (fase intensiva) → 1x/semana x 4 semanas → 1x/semana ou cada 2 semanas (manutenção); administrado supervisionado no consultório (monitoramento de PA, consciência, dissociação por 2h após cada dose). Efeitos adversos: dissociação, vertigem, náusea, sedação transitória (2h pós-dose) — por isso a supervisão. Custo muito alto e disponibilidade limitada no Brasil.

Referências Científicas

  1. Pratt BS, Aronson LA. (Propofol and anesthesia induction — clinical pharmacology) Propofol: its pharmacokinetics and pharmacodynamics. Anesthesia, 2014.
  2. Zanos P, Gould TD. (Mechanisms of ketamine action as an antidepressant — molecular psychiatry) Mechanisms of ketamine action as an antidepressant. Mol Psychiatry, 2018.
  3. Lavand'homme P, Steyaert A. (Opioid-free anesthesia opioid side effects — anesthesia and pain management) Opioid-free anesthesia opioid side effects: Tolerance and hyperalgesia. Best Pract Res Clin Anaesthesiol, 2017.
  4. Absalom AR, Glen JI, Zwart GJ, et al. (Target-controlled infusion — pharmacokinetic models for propofol) Target-controlled infusion: A formal assessment of 11 pharmacokinetic models for propofol using a permissive pharmacokinetic model acceptance criteria. Anesth Analg, 2009.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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