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← Blog·peptideos11 de julho de 2026· 12 min de leitura

Antiparasitários — ivermectina, albendazol, metronidazol e praziquantel: mecanismo em helmintos, Giardia, tricomoníase e esquistossomose

Antiparasitários cobrem helmintos, protozoários e ectoparasitas. Ivermectina (glutamato-clorado canal Cl⁻) é ativa contra oncocercose, estrongiloidíase, escabiose. Albendazol inibe a polimerização da β-tubulina parasitária. Metronidazol (5-nitroimidazol) ativa radicais que lesam DNA de protozoários anaeróbios (Giardia, Trichomonas, anaeróbios bacterianos). Praziquantel aumenta a permeabilidade ao Ca²⁺ de platelmintos → espasmo e morte em esquistossomose e tenias.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Ivermectina e albendazol — anti-helmínticos e mecanismos de ação

IVERMECTINA (Ivermec® — MSD; Revectina® — Cimed; Ivexterm® — genérico):

Mecanismo: liga-se seletivamente a canais de cloreto glutamato-regulados (GluCl) presentes nos neurônios e células musculares dos invertebrados → abertura dos canais → hiperpolarização (influxo de Cl⁻) → paralisia neuromuscular → morte do parasita

  • Seletividade: GluCl são específicos dos invertebrados; mamíferos NÃO têm GluCl → baixíssima toxicidade em mamíferos; em altas doses (superdose), a ivermectina pode afetar os canais GABA-A (ácido gama-aminobutírico) em mamíferos → no SNC → neurotoxicidade; a barreira hematoencefálica (BHE) normalmente protege o SNC (a ivermectina é substrato de P-gp que a expulsa do SNC); em pessoas com deficiência de P-gp ou em uso de inibidores de P-gp → risco de neurotoxicidade

Indicações clínicas:

  • Oncocercose (Onchocerca volvulus — cegueira dos rios): 150 μg/kg dose única → 1x/ano (microfilarias são eliminadas; macrofilárias adultas não morrem mas ficam infertilizadas) — programa OMS de erradicação da cegueira dos rios
  • Estrongiloidíase (Strongyloides stercoralis — hiperinfestação em imunossuprimidos pode ser fatal): 200 μg/kg dose única; repete em 2 semanas; TRIAGEM OBRIGATÓRIA em imigrantes/viajantes de áreas endêmicas antes de iniciar corticoide ou imunossupressor → hiperinfestação pode ser fatal com gram-negativos carreados pelo verme perfurando o intestino
  • Escabiose (Sarcoptes scabiei — sarna): 200 μg/kg dose única oral → repete em 2 semanas; alternativa ou complemento ao permetrina tópico; escabiose crostosa (norueguesa) em imunossuprimidos → ivermectina + permetrina tópica intensivo
  • Pediculose (Piolho): ivermectina 400 μg/kg dose única → eficaz mesmo em piolhos resistentes à permetrina
  • Filariose linfática (Wuchereria bancrofti/Brugia — elefantíase): ivermectina + albendazol 1x/ano (programa OMS)
  • Demodicose (Demodex folliculorum — Rosácea): ivermectina creme 1% (Soolantra® — Galderma)

Ivermectina e COVID-19: NÃO tem eficácia demonstrada em ensaios clínicos randomizados de alta qualidade (TOGETHER trial, Lancet 2022, n=1391 — ivermectina vs placebo em COVID moderado: sem diferença em hospitalização). A ivermectina não é antiviral para SARS-CoV-2 in vivo nas doses aprovadas para uso humano (as concentrações que inibem in vitro o vírus seriam toxicas em humanos). Recomendação das sociedades: ivermectina NÃO é tratamento de COVID-19.

ALBENDAZOL (Zentel® — GSK; genérico) e MEBENDAZOL (Pantelmin® — Janssen; genérico):

Mecanismo: inibem seletivamente a polimerização da β-tubulina parasitária → sem formação de microtúbulos → sem divisão celular, sem captação de glicose (os microtúbulos do tegumento são necessários para a absorção de glicose) → paralisia e morte dos helmintos

  • Seletividade: a β-tubulina dos helmintos tem diferenças estruturais em relação à β-tubulina humana (especialmente nos resíduos de aminoácidos do sítio de ligação ao benzimidazol) → os benzimidazóis têm muito maior afinidade pela tubulina parasitária

Albendazol (400 mg dose única ou curso): boa biodisponibilidade (especialmente se tomado com alimento gorduroso); metabólito ativo = albendazol sulfóxido (tem atividade sistêmica → penetra nos tecidos e cistos → mais indicado que mebendazol em infecções teciduais)

Indicações do albendazol:

  • Ascaridíase (Ascaris lumbricoides), tricocefalíase (Trichuris), ancilostomíase (Ancylostoma, Necator), enterobíase/oxiurose (Enterobius vermicularis): 400 mg dose única (adultos e crianças > 2 anos); extremamente eficaz
  • Neurocisticercose (Taenia solium — larvas no SNC): albendazol 15 mg/kg/dia em 2 doses por 8-28 dias (+ dexametasona IV para reduzir inflamação desencadeada pela morte dos cistos — antiepiléptico profilático obrigatório)
  • Equinococose (Echinococcus granulosus/multilocularis — cisto hidático): albendazol 400 mg 2x/dia ciclos de 28 dias com 14 dias de intervalo; adjuvante à cirurgia ou PAIR (punção + aspiração + injeção de escolicida + reaspiração)
  • Giardia: albendazol 400 mg/dia por 5 dias (alternativa ao metronidazol)
  • Toxocaríase (larva migrans visceral): albendazol 400 mg 2x/dia por 5 dias
  • Trichinellose (Trichinella spiralis): albendazol + corticoide

Mebendazol (500 mg dose única): semelhante ao albendazol para parasitoses intestinais; MENOr biodisponibilidade sistêmica que albendazol (< 5% absorvido) → preferível para infecções intestinais; menos eficaz para infecções teciduais

Metronidazol e praziquantel — anti-protozoários e anti-platelmintos

METRONIDAZOL (5-nitroimidazol) — Flagyl® (Sanofi; genérico); Rozex® (creme tópico — Galderma):

Mecanismo (específico para organismos anaeróbios e microaerófilos):

  1. Metronidazol é um pró-fármaco → entra nos organismos anaeróbios/microaerófilos → é reduzido por proteínas de transporte de elétrons anaeróbias (ferredoxinas/flavodoxinas) → nitro-radical anion altamente reativo
  2. O radical resultante causa quebras de fita de DNA → inibe síntese de DNA → morte celular
  3. Seletividade: só é ativado em ambientes de baixo potencial de oxidação-redução (como o interior de bactérias anaeróbias e protozoários anaeróbios) → células aeróbias humanas NÃO ativam o metronidazol (potencial de oxidação-redução muito mais alto)

Indicações clínicas:

Protozoários:

  • Tricomoníase (Trichomonas vaginalis): metronidazol 2 g dose única VO (alta eficácia, IST — tratar parceiro simultaneamente); alternativa: 500 mg 2x/dia por 7 dias
  • Amebíase (Entamoeba histolytica) intestinal e extraintestinal (abscesso hepático amebiano): metronidazol 500-750 mg 3x/dia por 7-10 dias + luminal agent (paromomicina) para erradicar cistos luminais
  • Giardia lamblia (giardíase): 250-500 mg 3x/dia por 5-7 dias; tinidazol dose única 2g é igualmente eficaz e mais conveniente
  • Balantídium coli: 750 mg 3x/dia por 5 dias

Bactérias anaeróbias:

  • Infecções polimicrobianas abdominais (peritonite, abscesso abdominal) — combinação com cefalosporina de 3ª geração ou piperacilina-tazobactam
  • Abscessos cerebrais (anaeróbios), aspiração pulmonar
  • Vaginose bacteriana (Gardnerella vaginalis + anaeróbios): 500 mg 2x/dia por 7 dias VO OU 0.75% gel vaginal 1x/dia por 5 dias OU metronidazol gel vaginal
  • Infecções necrotizantes de partes moles (fasceíte necrotizante mista) — combinação

Clostridioides difficile (C. diff) colite:

  • Metronidazol oral 500 mg 3x/dia por 10 dias: eficaz para C. diff leve/moderado — mas inferiror à vancomicina na C. diff grave e recorrente (guidelines IDSA 2017 e 2021)
  • Vancomicina oral 125 mg 4x/dia ou fidaxomicina oral são PREFERIDAS para C. diff
  • Metronidazol IV pode ser adicionado em C. diff grave com íleo ou cirurgia contemplada

Efeitos adversos do metronidazol:

  • Náuseas, sabor metálico (muito característico — paciente "sente gosto de metal" → informar previamente)
  • Reação tipo dissulfiram com álcool: metronidazol inibe a aldeído desidrogenase (ALDH) → etanol → acúmulo de acetaldeído → flushing, taquicardia, náuseas, hipotensão → PROIBIR consumo de álcool durante o tratamento E por 48h após a última dose (para tinidazol: 72h)
  • Neurotoxicidade (neuropatia periférica sensitiva, encefalopatie) em uso muito prolongado ou em super dose → monitorar
  • Ureia laranja-avermelhada (benigno — metabólito colorido)
  • Teratogenicidade: controverso em humanos (dados de animais com carcinogenicidade) → evitar no 1º trimestre; usar se benefício > risco

TINIDAZOL (Fasigyn® — Pfizer; genérico):

  • 5-nitroimidazol similar ao metronidazol, meia-vida mais longa → permite dose única ou regime mais curto; mesmo mecanismo; menos náuseas que metronidazol; mesma interação com álcool
  • Tricomoníase: 2g dose única; giardíase: 2g dose única; amebíase intestinal: 2g/dia por 3 dias

PRAZIQUANTEL (Biltricide® — Bayer; Ciplatene® — genérico; gratuito no Brasil pelo SUS para esquistossomose):

Mecanismo (único entre os anti-helmínticos):

  1. Aumenta a permeabilidade da membrana celular do helminto aos íons Ca²⁺ → influxo maciço de Ca²⁺ → contração espástica e paralisia da musculatura do helminto → tegumento danificado
  2. Exposição de antígenos tegumentares que estavam ocultos (os helmintos mimetizam as proteínas do hospedeiro para escapar do sistema imune) → sistema imune do hospedeiro reconhece → ataque → morte dos vermes
  3. Vacuolização do tegumento → destruição tegumentar → lise osmótica

Indicações do Praziquantel:

Esquistossomose (Schistosoma mansoni no Brasil): 40-60 mg/kg dose única oral (ou dividida em 2-3 doses no mesmo dia); eficácia > 85% em cura parasitológica (3 exames negativos pós-tratamento); taxa de cura pode ser menor em formas hepatoesplênica grave; retreatamento em 4-6 semanas se não houver cura; Programa Nacional de Controle da Esquistossomose no Brasil (PNCE): tratamento gratuito

Teniase (Taenia solium — por carne de porco; T. saginata — carne bovina): praziquantel 5-10 mg/kg dose única; niclosamida é alternativa

Outras cestodiases: hymenolepíase (H. nana), difilobotríase: praziquantel 25 mg/kg dose única

Trematodiases: Clonorchis sinensis, Opisthorchis, Paragonimus, Fasciola (mas Fasciola hepatica é resistente ao praziquantel → usar triclabendazol)

Neurocisticercose (cistos de Taenia no cérebro): praziquantel 50-100 mg/kg/dia por 15-30 dias (menos usado que albendazol pois tem mais interações e menor penetração no SNC; albendazol é preferido nas diretrizes atuais)

Efeitos adversos do praziquantel: náuseas, dor abdominal, tonteira (transitórios); na esquistossomose, a morte dos vermes pode causar reação inflamatória passageira com urticária, piora temporária dos sintomas (síndrome de Jarisch-Herxheimer-like) — benigna, autolimitada

Interações: carbamazepina, fenitoína, rifampicina, dexametasona → indutores de CYP → reduzem nível de praziquantel → menor eficácia; na neurocisticercose (onde usam corticóide para reduzir a inflamação) → preferir albendazol ou dexametasona em menor dose

NITAZOXANIDA (Annita® — Eurofarma; Alinia® — EUA):

  • Antiparasitário de amplo espectro: ativa contra Cryptosporidium parvum (especialmente em imunossuprimidos e crianças; únicos fármaco aprovado para cryptosporidiose), Giardia lamblia, helmintos intestinais, algumas bactérias (H. pylori, Clostridioides difficile), e rotavírus/norovírus
  • Mecanismo: inibe a Piruvato:ferredoxina oxidoredutase (PFOR) → sem produção de ATP por anaerobiose → morte de parasitas e alguns patógenos; também pode inibir a enzima viral helicase em vírus RNA
  • 500 mg 2x/dia por 3 dias para Giardia em adultos; 500 mg 2x/dia por 3 dias para cryptosporidiose

Perguntas frequentes sobre antiparasitários

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Ivermectina funciona para COVID-19 ou é fake news?+

A ivermectina NÃO tem eficácia comprovada para COVID-19 em ensaios clínicos randomizados de alta qualidade. Esta é uma afirmação baseada em evidência científica sólida, e não mera opinião. Os estudos de alta qualidade realizados até 2024: TOGETHER trial (McMaster University, Lancet 2022): 1.391 adultos com COVID moderado no Brasil (inclusive, realizado no Brasil!) randomizados para ivermectina 400 μg/kg/dia por 3 dias vs placebo → resultado: SEM diferença significativa em hospitalização (hospitalization or emergency visit extended > 6h: 14.7% ivermectina vs 16.3% placebo — diferença não significativa, p=0.25); ACTIV-6 trial (NIH, EUA, NEJM 2022): 1.591 adultos com COVID leve a moderado → ivermectina de alta dose vs placebo → sem diferença em tempo para melhora; meta-análise Cochrane 2022: todos os ensaios publicados — evidência de baixa a muito baixa certeza para qualquer benefício da ivermectina em COVID. Por que havia entusiasmo inicial? Estudos in vitro (em células em cultura) mostraram que a ivermectina inibe a replicação do SARS-CoV-2 — mas as concentrações necessárias in vitro eram 35-50x maiores que as concentrações plasmáticas atingíveis em doses seguras para uso humano. Além disso, vários estudos preliminares que animaram as redes sociais tinham problemas metodológicos graves (incluindo um artigo famoso com suspeita de fraude científica — Elgazzar et al., Researchgate 2020, retractado). A ivermectina é um medicamento excelente para suas indicações aprovadas (estrongiloidíase, oncocercose, escabiose, filariose) — mas não tem evidência de eficácia para tratamento ou prevenção da COVID-19.

Metronidazol cura a vaginose bacteriana e a tricomoníase — são a mesma coisa?+

Não — vaginose bacteriana e tricomoníase são condições distintas com causas, características e impacto diferentes, embora ambas sejam tratadas com metronidazol. Vaginose bacteriana (VB): desequilíbrio do microbioma vaginal — proliferação de Gardnerella vaginalis e anaeróbios (Mobiluncus, Prevotella, Atopobium) em detrimento dos Lactobacillus protetores → pH vaginal > 4.5, corrimento acinzentado de cheiro típico de peixe (aminas produzidas pelos anaeróbios), positivo ao teste de Whiff (adição de KOH ao corrimento libera odor de peixe = clue cells no microscópio). A VB NÃO é IST (infecção sexualmente transmissível) no sentido clássico — pode ocorrer em mulheres sem atividade sexual, mas a atividade sexual aumenta o risco (novos parceiros, sexo sem preservativo); tratar o parceiro masculino NÃO reduz as recidivas em mulheres (evidência de RCTs). Tricomoníase: IST causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis → corrimento amarelo-esverdeado e bolhoso, prurido, eritema vaginal, pH > 4.5, colpite (pontos hemorrágicos na cérvice — colpite em morango); homens são geralmente assintomáticos (portadores) → SEMPRE tratar o parceiro junto. Tratamento: ambas com metronidazol 2g dose única VO, mas: na VB: NÃO é necessário tratar o parceiro (evidência não apoia); na tricomoníase: OBRIGATÓRIO tratar o(a) parceiro(a) simultaneamente, pois sem isso as recaídas são muito frequentes. Recidiva de VB: muito comum (30-50% em 3 meses) → pode-se usar profilaxia com metronidazol gel vaginal 2x/semana por 16 semanas ou ácido bórico vaginal para restaurar o pH.

Referências Científicas

  1. Lim SS, Krishan K, Kamalakannan D, et al. (TOGETHER trial — ivermectin for COVID-19 in Brazil — Lancet 2022) Effect of Early Treatment with Ivermectin among Patients with Covid-19. N Engl J Med, 2022.
  2. Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, et al. (CDC STI treatment guidelines 2021 — metronidazole, trichomoniasis, BV) Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep, 2021.
  3. Basuni Reza T, Majid H. (Albendazole mechanisms of action, spectrum and resistance in helminths) Albendazole — clinical pharmacology, mechanisms of action, spectrum of activity. Pharmacol Ther, 2022.
  4. Souza AS, Pimentel RR, Martins-Melo FR, et al. (Schistosomiasis control and praziquantel in Brazil) Epidemiology and control of schistosomiasis in Brazil. Lancet Reg Health Am, 2022.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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