Estrutura da insulina e sua síntese pancreática
Insulina — hormônio peptídico (51 aa, 5.8 kDa) produzida pelas células β das ilhotas de Langerhans pancreáticas:
Biossíntese:
- Síntese no RER: pré-pró-insulina (110 aa) → remoção do peptídeo-sinal → pró-insulina (86 aa) no RER
- Pró-insulina → Golgi → grânulos secretores → enzimas (PC1/3, PC2, carboxipeptidase H) clivam o peptídeo C (31 aa)
- Resultado: insulina (2 cadeias, A [21 aa] e B [30 aa] ligadas por 2 pontes dissulfeto) + peptídeo C (equimolar)
Peptídeo C:
- Secretado em quantidade equimolar com insulina, mas meia-vida mais longa (20 min vs 5-8 min da insulina)
- Marcador de secreção endógena (insulina exógena não contém peptídeo C → diferencia DM1 de DM2; detecta uso de insulina exógena)
- Funções próprias: ativa receptores de P-glicoproteína, melhora função endotelial, nefroprotegem — em estudo
Regulação da secreção de insulina:
- Glicose: estimulador principal — glicose entra na célula β via GLUT2 → metabolismo → ↑ ATP → fecha canais K⁺-ATP (KATP) → despolarização → Ca²⁺ entra (canal VGCC) → exocitose de grânulos de insulina
- Canal KATP: alvo das sulfonilureias (glibenclamida, glimepirida — fecham KATP → insulina independente de glicose)
- Outros secretagogos: GLP-1 (principal; amplifica resposta à glicose), GIP, aminoácidos (leucina, arginina), acetilcolina, colecistocinina
- Inibidores: adrenalina via α2-AR, noradrenalina, somatostatina, ácidos graxos livres crônicos (lipotoxicidade)
Análogos modernos de insulina — diferenças PK/PD: | Análogo | Perfil | Início | Pico | Duração | |---|---|---|---|---| | Aspart (NovoRapid®) | Ultra-rápida | 10-20 min | 1-3h | 3-5h | | Lispro (Humalog®) | Ultra-rápida | 15-30 min | 1-3h | 3-5h | | Glulisina (Apidra®) | Ultra-rápida | 10-20 min | 1-2h | 3-4h | | Glargina (Lantus®) | Basal | 1-2h | plano | 20-24h | | Detemir (Levemir®) | Basal | 1-2h | plano | 12-20h | | Degludeca (Tresiba®) | Ultra-basal | 1h | plano | >42h | | NPH (Insulatard®) | Intermediária | 2-4h | 4-10h | 12-16h |
Receptor de insulina (IR) e cascata PI3K/AKT/GLUT4
Receptor de Insulina (IR) — receptor tirosina-quinase (RTK) heterotetramérico:
Estrutura: 2 subunidades α (extracelulares, ligam insulina) + 2 subunidades β (transmembrana + domínio tirosina-quinase) ligadas por pontes dissulfeto → tetrâmero α2β2
Mecanismo de ativação:
- Insulina liga ao domínio L1 + CR da subunidade α → mudança conformacional → ativa kinase em subunidade β
- Auto-transfosforilação do receptor em Y1150/1151 → ativação plena da TK
- TK fosforila substratos intracelulares
Substratos IRS (Insulin Receptor Substrate):
- IRS-1 (músculo, adiposo), IRS-2 (fígado, células β), IRS-4 (fígado, timo)
- IR → fosforila IRS em resíduos Y → IRS fosforilada recruta PI3K (via SH2 do p85)
Via PI3K-AKT (anabólica/GLUT4):
- PI3K (fosfoinositídeo-3-quinase): classe IA — catalisa PIP₂ → PIP₃ (inibida por PTEN)
- PIP₃ → recruta AKT (PKB) e PDK1 → PDK1 fosforila AKT (T308) + mTORC2 fosforila AKT (S473) → AKT pleno
- AKT ativa:
- GLUT4: fosforila AS160/TBC1D4 → libera vesículas de GLUT4 → translocação de GLUT4 para membrana plasmática → captação de glicose (músculo e adiposo) - GSK3: AKT fosforila e inativa GSK3 → GSK3 não pode mais inibir GS (glicogênio sintase) → GS ativa → síntese de glicogênio (fígado, músculo) - mTORC1 (via AKT → TSC2 inibida): ativa → síntese proteica (via S6K1, 4EBP1), lipogênese - FOXO1 (fator de transcrição): AKT fosforila FOXO1 → exclusão nuclear → menos gluconeogênese (PEPCK, G6Pase inibidos)
Via MAPK/ERK (mitogênica):
- IR → IRS-1 → Grb2-SOS → Ras → Raf → MEK → ERK
- Crescimento celular, diferenciação, proliferação — papel na ação anabólica e no câncer (hiperinsulinemia crônica → ↑ ativação de MAPK → maior proliferação de células cancerosas)
Receptor de IGF-1 (IGF-1R):
- Homólogo de IR (58% identidade de aa no domínio TK)
- Liga IGF-1 e IGF-2 (também insulina em altas doses)
- Mesma cascata PI3K/AKT/MAPK — mas ênfase em crescimento celular, anti-apoptose, longevidade
Resistência à insulina: mecanismos moleculares e DM2
Resistência à Insulina (RI) — estado em que as células-alvo respondem inadequadamente à insulina — necessidade de mais insulina para mesmo efeito metabólico:
Mecanismos celulares de RI:
- Lipotoxicidade (excesso de ácidos graxos livres — AGL/FFAs):
- DAG (diacilglicerol) e ceramidas ativam PKC-θ, PKC-ε → serina-fosforilam IRS-1 (pS307, pS612) → IRS-1 incapaz de ser tirosina-fosforilado pelo IR → quebra da cascata
- Inflamação (adipocinas, citocinas inflamatórias):
- TNF-α → ativa JNK e IKK → serina-fosforilação de IRS-1 → RI - IL-6 → ativa SOCS3 → ubiquitinação/degradação de IRS-1 - Adipócitos de obesos: hipertrofia → hipóxia → NF-κB → mais TNF-α, IL-6, MCP-1 → infiltração de macrófagos M1 → mais citocinas → ciclo vicioso
- Estresse do Retículo Endoplasmático (UPR):
- Sobrecarga de proteínas mal dobradas → IRE1 → JNK → RI
- Estresse oxidativo:
- Excesso de espécies reativas de O₂ (ROS) → prejudicam sinalização de IR
- Ectópico de gordura:
- Gordura intrahepática (DHGNA/MASLD) → RI hepática → mais gluconeogênese - Gordura intramuscular (IMCL) → RI muscular → menos captação de glicose
Progressão para DM2:
- Inicialmente: células β compensam RI → hiperinsulinemia → glicemia normal
- Com tempo: células β falham (lipoapoptose, estresse oxidativo, glucotoxicidade, deposição de amiloide/IAPP) → capacidade secretora cai → hiperglicemia
- DM2 = RI + falência progressiva de células β
Biomarcadores e avaliação de RI:
- HOMA-IR = (glicemia de jejum × insulina de jejum) / 405 — RI se >2.5-3.0
- Clamp hiperinsulinêmico euglicêmico: padrão-ouro de pesquisa
- TG/HDL ratio: correlaciona com RI; >3.0 sugere RI (mais útil em brancos)
- Adiponectina baixa (<4 μg/mL): marcador de RI e inflamação visceral
Diabetes tipo 1, insulinoterapia intensiva e tecnologia
Diabetes tipo 1 (DM1) — destruição autoimune das células β pancreáticas → deficiência absoluta de insulina:
Patogênese:
- Predisposição genética (HLA-DR3/DR4 em ~95% dos pacientes; DQ2/DQ8)
- Gatilho ambiental (viral? toxina? microbioma?) → resposta autoimune contra autoantígenos de células β (insulina, GAD65, IA-2, ZnT8)
- Insulite → linfócitos T CD8+ destroem células β → déficit absoluto
- Autoanticorpos (IAA, GADA, IA-2A, ZnT8A) presentes antes do diagnóstico clínico — fase pré-clínica (Stage 1, 2, 3 segundo ISPAD)
Apresentação: polidipsia, poliúria, perda de peso, cetoacidose diabética (CAD) — pH <7.3, cetonas, glicemia >250
Tratamento — necessariamente insulina exógena:
Insulinoterapia Intensiva (MDI ou IISC):
- MDI (múltiplas doses): basal (glargina/degludeca, 1-2x/dia) + bolus prandial (ultrarrápida pré-refeição) + correção
- IISC (infusão subcutânea contínua — bomba de insulina): cateter subcutâneo, bomba de insulina ultrarrápida → basal programável + bolus manual ou automático
- DCCT trial (1993): controle intensivo (HbA1c < 7%) vs convencional → redução de complicações microvasculares 50-75%
Tecnologia moderna para DM1:
- MCG (Monitoramento Contínuo de Glicose): Dexcom G7, Freestyle Libre 3 — glicose intersticial a cada 5 min → alerta de hipoglicemia/hiperglicemia
- AID Systems (Automated Insulin Delivery — pâncreas artificial): bomba + MCG + algoritmo de controle preditivo → ajuste automático de basal e bolus
- Control-IQ (Tandem), Omnipod 5, CamAPS FX — aprovados FDA e CE; reduzem HbA1c e tempo em hipoglicemia
Teplizumabe (Tzield® — Provention Bio):
- Anticorpo anti-CD3 — FDA aprovado 2022 para atraso do DM1 clínico em indivíduos de Stage 2 (duas classes de autoanticorpos + disglicemia)
- Modula linfócitos T → preserva células β residuais → mediana de 2 anos de atraso
- Primeiro tratamento modificador de doença aprovado para DM1 pré-clínico
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