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← Blog·peptideos25 de junho de 2026· 13 min de leitura

Insulina glargina, degludeca, aspart e lispro — tipos de insulina em diabetes: mecanismo de ação, perfis de ação (basal vs ultrarrápida) e protocolos de insulinoterapia

A insulina é o hormônio central do metabolismo energético e a terapia fundamental no DM1 e no DM2 avançado. Insulinas basais (glargina/Lantus, degludeca/Tresiba) têm perfil de ação plano de 24h+. Insulinas ultrarrápidas (aspart/NovoRapid, lispro/Humalog, glulisina/Apidra) atuam 3-5h. Insulina inalada, bombas e monitoramento contínuo de glicose (MCG).

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Insulina — fisiologia do receptor e classificação por tempo de ação

Insulina é um hormônio peptídico de 51 aminoácidos (cadeia A = 21 aa + cadeia B = 30 aa) produzido pelas células β das ilhotas de Langerhans pancreáticas; é o único hormônio hipoglicemiante do organismo.

Mecanismo de ação molecular:

  • Insulina se liga ao receptor de insulina (IR) na membrana celular → receptor RTK (tirosina quinase) → autofosforilação em resíduos de tirosina do domínio intracelular → fosforilação de IRS-1/IRS-2 (substrato do receptor de insulina) → ativa PI3K/AKT e RAS/MAPK
  • Via PI3K/AKT: translocação de GLUT4 (glucose transporter 4) do compartimento intracelular para a membrana plasmática → entrada de glicose em músculo esquelético e tecido adiposo; inibe gluconeogênese hepática; estimula síntese de glicogênio (glicogênese) e síntese de proteína
  • Via RAS/MAPK: proliferação e diferenciação celular (efeito mitogênico — relevante em câncer sob hiperinsulinemia crônica)
  • Pró-insulina → clivagem no retículo endoplasmático → insulina + peptídeo C (C-peptide); C-peptide é marcador clínico de produção endógena de insulina

DM1 vs DM2 e necessidade de insulina:

  • DM1: destruição autoimune das células β (anti-GAD, anti-IA2, anti-insulina) → insulinopenia absoluta → sem insulina o paciente entra em cetoacidose e morre → TODOS precisam de insulina para sobreviver
  • DM2: resistência à insulina + produção insuficiente mas não zero (redução progressiva) → inicialmente manejado com antidiabéticos orais; quando antidiabéticos falham ou a célula β se exaure → insulina necessária (10-30% dos DM2 ao longo da vida)

Classificação das insulinas por tempo de ação:

Insulina endógena: pico em 1-2h pós-refeição, baixa e retorna à linha de base em 3-4h

Basais (cobrem a necessidade de fundo, 24h):

  • Insulina NPH (isofana — protamina-zinco): ação intermediária, pico em 6-8h, duração 12-16h → precisa de 2 injeções/dia; disponível no SUS (gratuita); formulações: Humulin N®, Novolin N®
  • Insulina glargina (Lantus® — Sanofi; Toujeo® = glargina 300 U/mL; biossimilares Basaglar/Semglee): análogo de insulina com substituição A21 Asn→Gly e adição de 2 Arg no C-terminal da cadeia B → pI mais alto → microprecipita no SC a pH fisiológico → absorção lenta → perfil plano sem pico → duração 20-24h; 1 injeção/dia, qualquer horário (mesmo horário todos os dias)
  • Insulina degludeca (Tresiba® 100 U/mL e 200 U/mL — Novo Nordisk): análogo com ácido graxo C16 na posição B29K → forma multi-hexâmeros no SC + albumina-binding → absorção ultra-lenta → meia-vida ~25h → duração >42h → o mais longo; permite injeções com intervalos entre 8h e 40h (flexibilidade de horário); menor variabilidade glicêmica dia-a-dia; menor risco de hipoglicemia noturna que NPH e glargina (BEGIN trial)
  • Insulina detemir (Levemir® — Novo Nordisk): ácido graxo C14 → albumina-binding → duração 18-24h; menos usada que glargina/degludeca

Ultrarrápidas prandiais (cobrem as refeições — pico de glicemia pós-prandial):

  • Insulina regular (humana — Humulin R®, Novolin R®): início 30-60 min, pico 2-4h, duração 5-8h → deve ser aplicada 30 min antes das refeições (impraticável) → usada principalmente em hospital/insulina IV
  • Insulina aspart (NovoRapid® / NovoLog® — Novo Nordisk): substituição B28 Pro→Asp → menos autoassociação → absorção mais rápida; início 10-20 min, pico 1-3h, duração 3-5h; aplicar 0-15 min antes das refeições
  • Insulina lispro (Humalog® — Eli Lilly; Admelog® biossimilar): inversão B28/B29 (Pro-Lys → Lys-Pro) → mesma cinética que aspart
  • Insulina glulisina (Apidra® — Sanofi): substituição B3 Asn→Lys, B29 Lys→Glu → ultrarrápida similar
  • Aspart ultra-rápida (Fiasp® — Novo Nordisk): aspart + nicotinamida → absorção acelerada → início 2-5 min; mais próxima do pico endógeno pós-prandial; pode ser injetada na refeição ou até 20 min após iniciar a refeição
  • Lispro ultrarrápida (Lyumjev® — Eli Lilly): lispro + citrato + treprostinil → absorção acelerada; início 2-5 min

Pré-misturas (combinam regular/NPH ou análogos em proporções fixas):

  • Humulin 70/30 (70% NPH + 30% regular); Mixtard®
  • NovoMix 30® (30% aspart + 70% aspart protaminada); Humalog Mix 25®/Mix 50®
  • Vantagem: menos injeções; desvantagem: menos flexibilidade para ajuste

Regimes de insulinoterapia — basal-bolus, CSII (bomba), MCG e hipoglicemia

Regime basal-bolus (o mais fisiológico para DM1 e DM2 avançado):

  • Insulina basal (1x/dia — glargina ou degludeca) → cobre necessidades de jejum e entre refeições (produção hepática de glicose, catabolismo de base) → meta: glicemia de jejum 80-130 mg/dL
  • Insulina bolus/prandial (ultrarrápida antes de cada refeição) → cobre a elevação glicêmica pós-prandial → dose calculada pela razão insulina:carboidrato (RIC) e fator de sensibilidade (FS)
  • Cálculo de bolus prandial: Total de carboidratos da refeição ÷ RIC = bolus alimentar; se glicemia pré-refeição fora da meta → adicionar ou subtrair (glicemia atual - meta) ÷ FS = bolus de correção
  • Benefício: controle glicêmico superior com menos hipoglicemia que insulina NPH + regular; mas exige educação do paciente

CSII — Continuous Subcutaneous Insulin Infusion (Bomba de Insulina):

  • Bomba electrônica que infunde insulina ultrarrápida continuamente (basal programável em múltiplos padrões) + bolus manuais nas refeições
  • Vantagens: perfil de absorção mais estável (SC → sem imprevisibilidade da absorção de glargina); perfis basais variáveis (reduzir às 3h da manhã, aumentar ao acordar — fenômeno do alvorecer); qualidade de vida superior
  • SAP (Sensor-Augmented Pump): bomba + sensor de glicose intersticial (MCG) integrados → sensor transmite dados à bomba → bomba pode suspender infusão automaticamente se glicemia cai muito (low glucose suspend/predictive low glucose suspend = PLGS)
  • AID (Automated Insulin Delivery / closed-loop / pâncreas artificial): algoritmo que ajusta a infusão basal em tempo real baseado nos dados do MCG + previsão de tendência → CONTROLE FECHADO → reduz muito a hipoglicemia e melhora TIR (time in range); sistemas: MiniMed 780G (Medtronic), iAPS (código aberto), Omnipod 5 (Insulet), Control-IQ (Tandem)

MCG — Monitoramento Contínuo de Glicose:

  • Sensores subcutâneos (filamento de glicose oxidase) que medem glicose intersticial a cada 1-5 minutos → gráfico contínuo + alertas de hipo/hiperglicemia
  • Sistemas: Dexcom G7®, Freestyle Libre 3® (Abbott — sistema de varredura flash), Medtronic Guardian
  • Freestyle Libre 2/3: sem alarmes automáticos na versão Libre 2 básica (precisa escanear); Libre 3 e Dexcom G7: transmissão automática, alarmes; Dexcom G6: pode integrar à bomba para AID
  • Meta de controle com MCG: TIR (time in range 70-180 mg/dL) > 70% do tempo → reduz HbA1c e complicações; TBR (time below range < 70 mg/dL) < 4%
  • Sensores duram 10-14 dias (Dexcom G7) ou 14 dias (Freestyle Libre 3)

Hipoglicemia — a complicação mais imediata:

  • Definição: glicemia < 70 mg/dL (grau 1); < 54 mg/dL (grau 2 clinicamente significativo); alteração de consciência/grave (grau 3 — requer ajuda de terceiros)
  • Sintomas: tremores, sudorese, palpitação, fome, palidez, ansiedade (catecolaminérgicos — aparecem em ~70 mg/dL); confusão mental, comportamento estranho, convulsão, coma (neuroglicopênicos — aparecem em < 50 mg/dL)
  • Tratamento leve/moderado (consciente): regra 15-15 → 15g de carboidrato de absorção rápida (3-4 sachês de açúcar, 150 mL de suco de laranja, 3-4 balas de glicose) → aguardar 15 min → repetir se necessário
  • Glucagon para hipoglicemia grave (inconsciente): glucagon 1 mg IM/SC; glucagon nasal (Baqsimi® — Eli Lilly): pó nasal 3 mg — conveniente, sem necessidade de misturar; dasiglucagon (Zegalogue®): glucagon análogo SC; kits de glucagon para familiares
  • Hipoglicemia grave recorrente: considerar reduzir alvos de HbA1c, usar MCG com alertas, trocar NPH para glargina/degludeca, reavaliar doses

Insulina inalada (Afrezza® — MannKind):

  • Insulina humana recombinante em pó ultrafino → inalada com inalador Dreamboat antes das refeições → absorção pulmonar → pico em 12-15 min, duração ~3h (mais rápida que qualquer análogo SC)
  • Indica para adultos com DM1 ou DM2 que preferem não injetar na hora da refeição; não substitui insulina basal
  • Contraindicação: doença pulmonar (DPOC, asma, fibrose cística) — pode broncoespasmo agudo
  • Disponibilidade: aprovada FDA mas distribuição limitada e não disponível no Brasil

Perguntas frequentes sobre insulina e insulinoterapia

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Qual a diferença entre insulina NPH e insulina glargina — por que glargina é melhor?+

A insulina NPH (neutral protamine Hagedorn) e a insulina glargina têm o mesmo propósito (cobertura basal), mas têm perfis farmacocinéticos muito diferentes que impactam diretamente no controle glicêmico e no risco de hipoglicemia. NPH: foi desenvolvida nos anos 1930-40; é insulina humana regular precipitada com protamina e zinco para retardar a absorção; pico de ação pronunciado em 4-8 horas após a injeção → hipoglicemia noturna frequente (especialmente quando aplicada ao deitar); duração de apenas 12-16h → frequentemente precisa de 2 injeções/dia; absorção variável de dose a dose (~30% de variabilidade inter-injeção). Glargina: análogo de insulina (modificação molecular) que forma microprecipitados no tecido subcutâneo a pH fisiológico → absorção muito mais lenta e gradual; SEM pico de ação — perfil plano de 20-24h; 1 injeção/dia é suficiente; muito menor variabilidade de absorção (~4-6% de variabilidade). Implicações clínicas: glargina causa significativamente menos hipoglicemia noturna que NPH (2-3x menos episódios de hipolcigemia noturna nos estudos comparativos GLAT, AT.LANTUS, INSIGHT); facilita adesão (1 injeção vs 2 de NPH); HbA1c similar ou ligeiramente melhor. Por que NPH ainda é usada: NPH é disponível no SUS brasileiro gratuitamente → acessível para todos os pacientes com DM1 e DM2; glargina e degludeca são muito mais caras. Para pacientes com recursos limitados: NPH + insulina regular é a opção disponível no SUS; para quem tem acesso: glargina ou degludeca são superiores em qualidade de controle e segurança.

Como calcular a dose de insulina para as refeições (bolus)?+

O cálculo de bolus prandial (insulina ultrarrápida para cobrir refeições) usa dois parâmetros individualizados: a razão insulina:carboidrato (RIC) e o fator de sensibilidade à insulina (FS), além da glicemia pré-refeição. Razão insulina:carboidrato (RIC): quantos gramas de carboidrato são cobertos por 1 unidade de insulina ultrarrápida; média comum: 1 unidade para 10-15g de carboidratos (varia muito por pessoa, horário, atividade física); como calcular individual: regra dos 500 (para insulina regular) ou 450 (para análogos) → 500 ÷ dose total diária de insulina (DTD) = RIC; ex: DTD = 50 unidades → RIC = 500÷50 = 10 (1 unidade para cada 10g de carbo). Fator de sensibilidade (FS): quanto 1 unidade de insulina reduz a glicemia em mg/dL; regra dos 1800 (para análogos rápidos) → 1800 ÷ DTD = FS; ex: DTD = 50 → FS = 1800÷50 = 36 mg/dL (1 unidade baixa a glicemia em 36 mg/dL). Cálculo prático do bolus total: Bolus = (carboidratos totais da refeição ÷ RIC) + (glicemia atual - glicemia alvo) ÷ FS; ex: refeição com 60g de carbo, RIC=10, glicemia atual=200, alvo=100, FS=36: bolus alimentar = 60÷10 = 6 unidades; bolus correção = (200-100)÷36 = 2.7 ≈ 3 unidades; total = 9 unidades de aspart antes da refeição. Esses parâmetros precisam ser ajustados regularmente com base no MCG ou auto-monitoramento, atividade física, e não são fixos para sempre.

Bomba de insulina é melhor que múltiplas injeções? Para quem é indicada?+

Para a maioria dos pacientes com DM1 bem motivados, a bomba de insulina (CSII) oferece vantagens sobre múltiplas injeções diárias (MDI), especialmente quando integrada com MCG (SAP ou AID). Evidências: múltiplos estudos e meta-análises (Cochrane 2019) mostram que CSII vs MDI em DM1 leva a: HbA1c 0.3-0.5% menor; frequência de hipoglicemia grave menor; maior TIR (tempo no alvo); melhora de qualidade de vida. Com AID (closed-loop): CLARITY (2021, NEJM) — MiniMed 780G vs MDI → TIR 73% vs 68%, HbA1c -0.5%; ACHIEVE trial — closed-loop vs SAP → TIR 80%. Para DM2 avançado: CSII tem evidência mais limitada mas pode ser útil em pacientes com controle muito errático. Indicações para bomba em DM1: hipoglicemia grave recorrente (especialmente noturna); HbA1c muito elevada apesar de MDI bem feito; variabilidade glicêmica intensa; fenômeno do alvorecer (hiperglicemia de madrugada/manhã — basal variável da bomba pode resolver); crianças pequenas com doses mínimas (menor que 0.5 unidade de bolus — difícil com caneta convencional); pacientes que viajam muito com fuso horário variável. Limitações da bomba: custo alto (R$10.000-30.000+); riscos de ketoacidose rápida se a cânula dobrar/entupir (interrupção de insulina); necessita cuidado com higiene do local de infusão; requer treinamento intensivo. No Brasil: SUS não cobre bomba para adultos; ANS (planos de saúde) tem cobertura obrigatória para DM1 pediátrico (crianças até 16-21 anos dependendo da regulamentação estadual); adultos frequentemente precisam de recurso próprio ou via judicial.

Referências Científicas

  1. Riddle MC, Rosenstock J, Gerich J. (Insulin Glargine 4002 Study Investigators — glargine vs NPH in DM2) The treat-to-target trial: randomized addition of glargine or human NPH insulin to oral therapy of type 2 diabetic patients. Diabetes Care, 2003.
  2. Bergenstal RM, Tamborlane WV, Ahmann A, et al. (STAR-3 trial — sensor-augmented pump vs MDI in T1DM) Effectiveness of Sensor-Augmented Insulin-Pump Therapy in Type 1 Diabetes (STAR 3). N Engl J Med, 2010.
  3. Breton MD, Kanapka LG, Beck RW, et al. (CLARITY trial — closed-loop MiniMed 780G vs MDI in T1DM) A Randomized Trial of Closed-Loop Control in Children with Type 1 Diabetes. N Engl J Med, 2020.
  4. Battelino T, Danne T, Bergenstal RM, et al. (International consensus on use of continuous glucose monitoring — CGM metrics) Clinical Targets for Continuous Glucose Monitoring Data Interpretation: Recommendations From the International Consensus on Time in Range. Diabetes Care, 2019.
  5. American Diabetes Association. (ADA Standards of Medical Care in Diabetes 2024 — pharmacologic approaches to treatment) Standards of Care in Diabetes 2024. Diabetes Care, 2024.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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