Oncologia molecular: tirosina quinases, oncogenes e a revolução dos TKIs
Tirosina Quinases (TKs) — enzimas que transferem grupo fosfato do ATP para resíduos de tirosina em proteínas-alvo → ativação de cascatas de sinalização intracelular (proliferação, sobrevivência, motilidade, angiogênese)
TKs em condições normais: ativação controlada por ligantes (fatores de crescimento), dimerização induzida, fosfatases reguladoras — atividade transiente e localizada
TKs oncogênicas: mutações de ganho de função, amplificação de genes, ou translocações cromossômicas → TK constitutivamente ativa (independente de ligante) → proliferação descontrolada = oncogene driver
Mecanismo dos TKIs (Tyrosine Kinase Inhibitors):
- Moléculas pequenas (small molecules) → entram na célula → competem com ATP pelo sítio catalítico da TK (pocket de ligação ao ATP) → sem ATP, sem transferência de fosfato → TK inibida → cascatas de sinalização oncogênicas paradas → parada de proliferação, apoptose
- Classificação por geração: 1ª geração (imatinibe, erlotinibe, gefitinibe, crizotinibe) → 2ª geração (dasatinibe, nilotinibe, afatinibe, ceritinibe) → 3ª geração (osimertinibe, alectinibe, lorlatinibe, ponatinibe)
Conceito de medicina de precisão / oncologia molecular:
- Testes moleculares (NGS — Next Generation Sequencing, PCR, FISH) identificam a mutação ou translocação driver no tumor do paciente
- Escolha do TKI específico para aquele alvo molecular → "certo tratamento para o certo paciente"
- Resposta muito superior à quimioterapia convencional em tumores com driver molecular identificado
Principais oncogenes driver e TKIs correspondentes: | Oncogene | Câncer | TKIs | |---|---|---| | BCR-ABL (t(9;22)) | LMC, LLA | Imatinibe, dasatinibe, nilotinibe, bosutinibe, ponatinibe, asciminibe | | EGFR (mut. ex19del, L858R) | CPNPC | Erlotinibe, gefitinibe, afatinibe, osimertinibe | | ALK (EML4-ALK, rearranjo) | CPNPC | Crizotinibe, ceritinibe, alectinibe, brigatinibe, lorlatinibe | | ROS1 (rearranjo) | CPNPC | Crizotinibe, entrectinibe, repotrectinibe | | MET (exon 14 skip, amplif.) | CPNPC | Tepotinibe, capmatinibe, crizotinibe | | KRAS G12C | CPNPC, CRC | Sotorasibe, adagrasibe | | BRAF V600E | Melanoma, CPNPC, CRC | Vemurafenibe, dabrafenibe (+ trametinibe MEK-i) | | RET (rearranjo/mutação) | CPNPC, tireóide | Selpercatinibe, pralsetinibe | | HER2 (amplif./mut.) | Mama, gástrico, CPNPC | TDM-1, T-DXd, tucatinibe, neratinibe | | PDGFR, c-KIT | GIST | Imatinibe, sunitinibe, regorafenibe, ripretinibe | | VEGFR | múltiplos | Sunitinibe, sorafenibe, pazopanibe, axitinibe, lenvatinibe |
Imatinibe (BCR-ABL/LMC) e dasatinibe/nilotinibe — a história da medicina de precisão
Imatinibe (Gleevec® / Glivec® — Novartis) — o protótipo que mudou a oncologia:
LMC (Leucemia Mieloide Crônica) e o Cromossomo Philadelphia:
- Translocação t(9;22)(q34;q11) → Cromossomo Philadelphia (Ph+) → fusão genes BCR-ABL1 → proteína BCR-ABL (proteína de fusão de 210 kDa, p210)
- BCR-ABL é uma tirosina quinase citoplasmática constitutivamente ativa (independente de ligante) → ativa RAS/MAPK, PI3K/AKT, JAK/STAT → proliferação de células mieloides → LMC
- Na LLA (leucemia linfoide aguda), p190 BCR-ABL é mais comum (translocação diferente) e associada a pior prognóstico
Imatinibe — o "magic bullet":
- 2001: aprovação FDA para LMC → primeira vez que uma droga foi desenhada racionalmente para um alvo oncogênico específico; virou capa da TIME como "cancer bullet"
- Mecanismo: imatinibe ocupa o bolsão de ATP da ABL quinase quando ela está em conformação inativa → estabiliza a conformação inativa → sem atividade catalítica
- 400 mg/dia (LMC fase crônica); 600-800 mg/dia (LMC fase acelerada/blástica); absorção oral boa (~98%); metabolismo CYP3A4
- Resposta: remissão hematológica completa em >95% em 3 meses; remissão citogenética completa (sem Ph+ na medula) em ~80% em 12 meses; resposta molecular maior (BCR-ABL:ABL <0.1% por PCR quantitativo) em ~50-60%
- IRIS trial (2003): imatinibe vs interferon + Ara-C → imatinibe dramaticamente superior → taxa de sobrevida em 10 anos > 85% → LMC passou de doença fatal (média 3-5 anos antes) para condição crônica com expectativa de vida quase normal
- Efeitos adversos: náusea, edema periorbital e periférico, cãibras, rash, mielosupressão, hepatotoxicidade; menos tóxico que quimioterapia
- Interações: inibidor de CYP3A4 (eleva outros substratos); rifampicina e outros indutores CYP3A4 reduzem imatinibe → aumentar dose
- Também ativo: GIST (c-KIT e PDGFRA-mutados — 1ª linha, 400 mg/dia); DFSP (dermatofibrossarcoma protuberans — PDGFRB-rearranjo)
2ª geração — dasatinibe e nilotinibe (para resistência ao imatinibe ou 1ª linha):
- Dasatinibe (Sprycel® — BMS): liga ABL em conformações ativa e inativa; 50-100x mais potente in vitro; também inibe SRC quinases (SRC, LCK, YES, FYN) → mais amplo; 100 mg/dia (LMC fase crônica); efeitos: derrame pleural (25-35%), mielossupressão; atravessa BHE → atividade em LMC com progressão para SNC; LLA Ph+: dasatinibe + quimioterapia
- Nilotinibe (Tasigna® — Novartis): liga sítio inativo similar ao imatinibe mas mais potente e seletivo; 300 mg 2x/dia em jejum; menos efeitos GI; mais risco de prolongamento QT, arterioesclerose periférica acelerada
- ENESTnd/DASISION trials: dasatinibe e nilotinibe em 1ª linha para LMC → resposta molecular mais rápida e profunda que imatinibe → pode levar a mais candidatos a tentar descontinuar a TARV (tratamento-free remission)
Descontinuação do imatinibe/nilotinibe (TFR — Treatment-Free Remission):
- Estudos STIM, EURO-SKI, ENESTfreedom: após ≥2 anos de resposta molecular profunda (BCR-ABL <0.01%, MR4), 40-60% dos pacientes mantêm remissão sem droga
- Critérios rigorosos de candidatura; monitorar BCR-ABL mensalmente após descontinuação; reintrodução imediata se rebote → sem perda de resposta
Ponatinibe (Iclusig® — Takeda): 3ª geração; única opção para mutação T315I ("gatekeeper mutation" — resistência a todas as drogas 1ª e 2ª geração); 15-45 mg/dia; artéria coronária/AVC (eventos arteriais oclusivos — monitorar CV)
Asciminibe (Scemblix® — Novartis): mecanismo único — liga sítio miristoil da ABL (diferente de todas as outras drogas — não compete com ATP) → ativo em T315I como STAMP inhibitor; aprovado para resistência/intolerância
EGFR-TKIs no câncer de pulmão: erlotinibe, gefitinibe, afatinibe e osimertinibe
EGFR (Epidermal Growth Factor Receptor) — receptor tirosina quinase; membro da família HER/ErbB:
- HER1/EGFR (ErbB1), HER2/neu (ErbB2), HER3 (ErbB3), HER4 (ErbB4)
- EGFR ativado: dimerização → autofosforilação → RAS-RAF-MEK-ERK, PI3K-AKT-mTOR, STAT3 → proliferação, sobrevivência, migração
Mutações ativadoras de EGFR em CPNPC (carcinoma pulmonar de não-pequenas células):
- Frequência: 10-15% em caucasianos; 30-50% em asiáticos (nunca/pouco fumantes, adenocarcinoma)
- Exon 19 deleção (ex19del): deleção no exon 19 (~45% das mutações EGFR) → remoção de loop de ativação → EGFR constitutivamente ativo; muito sensível a TKIs
- Exon 21 L858R: substituição leucina→arginina no exon 21 (~40%) → constitutivamente ativo; também muito sensível
- Juntas, ex19del + L858R = "mutações clássicas sensitizadoras"
- Exon 20 inserção: resistente a 1ª e 2ª geração TKIs; amivantamabe + mobocertinibe aprovados especificamente para esta
- T790M: mutação de resistência adquirida (50% dos progressores em EGFR-TKI 1G/2G) → "gatekeeper residue" → osimertinibe cobre T790M
1ª geração EGFR-TKIs — erlotinibe e gefitinibe:
- Erlotinibe (Tarceva® — Roche): 150 mg/dia em jejum; aprovado para CPNPC EGFR+ (1ª linha) e manutenção; EURTAC e OPTIMAL trials: superior a quimioterapia em EGFR-mutados (PFS 9-13 meses vs 5-7 meses); cancer de pâncreas: erlotinibe + gemcitabina aprovado (mínimo benefício; apenas TKI aprovado para pâncreas)
- Gefitinibe (Iressa® — AstraZeneca): 250 mg/dia; perfil similar ao erlotinibe; IPASS trial (asiáticos com adenocarcinoma): gefitinibe superior a carboplatina/paclitaxel em EGFR-mutados
- Efeitos adversos de classe TKIs EGFR: acne-like rash (papulopustular, folicular) em 50-80% — correlacionado com resposta; xerodermia; paroniquia (unhas); diarreia; hepatotoxicidade; pneumonite intersticial (rara mas grave, especialmente na população asiática)
2ª geração EGFR-TKIs — afatinibe e dacomitinibe:
- Afatinibe (Giotrif® — Boehringer Ingelheim): inibidor irreversível pan-HER (EGFR, HER2, HER4) via ligação covalente à cisteína do domínio quinase; 40 mg/dia com jejum; mais rash e diarreia; LUX-Lung 3 e 7: superior a gefitinibe em ex19del (ex19del responde melhor que L858R ao afatinibe); aprovado para CPNPC EGFR+ 1ª linha e em tumores HER2-mutados (rare indication)
3ª geração — osimertinibe (Tagrisso® — AstraZeneca) — PADRÃO ATUAL:
- Inibidor seletivo e irreversível de EGFR sensitizante (ex19del, L858R) E T790M → supera resistência de T790M que é mecanismo de falha de 1ª/2ª geração; mínima atividade contra EGFR wild-type → menos toxicidade cutânea e GI vs 1ª/2ª geração
- 80 mg/dia; excelente penetração SNC (metástases cerebrais respondem bem)
- FLAURA trial (2018): osimertinibe 1ª linha vs erlotinibe/gefitinibe em EGFR-mutados → PFS 18.9 meses vs 10.2 meses; OS 38.6 meses vs 31.8 meses (p=0.0462) — primeira vez que EGFR-TKI mostrou benefício de sobrevida global como 1ª linha → osimertinibe é 1ª linha padrão para CPNPC EGFR-mutado (ex19del/L858R)
- Resistência ao osimertinibe: heterogênea (EGFR C797S, amplificação MET, KRAS, HER2, transformação para CPPC); amivantamabe + lazertinibe para EGFR C797S pós-osimertinibe
- LAURA trial (2024): osimertinibe consolidação após quimiorrradiação em CPNPC III não-ressecável (EGFR+) — aumento dramático de PFS (39.1 meses vs 5.6 meses); mudará paradigma do estágio III EGFR+
ALK-TKIs no CPNPC (rearranjo EML4-ALK — 3-5% dos CPNPC):
- Crizotinibe (Xalkori® — Pfizer): 1ª geração; 250 mg 2x/dia; também ativo em ROS1 e MET; resistência intracraniana (mínima penetração SNC); 60% progridem com metástases cerebrais
- Alectinibe (Alecensa® — Genentech/Roche): 2ª/3ª geração; 600 mg 2x/dia; excelente penetração SNC; ALEX trial: alectinibe vs crizotinibe → PFS 34.8 meses vs 10.9 meses; controle de metástases cerebrais dramaticamente superior; padrão atual de 1ª linha em ALK+
- Lorlatinibe (Lorbrena® — Pfizer): 3ª geração; 100 mg/dia; mais ampla cobertura de mutações de resistência; penetração SNC excelente; CROWN trial: lorlatinibe vs crizotinibe → PFS 3 anos: 64% vs 19%; alternativa a alectinibe como 1ª linha ou pós-alectinibe