Ciclo replicativo do HIV e os quatro alvos da TARV
HIV (Human Immunodeficiency Virus) — lentivírus, RNA de fita simples positiva:
Ciclo replicativo em 9 etapas:
- Ligação ao CD4 (receptor principal) via gp120
- Co-receptor CCR5 (cepas R5, mais comuns na transmissão) ou CXCR4 (cepas X4, late disease) → mudança conformacional → fusão
- Fusão de membranas (gp41 inserção no hospedeiro) → entrada do core viral
- Transcrição reversa (transcriptase reversa viral: RNA → DNA) no citoplasma
- Integração ao genoma do hospedeiro (integrase viral)
- Transcrição do DNA proviral em RNAm viral (RNA pol II do hospedeiro)
- Tradução das proteínas virais (ribossomos do hospedeiro)
- Maturação: protease do HIV cliva poliproteína Gag-Pol em proteínas funcionais (MA, CA, NC, PR, RT, IN) → vírion imaturo → maduro e infectante
- Brotamento e liberação de novos vírions
Quatro alvos farmacológicos aprovados: | Classe | Alvo | Exemplos | |---|---|---| | NRTIs (backbone) | Transcriptase reversa (terminação de cadeia) | TDF/TAF, FTC, 3TC, ABC | | NNRTIs | Transcriptase reversa (sítio alostérico) | efavirenz, rilpivirina, doravirina, etravirina | | INSTIs | Integrase viral (transferência de fitas) | raltegravir, elvitegravir, dolutegravir, bictegravir, cabotegravir | | IPs | Protease viral (clivagem de Gag-Pol) | darunavir, lopinavir, atazanavir, tipranavir | | Antagonistas de CCR5 | Co-receptor CCR5 (entrada) | maraviroque | | Inibidores de fusão | gp41 (fusão de membranas) | enfuvirtida (T-20) | | Inibidores de fixação | gp120/CD4 | ibalizumabe, fostemsavir |
Por que INSTIs são preferidos hoje?
- Alta potência (supressão rápida da carga viral)
- Alta barreira de resistência (especialmente dolutegravir e bictegravir)
- Boa tolerabilidade
- Disponíveis em formulações de 1 comprimido/dia (STR — Single Tablet Regimen)
INSTIs: raltegravir, elvitegravir, dolutegravir e bictegravir — a backbone da TARV moderna
Integrase viral — enzima que catalisa 2 etapas:
- 3'-processamento: cliva 2 nucleotídeos das extremidades 3' do DNA viral (produz extremidades hidroxil reativas)
- Transferência de fitas: as extremidades 3'-OH atacam nucleofilicamente o DNA hospedeiro → inserção covalente do DNA viral no genoma humano (DNA proviral permanente)
Mecanismo dos INSTIs:
- INSTIs quelam os dois íons Mg²⁺ no sítio catalítico da integrase (via grupos DKA/pharmacophore) + interagem hidrofobicamente com o DNA viral nessa região
- Bloqueiam especificamente a transferência de fitas (não o 3'-processamento)
- Resultado: DNA viral não integrado fica no citoplasma → não há transcrição → sem replicação → carga viral indetectável
Raltegravir (Isentress® — Merck) — 1ª geração INSTI (aprovado FDA 2007):
- 400 mg 2x/dia ou 1200 mg 1x/dia (formulação HD); sem restrição alimentar; metabolismo por UGT1A1 (não-CYP) → menos interações
- Eficácia superior ao efavirenz no STARTMRK trial (menos efeitos no SNC, maior supressão de CV em 48 semanas)
- Resistência: mutação N155H ou Q148H/K/R + secundária → resistência; barreira de resistência intermediária (1 mutação primária suficiente → resistência de alto nível)
- Ainda usado em regimes de resgate e em gestantes
Elvitegravir (EVG) — em combinação fixa com cobicistate/TDF/FTC (Stribild®) ou cobicistate/TAF/FTC (Genvoya®):
- Cobicistate (COBI): não é ARV mas inibidor farmacocinético (booster) de CYP3A4 → eleva níveis de elvitegravir
- Barreira de resistência intermediária (similar ao raltegravir); resistência cruzada com raltegravir
Dolutegravir (DTG — Tivicay® — ViiV Healthcare) — 2ª geração, padrão atual:
- 50 mg 1x/dia; metabolismo UGT1A1 + CYP3A4 mínimo
- Alta barreira à resistência: o sítio de ligação ao DNA viral estabilizado por extensas interações hidrofóbicas → vírus precisa de 2+ mutações específicas para resistência → na prática, resistência ao DTG raríssima em naive
- Formulações 1 comprimido/dia: Triumeq® (DTG 50 + ABC 600 + 3TC 300 mg), Juluca® (DTG 50 + rilpivirina 25 mg — regime de 2 drogas para manutenção), Dovato® (DTG 50 + 3TC 300 mg — regime de 2 drogas, não-inferior a 3 drogas em GEMINI-1/-2 trials)
- RECOMENDAÇÃO OMS e MINISTÉRIO DA SAÚDE BR: DTG-based regimens são 1ª linha global para adultos e crianças ≥10 kg desde 2019; TARV do SUS: TDF + 3TC + DTG (1 comprimido/dia)
- Efeitos adversos: ganho de peso (mais que efavirenz; mecanismo não completamente esclarecido — parece independente da supressão viral), insônia, cefaleia; CNS effects mais raros que EFV
- Gestantes — risco neural tube defects (NTD): coorte TSEPAMO (Botswana 2018): frequência de NTD em bebês expostos a DTG na concepção = 0.9% vs 0.1% (non-DTG) → alerta inicial; dados posteriores com análise corrigida mostram aumento menor (~3x NTD absoluto em 0.1%→0.3%); benefício supera risco para mulheres já em TARV; suplementar com ácido fólico 5 mg/dia; DTG pode ser iniciado na gestação se benefícios superam; guias ainda variados
Bictegravir (BIC — Biktarvy® — Gilead) — 2ª geração, mais recente:
- Apenas em combinação fixa: BIC 50 mg + TAF 25 mg + FTC 200 mg = 1 comprimido/dia
- Maior barreira de resistência que DTG (mínimas mutações conhecidas em naive): em 5 anos de seguimento (AVANCÉE/GS-US-380-1489), zero resistências ao bictegravir em pacientes naive
- Metabolismo CYP3A4 + UGT1A1; menos interações que cobicistate-boosted regimens; NÃO interferência com rifampicina (indutor CYP3A4 derruba bictegravir — usar DTG-based em co-tratamento TB/HIV)
- Preferido em naive sem co-infecção TB e sem IR significativa; aprovado ≥2 anos
Cabotegravir (CAB — Vocabria® — ViiV) — INSTI de longa duração:
- INJETÁVEL de longa duração (LA): cabotegravir LA 600 mg IM + rilpivirina LA 900 mg IM q4 semanas (ou 660 mg + 1200 mg q8 semanas — ATLAS-2M: q8 semanas não-inferior a q4) → 1ª TARV injetável mensal para manutenção em virológicamente suprimidos
- Revolucionário para adesão: bimestral em vez de diário; estudos ATLAS/FLAIR: não-inferior a TARV oral diária em supressão viral
- Cabotegravir oral (600 mg/dia × 4 semanas): lead-in antes da injetável para checar tolerabilidade
- CAB LA 600 mg IM q8 semanas como PrEP (HIV-uninfected): HPTN 083 (HSH) e HPTN 084 (mulheres africanas): CAB LA superior ao TDF/FTC diário em prevenir HIV (89% e 90% mais eficaz) — PrEP injetável aprovada FDA 2021
- Resistência integrase (Q148R/H, N155H) antes de iniciar → contraindicado; meia-vida terminal muito longa (cabotegravir 5-6 semanas) → risco de resistência se HIV se replicar durante o "ombro" farmacocinético pós-última injeção
Inibidores de Protease: darunavir, ritonavir e conceito de boosting farmacocinético
Protease do HIV (HIV-PR) — aspartil-protease viral essencial:
- Cliva as poliproteínas Gag (MA-CA-NC-p6) e Gag-Pol (RT-IN-PR) nos vírions imaturos → proteínas funcionais individuais → vírion maturo e infectante
- Sem protease ativa → partículas virais imaturas, não-infectantes → sem disseminação
Mecanismo dos IPs:
- Análogos de transição de estado do substrato peptídico da protease → ligam-se ao sítio ativo (aspartatos Asp25/Asp25' da protease) → inibição competitiva → sem clivagem → vírions imaturos
- Alta variabilidade do sítio de protease (naturalmente polimórfico) → resistência pode emergir com múltiplas mutações
Conceito de Ritonavir/Cobicistate como "booster" farmacocinético:
- Ritonavir (RTV — Norvir® — AbbVie): IP original; potente inibidor de CYP3A4 (e CYP2D6); em DOSES BAIXAS (100 mg/dia) não tem efeito anti-HIV relevante mas eleva dramaticamente os níveis dos outros IPs (↑ AUC 10-100x); RTV low-dose = "booster" farmácocinético → adiciona-se /r ao nome do IP principal (darunavir/r, lopinavir/r)
- Cobicistate (COBI): inibidor de CYP3A4 sem atividade anti-HIV; mais seletivo que ritonavir (menos interações off-target); usado como booster de elvitegravir (Stribild®/Genvoya®) e de darunavir (Prezcobix® = DRV/COBI)
Darunavir (DRV — Prezista® — Janssen):
- IP de 2ª geração; alta barreira de resistência (precisa de 3+ mutações para resistência clínica relevante)
- Prezista® 600 mg + RTV 100 mg 2x/dia (experiente) ou 800 mg + RTV 100 mg 1x/dia (naive, sem mutações DRV principais)
- Prezcobix® = DRV 800 mg + COBI 150 mg 1x/dia (formulation conveniente)
- DRV/cobicistate + FTC + TAF = Symtuza® (1 comprimido/dia)
- Resistência: mutações V11I, V32I, L33F, I47V, I50V, I54L/M, T74P, L76V, I84V, L89V → ≥3 mutações = DRV resistente; DRV é o IP de maior barreira de resistência
- Hepatotoxicidade: monitorar TFH; sulfonamida estrutural → cautela em alergia a sulfa (reatividade cruzada rara mas possível)
Lopinavir/ritonavir (LPV/r — Kaletra® — AbbVie):
- 400/100 mg 2x/dia; histórico: muito usado em 2000s; barreira de resistência mais baixa que darunavir; muitos efeitos adversos GI (diarreia, náusea), dislipidemia, prolongamento QT; hoje substituído por regimes com INSTI + 2 NRTIs; ainda usado em pediatria e em alguns países em desenvolvimento
Atazanavir (ATV — Reyataz® — BMS):
- ATV/RTV 300/100 mg 1x/dia; inibe UGT1A1 → hiperbilirrubinemia indireta (icterícia não-perigosa, mas estética) em ~40% — biomarcador de adesão; menos dislipidemia que LPV/r; em desuso com INSTIs disponíveis
Efeitos adversos de classe dos IPs:
- Dislipidemia: ↑ LDL, ↑ triglicerídeos (LPV/r e IPs mais antigos > darunavir)
- Lipodistrofia: redistribuição de gordura (acúmulo visceral, lipohipertrofia dorsal "corcova de búfalo" — mais com IPs antigos + d4T/AZT)
- Resistência à insulina e risco de DM2 (IP-induced)
- Hepatotoxicidade: monitorar TFH, especialmente em co-infecção HCV/HBV
- Nefrolitíase: atazanavir e indinavir (indinavir fora de uso por nefrolitíase alta taxa)
- Interações medicamentosas: IPs são substratos + inibidores de CYP3A4/P-gp → interações com estatinas (simvastatina contraindicada com IPs), anticoagulantes, imunossupressores, antifúngicos azólicos, rifampicina (contraindicada com IPs — induz CYP3A4 → nivela muito), benzodiazepínicos (midazolam/triazolam → acúmulo sedativo grave), anticonvulsivantes (fenobarbital/fenitoína → reduzem IPs)
NNRTIs na TARV moderna (contexto):
- Efavirenz (EFV — Sustiva® — BMS / genérico SUS): inibidor alostérico da transcriptase reversa; 600 mg/dia ao dormir; efeitos no SNC/pesadelos em 50% das primeiras semanas (geralmente passam em 4-8 semanas); teratogênico em primatas → alternativa em mulheres em idade fértil; substituído por DTG na maioria dos protocolos mas ainda usado globalmente por custo
- Rilpivirina (RPV — Edurant® — Janssen): NNRTI de 2ª geração; 25 mg/dia com refeição; menor efeito SNC; CONTRAINDICADO se CV >100.000 ou CD4 <200 (maior falha); em combinações 1 comp/dia: Odefsey® (RPV/TAF/FTC), Juluca® (RPV+DTG — 2 drogas), Cabenuva® (RPV LA IM + cabotegravir LA IM)
- Doravirina (DOR — Pifeltro® — Merck): NNRTI mais recente; sem restrição alimentar; sem efeito QT; Delstrigo® (DOR+TDF+3TC 1 comp/dia); boa opção alternativa