PARP, reparo de DNA por recombinação homóloga e o conceito de letalidade sintética
PARP (Poly-ADP-Ribose Polymerase) — família de enzimas nucleares:
- PARP1 e PARP2 são os principais; detectam quebras de fita simples no DNA (SSB — Single-Strand Breaks) → catalisam poli-ADP-ribosilação (PAR) de proteínas histonas e outras nucleares → recruta maquinaria de reparo de SSB (BER — Base Excision Repair)
- Trapping: PARP1/2 em reação com inibidores → complexo PARP-DNA "preso" na fita → bloqueia forquilha de replicação → SSB convertida em DSB (Double-Strand Break) durante replicação → mais letal que SSB não-reparada
Vias de reparo de quebras de fita dupla (DSB):
- Recombinação Homóloga (HR/HRR): usa a cromátide irmã como molde → reparo preciso, sem erros; BRCA1, BRCA2, PALB2, RAD51, ATM, CDK12 etc. são componentes essenciais da HR
- NHEJ (Non-Homologous End Joining): une as extremidades diretamente → propenso a erros (inserções/deleções); disponível em qualquer fase do ciclo; não depende de BRCA1/2
BRCA1/2 e deficiência de HR:
- BRCA1 (17q21): envolvida em reconhecimento de DSB, sinalização, recrutamento de RAD51
- BRCA2 (13q12): fundamental para carregar RAD51 ao filamento de DNA na HR
- Mutação germinativa BRCA1/2 (herança AD, penetrância variável): risco aumentado de mama (BRCA1: 55-65%; BRCA2: 45-55% até 70 anos), ovário (BRCA1: 39%; BRCA2: 11-17%), próstata (BRCA2: risco aumentado), pâncreas
- Mutação somática BRCA1/2: ocorre no tumor sem mutação germinativa (5-15% adicionais)
- Células BRCA1/2-mutadas: sem HR funcional → dependem exclusivamente do NHEJ (e PARP-mediado BER) para sobreviver
Conceito de Letalidade Sintética (Synthetic Lethality):
- Duas mutações/inibições simultaneamente letais, quando individualmente toleradas
- BRCAm + PARP-i = Letal Sintético:
- Célula normal (BRCA intacto + PARP inibido): sem PARP → SSBs acumulam → DSBs durante replicação → reparadas eficientemente pela HR (BRCA funcionando) → célula sobrevive - Célula tumoral BRCAm (BRCA defeituoso + PARP inibido): sem PARP → SSBs → DSBs → NHEJ propenso a erros → erros se acumulam → morte celular
- Resultado: PARP-i mata seletivamente células BRCAm enquanto poupa células normais com BRCA intacto → janela terapêutica
HRD (Homologous Recombination Deficiency) — beyond BRCA:
- Outros genes além de BRCA1/2 quando mutados também causam HRD: PALB2, RAD51C/D, ATM, BRIP1, FANCL, CDK12 (câncer de próstata), EMSY
- HRD score (MyChoice® — Myriad; FoundationOne CDx): combina LOH (loss of heterozygosity), TAI (telomeric allelic imbalance) e LST (large-scale state transitions) → score ≥42 (MyChoice) = HRD-positivo → pode se beneficiar de PARP-i mesmo sem mutação BRCA1/2 germinativa/somática conhecida
- "BRCA-like" tumors: ovários de histologia serosa de alto grau → 50-70% têm HRD por diversas razões; maioria são naturalmente platino-sensíveis (HR deficientes não reparam platina eficientemente) → correlação platino-sensibilidade e PARP-i resposta
Olaparibe, niraparibe, rucaparibe e talazoparibe: aprovações e indicações clínicas
Olaparibe (Lynparza® — AstraZeneca/Merck):
- Primeiro PARP-i aprovado (FDA 2014); cápsulas 400 mg 2x/dia → comprimidos 300 mg 2x/dia (mais biodsponíveis — formulação preferida)
- Mecanismo adicional: trapping de PARP no DNA além de apenas inibição catalítica → complexo PARP-DNA preso → mais citotóxico
- Indicações aprovadas:
- Ovário recorrente com BRCAm germinativa ou somática, platino-sensível: 1ª aprovação (SOLO2 trial: olaparibe manutenção pós-platina em ovário BRCAm → PFS 19.1 vs 5.5 meses — DRAMATIC improvement; OS 51.7 vs 38.8 meses) - Ovário de 1ª linha BRCAm ou HRD: olaparibe manutenção após platina 1ª linha (SOLO1: olaparibe vs placebo em BRCAm → PFS 56 vs 14 meses!; 5 anos: 48% sem progressão vs 21%); combinação com bevacizumabe (PAOLA-1: olaparibe + bev manutenção → HRD positivo beneficia mais) - Mama metastático BRCAm germinativa HER2-negativo: olaparibe vs quimio de escolha do médico (OlympiAD: olaparibe PFS 7.0 vs 4.2 meses; OS 19.3 vs 17.1 meses); talazoparibe também aprovado nesta indicação - Próstata metastático resistente à castração (mCRPC) com BRCAm/HRR: olaparibe + enzalutamida (PROpel trial) ou olaparibe após docetaxel (PROfound: BRCAm → OS 19.1 vs 14.7 meses); indicação HRR ampliada - Pâncreas metastático BRCAm germinativa platino-sensível manutenção: olaparibe manutenção após platinum (POLO trial: PFS 7.4 vs 3.8 meses) — 1ª opção de manutenção em pâncreas
Niraparibe (Zejula® — GSK):
- 300 mg/dia (dose individualizada: 200 mg se <77 kg ou plaquetas <150k); metabolismo NÃO-CYP → menos interações que olaparibe
- Distinção: atividade independente de status BRCA (maior potência de trapping, HRD-positivos também beneficiam)
- Ovário manutenção 1ª linha: PRIMA trial: niraparibe vs placebo em ovário 1ª linha pós-platina → PFS todo comers 13.8 vs 8.2 meses; HRD-positivos 21.9 vs 10.4 meses; BRCAm 22.1 vs 10.9 meses → aprovado como manutenção 1ª linha independente de BRCAm
- Ovário manutenção platino-sensível recorrente (NOVA trial): PFS 21.0 vs 5.5 meses em BRCAm; HRD 12.9 vs 3.8 meses — aprovado
- Trombocitopenia mais frequente que outros PARP-i: monitorar CBC semanalmente no primeiro mês
Rucaparibe (Rubraca® — Clovis Oncology):
- 600 mg 2x/dia; única PARP-i com eliminação fecal predominante (sem ajuste de DRC)
- Inibidor de CYP3A4, CYP2C9, CYP2C19 → interações
- Ovário recorrente BRCAm ou LOH-alto: ARIEL2/3 trials; aprovado FDA 2016 para ovário BRCAm; aprovado manutenção platino-sensível (ARIEL3: todo comers → PFS 10.8 vs 5.4 meses)
- Próstata mCRPC BRCAm: aprovado após docetaxel
- Nota: Clovis Oncology faliu em 2022 → rucaparibe descontinuado nos EUA 2023; ainda disponível em alguns países
Talazoparibe (Talzenna® — Pfizer):
- 1 mg/dia (reduzir a 0.75 mg se ClCr 30-59); o mais potente TRAPPER de PARP da classe (100x mais potente que olaparibe em trapping)
- Mama metastático BRCAm HER2-negativo: EMBRACA trial: talazoparibe vs quimio → PFS 8.6 vs 5.6 meses; ORR 62% vs 27%; aprovado FDA 2018
- Mielossupressão mais proeminente por maior potência de trapping; anemia grau 3-4 em ~39%
- Combinação com enzalutamida em mCRPC BRCAm (TALAPRO-2 trial): PFS 27.9 vs 16.4 meses
Efeitos adversos de classe dos PARP-i:
- Mielossupressão: anemia (mais comum), trombocitopenia, neutropenia — monitorar CBC; transfusões frequentes em alguns pacientes; eritropoetina para anemia
- Náusea: em 40-70%; geralmente melhora com antiemético leve (ondansetrona, metoclopramida) e tomar com alimento
- Fadiga: muito frequente (50-70%)
- Elevação de creatinina (olaparibe): via inibição de secreção tubular de creatinina (creatinina secretada via OAT1/3 que olaparibe inibe) → elevação de creatinina sem real lesão renal → não reduzir dose baseado apenas na creatinina (monitorar com cistatina C se dúvida)
- MDS/LMA (leucemia mieloide aguda secundária): risco aumentado ~1.5% em 2 anos (vs 0.5% sem PARP-i) — relativamente pequeno mas real; monitorar CBC
- Pneumonite intersticial: rara (<1%) mas grave
Resistência a PARP-i:
- Restauração de BRCA (reversion mutations): mutação secundária reverte a mutação BRCA original → HR é restaurada → resistência; frequente (20-30% dos progressores)
- Upregulação de transportadores de efluxo: Pgp (ABCB1) → efluxo de PARP-i
- Perda de 53BP1/REV7 (SHIELDIN): restaura HR parcialmente mesmo com BRCA deficiente
- Amplificação de PARP1: mais PARP disponível → mesmo com inibição parcial, sobrevivem