Eixo hipotálamo-hipófise-tireoide e síntese dos hormônios tireoidianos
Eixo HPT (Hipotálamo-Pituitária-Tireoide):
- TRH (Thyrotropin-Releasing Hormone): peptídeo de 3 aa secretado pelo hipotálamo → pituitária anterior
- TSH (Thyroid-Stimulating Hormone / Tireotropina): glicoproteína secretada pela pituitária → tireoide → estimula síntese e liberação de T4 e T3
- T4 (Tiroxina/Tetraiodotironina) e T3 (Triiodotironina): liberados pela tireoide → circulação → feedback negativo sobre hipotálamo e pituitária
Síntese de hormônios tireoidianos (nas células foliculares da tireoide):
- Captação de iodo (I⁻) da circulação → cotransportador NIS (Na⁺/I⁻ symporter) basolateral — ativa por TSH
- Oxidação de I⁻ → I₂ pela tireoide peroxidase (TPO) usando H₂O₂ (sistema DUOX)
- Organificação: I₂ iodina resíduos de tirosina na tireoglobulina (TG) → MIT (monoiodotirosina) e DIT (diiodotirosina)
- Acoplamento: DIT + DIT → T4 (80%); MIT + DIT → T3 (20%) — via TPO na TG
- Endocitose de TG → lisossomos → proteólise → liberação de T4 e T3 na circulação
T4 vs T3:
- T4 = pró-hormônio (baixa atividade): 80% da secreção tireoidiana; meia-vida 7 dias
- T3 = hormônio ativo (3-4x mais potente que T4): gerado perifericamente por deiodinases (especialmente D1, D2 → removem um iodo); meia-vida 1 dia
- D1 (deiodinase tipo 1): fígado, rim, tireoide — produz T3 circulante
- D2 (deiodinase tipo 2): hipófise, SNC, músculo, tecido adiposo bege — produz T3 intracelular local
- D3 (deiodinase tipo 3): placenta, SNC fetal — inativa T3 → T2 (controla exposição fetal)
Transporte no sangue:
- 99.97% de T4 ligado a TBG (Thyroid-Binding Globulin), albumina e transtiretina (pré-albumina)
- Apenas fração livre (FT4, FT3) é biologicamente ativa e diagnóstica
Faixa normal:
- TSH: 0.4-4.0 μUI/mL (valores acima = hipotireoidismo; abaixo = hipertireoidismo)
- FT4: 0.8-1.8 ng/dL; FT3: 2.3-4.2 pg/mL
Receptor tireoidiano (TR): mecanismo de ação genômico
Receptor tireoidiano (TR) — membro da superfamília de receptores nucleares (Classe II — heterodímero com RXR):
Isoformas:
- TR-α1: coração, músculo esquelético, osso, SNC, intestino — controla FC, contractilidade cardíaca, termogênese
- TR-α2: amplamente expresso — liga T3 com baixa afinidade, atua como dominante negativo
- TR-β1: fígado, rim, cerebelo, pituitária — regula metabolismo lipídico, feedback negativo HPA
- TR-β2: hipófise, hipotálamo, retina, cóclea — feedback negativo de T3 sobre TSH
Mecanismo de ação:
- T3 entra na célula via transportadores (MCT8, MCT10, OATPs) → núcleo
- T3 liga ao LBD (Ligand-Binding Domain) do TR → mudança conformacional
- TR:RXR heterodímero → liga a TREs (Thyroid Hormone Response Elements — repetições DR4 de meia-sequências AGGTCA)
- Sem T3 (apo-TR): correpressores (NCoR, SMRT, HDAC) → repressão ativa
- Com T3 (holo-TR): correpressores dissociam → coativadores (SRC-1, p300/CBP, PGC-1α) recrutados → acetilação de histonas → ativação de transcrição
Genes-alvo de T3 ativados:
- Metabolismo energético: PGC-1α (biogênese mitocondrial), UCP1 (desacoplamento em adiposo marrom), genes da β-oxidação
- Cardiovascular: α-MHC (miosina cardíaca de ação rápida, ↑ contractilidade), SERCA2a (ATPase de bombeamento de Ca² → relaxamento cardíaco), receptores β-adrenérgicos (↑ sensibilidade adrenérgica)
- Colesterol: receptor LDL (↑ captação hepática de LDL), CYP7A1 (↑ conversão colesterol → ácidos biliares)
- Crescimento: GH, IGF-1 (T3 necessário para crescimento ósseo e neuronal)
Genes reprimidos por T3:
- TRH, TSH-β (feedback negativo)
- β-MHC (miosina mais lenta, de ação prolongada — reduzida no hipertireoidismo)
TR e SNC:
- Desenvolvimento cerebral fetal: T3 essencial para migração neuronal, mielinização, diferenciação sináptica
- Hipotireoidismo congênito não tratado → cretinismo (retardo mental irreversível) → triagem neonatal (teste do pezinho) é obrigatória
Hipotireoidismo: diagnóstico e tratamento com levotiroxina
Hipotireoidismo — deficiência de hormônios tireoidianos:
Causas:
- Primário (tireoide): Tireoidite de Hashimoto (autoimune, AC anti-TPO, anti-Tg — mais comum no mundo ocidental); pós-tireoidectomia; pós-iodo radioativo; deficiência de iodo (mais comum globalmente); fármacos (amiodarona, lítio, interferon-α)
- Secundário (hipofisário): deficiência de TSH (raro)
- Subclínico: TSH elevado + FT4 normal — tratar se TSH >10 ou sintomático
Manifestações clínicas:
- Fadiga, ganho de peso, intolerância ao frio, bradicardia, obstipação
- Pele seca, queda de cabelo (difusa), voz rouca
- Mixedema: acúmulo de glicosaminoglicanos → pele pastosa, macroglossia
- Hiponatremia (SIADH), dislipidemia (↑LDL por menos receptores LDL hepáticos), anemia
- Depressão, lentidão psicomotora, síndrome do túnel do carpo
- Coma mixedematoso: emergência (hipotermia, hipoglicemia, hiponatremia, coma) → T3/T4 IV + glucocorticoide
Levotiroxina (L-T4, Synthroid®, Euthyrox®):
- Tratamento padrão: T4 sintético → convertido perifericamente em T3 de acordo com as necessidades
- Dose: 1.6 μg/kg/dia (adulto hipotireoideo); iniciar com 25-50 μg/dia em idosos/cardiopatas
- Absorção oral (70-80% em jejum); alimentos, Ca²⁺, Fe²⁺, IPP, colestiramina reduzem absorção → tomar em jejum, 30-60 min antes de café e outros fármacos
- Meia-vida ~7 dias → dose diária única; ajuste de dose a cada 6-8 semanas (conforme TSH)
- Meta: TSH 0.4-4.0 (em adultos); pode ser menor em gravidez e carcinoma tireoidiano pós-tireoidectomia
- Na gestação: necessidade aumenta 30-50% → ajustar dose logo que gravidez confirmada
Combinação T4+T3 (controversa):
- Algumas pessoas com hipotireoidismo tratado com T4 mantêm sintomas apesar de TSH normalizado
- T3 adicionado (liotironina) melhora sintomas em subgrupo — estudos com polimorfismos na D2 (rs225014) → menor conversão de T4→T3
- Sociedades não recomendam uso rotineiro; considerar em pacientes com sintomas persistentes
Hipertireoidismo: metimazol, propiltiouracil e iodo radioativo
Hipertireoidismo — excesso de hormônios tireoidianos:
Causas principais:
- Doença de Graves (autoimune — mais comum): ACs anti-receptor do TSH (TRAb) → estimulam continuamente o receptor TSH → tireoide hiperfuncionante; oftalmopatia (exoftalmia), dermopatia (mixedema pré-tibial), acropaquia
- Bócio multinodular tóxico: nódulos tiróideos autônomos com mutações ativadoras de TSHR ou Gs-α
- Adenoma tóxico solitário: nódulo único hiperfuncionante
- Tireoidite: liberação aguda de TH estocado (fase ativa de Hashimoto, tireoidite pós-parto, tireoidite de De Quervain)
- Induzido por amiodarona: tipo 1 (excesso de iodo → síntese excessiva) e tipo 2 (tireoidite destrutiva)
Manifestações:
- Palpitações, taquicardia, fibrilação atrial, insuficiência cardíaca de alto débito
- Perda de peso (apesar de apetite aumentado), calor, sudorese, intolerância ao calor
- Tremor fino, ansiedade, insônia, labilidade emocional
- Fraqueza muscular proximal (miopatia tireotóxica)
- Osteoporose, hipercalcemia leve
- Tempestade tireoidiana (crise tireotóxica) → emergência com hipermetabolismo extremo, febre alta, alteração de consciência
Metimazol (MMI — Tapazol®):
- Inibe TPO → bloqueia organificação do iodo → menos T4/T3 sintetizados
- Potente, dose única diária (10-30 mg/dia), favorecido sobre PTU exceto na gestação (1º trimestre) e crise tireotóxica
- Efeitos adversos: agranulocitose (rara, 0.1-0.5% — emergência, hemograma urgente em febre/dor de garganta), hepatotoxicidade colestática rara, rash, artralgias
Propiltiouracil (PTU):
- Inibe TPO + inibe conversão periférica T4→T3 (inibe D1 e D2) → ação mais rápida na crise
- Preferido no 1º trimestre da gravidez (metimazol associado a embrieopatia — atresia de coanas, aplasia cutis)
- 3 doses diárias, menor potência, maior toxicidade hepática (hepatite fulminante rara) → monitorar enzimas hepáticas
Iodo radioativo (¹³¹I):
- Tratamento definitivo mais comum em adultos não grávidos
- ¹³¹I captado pelas células foliculares via NIS → emite radiação β → destruição da tireoide
- Eficaz em 6-18 meses; hipotireoidismo permanente esperado (requererá levotiroxina)
- Contraindicado: gestação, amamentação, oftalmopatia de Graves ativa grave (pode piorar)
Cirurgia (tireoidectomia):
- Para bócios muito grandes, suspeita de neoplasia, falha de outras terapias
- Complicações: hipoparatireoidismo (hipocalcemia pós-op), lesão do nervo laríngeo recorrente (rouquidão), hipotireoidismo permanente
Beta-bloqueadores: propranolol (40-120 mg/dia) — controla sintomas adrenérgicos (taquicardia, tremor, ansiedade) enquanto aguarda ação dos antitireoidianos; não altera produção hormonal
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