Eixo hipotálamo-hipófise-tireóide e síntese de T3/T4
Eixo HPT (Hipotálamo-Hipófise-Tireóide):
TRH (Thyrotropin-Releasing Hormone):
- Tripeptídeo (pGlu-His-Pro-NH2); hipotálamo → liga receptor TRH-R (Gq) em tireotrofos hipofisários
- Estimula liberação de TSH; também estimula prolactina (causa hiperprolactinemia no hipotireoidismo grave)
- Regulação: T3 livre inibe TRH (feedback negativo curto)
TSH (Hormônio Estimulante da Tireoide / Tireotrofina):
- 28 kDa; glicoproteína α/β-heterodímero; α subunidade compartilhada com LH, FSH, hCG
- Liga receptor TSH-R (Gs → cAMP → PKA) em células foliculares da tireóide → síntese e liberação de T4/T3
- TSH também estimula captação de iodeto, síntese de tireoglobulina, crescimento da tireóide
- Meia-vida: 1h; pulsatile com pico noturno
- Valores de referência: 0.4-4.0 mUI/L; em gravidez (1º trimestre) → 0.1-2.5 mUI/L (hCG estimula TSH-R)
Síntese de T4 e T3 — requer iodeto:
- Captação de iodeto: transportador NIS (Na/I symporter) na membrana basolateral das células foliculares — ativo, cotransporta 2Na⁺ + I⁻; NIS é inibido por perclorato, tiocianato (vegetal brassica), pertecnetato (scintigrafia)
- Oxidação de I⁻ a I₀: TPO (Tireoperoxidase) + H₂O₂ (produzido por DUOX2 — tireóide oxidase)
- Organificação: I₀ + tirosinas na tireoglobulina (TG) → MIT (monoiodotirosina) + DIT (diiodotirosina) — catalisado por TPO
- Acoplamento: DIT+DIT → T4 (3,5,3',5'-tetraiodotironina); MIT+DIT → T3 (3,5,3'-triiodotironina) — catalisado por TPO
- Armazenamento: como tireoglobulina iodinada no coloide folicular (estoque para semanas)
- Secreção: TSH → endocitose do coloide → fusão com lisossomos → proteólise da TG → libera T4 (principal) e T3 livre
Conversão periférica T4→T3:
- T4 é a pró-hormona (90% do que a tireóide secreta); T3 é o hormônio ativo (3-5x mais potente)
- Deiodinases: DIO1 (fígado, rins, tireóide) e DIO2 (cérebro, hipófise, coração, gordura marrom) → removem iodo da posição 5' de T4 → T3 ativo
- DIO3 → remove iodo da posição 5 → rT3 (T3 reverso, inativo) — em doenças graves, estresse, jejum → mais rT3, menos T3 ("síndrome do eutireóideo doente")
Transporte e ação de T3/T4:
- 99.97% de T4 e 99.7% de T3 ligados a proteínas: TBG (Thyroid Binding Globulin), transtiretina (TTR/pré-albumina), albumina
- Apenas fração livre é ativa; TSH responde ao T4L e T3L
- Receptor nuclear de hormônio tireoidiano (TR α1, α2, β1, β2): T3 liga TR → TR-RXR heterodímero → TRE (thyroid response elements) → transcrição gênica
- Efeitos: metabolismo basal (↑ VO₂, termogênese), coração (↑ HR, contratilidade, sensibilidade a catecolaminas), SNC (maturação, plasticidade), osso, GI
Hipotireoidismo e Tireoidite de Hashimoto: diagnóstico e tratamento com levotiroxina
Hipotireoidismo — deficiência de hormônios tireoidianos:
Causas:
- Primário (tireóide): Tireoidite de Hashimoto (mais comum em países iodados), pós-tireoidectomia, pós-iodo radioativo, tiroidite subaguda (transitória), deficiência de iodo (mais comum mundialmente), medicamentos (amiodarona, lítio, interferona)
- Secundário (hipófise): TSH deficiente — hipopituitarismo
- Terciário (hipotálamo): TRH deficiente — raro
Tireoidite de Hashimoto (Tireoidite Autoimune) — causa mais comum de hipotireoidismo em adultos nos países com iodo suficiente:
- Infiltração linfocítica da tireóide + autoanticorpos TPO (anti-tireoperoxidase — >90% dos casos) e anti-TG (tireoglobulina)
- Inicialmente pode ter fase hipereoideia transitória (liberação de hormônios armazenados) → depois hipotireoidismo permanente
- Associação com HLA-DR3, -DR5; mais comum em mulheres (7:1)
- Ultrassom: tireóide heterogênea, com padrão hipoecoico difuso ("pedras no rio")
Clínica do hipotireoidismo (reflete metabolismo lento):
- Fadiga, sonolência, lentidão mental, depressão
- Intolerância ao frio, temperatura corporal baixa
- Ganho de peso, edema (especialmente periorbital — mixedema)
- Bradicardia, hipertensão diastólica
- Pele seca, queda de cabelo, unhas fritas, rouquidão (edema glótico)
- Constipação, megacólon (casos graves)
- Dislipidemia (↑ LDL-c — tireóide regula LDL-R; hipotireoidismo tratável com levotiroxina antes de estatina)
- Coma mixedematoso (emergência): hipotermia, alteração de consciência, insuficiência respiratória — raro, alta mortalidade
- Hipotireoidismo congênito: cretinismo (retardo mental, nanismo) se não tratado precocemente → triagem neonatal obrigatória (TSH e T4L no calcâneo, 48-72h de vida)
Diagnóstico:
- TSH elevado (principal marcador de hipotireoidismo primário) → T4 livre baixo confirma
- TSH isoladamente elevado com T4L normal = hipotireoidismo subclínico (debatido: tratar se TSH >10 ou sintomático ou gestante)
- Anti-TPO elevado (>95 UI/mL): Hashimoto, confirma etiologia autoimune
Tratamento — Levotiroxina (T4 sintético):
- L-tiroxina (Euthyrox®, Synthroid®, Puran T4® — Brasil): sal sódico de L-tiroxina
- Dose inicial: 1.6 µg/kg/dia (ajuste fino por TSH a cada 6-8 semanas); idosos: iniciar com 12.5-25 µg/dia
- Tomada em jejum, 30-60 min antes do café (refeição, café, suplementos de cálcio, ferro, antiácidos, colestiramina → reduzem absorção)
- Meia-vida de T4: 7 dias → dose semanal, quinzenal ou mensal possíveis em pacientes com baixa aderência
- Alvo de TSH: 0.5-2.5 mUI/L para a maioria; 0.1-1.5 em gestantes (1º trimestre: <2.5); idosos >65 anos: pode-se tolerar TSH até 4-6 (tireotropina levemente elevada pode ser protetora em idosos — dados do estudo TRUST trial)
- T4+T3 combinado: debate; T3 liothyronine (Cytomel® / Uni-Thyroid®) adicionado em pacientes com hipotireoidismo persistente apesar de TSH normal (sintomas cognitivos/fadiga); ensaios ambíguos; alguns beneficiam, outros não; guia ATA 2012 diz que pode ser tentado em casos selecionados com sintomas persistentes
Hipertireoidismo e doença de Graves: propiltiouracil, metimazol e iodo radioativo
Hipertireoidismo — excesso de hormônios tireoidianos:
Causas principais:
- Doença de Graves (mais comum): autoimune; anticorpos TRAb (TSH receptor antibodies) estimulam TSH-R → hiperproducção de T3/T4; também causa exoftalmia (oftalmopatia de Graves — por infiltração de glicosaminoglicanos retrorbitais, separado da tireóide)
- Bócio multinodular tóxico (Plummer): múltiplos nódulos autônomos; mais comum em idosos; área endêmica de deficiência de iodo
- Adenoma tóxico (nódulo quente único)
- Tireoidite subaguda (De Quervain): viral; transiente, dor na tireóide
- Tireoidite silenciosa/pós-parto: autoimune transiente; sem dor
- Excesso de iodo (fenômeno Jod-Basedow): amiodarona, contraste iodado
- Struma ovarii: tecido tireoidiano ectópico no teratoma ovariano
Clínica do hipertireoidismo (metabolismo acelerado + ativação simpática):
- Perda de peso apesar de ↑ apetite
- Palpitações, taquicardia, FA (5-25% dos hipertireoideos apresentam FA — hipertireoidismo é causa tratável de FA)
- Tremor fino das extremidades
- Intolerância ao calor, sudorese excessiva
- Diarreia, trânsito intestinal acelerado
- Nervosismo, ansiedade, insônia, labilidade emocional
- Miopatia proximal (fraqueza de membros inferiores — escadas)
- Específico da Graves: exoftalmia (proptose), dermopsia pré-tibial (mixedema localizado), acropaquia (baqueteamento digital)
- Crise tireotóxica (tempestade tireoidiana): temperatura >40°C, taquicardia >150, FA, delírio, insuficiência cardíaca de alto débito — precipitada por cirurgia, infecção, parto; mortalidade 10-25% mesmo tratada
Diagnóstico:
- TSH suprimido (<0.01 mUI/L) + T4L e/ou T3L elevados
- TRAb elevado → Graves (sensibilidade >95%)
- Cintilografia com iodo-123 ou tecneceio (Tc-99m): captação difusa aumentada = Graves; captação nula = tireoidite
Tratamento do hipertireoidismo:
Tionamidas (antitiroideos) — inibem TPO → menos síntese de T3/T4:
Metimazol (Tapazol®) — 1ª linha (exceto 1º trimestre de gravidez):
- 20-40 mg/dia inicial → 5-10 mg/dia manutenção; dose única diária (meia-vida mais longa que PTU)
- Efeitos adversos: agranulocitose (0.1-0.5% — emergência médica, parar imediatamente, monitorar leucócitos se febre/faringite), hepatite colestásica, vasculite, hipotireoidismo iatrogênico
Propiltiouracil (PTU) — alternativa, especialmente em gravidez (1º trimestre) e crise tireotóxica:
- 100-400 mg/dia divididos q8h; também inibe conversão de T4→T3 (bloqueia DIO1) → efeito mais rápido que metimazol
- 1ª linha em 1º trimestre (metimazol: teratogênico leve; aplasia cutis, atresia de coanas)
- Toxicidade: hepatotoxicidade fulminante (FDA black box) — mais do que metimazol; PTU deve ser substituído por metimazol após 1º trimestre
Beta-bloqueadores — controle sintomático (não reduz T3/T4, apenas antagoniza efeitos simpáticos):
- Propranolol (não-seletivo — também bloqueia conversão T4→T3) ou atenolol
- Fundamental na crise tireotóxica; rápido alívio de taquicardia, tremor, ansiedade
Iodo radioativo (I-131 — RAI — Radio-Ablative Iodine) — terapia definitiva:
- I-131 captado pelo NIS → concentrado na tireóide → emite radiação β → ablação do tecido tireoidiano
- Objetivo: hipotireoidismo permanente (então paciente fica em levotiroxina) — 90% dos pacientes ficam hipotireoideos após 6-12 meses
- Eficaz para Graves e BMN tóxico; não indicado em Graves com oftalmopatia ativa grave (pode piorar a oftalmopatia) ou em gravidez (contraindicado)
- Precauções de radiação por 3-7 dias (evitar crianças e grávidas)
Cirurgia (tireoidectomia total) — quando RAI contraindicado, nódulo suspeito, bócio compressivo, ou preferência do paciente:
- Risco: hipoparatireoidismo transitório (↓ Ca²⁺), lesão de nervo laríngeo recorrente (rouquidão)
Crise tireotóxica — tratamento urgente:
- Propiltiouracil 600 mg loading → 250 mg q4h VO/SNG (PTU na crise porque inibe conversão T4→T3)
- Iodo (solução de Lugol ou SSKI) — MAS SOMENTE APÓS 1-2h do PTU (iodo estimula síntese se dado antes do PTU)
- Propranolol IV
- Dexametasona (inibe conversão periférica T4→T3 e pode ter benefício imunossupressor)
- Suporte: hidratação, antitérmicos (paracetamol — não salicilatos, que deslocam T4 de TBG)