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← Blog·peptideos25 de junho de 2026· 14 min de leitura

Haloperidol, clozapina, risperidona, olanzapina e aripiprazol — antipsicóticos típicos e atípicos em esquizofrenia: vias dopaminérgicas e efeitos extrapiramidais

Antipsicóticos de 1ª geração (haloperidol, clorpromazina) bloqueiam receptores D2 em todos os sistemas dopaminérgicos. Antipsicóticos atípicos (clozapina, risperidona, olanzapina, quetiapina, aripiprazol) têm perfil mais seletivo — via mesolímbica sem tanta ação extrapiramidal nigroestriatal. Clozapina é o único eficaz na esquizofrenia refratária mas requer monitoramento de agranulocitose.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Dopamina e vias dopaminérgicas — o fundamento da farmacologia dos antipsicóticos

Dopamina é um neurotransmissor catecolaminérgico sintetizado nos neurônios dopaminérgicos do mesencéfalo (substância negra e área tegmentar ventral — VTA) e age em receptores D1-D5 (família acoplada a proteína G):

  • D1, D5 (família D1-like): acoplados a Gs → aumentam cAMP; pós-sinápticos
  • D2, D3, D4 (família D2-like): acoplados a Gi → reduzem cAMP; pós-sinápticos e auto-receptores pré-sinápticos

4 vias dopaminérgicas e suas funções (e o que acontece quando bloqueadas pelos antipsicóticos):

  1. Via mesolímbica (VTA → núcleo accumbens, amígdala, hipocampo):

- Função: recompensa, motivação, comportamento emocional, processamento de salience - Na esquizofrenia: hiperatividade desta via → sintomas positivos (alucinações, delírios, pensamento desorganizado) - Bloqueio de D2 mesolímbico → efeito antipsicótico desejado → redução de sintomas positivos

  1. Via mesocortical (VTA → córtex pré-frontal):

- Função: funções executivas, cognição, planejamento, atenção, memória de trabalho - Na esquizofrenia: hipoatividade desta via → sintomas negativos (embotamento afetivo, alogia, avolição, anedonia) e déficits cognitivos - Bloqueio de D2 mesocortical pelos antipsicóticos → piora dos sintomas negativos e cognitivos — problema central dos antipsicóticos típicos

  1. Via nigroestriatal (substância negra compacta → estriado — putamen e caudado):

- Função: controle motor extrapiramidal (iniciação, regulação e suavização de movimentos) - Normal: dopamina equilibra acetilcolina no estriado - Bloqueio de D2 nigroestriatal → desequilíbrio: excesso de ACh relativo → efeitos extrapiramidais (EPS = extrapyramidal symptoms): distonia aguda, parkinsonismo por droga, acatisia, discinesia tardia

  1. Via tuberoinfundibular (núcleo arqueado do hipotálamo → hipófise):

- Função: dopamina inibe tonicamente a secreção de prolactina pelas células lactotróficas da hipófise anterior - Bloqueio de D2 tuberoinfundibular → hiperprolactinemia → galactorreia, amenorreia, ginecomastia, disfunção sexual, osteoporose em longo prazo

Hipótese dopaminérgica da esquizofrenia: excesso de dopamina mesolímbica → sintomas positivos; déficit de dopamina mesocortical → sintomas negativos e cognitivos. Limitações: a realidade é mais complexa (glutamato/NMDA, serotonina, GABA, neuregulin-1, processos inflamatórios etc.); porém, a hipótese dopaminérgica justifica o mecanismo dos antipsicóticos disponíveis

Ocupação de receptor D2 e resposta terapêutica:

  • Estudos de neuroimagem (PET scan): antipsicóticos eficazes ocupam 60-80% dos receptores D2 estriatais
  • >80% de ocupação: sem aumento de eficácia + aumento dramático de EPS
  • Clozapina: ocupa apenas 40-60% de D2 mesmo em doses terapêuticas + alta ocupação de outros receptores (5-HT2A, H1, α1, M1) → explica perfil atípico (ver seção específica)

Antipsicóticos típicos (1ª geração) — haloperidol, clorpromazina e cuidados com EPS

Antipsicóticos típicos (1ª geração / convencionais):

  • Descobertos acidentalmente: clorpromazina (Amplictil® — Sanofi) foi sintetizada como anti-histamínico em 1950 → Henri Laborit observou sedação sem perda de consciência → testada por Delay e Deniker em Paris em psicóticos (1952) → revolução psiquiátrica (antes: contenção física e eletrochoque como únicos tratamentos)
  • Mecanismo: bloqueio potente e predominante de D2 em todos os sistemas dopaminérgicos
  • Dois tipos de antipsicóticos típicos: (1) Alta potência (menor dose necessária, mais EPS, menos sedação): haloperidol, trifluoperazina, flufenazina; (2) Baixa potência (maior dose necessária, mais sedação, mais anticolinérgico, menos EPS): clorpromazina, tioridazina

Haloperidol (Haldol® — Janssen; genérico):

  • Butirofenona; potência alta
  • Dose: oral 0.5-20 mg/dia (psicose aguda: até 20+ mg/dia); IM de ação rápida (haloperidol decanoato = Haldol D®, IM depót a cada 4 semanas) para adesão
  • Indicações: esquizofrenia; episódio maníaco agudo; psicose delirante; delirium agudo (hospitalar — haloperidol IV ou IM é o padrão); Tourette (reduz tiques); vômitos refratários (via D2 zona de gatilho quimiorreceptora)
  • EPS são muito comuns com haloperidol (alta potência D2):

- Distonia aguda (horas a dias do início): espasmos musculares involuntários súbitos — pescoço (torcicolo espasmódico), olhos (crise oculógira — olhos virados), língua e laringe (laringoespasmo — urgência médica por risco de obstrução aérea), opisótono (dorso arqueado); incidência 10-20%, mais em jovens do sexo masculino; tratamento: biperideno 2 mg IM (anticolinérgico) → alívio em 5-10 min; difenidramina IM alternativa; prevenção em pacientes de risco: biperideno VO junto ao antipsicótico - Parkinsonismo por droga (dias a semanas): rígidade em roda denteada, bradicinesia, tremor de repouso (similar ao Parkinson, mas bilateral e causado pela droga); tratamento: biperideno, triexifenidil (anticolinérgicos); reduzir dose do antipsicótico; trocar para atípico - Acatisia (horas a semanas): sensação subjetiva insuportável de inquietação motora — paciente não consegue ficar parado, fica andando, extremamente disfórico; muito associada a não-adesão ao medicamento e até suicídio; tratamento: reduzir dose, trocar para atípico; propranolol 10-30 mg 3x/dia (o tratamento mais eficaz para acatisia), clonazepam, mirtazapina; anticolinérgicos SÃO eficazes na distonia/parkinsonismo mas NÃO na acatisia - Discinesia tardia (meses a anos de uso): movimentos involuntários repetitivos, principalmente orofaciais (mastigação, protusão de língua, grimaças) mas também membros e tronco; mecanismo: supersensibilização de receptores D2 (upregulation) por bloqueio crônico → quando o bloqueio não é completo (entre doses) → hiperatividade dopaminérgica; incidência 15-30% após uso prolongado de típicos; parcialmente irreversível — pode persistir mesmo após suspensão; tratamento: trocar para clozapina (mais eficaz); valbenazina (Ingrezza®) ou deutetrabenazina (Austedo®) — inibidores de VMAT2, reduzem dopamina pré-sináptica → aprovados FDA para discinesia tardia

  • Síndrome neuroléptica maligna (SNM): emergência médica rara (0.01-0.02% com típicos, menos com atípicos) mas com mortalidade 10-20% sem tratamento; quadro fulminante de: febre alta (>38.5°C) + rigidez muscular intensa + alteração de consciência (agitação, obnubilação, coma) + instabilidade autonômica (taquicardia, PA flutuante, diaforese) + CPK muito elevada (rabdomiólise); tratamento: suspender imediatamente o antipsicótico; bromocriptina 2.5-10 mg 3x/dia (agonista dopaminérgico) ± dantroleno (relaxante muscular direto); suporte em UTI; resfriamento físico

Clorpromazina (Amplictil® — Sanofi; genérico):

  • Fenotiazina de baixa potência; maior sedação, mais anticolinérgico (boca seca, constipação, retenção urinária, visão turva), mais α1 bloqueio (hipotensão postural), menos EPS que haloperidol
  • Indicações: psicose aguda (quando sedação é necessária); vômitos (5-HT3 + D2 no CTZ); soluço intratável (via SC ou IM); pré-anestesia (historicamente)
  • Toxicidades específicas: fotossensibilidade (rash solar); pigmentação acinzentada de pele e córnea com uso prolongado; agranulocitose (mais rara que clozapina mas descrita)
  • Cloridrato de flufenazina e trifluoperazina: outros típicos de alta potência (menos usados atualmente)

Antipsicóticos atípicos (2ª geração) — clozapina, risperidona, olanzapina e aripiprazol

Antipsicóticos atípicos (2ª geração) — características gerais:

  • Menor risco de EPS (exceto risperidona em doses altas)
  • Menor hiperprolactinemia (exceto risperidona e paliperidona)
  • Bloqueio 5-HT2A potente (serotonina) além de D2 → serotonina modula dopamina mesocortical → melhora sintomas negativos e cognitivos vs típicos
  • Mais sedação, mais ganho de peso, mais risco metabólico (DM2, dislipidemia) que típicos

Clozapina (Leponex® — Novartis; genérico):

  • O antipsicótico atípico original (sintetizado 1958, aprovado na Suíça 1971, retirado e reintroduzido em 1989 com protocolo de monitoramento)
  • Perfil receptor único: fraco bloqueador de D2 + potente antagonista de D4, 5-HT2A, H1, α1, α2, M1/M2 → a combinação de baixa ocupação de D2 + alta 5-HT2A + alta M1 explica o perfil de menor EPS mas também a profusão de efeitos adversos
  • O ÚNICO antipsicótico com eficácia documentada em esquizofrenia refratária (sem resposta a 2+ antipsicóticos de outras classes): CATIE, CUtLASS, estudos vs olanzapina → clozapina superior; deve ser tentada em qualquer paciente sem resposta adequada a 2 antipsicóticos
  • Dose: início 12.5-25 mg/dia → titulação gradual (2-4 semanas) → doses terapêuticas 150-600 mg/dia (monitorar nível plasmático: 250-350 ng/mL para eficácia)
  • AGRANULOCITOSE — risco fatal que exige protocolo obrigatório:

- Incidência: ~0.8% dos pacientes no 1º ano → risco cumulativo 1-2% com uso prolongado - Mecanismo: toxicidade idiossincrática de metabólito (nitrenium ion) sobre precursores mieloides + mediação imune - Protocolo de monitoramento hematológico obrigatório no Brasil (RENAME/Anvisa): hemograma SEMANAL no 1º ano, QUINZENAL no 2º ano, MENSAL a partir do 3º ano; interromper imediatamente se neutrófilos < 1500/μL - Clozapina só pode ser dispensada com hemograma atualizado (sistema de registro)

  • Outras toxicidades da clozapina:

- Sedação intensa (anti-H1 + anti-α1 + anti-M1) - Sialorréia paradoxal (espera-se boca seca por anti-M, mas clozapina causa hipersalivação noturna por agonismo parcial M4 e ação em outros mecanismos) → hioescina sublingual ou ipratrópio nasal - Ganho de peso e síndrome metabólica (mais que qualquer outro antipsicótico) - Convulsões dose-dependentes (risco de 1-4% com doses altas — reduzir dose se convulsão; ácido valproico profilático em doses > 600 mg) - Taquicardia sinusal (agonismo α2 → reflexo simpático) - Miocardite e miocardiopatia (raros mas graves, especialmente no 1º mês — troponina, CK-MB semanal no 1º mês em alguns protocolos) - Íleo paralítico (anti-M — monitorar obstrução intestinal grave especialmente com opioides)

Risperidona (Risperdal® — Janssen; genérico) e Paliperidona (Invega® — Janssen — 9-OH-risperidona, metabólito ativo):

  • Benzisoxazol; bloqueio potente de D2 + 5-HT2A; menor ação antimuscarínica que outros atípicos
  • Dose: 2-8 mg/dia; doses ≥6 mg → risco de EPS aumenta muito (comportamento mais parecido com típicos nessa faixa)
  • Maior hiperprolactinemia dos atípicos (bloqueio potente de D2 tuberoinfundibular, diferente de olanzapina e quetiapina que têm dissociação mais rápida)
  • Paliperidona ER (Invega® ER): liberação controlada → 1x/dia → melhor adesão; Invega Sustenna® (IM mensal) e Invega Trinza® (IM trimestral): formulações de longa duração para adesão
  • Risperdal Consta® (IM bimensal): 50 mg, 37.5 mg — risperidona de longa ação; 2x/mês

Olanzapina (Zyprexa® — Eli Lilly; genérico):

  • Tienobenzodiazepínico; perfil receptor amplo: D2, D4, 5-HT2A, H1, M1, α1
  • Dose: 10-20 mg/dia; Zyprexa IntraMuscular® (10 mg IM) para agitação aguda (mas NÃO combinar com lorazepam IM — risco de depressão respiratória e morte)
  • Eficácia excelente em sintomas positivos e moderada em negativos; um dos mais eficazes no CATIE trial
  • Síndrome metabólica é a principal preocupação: ganho de peso médio de 4-8 kg em 1 ano; alto risco de DM2 (síntese de glicogênio e lipogênese via anti-H1 hipotalâmico + ação em AMPK + resistência à insulina direta); monitorar glicose e lipídios a cada 3-6 meses
  • Menos EPS e menos hiperprolactinemia que risperidona
  • Zyprexa Relprevv® (pamoato de olanzapina IM 1x/mês): indicado para adesão; risco único de Post-Injection Delirium Sedation Syndrome (PDSS) — sedação intensa e delirium minutos a horas após injeção — requer observação de 3h após cada injeção

Quetiapina (Seroquel® — AstraZeneca; genérico):

  • Dibenzotiazepina; dissociação rápida de D2 (fast off) → menos EPS, menos hiperprolactinemia; alta ação anti-H1 → sedação intensa
  • Dose: 200-800 mg/dia (esquizofrenia); 100-400 mg/dia (bipolar); 50-100 mg/dia para insônia — uso off-label controverso (quetiapina é prescrita em doses baixíssimas para insônia em todo o mundo, mas não é indicação aprovada e expõe o paciente aos riscos metabólicos)
  • Quetiapina XR (liberação estendida) 1x/dia: melhor adesão
  • Indicada também em depressão bipolar (FDA), como adjuvante em depressão unipolar (FDA), mania, e na doença de Parkinson/demência de Lewy body com psicose (menor risco de piorar parkinsonismo por dissociação rápida de D2)

Aripiprazol (Abilify® — Otsuka; genérico) e Cariprazina (Reagila® — Gedeon Richter):

  • Mecanismo único: agonista parcial de D2 (e D3) — diferente de todos os outros antipsicóticos que são ANTAGONISTAS de D2
  • Agonismo parcial: em sistema dopaminérgico hiperativo (como mesolímbico na psicose) → aripiprazol compete com dopamina e reduz a estimulação net (ação antagonista funcional); em sistema dopaminérgico hipoativo (como mesocortical) → aripiprazol estimula parcialmente → melhora sintomas negativos e cognitivos
  • Também antagonista 5-HT2A e agonista parcial 5-HT1A (propriedade ansiolítica adicional)
  • Vantagens: sem ganho de peso significativo (peso-neutro); sem hiperprolactinemia (aripiprazol na verdade REDUZ prolactina — agonista parcial tuberoinfundibular); baixo risco EPS em doses normais
  • Indicações: esquizofrenia, episódio maníaco, adjuvante em depressão (dose 2-15 mg como add-on ao ISRS), transtorno do espectro autista com irritabilidade (aprovado para crianças ≥6 anos)
  • Dose esquizofrenia: 10-30 mg/dia
  • Abilify Maintena® (IM mensal) e Aristada® (IM 1.5 ou 2 meses)
  • Cariprazina: agonista parcial D2/D3 com alta afinidade D3 (mesolímbica/prefrontal) → específico para sintomas negativos de esquizofrenia (CARIPRAZINE Negative symptoms trials)

Ziprasidona (Geodon® — Pfizer; genérico); Lurasidona (Latuda® — Sumitomo):

  • Ziprasidona: menor ganho de peso; risco de QTc prolongado (monitorar ECG); inibidor de recaptação de NE e 5-HT (acção adicional)
  • Lurasidona: alta afinidade 5-HT7 (antidepressivo?) e 5-HT1A; indicada em esquizofrenia e depressão bipolar; sem ganho de peso; tomada com alimento ≥350 kcal (absorção dependente de comida)

Perguntas frequentes sobre antipsicóticos em esquizofrenia

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Antipsicóticos precisam ser tomados para sempre em esquizofrenia?+

Para a maioria dos pacientes com esquizofrenia, o tratamento de manutenção com antipsicóticos é recomendado de forma contínua e por prazo indefinido. A esquizofrenia é uma doença crônica com curso recidivante em 70-80% dos casos quando os antipsicóticos são descontinuados. Dados de estudos de descontinuação: Leucht et al. (meta-análise Lancet 2012, 65 estudos, 6.493 pacientes): taxa de recaída em 1 ano = 27% com antipsicótico vs 64% sem; recaída significa internação, descompensação grave, possível deterioração funcional permanente. Por que algumas recaídas são devastadoras: cada episódio psicótico causa dano neurotóxico (glutamato, oxidative stress → perda de substância cinzenta volumétrica visível em RM longitudinal); função social e profissional deteriora progressivamente com cada episódio; cronificação do curso → mais difícil de tratar episódios subsequentes. Exceções onde descontinuação pode ser considerada: primeiro episódio psicótico com remissão completa após 1-2 anos de tratamento (uma minoria consegue ficar estável): ~25-30% de pacientes com primeiro episódio mantêm remissão após descontinuação cuidadosa com redução gradual; porém necessita monitoramento rigoroso. O que fazer se paciente recusa: antipsicóticos de longa duração (LAI — long-acting injectables) a cada 2-4 semanas ou meses podem melhorar a adesão; evidência de que LAI reduz recaídas em 30-50% vs oral em estudos naturalísticos.

Clozapina é realmente diferente dos outros antipsicóticos para esquizofrenia refratária?+

Sim — clozapina é o único antipsicótico com eficácia documentada em esquizofrenia resistente ao tratamento (TRS — treatment-resistant schizophrenia). A evidência é sólida e consistente ao longo de décadas. Definição de esquizofrenia resistente: ausência de resposta adequada após 2 ou mais tentativas de antipsicóticos diferentes (de classes diferentes) em doses adequadas por duração adequada (6-8 semanas cada). Prevalência de TRS: 20-30% dos pacientes com esquizofrenia. Evidências da superioridade da clozapina: Kane et al. (1988, Archives of General Psychiatry): RCT que estabeleceu a clozapina — 30% dos pacientes com TRS que não respondiam a clorpromazina responderam à clozapina após 6 semanas; CATIE trial fase 2E (2006): pacientes que falharam 2 antipsicóticos → clozapina superior à quetiapina e risperidona em sintomas gerais, positivos e hospitalização. Mecanismo do benefício único: provavelmente relacionado ao perfil receptor amplo (D4, 5-HT2A, H1, M1, α2) + baixa ocupação de D2 com dissociação muito rápida (teoria do fast-off) + possível ação em vias GABA e glutamato. Problema: toxicidade significativa (agranulocitose, convulsões, metabólica, sedação) → uso restrito a quem realmente falhou outras opções e com protocolo de monitoramento rigoroso. Conclusão: clozapina deve ser oferecida a todos os pacientes com TRS após 2 falhas terapêuticas documentadas — a não-utilização de clozapina em TRS por medo da agranulocitose é considerada subótima pelo consenso especializado.

Qual o risco de desenvolver diabetes com antipsicóticos atípicos? O que monitorar?+

O risco de desenvolver DM2 e síndrome metabólica com antipsicóticos atípicos é real e clinicamente relevante. Hierarquia de risco metabólico (maior para menor ganho de peso/risco de DM): clozapina ≈ olanzapina >> quetiapina > risperidona > ziprasidona ≈ aripiprazol (aproximadamente neutros em peso). Mecanismos: bloqueio de receptores H1 hipotalâmicos → hiperfagia (aumento do apetite); inibição de AMPK (enzima de sensor energético); resistência à insulina direta independente do ganho de peso (especialmente clozapina e olanzapina — podem causar DM2 mesmo sem ganho de peso significativo, via ação nos tecidos periféricos e pâncreas). Magnitude do risco: olanzapina aumenta risco de DM em 2-3x; clozapina em 2-4x; clorpromazina modestamente. Monitoramento recomendado (NICE, APA guidelines): basal (antes de iniciar): glicemia de jejum, HbA1c, circunferência abdominal, IMC, pressão arterial, lipidograma; após iniciar: glicemia e peso ao 1º e 3º mês, depois anualmente; lipidograma e HbA1c anualmente. Intervenções preventivas: preferir antipsicótico de menor risco metabólico quando clinicamente equivalente; orientação dietética, atividade física; se ganho de peso significativo: considerar adicionar metformina (evidência modesta mas usada) ou trocar para aripiprazol/ziprasidona.

Antipsicóticos podem ser usados no transtorno bipolar e na depressão?+

Sim — muitos antipsicóticos atípicos têm indicações aprovadas além da esquizofrenia, incluindo transtorno bipolar e depressão unipolar como augmentação. Transtorno bipolar: mania aguda: praticamente todos os atípicos têm evidência e aprovação (olanzapina, risperidona, quetiapina, aripiprazol, ziprasidona, cariprazina, asenapina — todos superior ao placebo em mania); depressão bipolar: quetiapina (Seroquel®) é aprovada FDA para depressão bipolar (único que foi aprovado especificamente para isso antes dos outros); lurasidona (Latuda®) aprovada para depressão bipolar em monoterapia e adjuvante a lítio/valproato; cariprazina (Reagila®) aprovada FDA para depressão bipolar; olanzapina + fluoxetina (Symbyax® — Eli Lilly): combinação fixa aprovada para depressão bipolar; manutenção bipolar: quetiapina, aripiprazol, olanzapina, risperidona LAI — evidência de prevenção de recidiva em TB. Depressão unipolar (como augmentação ao antidepressivo): aripiprazol + ISRS (evidência robusta — ~30% de remissão adicional quando ISRS falha sozinho — estudos CADY, FORESIGHT); quetiapina XR baixa dose (50-150 mg) como adjuvante; olanzapina + fluoxetina. Os atípicos de 2ª/3ª geração tornaram-se ferramentas essenciais na psiquiatria afetiva, não apenas na psicose.

Referências Científicas

  1. Leucht S, Cipriani A, Spineli L, et al. (Meta-analysis of antipsychotics in schizophrenia — comparative efficacy) Comparative efficacy and tolerability of 15 antipsychotic drugs in schizophrenia: a multiple-treatments meta-analysis. Lancet, 2013.
  2. Kane J, Honigfeld G, Singer J, Meltzer H. (Original clozapine trial in treatment-resistant schizophrenia) Clozapine for the Treatment-Resistant Schizophrenic: A Double-blind Comparison with Chlorpromazine. Arch Gen Psychiatry, 1988.
  3. Lieberman JA, Stroup TS, McEvoy JP, et al. (CATIE trial — effectiveness of antipsychotics in schizophrenia) Effectiveness of Antipsychotic Drugs in Patients with Chronic Schizophrenia (CATIE). N Engl J Med, 2005.
  4. Leucht S, Tardy M, Komossa K, et al. (Antipsychotic drugs versus placebo for relapse prevention in schizophrenia meta-analysis) Antipsychotic drugs versus placebo for relapse prevention in schizophrenia: a systematic review and meta-analysis. Lancet, 2012.
  5. De Hert M, Detraux J, van Winkel R, Yu W, Correll CU. (Metabolic and cardiovascular adverse effects of antipsychotics review) Metabolic and cardiovascular adverse effects associated with antipsychotic drugs. Nat Rev Endocrinol, 2011.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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