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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 11 min de leitura

Glutaminólise e metabolismo do câncer: como tumores 'viciam' em glutamina e como bloqueá-lo

Glutamina é o aminoácido mais consumido por células tumorais — alimenta o ciclo de Krebs, síntese de nucleotídeos e defesas antioxidantes (GSH); telaglenastat (CB-839) inibe glutaminase para bloquear esse metabolismo cancerígeno.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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O metabolismo do câncer: além do Efeito Warburg

Efeito Warburg (Otto Warburg, 1924): células tumorais preferem glicólise anaeróbica mesmo em presença de oxigênio (*aerobic glycolysis*) → produz lactato em vez de CO₂. Por décadas considerado a principal alteração metabólica do câncer.

Mas tumores precisam de muito mais que glicose para crescer:

  • Macromoléculas: DNA (nucleotídeos), proteínas (aminoácidos), membranas (lipídios)
  • Aminoácidos: especialmente glutamina e serina
  • Antioxidantes: GSH para sobreviver ao estresse oxidativo

Glutamina é o aminoácido mais abundante no plasma (~500-800 μM) e o mais consumido por células tumorais em proliferação:

  • Principal fonte de carbono para o ciclo de Krebs (TCA) quando glicose é completamente convertida em lactato
  • Principal fonte de nitrogênio para síntese de nucleotídeos e aminoácidos não-essenciais
  • Precursor de glutationa (GSH) via γ-glutamilcisteína sintese

Transportadores de glutamina: SLC1A5 (ASCT2) e SLC38A2 (SNAT2) são os principais em cânceres — superexpressos em melanoma, TNBC, NSCLC e outros.

MYC e glutaminólise: um dos mecanismos pelos quais MYC oncogene promove crescimento é induzindo glutaminólise — c-Myc upregula GLS (glutaminase), SLC1A5/ASCT2, GLS2 → células MYC-amplificado são especialmente dependentes de glutamina

Glutaminólise: do glutamato ao α-cetoglutarato

Cascade metabólica da glutaminólise:

  1. Captação de Gln: ASCT2 (SLC1A5) — transporta Gln em troca de aminoácidos neutros
  2. GLS/GLS2 (Glutaminase): converte Gln → Glu + NH₄⁺ nas mitocôndrias
  3. GLUD1 (Glutamate dehydrogenase) ou Transaminases (GOT2, GPT2):

- GLUD: Glu → α-cetoglutarato + NH₄⁺ - Transaminases: Glu + oxaloacetato → α-cetoglutarato + aspartato

  1. α-cetoglutarato entra no ciclo de Krebs → oxaloacetato → malato → citrato → CO₂ + ATP + NADH

Funções biossintéticas da glutaminólise:

  • Nucleotídeos: aspartato (do Glu via GOT2) → síntese de AMP e GMP (via carbono); glutamina diretamente doa nitrogênio (N9, N3) para bases púricas
  • Prolina, arginina: síntese via intermediários de glutamato
  • Glutationa (GSH): γ-Glu-Cys-Gly — glutamato é o primeiro aminoácido da síntese de GSH
  • Alanina: via GPT1, ALT → libera carbono via piruvato

Glutaminólise reoxidativa (em hipóxia e em células com mutação em IDH):

  • α-cetoglutarato → processado em reverso no TCA (reductive carboxylation) → citrato → exportado → síntese de acetil-CoA para lipogênese
  • Essencial em células com déficit de entrada mitocondrial de piruvato

Telaglenastat (CB-839) e inibidores de GLS

GLS (Glutaminase): enzima mitocondrial que catalisa Gln → Glu + NH₄⁺.

  • Dois genes em humanos: GLS (GLS1/KGA/GAC) e GLS2 (LGA/GAB)
  • GLS1 isoformas: KGA (kidney type, ativada por fosfato) e GAC (glutaminase C, mitocondrial mais ativa, pró-proliferativa)
  • GLS1 é a forma predominante em cânceres

Telaglenastat (CB-839 — Calithera Biosciences):

  • Inibidor alostérico oral de GLS1 (liga ao sítio de trimerização ativo)
  • Inativa GLS1 GAC mais potentemente do que KGA
  • Estudos fase 1/2:

- Em cânceres com mutações IDH1/2, KRAS, PIK3CA — selecionados por dependência metabólica - CB-839 + everolimus em RCC: parcialmente positivo - CB-839 + carfilzomibe em mieloma múltiplo: resposta adicional - CB-839 + talazoparibe em câncer de mama TNBC/BRCA-mutado: fase 2

  • Resultados decepcionantes na maioria dos estudos fase 2 — problemas de seleção de pacientes e ausência de biomarcador preditivo robusto

Outros inibidores de glutaminólise:

  • BPTES: inibidor de GLS1 (pré-clínico)
  • 968: inibidor alostérico de GLS1 (mais potente que CB-839 em alguns sistemas)
  • Inibidores de ASCT2 (SLC1A5): bloqueiam captação de Gln — GPNA, V-9302, anticorpos anti-ASCT2
  • DON (diazo-oxo-norleucine) e análogos: análogos de glutamina que inibem múltiplas enzimas dependentes de Gln — RRx-001, DRP-104 em ensaios

Serina, one-carbon e outros aminoácidos na oncologia

Serina e metabolismo de carbono único (one-carbon):

  • Serina é a principal doadora de carbono único para o metabolismo de folato → síntese de timidilato, purinas, S-adenosilmetionina
  • Serina biossíntese de novo: glicose → 3-PG → pSer → Ser (via PHGDH, PSAT1, PSPH) — amplificada em melanoma, TNBC, câncer de mama HER2+
  • PHGDH (fosfoglicerato desidrogenase): amplificado/superexpresso em ~16% dos melanomas e ~6% dos cânceres de mama
  • Inibidores de PHGDH: NCT-502, PH-755 — em estudos pré-clínicos
  • Deprivação de serina (dieta pobre em serina/glicina): combinação com quimioterapia em modelos animais

Arginina:

  • Muitos tumores perdem ASS1 (Argininosuccinate Synthetase 1) — incapazes de sintetizar arginina de novo → arginine auxotrophs
  • ADI-PEG20 (Pegargiminase): polietilenoglicol-arginine deiminase que degrada arginina → privação de arginina → morte de células ASS1-negativas; fase 3 em mesotelima e melanoma uveal (ATOMIC-MM)

Triptofano e imunossupressão via IDO:

  • IDO1/TDO2 (Indoleamina 2,3-dioxigenase): converte triptofano → quinurenina → imunossupressão de células T (depleção de Trp + metabolitos ativos)
  • Tumores superexpressam IDO1 → microambiente imunossupressor
  • Epacadostat (INCB024360): IDO1-inibidor — combinação com pembrolizumabe (ECHO-301, fase 3 em melanoma): sem benefício → resultados decepcionantes

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Perguntas frequentes sobre metabolismo do câncer

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Por que tumores preferem glicólise mesmo com oxigênio disponível?+

O Efeito Warburg tem várias explicações não mutuamente exclusivas: (1) velocidade — glicólise anaeróbica produz ATP mais rapidamente que respiração oxidativa, mesmo sendo menos eficiente; (2) biossíntese — intermediários da glicólise alimentam síntese de macromoléculas (pentose-fosfato → nucleotídeos, glicerol → lipídios, serina); (3) ambiente ácido — lactato exportado acidifica microambiente → inibe células T e NK → vantagem imunoevasiva; (4) oncogenes (Myc, RAS) e HIF-1α ativam diretamente glicólise.

Dietas cetogênicas ou de baixo carboidrato podem 'matar de fome' o tumor?+

A hipótese é interessante mas a evidência clínica é fraca e inconsistente. Alguns tumores (glioblastoma) têm alta dependência de glicose e podem ser parcialmente inibidos por cetose, mas os tumores adaptam-se rapidamente ao usar glutamina, ácidos graxos e corpos cetônicos como combustível. Estudos clínicos de dieta cetogênica em glioblastoma são pequenos e sem conclusão clara. Para a maioria dos cânceres sólidos, dietas específicas não substituem tratamento oncológico padrão.

Por que telaglenastat falhou em muitos ensaios?+

Ausência de biomarcador preditivo foi o principal problema — 'todos os cânceres que usam glutamina' é uma população muito ampla e heterogênea. Dentro dessa população, só os tumores com dependência 'crítica' (talvez com MYC amplificado, IDH mutado, ou ASCT2 muito alto) teriam resposta sustentada. Também pode haver adaptação metabólica: quando GLS é bloqueado, células tentam compensar aumentando absorção de outros aminoácidos ou ativando via de serina. Melhores biomarcadores e combinações racionais são necessários.

Metformina tem efeito sobre o metabolismo do câncer além do AMPK?+

Sim, múltiplos: (1) inibe complexo I mitocondrial → menos NADH disponível para glutaminólise reoxidativa → bloqueia síntese de lipídios via citrato reoxidativo; (2) AMPK ativado → menor expressão de FASN (fatty acid synthase) e outras enzimas lipogênicas; (3) reduz IGF-1 plasmático (via redução de insulina hepática) → menos sinalização proliferativa; (4) em concentrações altas in vitro, inibe outros complexos da cadeia respiratória. A magnitude real desses efeitos em humanos com doses antidiabéticas ainda é debatida.

Referências Científicas

  1. DeBerardinis RJ, Mancuso A, Daikhin E, et al. Beyond aerobic glycolysis: transformed cells can engage in glutamine metabolism that exceeds the requirement for protein and nucleotide synthesis. Proc Natl Acad Sci USA, 2007.
  2. Cassago A, Ferreira AP, Ferreira IM, et al. Mitochondrial localization and structure-based phosphate activation mechanism of Glutaminase C with implications for cancer metabolism. Proc Natl Acad Sci USA, 2012.
  3. Meric-Bernstam F, Tannir NM, Bhatt DL, et al. Telaglenastat plus everolimus or cabozantinib vs placebo plus everolimus or cabozantinib in advanced renal cell carcinoma. JAMA Oncol, 2022.
  4. Pavlova NN, Zhu J, Thompson CB The hallmarks of cancer metabolism: still emerging. Cell Metab, 2022.
  5. Warburg O On the origin of cancer cells. Science, 1956.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

#glutaminólise#glutamina#GLS#telaglenastat#CB-839#ciclo de Krebs#Warburg#ASCT2

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