O metabolismo do câncer: além do Efeito Warburg
Efeito Warburg (Otto Warburg, 1924): células tumorais preferem glicólise anaeróbica mesmo em presença de oxigênio (*aerobic glycolysis*) → produz lactato em vez de CO₂. Por décadas considerado a principal alteração metabólica do câncer.
Mas tumores precisam de muito mais que glicose para crescer:
- Macromoléculas: DNA (nucleotídeos), proteínas (aminoácidos), membranas (lipídios)
- Aminoácidos: especialmente glutamina e serina
- Antioxidantes: GSH para sobreviver ao estresse oxidativo
Glutamina é o aminoácido mais abundante no plasma (~500-800 μM) e o mais consumido por células tumorais em proliferação:
- Principal fonte de carbono para o ciclo de Krebs (TCA) quando glicose é completamente convertida em lactato
- Principal fonte de nitrogênio para síntese de nucleotídeos e aminoácidos não-essenciais
- Precursor de glutationa (GSH) via γ-glutamilcisteína sintese
Transportadores de glutamina: SLC1A5 (ASCT2) e SLC38A2 (SNAT2) são os principais em cânceres — superexpressos em melanoma, TNBC, NSCLC e outros.
MYC e glutaminólise: um dos mecanismos pelos quais MYC oncogene promove crescimento é induzindo glutaminólise — c-Myc upregula GLS (glutaminase), SLC1A5/ASCT2, GLS2 → células MYC-amplificado são especialmente dependentes de glutamina
Glutaminólise: do glutamato ao α-cetoglutarato
Cascade metabólica da glutaminólise:
- Captação de Gln: ASCT2 (SLC1A5) — transporta Gln em troca de aminoácidos neutros
- GLS/GLS2 (Glutaminase): converte Gln → Glu + NH₄⁺ nas mitocôndrias
- GLUD1 (Glutamate dehydrogenase) ou Transaminases (GOT2, GPT2):
- GLUD: Glu → α-cetoglutarato + NH₄⁺ - Transaminases: Glu + oxaloacetato → α-cetoglutarato + aspartato
- α-cetoglutarato entra no ciclo de Krebs → oxaloacetato → malato → citrato → CO₂ + ATP + NADH
Funções biossintéticas da glutaminólise:
- Nucleotídeos: aspartato (do Glu via GOT2) → síntese de AMP e GMP (via carbono); glutamina diretamente doa nitrogênio (N9, N3) para bases púricas
- Prolina, arginina: síntese via intermediários de glutamato
- Glutationa (GSH): γ-Glu-Cys-Gly — glutamato é o primeiro aminoácido da síntese de GSH
- Alanina: via GPT1, ALT → libera carbono via piruvato
Glutaminólise reoxidativa (em hipóxia e em células com mutação em IDH):
- α-cetoglutarato → processado em reverso no TCA (reductive carboxylation) → citrato → exportado → síntese de acetil-CoA para lipogênese
- Essencial em células com déficit de entrada mitocondrial de piruvato
Telaglenastat (CB-839) e inibidores de GLS
GLS (Glutaminase): enzima mitocondrial que catalisa Gln → Glu + NH₄⁺.
- Dois genes em humanos: GLS (GLS1/KGA/GAC) e GLS2 (LGA/GAB)
- GLS1 isoformas: KGA (kidney type, ativada por fosfato) e GAC (glutaminase C, mitocondrial mais ativa, pró-proliferativa)
- GLS1 é a forma predominante em cânceres
Telaglenastat (CB-839 — Calithera Biosciences):
- Inibidor alostérico oral de GLS1 (liga ao sítio de trimerização ativo)
- Inativa GLS1 GAC mais potentemente do que KGA
- Estudos fase 1/2:
- Em cânceres com mutações IDH1/2, KRAS, PIK3CA — selecionados por dependência metabólica - CB-839 + everolimus em RCC: parcialmente positivo - CB-839 + carfilzomibe em mieloma múltiplo: resposta adicional - CB-839 + talazoparibe em câncer de mama TNBC/BRCA-mutado: fase 2
- Resultados decepcionantes na maioria dos estudos fase 2 — problemas de seleção de pacientes e ausência de biomarcador preditivo robusto
Outros inibidores de glutaminólise:
- BPTES: inibidor de GLS1 (pré-clínico)
- 968: inibidor alostérico de GLS1 (mais potente que CB-839 em alguns sistemas)
- Inibidores de ASCT2 (SLC1A5): bloqueiam captação de Gln — GPNA, V-9302, anticorpos anti-ASCT2
- DON (diazo-oxo-norleucine) e análogos: análogos de glutamina que inibem múltiplas enzimas dependentes de Gln — RRx-001, DRP-104 em ensaios
Serina, one-carbon e outros aminoácidos na oncologia
Serina e metabolismo de carbono único (one-carbon):
- Serina é a principal doadora de carbono único para o metabolismo de folato → síntese de timidilato, purinas, S-adenosilmetionina
- Serina biossíntese de novo: glicose → 3-PG → pSer → Ser (via PHGDH, PSAT1, PSPH) — amplificada em melanoma, TNBC, câncer de mama HER2+
- PHGDH (fosfoglicerato desidrogenase): amplificado/superexpresso em ~16% dos melanomas e ~6% dos cânceres de mama
- Inibidores de PHGDH: NCT-502, PH-755 — em estudos pré-clínicos
- Deprivação de serina (dieta pobre em serina/glicina): combinação com quimioterapia em modelos animais
Arginina:
- Muitos tumores perdem ASS1 (Argininosuccinate Synthetase 1) — incapazes de sintetizar arginina de novo → arginine auxotrophs
- ADI-PEG20 (Pegargiminase): polietilenoglicol-arginine deiminase que degrada arginina → privação de arginina → morte de células ASS1-negativas; fase 3 em mesotelima e melanoma uveal (ATOMIC-MM)
Triptofano e imunossupressão via IDO:
- IDO1/TDO2 (Indoleamina 2,3-dioxigenase): converte triptofano → quinurenina → imunossupressão de células T (depleção de Trp + metabolitos ativos)
- Tumores superexpressam IDO1 → microambiente imunossupressor
- Epacadostat (INCB024360): IDO1-inibidor — combinação com pembrolizumabe (ECHO-301, fase 3 em melanoma): sem benefício → resultados decepcionantes
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