EGFR no câncer de pulmão — base molecular e epidemiologia das mutações
CÂNCER DE PULMÃO NÃO-PEQUENAS CÉLULAS (CPNPC):
- ~85% dos cânceres de pulmão são CPNPC; 3 subtipos principais: adenocarcinoma (40%), carcinoma epidermoide (30%), carcinoma de grandes células (10%)
- Adenocarcinoma: historicamente subtype de "não fumante" (embora fumantes também desenvolvam) com mutações ativadoras específicas e, PORTANTO, mais druggável por terapias alvo
EGFR (Epidermal Growth Factor Receptor / HER1 / ErbB1):
- Receptor tirosina-quinase transmembrana; da mesma família de HER2 (ErbB2), HER3, HER4
- Ligantes: EGF, TGF-α, anfirregulina, epiregulina, betacelulina
- Cascatas de sinalização downstream: RAS/MAPK (proliferação), PI3K/AKT/mTOR (sobrevivência), STAT3 (proliferação + anti-apoptose)
MUTAÇÕES ATIVADORAS DE EGFR no CPNPC:
- Frequência: ~15% em caucasianos/hispânicos; ~40-50% em asiáticos do leste (chineses, japoneses, coreanos); mulheres > homens; não fumantes ou fumantes leves > tabagistas pesados
- Localização: principalmente nos exons 18-21 do domínio quinase de EGFR
- Mutações clássicas/sensibilizadoras (sensitivity mutations) — respondem bem a EGFR-TKIs de 1ª e 2ª geração:
- Deleções no exon 19 (ex19del): ~45% das mutações de EGFR; deleção de aminoácidos ao redor do resíduo L747 no laço ELREA → a quinase fica constitutivamente ativa; melhor resposta aos TKIs - Substituição L858R no exon 21: ~40% das mutações de EGFR; leucina→arginina no codon 858 → estabiliza a conformação ativa → quinase superativa; boa resposta mas ligeiramente inferior ao ex19del - Outras raras: L861Q, G719X (exon 18), S768I
- Mutações de exon 20 insertion: em ~4-9% dos tumores EGFR-mutados; RESISTENTES aos TKIs de 1ª-3ª geração; agentes específicos: amivantamabe (bispecífico EGFR+MET) + mobocertinibe; janela terapêutica diferente
DIAGNÓSTICO MOLECULAR:
- MANDATÓRIO antes de iniciar tratamento em CPNPC avançado/metastático
- Tecido ou biópsia líquida (ctDNA no plasma)
- NGS (next-generation sequencing) preferível → detecta EGFR + ALK + ROS1 + KRAS + BRAF + MET + HER2 + RET + NTRK e outros em uma análise só
- PCR específico: cobras por EGFR sensibilizadoras, T790M (cobas EGFR v2)
- Importância: TKI de EGFR NÃO beneficia pacientes sem mutação de EGFR — selecionar corretamente é essencial
Gefitinibe, erlotinibe, afatinibe (1ª/2ª geração) e osimertinibe (3ª geração)
GEFITINIBE (Iressa® — AstraZeneca) e ERLOTINIBE (Tarceva® — Roche/OSI):
- EGFR-TKIs de 1ª geração: inibidores reversíveis que competem com ATP pelo sítio quinase do EGFR; reversível = se dissociam e se associam repetidamente ao receptor
- Gefitinibe: 250 mg oral 1x/dia; aprovado pela FDA para CPNPC avançado com mutação de EGFR
- Erlotinibe: 150 mg oral 1x/dia; aprovado para CPNPC + carcinoma de pâncreas (combinado com gemcitabina — modesto benefício)
- IPASS trial (2009, NEJM): gefitinibe vs carboplatina-paclitaxel em adenocarcinoma CPNPC asiático; em EGFR-mutados, gefitinibe superior (SLP de 9.5 vs 6.3 meses); em EGFR-não-mutados, quimioterapia superior → confirmou a importância do marcador molecular preditivo
- EA dos TKIs de EGFR (classe): Rash acneiforme (80-90%): foliculite pápulo-pustular em face, tronco, couro cabeludo → paradoxalmente associado a MELHOR resposta ao TKI (rash = sinal de inibição de EGFR na pele); manejo: antibióticos tópicos/orais (minociclina/doxiciclina), filtro solar; Diarreia (50%): manejo sintomático; Elevação de transaminases (7-10%): monitorar; Pneumonite intersticial (rara, 0.3-3%, mais comum em japoneses com erlotinibe — "japoneses e TKIs"): grave, pode ser fatal; TC e suspensão imediata se sintomático; Mucosa oral (paronyquia — inflamação ao redor das unhas — característico)
AFATINIBE (Giotrif® — Boehringer Ingelheim):
- EGFR-TKI de 2ª geração: inibidor IRREVERSÍVEL (covalente) de EGFR, HER2 e HER4 (pan-ErbB)
- Liga-se covalentemente a Cys797 do EGFR via ação de Michael → não se dissocia
- Maior inibição de EGFR e HER2 que 1ª geração → eficaz em algumas mutações raras (G719X, L861Q, S768I) não cobertas pela 1ª geração
- LUX-Lung 7: afatinibe vs gefitinibe → afatinibe superior em SLP (11 vs 10.9 meses — muito similar); LUX-Lung 3 e 6: afatinibe vs quimioterapia em ex19del e L858R → SLP superior
- EA: maior diarreia e mucosites que 1ª geração (panErbB)
- Dacomitinibe (Vizimpro® — Pfizer): 2ª geração similar ao afatinibe; ARCHER 1050: dacomitinibe vs gefitinibe → SLP 14.7 vs 9.2 meses; SG 34.1 vs 26.8 meses — um dos primeiros a mostrar SG
RESISTÊNCIA DE 1ª E 2ª GERAÇÃO: A maioria dos pacientes que respondem ao TKI de 1ª/2ª geração desenvolvem resistência após mediana de 10-14 meses. O mecanismo mais comum:
- Mutação T790M no exon 20 do EGFR: troca de treonina → metionina no resíduo "gatekeeper" 790 → resíduo maior → estericamente impede a ligação dos TKIs de 1ª/2ª geração (também aumenta a afinidade pelo ATP) — presente em ~50-60% das resistências
- Amplificação de MET, HER2; mutação em PIK3CA; transformação para SCLC — outros mecanismos menos frequentes
- Biópsia de resistência (tecido ou ctDNA) ao progredir: OBRIGATÓRIO para detectar T790M e orientar próximo tratamento
OSIMERTINIBE (Tagrisso® — AstraZeneca) — o paradigma do 3ª geração:
- EGFR-TKI de 3ª geração: inibidor irreversível seletivo para EGFR com mutações ativadoras E T790M, mas com menor atividade no EGFR selvagem → MENOS rash/diarreia que 1ª e 2ª geração
- Mecanismo: liga-se covalentemente a Cys797, mas o design molecular o acomoda no sítio quinase mesmo com a mutação T790M; inibe ex19del, L858R, T790M (+ C797S raro com resistência ao osimertinibe)
- PENETRAÇÃO NO SNC: lipofílico → excelente penetração da barreira hematoencefálica → eficaz em metástases cerebrais (prevalentes no adenocarcinoma EGFR-mutado) → reduz recorrência cerebral
- AURA3 trial (2017, NEJM): osimertinibe vs quimioterapia (carboplatina-pemetrexed) em CPNPC EGFR-mutado com T790M após progressão a 1ª/2ª geração → SLP: 10.1 vs 4.4 meses (HR 0.30!); RCNs (respostas em SNC): 70% vs 31% → aprovado em 2ª linha
- FLAURA trial (1ª linha): osimertinibe vs gefitinibe ou erlotinibe em CPNPC avançado com mutação de EGFR sensibilizadora, 1ª linha → SLP: 18.9 vs 10.2 meses (HR 0.46); SG: 38.6 vs 31.8 meses (HR 0.80, p=0.046 — significativa!) → osimertinibe tornou-se o PADRÃO DE CUIDADO em 1ª linha para CPNPC EGFR-mutado
- EA do osimertinibe: rash e diarreia (menores que 1ª/2ª geração); QTc prolongação (monitorar ECG); cardiomiopatia (rara — <1-3%); pneumonite (3%); anemia
- Resistência ao osimertinibe: amplificação de MET (mais comum — ≥20%); mutação C797S; mutação KRAS; conversão para SCLC; transformação epitelial-mesenquimal
AMIVANTAMABE (Rybrevant® — J&J/Janssen):
- Anticorpo bispecífico anti-EGFR e anti-MET
- Indicação: CPNPC com inserções no exon 20 de EGFR (resistentes aos TKIs de 1ª-3ª geração)
- CHRYSALIS trial: amivantamabe em inserções ex20 → ORR 40%, DOR 11.1 meses