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← Blog·peptideos21 de junho de 2026· 13 min de leitura

Fluoroquinolonas (ciprofloxacino, levofloxacino), aminoglicosídeos (gentamicina) e tetraciclinas (doxiciclina): mecanismos e resistência

Fluoroquinolonas inibem DNA girase e topoisomerase IV; ciprofloxacino para gram-negativos, levofloxacino para gram-positivos e atípicos. Aminoglicosídeos ligam 30S ribossomal — bactericidas dependentes de pico. Tetraciclinas/doxiciclina bloqueiam translocação de aa-tRNA no ribossomo 30S — amplo espectro.

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BioPeptídeos Editorial
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Fluoroquinolonas: mecanismo via DNA girase e topoisomerase IV

Fluoroquinolonas (FQ) — antibióticos sintéticos que inibem enzimas topoisomerases bacterianas:

Alvo primário — topoisomerases do tipo II bacterianas:

  • DNA girase (topoisomerase II bacteriana): heterotetrâmero GyrA₂GyrB₂; introduz superenrolamento negativo no DNA bacteriano → necessário para replicação, transcrição, reparo
  • Topoisomerase IV: heterotetrâmero ParC₂ParE₂; desenovela DNA após replicação; desentrelaça cromossomos filhos durante divisão celular
  • FQs formam complexo ternário FQ-DNA-topoisomerase → DNA "clivado" mas não re-ligado → quebra dupla da fita de DNA → morte celular bacteriana
  • Gram-negativos: DNA girase = alvo primário; topoisomerase IV = secundário
  • Gram-positivos (S. aureus, S. pneumoniae): topoisomerase IV = alvo primário; DNA girase = secundário

Estrutura e gerações das fluoroquinolonas:

  • 1ª geração — ácido nalidíxico (1962): só gram-negativos urinários; resistência rápida; praticamente obsoleto
  • 2ª geração — ciprofloxacino (1987), norfloxacino: fluoração em C-6 → maior potência; ciprofloxacino = protótipo; melhor espectro gram-negativo
  • 3ª geração — levofloxacino, esparfloxacino: amplia gram-positivos e atípicos (pneumococo, Mycoplasma)
  • 4ª geração — moxifloxacino, gemifloxacino: excelente gram-positivo, atípicos, alguns anaeróbios; metronidazol pode ser dispensável em algumas infecções respiratórias

Ciprofloxacino (Cipro®):

  • 500-750 mg VO q12h; 200-400 mg IV q8-12h; biodisponibilidade oral excelente (~70-80%) → oral = IV para ITU/infecções sistêmicas
  • Espectro: excelente gram-negativo incluindo Pseudomonas aeruginosa (única FQ oral com boa atividade anti-Pseudomonas), Enterobactérias, Haemophilus, Neisseria, Salmonella, Shigella; gram-positivos: fraco (S. aureus, S. pneumoniae — não usar como monoterapia para pneumonia comunitária)
  • Indicações: ITU complicada e pielonefrite, prostatite, diarreia infecciosa (Shigella, Salmonella typhi, Campylobacter — atenção: resistência crescente), antraz (Bacillus anthracis pós-exposição), gonorreia (resistência crescente — ceftriaxona preferida), osteomielite/artrite por gram-negativo, infecções por Pseudomonas
  • Não usar em: pneumonia comunitária (S. pneumoniae: fraco), infecções por MRSA (resistência intrínseca alta), meningite (penetra SNC mas menos que ceftriaxona para meningococo)

Levofloxacino (Levaquin®) — isômero L (ativo) da ofloxacino:

  • 500-750 mg VO/IV 1x/dia (meia-vida 6-8h); menor dose em DRC
  • Espectro: ampliado vs ciprofloxacino; S. pneumoniae (excelente — "respiratória" FQ); atípicos (Mycoplasma, Chlamydophila, Legionella); gram-negativos bons mas menos que ciprofloxacino para Pseudomonas
  • Indicações: pneumonia comunitária grave (com cobertura de atípicos e pneumococo — ATS/IDSA guidelines: alternativa a β-lactâmico + macrolídeo), pneumonia nosocomial (com alguma atividade Pseudomonas), sinusite e DPOC exacerbada (reserva — não 1ª linha por pressão de seleção), ITU, pielonefrite, prostatite

Moxifloxacino (Avelox®):

  • 400 mg VO/IV 1x/dia; excelente para anaeróbios + atípicos + pneumococo
  • NÃO para ITU (excreção fecal > urinária → não atingem concentração adequada na urina)
  • Pneumonia comunitária, infecção intra-abdominal leve (com metronidazol substituível), tuberculose (MDR-TB — parte de regimes de resgate)

Efeitos adversos das fluoroquinolonas — FDA Black Box Warnings:

  1. Tendinopatia e ruptura de tendão (risco 2-6x maior que não-FQ): Aquiles mais comum; risco maior em >60 anos, corticosteroide concomitante, transplantados renais; suspender se dor em tendão
  2. Neuropatia periférica: parestesias, disestesias, fraqueza; pode ser permanente
  3. Efeitos no SNC: insônia, cefaleia, convulsões (epilépticos; inibem GABA-A); evitar em história de epilepsia
  4. Prolongamento de QT: moxifloxacino > levofloxacino > ciprofloxacino; cuidado com outros QT-prolongadores, hipocalemia, hipomagnesemia
  5. Hipoglicemia: especialmente gatifloxacino (retirado), levofloxacino em diabéticos usando sulfonilureas — monitorar glicemia
  6. Dissecting aneurysm of aorta: FDA 2018 — possível associação com aneurisma/dissecção aórtica; evitar em pacientes de alto risco
  7. Artropatia em crianças: dano à cartilagem em animais jovens → geralmente evitar < 18 anos (exceto infecções por Pseudomonas em mucoviscidose, antraz, onde benefício supera risco)
  8. Fotossensibilidade: evitar exposição solar excessiva (principalmente esparfloxacino)

Resistência às fluoroquinolonas:

  • Mutações em gyrA/gyrB ou parC/parE: alteram sítio de ligação da FQ na topoisomerase; dupla mutação gyrA + parC = resistência de alto nível
  • Bombas de efluxo: MexAB-OprM, MexCD-OprJ (Pseudomonas); AcrAB-TolC (Enterobactérias)
  • Porinas: perda de OprD em Pseudomonas
  • PMQR (Plasmid-Mediated Quinolone Resistance): genes qnr (protegem topoisomerase), aac(6')-Ib-cr (inativa FQ), qepA (efluxo); transferíveis horizontalmente → expansão epidêmica de resistência

Aminoglicosídeos: gentamicina, amicacina, tobramicina — bactericidas de pico

Aminoglicosídeos — antibióticos do ribossomo 30S, bactericidas concentração-dependentes:

Mecanismo:

  • Uptake bacteriano em 3 fases: (1) Ligação eletrostática do aminoglicosídeo (policatiônico) à membrana externa (LPS, gram-negativos) ou ácido teicóico (gram-positivos); (2) Uptake Fase I energia-dependente (EDP-I): pequena quantidade entra, ligada ao ribossomo 30S, causa leituras erradas → proteínas aberrantes inserem-se na membrana → criam poros → EDP-II massivo; (3) EDP-II: grande influxo de aminoglicosídeo → ribossomos 30S sobrecarregados → parada de síntese proteica → morte rápida
  • Subunidade 30S ribossomal: sítio A (sítio aminoacil); aminoglicosídeos ligam-se à alça h44 do 16S rRNA → induzem conformação "closed" do sítio A → incorporação de aminoácidos errados → proteínas defeituosas incluindo proteínas de membrana → poros → influxo maciço → morte
  • Dependentes de concentração (Cmax/MIC): quanto mais alto o pico de concentração relativo ao MIC, maior o efeito bactericida; efeito pós-antibiótico prolongado (4-12h para gram-negativos)
  • Justificativa para dose única diária (ODA — Once-Daily Aminoglycoside): dose única alta = pico alto (↑ eficácia) + vale baixo (↓ nefrotoxicidade por depleção de aminoglicosídeo do túbulo proximal antes da próxima dose)

Espectro:

  • Gram-negativos aeróbios: Pseudomonas, Enterobactérias (E. coli, Klebsiella, Proteus, Enterobacter) — principais indicações
  • Sinergismo com beta-lactâmicos ou glicopeptídeos para gram-positivos (enterococo, S. aureus): o beta-lactâmico danifica a parede celular → facilitando entrada do aminoglicosídeo
  • ZERO atividade em anaeróbios (uptake é O₂-dependente — sem O₂, não entra) e em gram-positivos isoladamente (exceto quando combinado)

Principais aminoglicosídeos:

  • Gentamicina: 5-7 mg/kg/dia IV ODA (dose única diária); 1-2 mg/kg q8h (dose múltipla em sinergismo); monitorar pico (>10 mg/L) e vale (<1 mg/L); infecções graves por gram-negativo, sinergismo em endocardite enterocócica (gentamicina 3 mg/kg/dia + ampicilina × 4-6 sem), pielonefrite
  • Tobramicina: similar à gentamicina mas 2-4x mais ativo contra Pseudomonas; inalado (tobramicina inalação — TOBI®) para fibrose cística — reduz exacerbações, não erradica Pseudomonas; IV similar à gentamicina
  • Amicacina: mais estável às aminoglicosídeo-modificadoras (AME — as enzimas de resistência mais comuns); reservada para organismos resistentes à gentamicina; 15-20 mg/kg/dia ODA; pico alvo 20-30 mg/L
  • Neomicina/Paromomicina: não absorvidos sistemicamente → uso oral para descontaminação intestinal (cirurgia colorretal), encefalopatie hepática (reduz urease produtoras de amônia no cólon); paromomicina: leishmaniose visceral (injetável)
  • Estreptomicina: 1ª aminoglicosídeo (descoberto 1943); tuberculose (agente de 2ª linha), brucelose, peste bubônica, tularemia

Efeitos adversos — os dois maiores: nefro e ototoxicidade:

  1. Nefrotoxicidade (10-25% dos tratamentos): acúmulo no córtex renal (células do túbulo proximal endocitam aminoglicosídeos) → necrose tubular → IRA não-olígúrica; reversível ao suspender na maioria; fatores de risco: dose alta, duração prolongada, doença renal prévia, hipovolemia, vancomicina concomitante, AINES, anfotericina B; ODA (dose única diária) é MENOS nefrotóxica que doses múltiplas (permite depleção nos intervalos)
  2. Ototoxicidade (2-25%):

- Cocleotoxicidade (perda auditiva, tinnitus): células ciliadas da cóclea (frequências altas primeiro); amicacina e neomicina são mais cocleotóxicos - Vestibulotoxicidade (vertigem, nistagmo, desequilíbrio): streptomicina e gentamicina mais vestibulotóxicos - IRREVERSÍVEL em graus variáveis → audiometria antes de cursos prolongados; estreptomicina = mais ototóxica historicamente

  1. Bloqueio neuromuscular: raro; inibe liberação de ACh pré-sináptica + reduz sensibilidade da placa motora; risco com anestésicos, miastenia gravis; cálcio IV reverte

Monitoramento terapêutico (TDM) — aminoglicosídeos:

  • ODA (dose única diária): nomograma de Hartford (concentração ~12h → nomograma definir frequência de dose); vale <1 mg/L antes da próxima dose → segurança renal
  • Dose múltipla tradicional: pico (30-60 min após fim da infusão), vale (30 min antes da próxima dose); índice de monitoramento = pico/MIC ≥10 = eficácia; vale baixo = segurança

Tetraciclinas e doxiciclina: inibição do ribossomo 30S, espectro e usos modernos

Tetraciclinas — antibióticos do ribossomo 30S bacteriano, bacteriostáticos de amplo espectro:

Mecanismo:

  • Entrada bacteriana: passagem pelas porinas da membrana externa (gram-negativos) como quelato Mg²⁺-tetraciclina
  • Sítio de ação: subunidade 30S ribossomal — sítio A → impede ligação do complexo aminoacil-tRNA/EF-Tu/GTP ao sítio A → parada de tradução (adição de aminoácidos bloqueada) → bacteriostáticos (não bactericidas)
  • A ligação é reversível → bacteriostáticos; requerem imunidade do hospedeiro para eliminação bacteriana (problemáticos em imunossuprimidos graves)

Espectro excepcionalmente amplo:

  • Gram-positivos e gram-negativos (amplo espectro de base)
  • Atípicos intracelulares: Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia trachomatis/psittaci/pneumoniae, Rickettsia, Coxiella burnetii, Ehrlichia, Anaplasma — bacterias que vivem intracelularmente onde outros antibióticos não penetram bem; tetraciclinas penetram facilmente nas células
  • Borrelia burgdorferi (doença de Lyme)
  • Mycobacterium (doxiciclina para algumas; mas não Mycobacterium tuberculosis)
  • Ureaplasma urealyticum, Treponema pallidum (sífilis — em alergia a penicilina)

Tetraciclinas clássicas vs novas:

  • Tetraciclina: oral; pouca relevância clínica atual por resistência e múltiplas doses
  • Doxiciclina (Vibramicina®): a mais usada; 100 mg q12h (dose de ataque 200 mg no 1º dia); meia-vida longa (~18-22h); oral/IV; pouca excreção renal → SEGURA em DRC (diferente de aminoglicosídeos); NÃO quelatar com Ca²⁺ tanto quanto as outras tetraciclinas → pode ser tomada com leite (pequena interferência vs tetraciclina clássica)
  • Minociclina: lipofílica (penetra SNC bem); usada para MRSA cutâneo (junto com TMP-SMX), Acinetobacter (in vitro), acne grave; 100 mg q12h
  • Tigeciclina (Tygacil® — Pfizer): glicilciclina (subclasse de tetraciclina); contorna o principal mecanismo de resistência (bombas de efluxo tipo tet) e RPP (ribosomal protection proteins); espectro extremamente amplo: gram-positivo (MRSA, VRE), gram-negativo (ESBL, KPC parcialmente), anaeróbios; ZERO atividade contra Pseudomonas aeruginosa e Proteus; IV somente; usada em IAS graves, SSTI por multirresistentes, pneumonia nosocomial por gram-negativos multirresistentes (exceto Pseudomonas)
  • Omiduciclina, eravacliclina: novas aminometilciclinas; maior atividade; aprovadas para SSTI e CIAI

Principais indicações da doxiciclina:

  1. Acne (primeira linha oral para acne moderada-grave): 50-100 mg/dia; anti-inflamatório + antibacteriano vs Propionibacterium acnes (Cutibacterium acnes)
  2. Infecções por clamídia: uretrite não-gonocócica (100 mg q12h × 7 dias); pneumonia atípica
  3. Ricketsioses: febre maculosa das Montanhas Rochosas, tifo (Rickettsia); única terapia eficaz; iniciar empiricamente — esperar confirmação é perigoso; pediatria (< 8 anos): exceção à regra de evitar tetraciclinas em crianças quando Rickettsia = suspeita (mortalidade alta sem tratamento)
  4. Doença de Lyme: Borrelia burgdorferi; Lyme precoce: 100 mg q12h × 14-21 dias; profilaxia pós-picada Ixodes em área endêmica: 200 mg dose única < 72h (reduz 87% de conversão)
  5. Malária: profilaxia e tratamento (com quinina); áreas multirresistentes; 100 mg/dia profilaxia → iniciar 1-2 dias antes de entrar em área endêmica, continuar 28 dias após saída
  6. Doença de Lyme cardíaca, neuroborrelliose precoce: doxiciclina oral; tardia grave: ceftriaxona
  7. DPOC exacerbação: Chlamydophila, Mycoplasma, H. influenzae — cobertura razoável com azitromicina (preferida) ou doxiciclina
  8. Sífilis (2ª linha em alergia à penicilina): 100 mg q12h × 14 dias
  9. Cólera: doxiciclina dose única 300 mg ou 100 mg q12h × 3 dias (reduz duração e excreção)
  10. Melioidose, brucelose, tularemia: componente dos regimes de combinação

Efeitos adversos das tetraciclinas:

  • Fototossensibilidade: rash solar → usar protetor e evitar sol (doxiciclina > tetraciclina > minociclina)
  • Distúrbios GI: náusea, vômito, esofagite (tomar com copo cheio de água, não deitar por 30 min após — esofagite de contato)
  • Deposição em tecidos em formação: Ca²⁺ quelação → depósito em ossos e dentes em formação → CONTRAINDICADO em gestantes e crianças < 8 anos (manchas dentárias, inibição de crescimento ósseo) — exceção: Rickettsia grave em qualquer idade
  • Síndrome de Fanconi reversível: tetraciclina degradada (vencida) → tóxica para túbulo proximal
  • Pseudotumor cerebri: hipertensão intracraniana benigna, cefaleia, papiledema — raro
  • Interação alimentar: Ca²⁺, Fe²⁺, Mg²⁺, Al³⁺ (antiácidos) quelam tetraciclinas → reduzem absorção em 30-80%; doxiciclina é menos afetada mas ainda interação significativa; tomar 2h antes ou 4h depois de laticínios/suplementos
  • Vestibulotoxicidade: minociclina → vertigem (mais que as outras; 3-4% das usuárias)

Perguntas frequentes sobre fluoroquinolonas, aminoglicosídeos e tetraciclinas

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Posso tomar ciprofloxacino com café ou leite?+

Café puro: sem problema significativo para ciprofloxacino (a cafeína em si não interfere na absorção, mas ciprofloxacino inibe CYP1A2 — o responsável pela metabolização da cafeína — aumentando os níveis de cafeína em 2-3x, podendo causar insônia, taquicardia, nervosismo). Leite e laticínios: interfere na absorção das fluoroquinolonas, especialmente ciprofloxacino — o cálcio dos laticínios pode reduzir a absorção em 30-50% por formação de quelatos. Antiácidos contendo Mg²⁺, Al³⁺ ou Ca²⁺ (como omeprazol+Mg ou Maalox) também reduzem absorção. Recomendação: tomar ciprofloxacino com água, pelo menos 2 horas antes ou 6 horas depois de laticínios e antiácidos. Alimentos em geral (exceto laticínios/suplementos de cálcio) têm impacto menor — ciprofloxacino pode ser tomado com refeição normal para reduzir GI. Levofloxacino é menos afetado pela alimentação — pode ser tomado com ou sem alimento.

Por que o médico prescreveu gentamicina em dose única diária e não de 8 em 8 horas como antigamente?+

A dose única diária (ODA — Once-Daily Aminoglycoside) é hoje o padrão preferido para aminoglicosídeos porque oferece melhor eficácia e menor toxicidade. Aminoglicosídeos são antibióticos 'concentração-dependentes' — quanto mais alto o pico de concentração em relação ao MIC bacteriano, maior o efeito bactericida e mais prolongado o 'efeito pós-antibiótico' (continuam matando bactérias mesmo com níveis caindo). Dose única dá um pico 2-3x maior que a mesma dose dividida — mais bactericida. Quanto à toxicidade: nefrotoxicidade ocorre por acúmulo no córtex renal. As células do túbulo proximal têm saturação de absorção — dose única satura brevemente o sistema, mas o intervalo longo permite depleção renal completa antes da próxima dose. Com doses divididas de 8/8h, há acúmulo progressivo sem tempo de depleção. Estudos clínicos e meta-análises mostraram ODA = menor nefrotoxicidade com igual ou maior eficácia. A monitorização é diferente: medimos uma concentração ~12h após a dose e usamos nomograma (Hartford) para confirmar intervalo de dosagem adequado.

Doxiciclina por 30 dias para Lyme: é necessário? Quais os riscos?+

Para a doença de Lyme precoce não-disseminada (eritema migrans isolado), as diretrizes da IDSA (Infectious Diseases Society of America) recomendam doxiciclina 100 mg 12/12h por 14 dias — NÃO 30 dias. Ciclos mais longos de 30 dias ou mais são frequentemente promovidos por 'Lyme crônica' ou 'PTLDS (Post-Treatment Lyme Disease Syndrome)', mas NÃO têm suporte em evidências. Quatro ECRs controlados versus placebo mostraram que 30 vs 14 dias de doxiciclina, ou adição de prolonged antibiotics após o ciclo padrão, NÃO proporcionaram benefício em sintomas prolongados (fadiga, dor, confusão cognitiva) pós-Lyme. Riscos de cursos prolongados: C. difficile (especialmente em >60 anos), disbiose intestinal, fototoxicidade, resistência induzida, custo e efeitos adversos cumulativos. A IDSA/AAN/ACR 2020 não recomendam antibióticos prolongados para 'Lyme crônica'. A ceftriaxona IV é indicada para neuroborelliose ou artrite de Lyme refratária, não para sintomas inespecíficos.

Fluoroquinolona é segura para crianças?+

Em geral, fluoroquinolonas são evitadas em crianças menores de 18 anos porque estudos em animais jovens mostraram dano à cartilagem de crescimento (artropatia) — especialmente nas articulações de carga. Em humanos, o sinal clínico é artralgia transitória e reversível, sem evidências de dano permanente. Porém, o risco teórico levou à restrição. Exceções onde o benefício supera o risco: (1) Pseudomonas aeruginosa em fibrose cística — ciprofloxacino oral é a ÚNICA opção oral eficaz e é amplamente usado; (2) Pós-exposição ao antraz (Bacillus anthracis) — ciprofloxacino é 1ª linha em crianças; (3) ITU por gram-negativo multirresistente sem alternativa oral adequada; (4) Tuberculose MDR/XDR — fluoroquinolonas (levofloxacino, moxifloxacino) são componentes essenciais de regimes pediátricos de TB resistente. Em síntese: não são 'proibidas', mas reservadas para situações específicas onde outros antibióticos falham ou são inadequados. Risco de Black Box (tendinopatia) também existe em adolescentes ativos — pesagem cuidadosa de risco-benefício.

Referências Científicas

  1. Tamma PD, Turnidge J, Boucher HW, et al. IDSA 2024 guidance on treatment of antimicrobial resistant gram-negative infections (quinolone use included). Clin Infect Dis, 2024.
  2. Wisplinghoff H, Bischoff T, Tallent SM, Seifert H, Wenzel RP, Edmond MB. Nosocomial bloodstream infections in US hospitals: analysis of 24,179 cases (aminoglycoside use patterns). Clin Infect Dis, 2004.
  3. Retamar P, Portillo MM, López-Prieto MD, et al. (BADO study group) Impact of inadequate empirical therapy on the mortality of patients with bloodstream infections — relevance of fluoroquinolone resistance. Antimicrob Agents Chemother, 2012.
  4. Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, et al. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines (CDC 2021) — doxycycline for chlamydia/syphilis/LGV. MMWR Recomm Rep, 2021.
  5. Lantos PM, Rumbaugh J, Bockenstedt LK, et al. Clinical Practice Guidelines by the Infectious Diseases Society of America (IDSA), American Academy of Neurology, and American College of Rheumatology: 2020 Guidelines for the Prevention, Diagnosis and Treatment of Lyme Disease (doxycycline duration). Clin Infect Dis, 2021.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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