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← Blog·peptideos06 de julho de 2026· 12 min de leitura

Antifúngicos — fluconazol, voriconazol, caspofungina e anfotericina B: ergosterol, β-glucana, candidemia e aspergilose invasiva

Antifúngicos têm como alvos estruturas únicas dos fungos: azóis (fluconazol/voriconazol) inibem o CYP51 fúngico que sintetiza ergosterol; equinocandinas (caspofungina/micafungina) inibem a β-(1,3)-D-glucana sintase da parede celular; anfotericina B liga-se diretamente ao ergosterol formando poros na membrana. Candidemia e aspergilose invasiva são as infecções fúngicas invasivas mais importantes em imunossuprimidos.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Alvos dos antifúngicos — ergosterol, parede celular e mecanismos de ação

Por que os fungos são difíceis de tratar?

Fungos são eucariotos — suas células têm organelas membranosas, ribossomos 80S, metabolismo muito similar ao humano. Diferentemente das bactérias (procariotos com alvos únicos — parede de peptidoglicano, ribossomo 70S), os antifúngicos têm janela terapêutica muito mais estreita pois os alvos fúngicos são similares aos humanos. Os principais alvos que DIFEREM dos humanos:

  1. Ergosterol (membrana fúngica) vs colesterol (membrana humana): a membrana celular fúngica usa ergosterol (C28 esteroide com duplas ligações extras) em vez de colesterol (C27) → alvos dos azóis e da anfotericina B
  1. β-(1,3)-D-glucana (parede celular fúngica): polissacarídeo estrutural da parede celular de fungos (30-60% da parede de Candida e Aspergillus); mamíferos NÃO têm parede celular com β-glucana → alvo exclusivo das equinocandinas
  1. Timidilato sintase fúngica (alvo da 5-fluorocitosina — 5-FC / flucitosina): o antimetabólito 5-FC é convertido intracelularmente por citosina desaminase fúngica (ausente em mamíferos) em 5-fluorouracila → inibe timidilato sintase → sem síntese de DNA; usada apenas em combinação com anfotericina B (meningite criptocócica)

AZÓIS — Fluconazol, Voriconazol, Itraconazol, Posaconazol, Isavuconazol:

Mecanismo: inibem o CYP51 fúngico (lanosterol 14α-demetilase → enzima CYP450 dos fungos que converte lanosterol em ergosterol) → acúmulo de lanosterol e intermediários metilados tóxicos → membrana fúngica sem ergosterol → alteração de fluidez e de proteínas de membrana → inibição de crescimento (FUNGISTÁTICO — não fungicida em Candida; fungicida em Cryptococcus em alguns contextos)

  • O CYP51 fúngico tem estrutura diferente do CYP51 humano e afinidade muito maior pelos azóis → seletividade
  • Os azóis TAMBÉM inibem CYP450s humanos em graus variáveis → MUITAS INTERAÇÕES farmacológicas

Fluconazol (Diflucan® — Pfizer; genérico):

  • Triazol hidrofílico; excelente biodisponibilidade oral (> 90% — equivalente a IV, o IV raramente é necessário); penetra bem em LCR e olho
  • Espectro: Candida albicans, C. parapsilosis, C. tropicalis — SENSÍVEIS; C. glabrata — sensibilidade variável (muitos CRF); C. krusei — INTRINSECAMENTE resistente ao fluconazol; Cryptococcus neoformans — tratamento de manutenção (consolidação e profilaxia após anfotericina B)
  • Indicações: candidíase oral/esofagiana, candidíase vaginal (dose única 150 mg VO), candidemia por C. albicans em pacientes estáveis (step-down após equinocandina ou em doença não grave), profilaxia em neutropênicos, meningite criptocócica (terapia de consolidação e manutenção após indução com anfotericina B + flucitosina)
  • Dosagem: candida invasiva 400 mg/dia (loading 800 mg D1); candidíase vaginal 150 mg dose única; candidíase oral 150 mg/dia por 7-14 dias
  • Interações (inibidor moderado-forte de CYP2C9, CYP2C19, CYP3A4): varfarina (nível 2x — checar INR), fenitoína, tacrolimo, ciclosporina, estatinas, alprazolam, midazolam, carbamazepina, QTc com amiodarona/quinolona/macrolídeo
  • Resistência crescente em C. glabrata (agora renomeada Nakaseomyces glabrata), C. auris (espécie emergente com resistência a múltiplos antifúngicos)

Voriconazol (Vfend® — Pfizer; genérico):

  • Espectro MUITO mais amplo que fluconazol: ativo contra Aspergillus spp., C. krusei, C. glabrata, fungos dimórficos (Coccidioides, Histoplasma, Blastomyces), Fusarium, Scedosporium
  • Droga de ESCOLHA para aspergilose invasiva (substituiu anfotericina B como primeira linha — trial VORICONAZOLE, NEJM 2002: voriconazol superior a anfotericina B convencional na aspergilose invasiva, 52% vs 32% resposta completa/parcial + menor toxicidade)
  • Farmacocinética não-linear (saturação de CYP2C19 que o metaboliza) → grande variabilidade interindividual; importante monitorar níveis (concentração-alvo: 1-5,5 μg/mL no vale)
  • CYP2C19 polimorfismo: metabolizadores ultrarrápidos (8-15% de caucasianos, > 20% de asiáticos) → metabolizam voriconazol muito rápido → níveis insuficientes; metabolizadores pobres → acumulam → toxicidade
  • Efeitos adversos únicos: distúrbios visuais (fotopsia — flashes, halos coloridos — em 30-40% dos pacientes; transitórios, ocorrem nos primeiros 30 min após dose, desaparecem com o tempo); fototoxicidade cutânea (exposição solar → queimaduras e no longo prazo → carcinoma espinocelular em transplantados usando voriconazol por anos); neurotoxicidade (confusão, alucinações visuais, encefalopatia — monitorar nível)
  • Interações: inibidor fortíssimo de CYP2C9, CYP2C19, CYP3A4 → tacrolimo, ciclosporina, sirolimo (reduzir dose em 50-70%), varfarina, fenitoína (bidirecional — fenitoína induz e inibe), rifampicina (contraindicada — reduz voriconazol 90%)

Posaconazol (Noxafil® — MSD): excelente cobertura de Aspergillus + Mucorales (Mucor, Rhizopus — os únicos azóis com atividade contra mucormicose); profilaxia em leucemia mieloide aguda (LMA) em remissão e transplante de células-tronco hematopoéticas (TCH) → referência do guideline IDSA como profilaxia de escolha em neutropenia grave

Isavuconazol (Cresemba® — Astellas): espectro similar ao posaconazol (Aspergillus + Mucorales); menos interações que voriconazol; sem prolongamento de QTc (diferente dos outros azóis); formulação IV e VO

EQUINOCANDINAS — Caspofungina, Micafungina, Anidulafungina:

Mecanismo: inibem não-competitivamente a β-(1,3)-D-glucana sintase (FKS1/FKS2 genes) → sem síntese de β-glucana → parede celular fúngica sem estrutura → lise celular osmótica → FUNGICIDA contra Candida spp.

  • A β-glucana sintase não tem homóloga em mamíferos → excelente seletividade e toxicidade mínima
  • Só são parcialmente ativas contra Aspergillus (fungistáticas — a glucana é importante na ponta dos hifas em crescimento, não no corpo do hifa → atividade limitada à ponta em crescimento)
  • SEM atividade contra Cryptococcus neoformans (que tem pouca β-glucana na parede → meningite criptocócica: não usar equinocandina)
  • SEM atividade antiviral ou antibacteriana

Caspofungina (Cancidas® — MSD; genérico disponível em alguns países):

  • 70 mg IV dose de ataque → 50 mg/dia IV; candidemia: escolha de primeira linha especialmente em pacientes graves, instáveis, com prior azol exposure, ou em UTI; eficácia superior ao fluconazol em candidemia grave (AUC maior e fungicida)
  • Metabolizada no fígado (não CYP450 — reduz interações); ajustar em insuficiência hepática grave
  • Efeitos adversos mínimos: histamina (flushing, prurido — infundir lentamente); elevação leve de LFTs
  • Resistência de FKS (hotspot mutations em FKS1/FKS2) → equinocandina-resistente → emergindo em C. glabrata, C. auris

Micafungina (Mycamine® — Astellas): 100-150 mg/dia IV; indicação: candidemia, profilaxia em TCH; sem ajuste em IR Anidulafungina (Eraxis® — Pfizer): 200 mg ataque → 100 mg/dia IV; sem metabolismo hepático ou renal → sem ajuste de dose

ANFOTERICINA B — Ambisome® (anfotericina B lipossomal — Gilead), anfotericina B desoxicolato (convencional — genérico):

Mecanismo: liga-se ao ergosterol da membrana fúngica (maior afinidade pelo ergosterol que pelo colesterol — o diferencial de afinidade é a seletividade fúngica) → insere-se na membrana formando poros transmembrana → perda de controle de permeabilidade iônica → saída de K⁺, influxo de Na⁺ → morte celular → FUNGICIDA

Toxicidade da anfotericina B convencional (desoxicolato):

  • Nefrotoxicidade: muito grave e dose-limitante; mecanismo: vasoconstricção da arteríola aferente + efeito direto nos túbulos → redução da TFG em 80% dos pacientes; geralmente reversível ao suspender mas pode deixar sequelas; prevenção: hidratação vigorosa com soro fisiológico 500-1000 mL IV antes de cada dose; nunca usar em desidratados
  • Reações infusionais (fever and chills reaction): calafrios, febre, rigores durante/após infusão → pré-medicação: paracetamol + difenidramina + meperidina (para calafrios intensos) 30 min antes
  • Hipocalemia e hipomagnesemia (perda renal tubular)
  • Anemia normocítica (supressão de eritropoetina renal)

Anfotericina B lipossomal (L-AmB) — Ambisome®:

  • Encapsulada em lipossoma fosfatidilcolina/DSPE → distribui preferencialmente para reticuloendotélio (fígado, baço, pulmão) onde os fungos se localizam → menor exposição renal → toxicidade renal muito menor que convencional
  • Eficácia similar ou superior; dose 3-5 mg/kg/dia IV
  • Indicações preferidas: aspergilose e mucormicose invasivas (+ voriconazol na aspergilose; + controle cirúrgico obrigatório na mucormicose); meningite criptocócica (indução: L-AmB 3 mg/kg/dia + flucitosina 25 mg/kg 6/6h por 2 semanas → consolidação: fluconazol 400 mg/dia por 8 semanas); Leishmania visceral (kala-azar); Candida refratária a equinocandina e azol
  • Custo muito alto (R$ 2.000-5.000/dia — L-AmB no setor privado brasileiro); no SUS está disponível para indicações específicas

Perguntas frequentes sobre antifúngicos

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Candidíase vaginal recorrente — quando usar antifúngico oral e por quanto tempo?+

Candidíase vulvovaginal (CVV) é muito comum (75% das mulheres terão pelo menos 1 episódio na vida); é causada em > 90% dos casos por Candida albicans sensível ao fluconazol. Episódio esporádico leve/moderado (sem complicações, < 4 episódios/ano): tratamento tópico local — miconazol creme/ovulo vaginal (3-7 dias) ou clotrimazol ovulo 200 mg/dia por 3 dias, ou fluconazol oral 150 mg dose única (equivalente em eficácia, mais conveniente); a paciente escolhe conforme preferência. Episódio grave (muita secreção, eritema intenso, edema): fluconazol 150 mg oral doses repetidas (D1 e D4) ou terapia tópica prolongada (7-14 dias). CVV RECORRENTE (≥ 4 episódios por ano, definição clínica): investigar fatores predisponentes (diabetes mal controlado, imunossupressão, uso crônico de antibióticos, hipoestrogenismo, DIU); tratar episódio agudo com fluconazol 150 mg D1/D4/D7; depois TERAPIA DE MANUTENÇÃO SUPRESSIVA: fluconazol 150 mg 1x/semana por 6 meses — reduz recorrências de 50% para 5% durante o tratamento; risco de recidiva após suspender a manutenção é de 40-50%, por isso algumas pacientes necessitam de ciclos repetidos. C. non-albicans (C. glabrata, C. krusei) em CVV: fluconazol frequentemente ineficaz; usar ácido bórico vaginal 600 mg/dia por 14 dias (composto magistral) como alternativa de segunda linha para Candida glabrata; vaginose bacteriana e tricomoníase podem coexistir e devem ser investigadas.

Qual é o tratamento padrão para candidemia (Candida na corrente sanguínea)?+

Candidemia (fungemia por Candida) tem mortalidade de 30-40% e requer tratamento antifúngico sistêmico imediato. A escolha do agente depende da gravidade e do contexto: Primeira linha para candidemia — equinocandina IV (caspofungina, micafungina ou anidulafungina): as guidelines IDSA e ESCMID recomendam equinocandinas como primeira linha para candidemia em adultos, especialmente em: pacientes moderadamente a gravemente doentes, pacientes internados em UTI, exposição prévia a azóis (risco de resistência), suspeita de C. glabrata ou C. krusei (intrinsecamente resistente ao fluconazol), C. auris (frequentemente multirresistente). Fluconazol IV/VO: alternativa aceitável em pacientes estáveis, sem exposição prévia a azóis, com C. albicans ou C. parapsilosis isolada (C. parapsilosis tem equinocandina MIC maior — fluconazol pode ser preferido se sensível). Duração: 14 dias após primeira hemocultura negativa e resolução de sinais e sintomas. Medidas obrigatórias junto ao antifúngico: (1) Retirar TODOS os cateteres venosos centrais (CVC) — biofilme no cateter é reservatório → crítico; se impossível de retirar, tratar por mais tempo; (2) Fundo de olho (endoftalmite fúngica em 5-10% dos casos de candidemia — pode necessitar vitrectomia + antifúngico intravítreo); (3) Ecocardiograma (endocardite fúngica — rara mas grave — se febre persistente ou bacteremia recorrente); (4) Hemoculturas seriadas até negativação. Candida auris (emergente, multirresistente, nosocomial): equinocandina é a escolha (maioria sensível); contato rigoroso de precaução; difícil de identificar em métodos convencionais (pode ser identificada erroneamente como C. haemulonii).

Referências Científicas

  1. Herbrecht R, Denning DW, Patterson TF, et al. (Voriconazole vs amphotericin B in invasive aspergillosis — NEJM 2002) Voriconazole versus Amphotericin B for Primary Therapy of Invasive Aspergillosis. N Engl J Med, 2002.
  2. Pappas PG, Kauffman CA, Andes DR, et al. (IDSA clinical practice guideline for candidiasis 2016) Clinical Practice Guideline for the Management of Candidiasis: 2016 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis, 2016.
  3. Patterson TF, Thompson GR, Denning DW, et al. (IDSA practice guidelines for aspergillosis 2016) Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Aspergillosis: 2016 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clin Infect Dis, 2016.
  4. Kullberg BJ, Arendrup MC. (Invasive fungal disease — mechanisms and management review — NEJM 2015) Invasive Fungal Disease in Humans. N Engl J Med, 2015.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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