Via do mevalonato e HMG-CoA redutase
Via do Mevalonato — síntese de colesterol e isoprenoides:
Principais etapas:
- Acetil-CoA → HMG-CoA (via HMG-CoA sintase)
- HMG-CoA → Mevalonato (HMG-CoA redutase — enzima limitante) — ALVO DAS ESTATINAS
- Mevalonato → Mevalonato-5-fosfato → Mevalonato-5-pirofosfato
- → Isopentenil-pirofosfato (IPP) e Dimetilalil-pirofosfato (DMAPP) — 5C
- IPP + DMAPP → Geranil-pirofosfato (GPP, 10C) → Farnesil-pirofosfato (FPP, 15C) — ponto de bifurcação:
- FPP + FPP → Esqualeno → Lanosterol → Colesterol (via 19 etapas) - FPP → Geranilgeranil-PP (GGPP, 20C) → prenilaçao de proteínas Rho, Rac, Rab - FPP + Farnesiltransferase → Ubiquinona (CoQ10), Heme A, Dolicol
HMG-CoA redutase:
- Enzima do ER (retículo endoplasmático) — catalisa reação irreversível e limitante
- Regulação: insulina/esteróis → SCAP-SREBP (quando colesterol intracelular baixo → SREBP-1c/2 ativa → upregula HMG-CoA redutase + receptor LDL); glucagon e colesterol → inibem; AMPK → fosforila e inativa
- Regulação diária: atividade máxima à noite (síntese de colesterol de pico: 0-2h da manhã) → justifica estatinas à noite
Proteínas que requerem prenilação:
- Proteínas Ras, Rho, Rac (GTPases → vias MAPK, F-actina, inflamação) — preniladas por farnesil ou geranilgeranil transferases
- Estatinas → reduzem FPP/GGPP → menos prenilação → efeitos pleiotrópicos das estatinas (anti-inflamatório, melhora função endotelial, estabilização de placa) — independentes do LDL
Estatinas: mecanismo e efeitos clinicamente relevantes
Estatinas (Inibidores de HMG-CoA redutase) — a classe de medicamentos mais prescrita no mundo:
Mecanismo lipídico:
- Estatina inibe HMG-CoA redutase no hepatócito → menos colesterol intracelular
- ↓ Colesterol hepático → SCAP-SREBP2 → ativa transcrição de genes: (a) receptor LDL (LDLR) ↑ e (b) PCSK9 ↑ (efeito paradoxal — ver abaixo)
- ↑ LDLR hepático → mais captura de LDL e VLDL circulante → ↓ LDL plasmático (20-55% segundo a estatina e dose)
- ↓ Síntese de VLDL → ↓ TG (10-30%), ↓ IDL; ↑ HDL leve (5-10%)
Potência comparativa: | Estatina | Dose para ~50% de ↓ LDL | Solubilidade | |---|---|---| | Atorvastatina | 10-20 mg | Lipofílica | | Rosuvastatina | 5-10 mg | Hidrofílica | | Pitavastatina | 2-4 mg | Ambas | | Sinvastatina | 40-80 mg | Lipofílica | | Pravastatina | 40-80 mg | Hidrofílica | | Fluvastatina | 80 mg | Lipofílica |
Alta intensidade (↓ LDL ≥50%): atorvastatina 40-80 mg, rosuvastatina 20-40 mg
Efeitos pleiotrópicos (independentes do LDL):
- Melhora disfunção endotelial (↑ eNOS, ↓ produção de ROS)
- Anti-inflamatório: ↓ PCR-us, ↓ IL-6, ↓ NF-κB (via Rho inibição)
- Anti-trombótico: ↓ expressão de TF em plaquetas/macrófagos
- Estabilização de placa: ↓ MMP, ↑ colágeno em cápsula fibrosa
- Benefício em SCA mesmo em LDL já baixo (MIRACL trial com atorvastatina imediata)
Efeitos adversos:
- Miopatia/Rabdomiólise: mais comum com estatinas lipofílicas em altas doses + interações (ciclosporina, fibratos, amiodarona, claritromicina inibem CYP3A4/sinvastatina → ↑ concentração); CPK ≥10x → rabdomiólise → IR; risco de miopatia ~1-2/1000; rabdomiólise ~1/10.000
- Mialgia (dor/fraqueza muscular sem CPK elevada): 5-10%; frequentemente reversível ao trocar de estatina; a mialgia pode ser nocebo (25-30% de casos em trials cegos são sem CPK ou diferença real)
- Hepatotoxicidade: ALT elevação transitória em 1-2%; hepatite fulminante muito rara; não monitorar transaminases rotineiramente (apenas baseline e se sintomas)
- Diabetes: risco relativo de novo DM2 ~9-10% (estatinas potentes/altas doses) — risco absoluto pequeno; eclipsado pelo benefício CV
- Memória/cognição: FDA revisou dados; sem associação causal robusta; raramente reportado e reversível
PCSK9: o regulador do receptor LDL e alvos terapêuticos
PCSK9 (Proprotein Convertase Subtilisin/Kexin type 9):
Descoberta: mutações de ganho de função em PCSK9 → hipercolesterolemia familiar ADH (Autosomal Dominant Hypercholesterolemia); mutações de perda de função → LDL cronicamente muito baixo, proteção CV — motivou desenvolvimento de inibidores
Fisiologia do PCSK9:
- Fígado sintetiza PCSK9 → secretado na circulação
- PCSK9 se liga ao receptor LDL (LDLR) na superfície hepatocítica
- Complexo LDL:LDLR:PCSK9 → internalizado em endossomo
- LDLR normalmente: endossomo acidifica → LDL se dissocia → LDLR reciclado para membrana
- Com PCSK9 ligado: previne reciclagem → LDLR vai para degradação lisossomal → menos LDLR → mais LDL circulante
Statinas paradoxalmente ↑ PCSK9 (via SREBP-2) → compensam parcialmente o efeito de ↑ LDLR → limita o potencial de redução de LDL pelas estatinas → combinar PCSK9i com estatina = efeito aditivo/sinérgico
Anticorpos Monoclonais Anti-PCSK9 (PCSK9 Inhibitors / PCSK9i):
- Evolocumabe (Repatha® — Amgen): AC anti-PCSK9 — liga PCSK9 → impede ligação ao LDLR → mais LDLR reciclado → menos LDL
- 140 mg SC q2sem ou 420 mg SC mensal - Redução de LDL: 60-70% vs placebo (added to statin) - FOURIER trial (2017): 27.540 pacientes com DCV + estatina; evolocumabe vs placebo → LDL 59 mg/dL vs 92 mg/dL → redução de 15% em MACE (IAM fatal/não-fatal, AVC, CV morte + hospitalizações coronarianas)
- Alirocumabe (Praluent® — Sanofi/Regeneron): similar ao evolocumabe
- 75-150 mg SC q2sem - ODYSSEY OUTCOMES: redução de MACE pós-SCA; mortalidade total reduzida em subgrupo de LDL muito alto ao baseline
Inclisirana (Leqvio® — Novartis) — siRNA para PCSK9:
- Small-interfering RNA conjugado a GalNAc (targeting hepático) → inibe síntese de PCSK9 no hepatócito (MRNA → destruído por RISC) → menos PCSK9 → mais LDLR → menos LDL
- Dose: 284 mg SC; ao iniciar: dia 1, dia 90, então a cada 6 meses (apenas 2 injeções/ano!)
- Redução de LDL: 50-55%; ORION-9, ORION-10, ORION-11: não-inferor a evolocumabe em perfil de redução
- Aprovado: EU 2020, FDA 2021; reduz LDL similarmente a anticorpos anti-PCSK9 com muito menos injeções
Indicações de PCSK9 inibidores:
- Hipercolesterolemia familiar heterozigótica/homozigótica (LDL muito alto desde jovem)
- DCV estabelecida com LDL não controlado apesar de estatina de alta intensidade + ezetimiba
- Intolerância a estatinas (miopatia documentada)
Ezetimiba, ácido bempedóico e outras abordagens para dislipidemia
Ezetimiba (Zetia® / Ezetimibe) — inibidor de NPC1L1:
- NPC1L1 (Niemann-Pick C1-Like 1): transportador na borda em escova do enterócito + canalículo biliar hepático → absorção de colesterol alimentar e biliar
- Ezetimiba liga ao NPC1L1 → bloqueia absorção intestinal de colesterol → hepatócito recebe menos colesterol → ↑ LDLR e ↑ HMG-CoA redutase → ↓ LDL
- Redução LDL: ~18-20% em monoterapia; sinérgico com estatinas (combinar rosuvastatina 10 mg + ezetimiba ≈ rosuvastatina 40-80 mg em LDL)
- IMPROVE-IT trial (2015): sinvastatina + ezetimiba vs sinvastatina em pós-SCA → LDL 53 vs 70 mg/dL → redução modesta mas significativa de MACE (6.4% relativo) → "LDL quanto mais baixo, melhor" confirmado
- Efeitos adversos: diarreia, dor abdominal; elevação de transaminases rara em combinação com estatina; estudo SHARP: seguro em DRC
Ácido Bempedóico (Nexletol® — Esperion):
- Inibidor de ATP-Citrato Liase (ACLY) — enzima que fornece acetil-CoA para HMG-CoA sintase (upstream de HMG-CoA redutase)
- Pró-droga ativada especificamente por ACSVL1 no fígado (não em músculo) → sem miotoxicidade
- Redução de LDL: 15-17% added to maximally tolerated statin
- CLEAR Outcomes trial (2023): em intolerantes a estatinas → redução de MACE significativa vs placebo
- Combo fixo com ezetimiba: Nexlizet® → ↓LDL ~38%
- Efeito adverso: hiperuricemia (ACLY inibe também a via da uricemia?) → gota
Resinas de troca aniônica (Sequestrantes de ácidos biliares):
- Colestiramina, colestipol, colesevelam — ligam ácidos biliares (negativos) no intestino → impedem reabsorção → fígado usa mais colesterol para resintetizar ácidos biliares → ↑ LDLR → ↓ LDL (15-30%)
- Problemas: sabor ruim, obstipação, flatulência, má absorção de vitaminas lipossolúveis e alguns fármacos (varfarina, digoxina, hormônios tireoidianos — tomar 4h antes)
- Colesevelam: melhor tolerado; aprovado também para DM2 (reduz HbA1c ~0.5%)
Niacina (Ácido Nicotínico):
- Mecanismo único: via receptor GPR109A nos adipócitos → inibe lipólise → menos AGL → menos síntese de VLDL no fígado; também ↓ catabolismo de ApoA-I → ↑ HDL
- Maior ↑ HDL de qualquer fármaco (25-35%); ↓ TG (20-50%); ↓ LDL (15-18%)
- Abandonada clinicamente: HPS2-THRIVE e AIM-HIGH trials → niacina + estatina não reduziu MACE mais que estatina sozinha, mas aumentou efeitos adversos (flushing, hepatotoxicidade, DM novo, sangramento GI)
- Flushing: mediado por PGD₂ via GPR109A nos macrófagos dérmicos → pode ser minimizado por aspinara ou laropiprant (inibidor de DP₁ receptor de PGD₂)
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