EGFR em NSCLC — mutações ativantes e seleção de pacientes para TKIs de EGFR
EGFR (Epidermal Growth Factor Receptor / receptor do fator de crescimento epidérmico = HER1/ErbB1) é uma tirosina quinase receptora (receptor transmembrana) na superfície celular que, quando ativada por EGF ou TGF-α, inicia cascatas de sinalização de proliferação (RAS/ERK, PI3K/AKT, STAT) — normalmente regulada; em cânceres com mutações ativantes: sinalização constitutiva → crescimento descontrolado.
Mutações ativantes de EGFR em NSCLC:
- Mutações de EGFR que tornam o receptor constitutivamente ativo (independente de ligante) são encontradas em ~10-15% de todos os NSCLC em populações ocidentais, e em 30-50% em populações asiáticas (Japão, Taiwan, Coreia, China) — diferença étnica marcante
- Perfil clínico típico do NSCLC EGFR-mutado: adenocarcinoma de pulmão (histologia), mulheres > homens, não fumante ou fumante leve, asiáticas > caucasianas (embora mutações ocorram em todos os grupos)
- Mutações EGFR sensíveis (sensitizing) — respondem a TKIs de 1ª e 2ª geração:
- Exon 19 deletion (del19): deleção de ~15 aminoácidos no domínio de ligação de ATP → mais frequente (~45% das mutações EGFR); melhor prognóstico que L858R - Exon 21 L858R (substituição leucina→arginina na posição 858) → segunda mais frequente (~40-45%); ligeiramente menor sobrevida que del19 com TKIs de 1ª/2ª geração mas não com osimertinibe - Outras incomuns: G719X (exon 18), L861Q (exon 21), S768I (exon 20) — respostas parciais a alguns TKIs - Exon 20 insertion: mutações em exon 20 são RESISTENTES a gefitinibe, erlotinibe e osimertinibe → alvo de amivantamabe (anti-EGFR/MET bispecific) e mobocertinibe
- Teste molecular OBRIGATÓRIO: todo paciente com NSCLC (adenocarcinoma especialmente) deve ser testado para mutações de EGFR antes de definir tratamento; plataformas: sequenciamento de DNA (NGS — next generation sequencing) em biópsia tumoral ou biópsia líquida (ctDNA = DNA tumoral circulante em plasma) → cobertura de mutações comuns e incomuns + resistência
Por que mutações de EGFR são alvos perfeitos:
- Oncogene addiction: células de NSCLC EGFR-mutado são completamente dependentes da sinalização de EGFR para sobreviver (addiction ao oncogene) → bloquear EGFR = matar especificamente as células tumorais
- TKIs de EGFR são muito eficazes em tumores com mutações sensitizing: taxa de resposta objetiva (ORR) 60-80% vs quimioterapia 30-40%; sobrevida livre de progressão (SLP) 10-15 meses vs 5-6 meses com quimio no 1ª linha
- Células normais expressam EGFR mas não dependem tanto → toxicidade seletiva razoável (embora haja efeitos adversos relacionados a EGFR normal em pele e TGI)
TKIs de EGFR — 1ª geração (gefitinibe/erlotinibe), 2ª (afatinibe), 3ª (osimertinibe) e resistência T790M
TKIs de EGFR de 1ª geração — reversíveis, competidores de ATP:
Gefitinibe (Iressa® — AstraZeneca):
- 1º TKI de EGFR aprovado (Japão 2002, FDA 2003); inibe competitivamente e de forma reversível o sítio de ATP de EGFR
- Resposta dramática em pacientes com mutação de EGFR → mas só depois os testes de EGFR foram desenvolvidos e o benefício foi estratificado
- Dose: 250 mg/dia oral; biodisponibilidade oral ~60%; metabolismo CYP3A4
- Atualmente menos usado que erlotinibe e osimertinibe em muitos centros, mas permanece disponível
Erlotinibe (Tarceva® — Roche/OSI; genérico):
- Estruturalmente similar a gefitinibe; 1ª geração reversível anti-EGFR
- Dose: 150 mg/dia oral (NSCLC); absorção melhorada em jejum (tomado 1h antes ou 2h após alimentos, diferente de gefitinibe)
- EURTAC e OPTIMAL trials: erlotinibe 1ª linha em NSCLC EGFR-mutado vs quimio → SLP 9.7-13.1 meses vs 5.2-4.6 meses; taxa de resposta 58-65%
- Também aprovado em câncer de pâncreas (combinado com gemcitabina) — modesta melhora de sobrevida (HR 0.82 no NCIC PA.3 trial)
Afatinibe (Giotrif® — Boehringer Ingelheim) — 2ª geração irreversível:
- Difere por ser irreversível: reage covalentemente com cisteína 797 no domínio quinase de EGFR (e também de HER2 e HER4 — pan-ErbB inhibitor) → inibição mais duradoura
- Dose: 40 mg/dia oral com ajuste por toxicidade para 30 mg
- Vantagem sobre 1ª geração: maior eficácia em mutações incomuns (L861Q, G719X, S768I) que respondem pouco a gefitinibe/erlotinibe; também em exon 19 del com metástase em certas análises
- LUX-Lung 3 e 7: afatinibe vs cisplatina + pemetrexede (Lung 3) e vs gefitinibe (Lung 7) → superiores em SLP e OS em del19
Mutação de resistência T790M e 2ª linha:
- Resistência adquirida a gefitinibe/erlotinibe/afatinibe ocorre em praticamente todos os pacientes após mediana de 10-14 meses
- Mecanismo mais comum de resistência (50-60%): mutação T790M no exon 20 de EGFR — treonina→metionina na posição 790 → aumenta a afinidade de EGFR pelo ATP → TKIs de 1ª/2ª geração não conseguem competir eficientemente pelo sítio de ATP → perda de resposta
- Diagnóstico de T790M: biópsia de tumor na progressão (biópsia tecidual) ou biópsia líquida (ctDNA no plasma — sensibilidade ~70-80%; evita biópsia tecidual invasiva; coleta simples)
Osimertinibe (Tagrisso® — AstraZeneca) — 3ª geração, TKI seletivo de mutações ativantes + T790M:
- Molécula projetada para cobrir del19/L858R sensíveis E a mutação de resistência T790M
- Mecanismo: inibidor covalente irreversível (reage com Cys797 de EGFR) com alta seletividade para formas mutadas (T790M, del19, L858R) vs EGFR wild-type → menos toxicidade da pele que erlotinibe/gefitinibe (que inibem muito EGFR normal)
- FLAURA trial (2018) — mudou o paradigma para 1ª linha:
- 556 pacientes NSCLC com del19 ou L858R → osimertinibe 80 mg/dia vs gefitinibe/erlotinibe - SLP: 18.9 meses vs 10.2 meses (hazard ratio 0.46 — redução de risco de 54%!) - OS: 38.6 meses vs 31.8 meses (HR 0.80 — significativo) - SNC: osimertinibe superior em metástases cerebrais (maior penetração na BHE) — SLP em SNC 15.2 vs 9.6 meses - Resultado: osimertinibe é agora 1ª linha padrão em NSCLC com mutações EGFR sensitizing (del19 ou L858R) em todo o mundo
- Dose: 80 mg/dia oral; escalável para 160 mg em progressão ou para Exon 20 insertion (dados limitados)
- Toxicidades específicas do osimertinibe:
- Pneumonite intersticial (3-4% — pode ser grave): início insidioso com tosse e dispneia → TC mostrando infiltrado em vidro fosco → parar osimertinibe + corticoide - Prolongamento de QTc: mais que gefitinibe/erlotinibe — monitorar ECG - Cardiotoxicidade (redução de FEVE) — raro mas documentado - Rash acneiforme (menos que 1ª geração por maior seletividade para EGFR mutado) - Diarreia (comum, geralmente leve) - Mucosite, paroniquia
- Resistência ao osimertinibe: mecanismos mais heterogêneos (amplificação MET, mutação EGFR C797S, bypass por HER2, RAS mutations, transformação histológica para SCLC); tratamento após progressão em osimertinibe: quimioterapia ou biológicos direcionados baseados no mecanismo de resistência
Terapia adjuvante em NSCLC ressecado com mutação EGFR:
- ADAURA trial (2020): osimertinibe adjuvante por 3 anos após ressecção de NSCLC com del19/L858R → redução de risco de recorrência de 83% no estágio II-IIIA; aprovado pela FDA 2020 para adjuvante → osimertinibe também padrão no contexto cirúrgico