Fisiopatologia da HAP e alvos moleculares das três vias patogênicas
HIPERTENSÃO ARTERIAL PULMONAR (HAP) — definição e classificação: HAP é definida hemodinamicamente como: pressão arterial pulmonar média (PAPm) > 20 mmHg em repouso por cateterismo cardíaco direito + resistência vascular pulmonar (RVP) > 2 Wood units + pressão de oclusão da artéria pulmonar (PAOP) ≤ 15 mmHg (para excluir causas pós-capilares — IC esquerda). Prevalência: 15-60 casos/milhão; mortalidade alta sem tratamento (sobrevida mediana 2.8 anos — dados históricos do NIH registry, antes dos tratamentos modernos).
Classificação clínica de Nice (OMS) — 5 grupos:
- Grupo 1 (HAP): idiopática (HAPI), hereditária (BMPR2, ALK1), associada a: doenças do tecido conectivo (esclerodermia — a mais frequente), HIV, hipertensão portal/cirrose, cardiopatias congênitas (síndrome de Eisenmenger), drogas (fenfluramina, metanfetamina, dasatinibe)
- Grupo 2: HP por doença cardíaca esquerda (IC, valvopatia mitral/aórtica) — pós-capilar; anti-HAP CONTRAINDICADOS aqui (aumentam débito por via pulmonar em ventrículo esquerdo que não está funcionando → piora)
- Grupo 3: HP por doença pulmonar/hipóxia (DPOC, fibrose pulmonar, apneia do sono)
- Grupo 4: HP tromboembólica crônica (CTEPH — obstrução por trombos organizados → endarterectomia pulmonar é o tratamento principal; riociguato é o único medicamento aprovado especificamente para CTEPH inoperável)
- Grupo 5: HP de causa multifatorial ou obscura (sarcoidose, histiocitose, compressão vascular)
PATOGÊNESE DA HAP — DESEQUILÍBRIO DE 3 VIAS:
Via da PROSTACICLINA (PGI2) — diminuída na HAP:
- Células endoteliais pulmonares normalmente produzem prostaciclina (via COX + prostaciclina sintase) → PGI2 ativa receptores IP → elevação de cAMP via Gs/adenilato ciclase → vasodilatação + inibição de proliferação de células musculares lisas + antiagregação plaquetária
- Na HAP: expressão reduzida de prostaciclina sintase → menos PGI2 → menos cAMP → vasoconstrição + proliferação
Via do ÓXIDO NÍTRICO (NO)/GMPc — diminuída na HAP:
- Endotélio saudável produz NO via eNOS → NO difunde para células musculares lisas → ativa guanilato ciclase solúvel (sGC) → produção de GMPc → PKG → vasodilatação
- Na HAP: menos NO + mais superóxido → NO sequestrado → menos sGC ativada → menos GMPc; além disso, PDE5 (fosfodiesterase tipo 5) degrada GMPc → a inibição de PDE5 prolonga o efeito do GMPc residual
Via da ENDOTELINA — aumentada na HAP:
- Endotelina-1 (ET-1) produzida pelo endotélio: vasoconstritor potente + mitógeno para células musculares lisas → ativa receptores ETA (vasoconstrição e proliferação) e ETB (vasoconstrição em CML, vasodilatação em endotélio) na vasculatura pulmonar
- Na HAP: ET-1 elevada no plasma e tecido pulmonar → contribui para vasoconstrição + remodelamento vascular
REMODELAMENTO VASCULAR PULMONAR — o processo central e progressivo na HAP:
- Proliferação de células musculares lisas (CML) + endoteliais na parede das artérias pulmonares → espessamento da média e íntima → lesões plexiformes → obliteração progressiva do lúmen → redução do leito vascular → aumento da RVP → sobrecarga do VD → insuficiência cardíaca direita → morte
Epoprostenol, sildenafila, macitentan, riociguato e selexipag — farmacologia e evidência
PROSTACICLINAS — análogos de PGI2:
EPOPROSTENOL (Flolan® — GSK; Veletri® — Actelion; Caripul® — genérico):
- Prostaciclina sintética; agonista dos receptores IP → ativação de adenilato ciclase → cAMP → vasodilatação + antiproliferação; potente e de ação imediata
- Meia-vida MUITO curta (3-5 min) → INFUSÃO CONTÍNUA IV (bomba de infusão) 24h/dia, 7 dias por semana, via cateter venoso central permanente
- O tratamento mais eficaz da HAP (evidência mais forte); o único que reduziu mortalidade em estudo randomizado em HAP grave (Barst et al., NEJM 1996)
- Início de dose: 2 ng/kg/min → titulação gradual (cada 1-2 semanas) até dose máxima tolerada (maioria: 25-40 ng/kg/min; algumas chegam a 80-100+)
- Efeitos adversos (relacionados à potência e via sistêmica): flushing (rubor), cefaleia, dor mandibular, diarreia, náusea, dor nos pés/tornozelos; hipotensão; trombocitopenia (rara)
- Complicações da via IV central: infecções de cateter (sepsemia), trombose, desconexão acidental (rebote grave — redução abrupta pode causar morte súbita por vasoconstrição pulmonar fulminante)
- Reconstituição com tampão glicina (pH 10.5 — instável em temperatura ambiente) → deve ser mantido refrigerado; algumas formulações (Veletri®) são termoestáveis
TREPROSTINIL (Remodulin® — United Therapeutics) — análogo de PGI2 mais estável:
- Meia-vida mais longa (3-4h); termoestável; disponível em SC (infusão contínua subcutânea — menos risco infeccioso que IV, mas dor no sítio de injeção é limitante), IV, inalatório (Tyvaso® — inalação 4x/dia), oral (Orenitram® — comprimido de liberação prolongada)
ILOPROST (Ventavis® — Bayer) — inalatório:
- Análogo de PGI2 de ação intermediária (6 nebulizações de 2.5-5 μg/dia, 6-9x/dia); ação mais seletiva no pulmão (inalado); pode ser combinado com outros medicamentos
SELEXIPAG (Uptravi® — Actelion/Janssen): agonista SELETIVO do receptor IP (prostaciclínico) de molécula pequena, oral;
- Mecanismo: agonista IP → cAMP → vasodilatação; diferente da prostaciclina que também ativa receptores EP1-4 (de prostaglandinas) → menos efeitos GI
- GRIPHON trial (N=1156 HAP): redução de 40% no desfecho primário de morbidade/mortalidade (hospitalização por HP + morte) vs placebo; oral 2x/dia
- Dose: iniciar 200 μg 2x/dia → titular a cada semana por 200 μg até dose máxima tolerada (máximo 1600 μg 2x/dia)
INIBIDORES DE PDE5 (Fosfodiesterase tipo 5):
SILDENAFILA (Revatio® — Pfizer; Viagra® — mesma molécula 100 mg; genérico):
- Inibe PDE5 → PDE5 degrada GMPc → inibição = mais GMPc → mais PKG → mais vasodilatação no leito vascular pulmonar; mecanismo dependente do NO endógeno residual (sem NO, sem sGC, sem GMPc para a sildenafila prolongar — daí a limitação em HAP com disfunção endotelial grave)
- Aprovada para HAP: 20 mg 3x/dia (vs 25-100 mg para disfunção erétil)
- Efeitos adversos: cefaleia, flushing, congestão nasal, dispepsia; hipotensão (especialmente com nitratos — CONTRAINDICADA com nitratos e com riociguato por hipotensão grave)
TADALAFILA (Adcirca® — Eli Lilly; genérico para HAP): 40 mg 1x/dia; meia-vida mais longa (17h vs 4h da sildenafila) → conveniência de dose única diária; eficácia similar
ANTAGONISTAS DO RECEPTOR DE ENDOTELINA (ARE):
BOSENTAN (Tracleer® — Actelion): antagonista não-seletivo de ETA e ETB; oral 62.5-125 mg 2x/dia; o primeiro ARE aprovado para HAP; hepático (CYP3A4 e CYP2C9 indutor potente → muitas interações); hepatotóxico (ALT/AST mensalmente obrigatório); teratogênico (categoria X — REMS obrigatório, anticoncepção dupla)
AMBRISENTAN (Letairis® — Gilead): antagonista seletivo ETA; oral 5-10 mg 1x/dia; menos hepatotóxico que bosentan; REMS para teratogenicidade; edema periférico (risco de retenção hídrica e piora em HAP grupo 2); estudo AMBITION (combinação com tadalafila): superior à monoterapia
MACITENTAN (Opsumit® — Actelion): antagonista dual ETA/ETB; oral 10 mg 1x/dia; antagonista competitivo com maior atividade nos tecidos; menor hepatotoxicidade que bosentan; SERAPHIN trial (N=742): redução de 45% em morbidade/mortalidade (morte ou hospitalização por HP); anemia (hemoglobina cai em 10-13%); teratogênico
RIOCIGUATO (Adempas® — Bayer):
Mecanismo ÚNICO: estimulador diferencente de sGC (guanilato ciclase solúvel — ao contrário de sildenafila/tadalafila que inibem a degradação do GMPc, riociguato estimula a produção):
- Age de 2 formas: (1) estimula sGC independentemente do NO (age mesmo sem NO presente, diferente dos PDE5i); (2) aumenta a sensibilidade da sGC ao NO residual
- Resultado: maior produção de GMPc → vasodilatação + antiproliferação
Indicações DUPLAS — única molécula aprovada para 2 grupos:
- HAP (Grupo 1) — em combinação com outras terapias
- CTEPH inoperável ou persistente pós-endarterectomia (Grupo 4) — CHEST-1 trial: único medicamento aprovado especificamente para CTEPH; redução da RVP e melhora da distância de caminhada de 6 minutos
CONTRAINDICAÇÃO com sildenafila/tadalafila e com nitratos (hipotensão grave por sinergia em elevação de GMPc)
- Dose: iniciar 0.5-1.0 mg 3x/dia → titular a cada 2 semanas; alvo 2.5 mg 3x/dia
ESTRATÉGIA DE TRATAMENTO COMBINADO (ESC/ERS Guidelines 2022):
- HAP de baixo risco (perfil favorável): monoterapia oral (ERA + PDE5i ou selexipag) → reavaliação em 3-6 meses
- HAP de risco intermediário ou alto: terapia combinada dupla ou tripla inicial (ERA + PDE5i ± prostaciclina); AMBITION trial: macitentan + tadalafila superior a cada um isolado
- HAP de risco muito alto (VD descompensado, IC D grave): considerar epoprostenol IV + ERA + PDE5i desde o início; avaliação para transplante pulmonar (listagem)
- Critérios de resposta: teste de caminhada de 6 minutos, BNP/NT-proBNP, parâmetros ecocardiográficos e hemodinâmicos (cateterismo direito)