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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 13 min de leitura

EGFR, erlotinibe, osimertinibe e cetuximabe: do receptor EGF a mutações NSCLC e RAS-selvagem em câncer colorretal

EGFR (HER1) liga EGF → RAS-MAPK e PI3K/AKT → proliferação. Mutações em EGFR (exon 19 del, L858R) tornam NSCLC sensível a TKI orais (erlotinibe, osimertinibe). Cetuximabe e panitumumabe (anti-EGFR) funcionam em CRC apenas com RAS-selvagem.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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EGFR e a via RAS-RAF-MEK-ERK

EGFR (Epidermal Growth Factor Receptor / HER1/ErbB1) — receptor tirosina-quinase classe I, prototípico da família ErbB:

Ligantes: EGF, TGF-α, amphiregulina, betacelulina, epiregulin, epiregulina — todos ligam domínios L1 e L2 extracelulares

Ativação:

  1. Ligante → liga EGFR monômero → dimerização (homo ou hetero com HER2, HER3, HER4)
  2. Trans-autofosforilação de tirosinas intracelulares (Y992, Y1045, Y1068, Y1086, Y1148, Y1173)
  3. Tirosinas fosforiladas → recrutam adaptadores com domínio SH2 (Grb2, SHC, SRC, PLCγ, PI3K p85)

Via RAS-RAF-MEK-ERK (MAPK):

  1. Grb2-SOS → troca GDP→GTP em RAS → RAS-GTP (ativo)
  2. RAS → recruta RAF (B-RAF, C-RAF) → fosforila MEK1/2
  3. MEK → fosforila ERK1/2 (MAPK) → transcrição de ciclinas, c-Myc, outros → proliferação
  4. GAP (GTPase-Activating Proteins: NF1, RasGAP) → HidrólisE GTP → RAS inativo (feedback)

RAS — o proto-oncogene mais mutado em câncer humano:

  • KRAS, NRAS, HRAS — família Ras; KRAS o mais mutado (~30% de todos os cânceres)
  • Mutações oncogênicas (G12C, G12D, G12V, G12R, Q61H, G13D): impedem hidrólise de GTP (inativa RAS-GAP e autólise) → RAS-GTP constitutivo → MAPK e PI3K permanentemente ativados → bypass de EGFR
  • Implicação: anti-EGFR (cetuximabe, panitumumabe) são ineficazes em RAS-mutado → testar KRAS/NRAS/BRAF antes de usar em CRC

EGFR em cânceres:

  • Amplificado/superexpresso (sem mutação): CRC, cabeça e pescoço, gástrico, esofágico, cervical
  • Mutado (sensível a TKI): NSCLC (10-15% brancos, 30-40% asiáticos) — mutações em exon 19 (deleção LREA) e exon 21 (L858R) tornam EGFR dependente de ligante mas sensível a TKI

TKIs de EGFR em NSCLC: erlotinibe, gefitinibe, afatinibe, dacomitinibe, osimertinibe

Mutações sensibilizantes de EGFR no NSCLC:

  • Exon 19 deleção (∆Ex19) — 45% das mutações — deleta 15-18 bp (e.g., E746_A750del)
  • L858R em exon 21 — 40% — substitui leucina por arginina
  • Ambas aumentam afinidade por TKI e diminuem afinidade por ATP → TKI competem mais eficientemente
  • Outras (exon 18 G719X, exon 20 S768I, exon 21 L861Q): raras mas responsivas

Geração de TKIs de EGFR:

1ª geração (reversíveis, seletivos EGFR):

  • Erlotinibe (Tarceva® — Genentech/Roche): NSCLC com EGFR mutado 1ª linha; SATURN trial (manutenção); Ca pancreático com gemcitabina
  • Gefitinibe (Iressa® — AstraZeneca): EGFR-mutado NSCLC; Iressa Pan-Asia Study (IPASS 2009): gefitinibe > carboplatin/paclitaxel em EGFR-mutados asiáticos

2ª geração (irreversíveis, pan-ErbB):

  • Afatinibe (Giotrif® — Boehringer Ingelheim): inibe HER1, HER2 e HER4 irreversivelmente; LUX-Lung 3 e 6 → superior a QT em EGFR-mutado; eficaz em mutações raras
  • Dacomitinibe (Vizimpro® — Pfizer): similar ao afatinibe; ARCHER 1050 → superior a gefitinibe em PFS

3ª geração — osimertinibe (Tagrisso® — AstraZeneca):

  • Inibe mutações sensibilizantes E T790M (mutação de resistência à 1ª/2ª geração — 50-60% das resistências adquiridas)
  • Seletivo para EGFR mutado → menos toxicidade em EGFR selvagem (menos rash, menos diarreia que 1ª/2ª geração)
  • FLAURA trial (1ª linha): osimertinibe vs erlotinibe/gefitinibe em EGFR-mutado → PFS 18.9 vs 10.2 meses; OS 38.6 vs 31.8 meses → novo padrão de 1ª linha
  • Adjuvante (ADAURA trial): osimertinibe 3 anos pós-ressecção → redução de risco de recidiva 80% → aprovado adjuvante 2020
  • SNC: penetra bem no SNC → metástases cerebrais respondem (BLOOM trial para leptomeningeal)

T790M e resistência:

  • T790M: substitui Thr790 por Met → "guardian of the kinase gate" → aumenta afinidade por ATP, reduz por TKI 1ª/2ª geração → resistência
  • Osimertinibe supera T790M pela sua estrutura covalente irreversível que se liga à Cys797
  • Resistência a osimertinibe: amplificação de MET, mutações em EGFR C797S, amplificação de ERBB2, transformação em SCLC → liquid biopsy (ctDNA) para detectar mecanismos de resistência

Anticorpos anti-EGFR em CRC e cabeça/pescoço: cetuximabe e panitumumabe

Cetuximabe (Erbitux® — Merck KGaA/BMS) — anticorpo IgG1 quimérico anti-EGFR:

Mecanismo:

  1. Liga ao domínio extracelular III de EGFR → bloqueia ligação de ligantes (EGF, TGF-α)
  2. Estabiliza EGFR em conformação inativa (sem dimerização)
  3. Induz endocitose e degradação de EGFR
  4. ADCC via região Fc (IgG1) — ativa NK cells

Câncer Colorretal (CRC) — condição de RAS-selvagem obrigatória:

  • KRAS selvagem: cetuximabe + FOLFIRI ou FOLFOX → benefício significativo (OPUS, CRYSTAL trials)
  • RAS mutado (KRAS ou NRAS): cetuximabe NÃO beneficia (RAS-GTP constitutivo bypass EGFR) → FDA contraindicação desde 2012 se KRAS mutado codon 12 ou 13; NRAS mutações também excluem
  • BRAF V600E: mutação adicional (10-15% de CRC) → também prediz menor resposta a anti-EGFR isolados; BEACON-CRC: BRAF inibi (encorafenibe) + cetuximabe → 26% ORR vs quimioterapia em BRAF V600E-mutado CRC 2ª linha
  • Lado esquerdo vs direito: tumores do colon esquerdo (descendente, sigmoide, reto) têm mais benefício de anti-EGFR; colon direito (ceco, ascendente) têm pior resposta — possível por diferente biologia molecular (mais KRAS/RAS mutado, microsatellite instability nos direitos)

Câncer de cabeça e pescoço (SCCHN):

  • EXTREME trial: cetuximabe + cisplatina + 5-FU em 1ª linha de SCCHN recorrente/metastático → OS 10.1 vs 7.4 meses
  • Cetuximabe + radioterapia (Bonner trial): cura ou controle local em SCCHN avançado localmente → OS superior à RT sozinha; alternativa à RT+cisplatina quando cisplatina contraindicada

Panitumumabe (Vectibix® — Amgen) — anticorpo IgG2 totalmente humano anti-EGFR:

  • Menor risco de reação anafilática (totalmente humano vs quimérico cetuximabe)
  • Mesmas indicações de CRC RAS-selvagem (PRIME trial: panitumumabe + FOLFOX vs FOLFOX)

Rash acneiforme — biomarcador surrogate de resposta:

  • Anti-EGFR inibem EGFR em folículos capilares e queratinócitos → rash pustular, xerose, fissuras nos dedos, paroníquia
  • Grau do rash se correlaciona com resposta tumoral (paradoxalmente quem tem mais rash tem mais resposta)
  • Manejo: doxiciclina 100 mg/dia (preemptiva), creme de tetraciclina tópico, hidratação da pele

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KRAS G12C e inibidores de RAS: sotorasibe e adagrasibe

KRAS — o "undruggable" que foi drogado:

Por décadas, RAS foi considerado "undruggable" — a superfície de RAS não tem cavidades óbvias para pequenas moléculas, e inibidores precisariam competir com GTP em concentrações nanomolares impossíveis

Quebra do paradigma — KRAS G12C specificamente:

  • G12C: glycine→cysteine → resíduo Cys12 na bolsa de switch-II de RAS
  • Inibidores covalentes que se ligam especificamente à Cys12 (só presente em G12C, não em KRAS selvagem) → bloqueiam KRAS na conformação GDP-inativa (off-state) → bloqueio seletivo de G12C

Sotorasibe (Lumakras® / Lumykras® — Amgen):

  • 1º inibidor de KRAS G12C aprovado (FDA 2021 acelerado, regular 2023)
  • 960 mg/dia oral
  • CodeBreak 100 e 200: NSCLC KRAS G12C (2ª linha) → ORR 37%, PFS 5.6 meses vs docetaxel
  • Resistência: frequente, rápida — vias bypass (PI3K/AKT, amplificação RAS, EGFR upregulation) → combinações com EGFR, SHP2 inibidores investigadas

Adagrasibe (Krazati® — Mirati Therapeutics/BMS):

  • 2º KRAS G12C inibidor (FDA acelerado 2022)
  • 600 mg 2x/dia; meia-vida mais longa que sotorasibe
  • KRYSTAL-1: NSCLC G12C → ORR 43%, mDOR 8.5 meses; CRC KRAS G12C → adagrasibe + cetuximabe (KRYSTAL-10): ORR 46% → aprovado FDA 2024 para CRC KRAS G12C
  • Penetração em SNC melhor que sotorasibe → metástases cerebrais

KRAS G12D, G12V, G12R — próximos alvos:

  • MRTX-1133 (Mirati) — KRAS G12D; ERAS-4693 — G12V; RMC-6236 (Revolution Medicines) — pan-RAS/KRAS
  • Inibidores de SHP2 (RMC-4630, TNO155): bloqueiam ativação de RAS via RTKs → combinam com KRAS G12C para prevenir resistência mediada por RTK

MEK inibidores:

  • Trametinibe (Mekinist® — Novartis): inibidor de MEK1/2 — combinado com dabrafenibe (BRAF inibidor) → padrão para melanoma BRAF V600E/K (COMBI-DT, COMBI-ED: 52.6% OS a 5 anos)
  • Cobimetinibe (Cotellic®) + vemurafenibe: melanoma BRAF-mutado
  • Binimetinibe (Mektovi®) + encorafenibe (Braftovi): melanoma BRAF V600 (COLUMBUS trial); CRC BRAF V600E (BEACON-CRC)

ERK inibidores (pós-resistência a MEK):

  • Ulixertinibe, LY3214996 — fase 1/2; bloqueiam o nível terminal da via MAPK

Perguntas frequentes sobre EGFR e RAS

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Qual a diferença entre EGFR amplificado e EGFR mutado?+

EGFR amplificado: múltiplas cópias do gene EGFR por amplificação cromossômica → mais proteína EGFR na superfície → mais sinalização por EGF endógeno → cetuximabe/panitumumabe podem funcionar (em CRC, cabeça e pescoço). EGFR mutado: mutações pontuais no domínio quinase (L858R, exon 19 del) → receptor constitutivamente ativo independente de ligante E com maior afinidade por TKI (erlotinibe/osimertinibe) do que por ATP → TKI orais são muito eficazes. A lógica terapêutica é inversa: EGFR amplificado → anticorpo externo; EGFR mutado → TKI intracelular.

Por que cetuximabe não funciona quando KRAS é mutado?+

KRAS fica 'downstream' do EGFR na via de sinalização: EGFR → RAS → RAF → MEK → ERK. Quando KRAS tem uma mutação ativadora (G12D, G12V, G13D, etc.), o RAS fica constitutivamente ativo (GTP-bound) independentemente de receber sinal do EGFR. Bloquear o EGFR com cetuximabe não tem efeito porque o 'problema' está mais abaixo na cascata — o RAS já está ligado, não importa se o EGFR sinaliza ou não. É como desligar o interruptor de entrada quando o fio interno está em curto — desligar o interruptor não resolve o problema.

Osimertinibe — por quanto tempo se toma no adjuvante?+

O ADAURA trial usou osimertinibe 80 mg/dia por 3 anos no setting adjuvante (pós-ressecção de NSCLC estágio IB-IIIA com EGFR mutado). Os resultados mostraram redução de 80% de risco de recidiva (DFS). As guidelines atuais recomendam 3 anos de osimertinibe adjuvante. Após 3 anos, osimertinibe é suspenso (diferente de HER2+ em mama onde trastuzumabe é estendido). O que acontece após: monitoramento rigoroso com CT; se recidiva, osimertinibe pode ser retomado (se T790M foi a mutação de resistência adquirida) ou outro tratamento.

O rash de cetuximabe significa que está funcionando?+

Correlaciona positivamente mas não é um biomarcador perfeito. Estudos pooled e metanálises mostram que pacientes que desenvolvem rash acneiforme grau 2+ durante anti-EGFR têm maior PFS e OS — possivelmente porque o rash reflete inibição efetiva de EGFR em tecidos normais (keratinocitos), indicando que o medicamento está atingindo e inibindo o receptor. Porém: (1) alguns responsivos têm rash mínimo; (2) variabilidade genética de EGFR em pele; (3) o rash causa morbidade e piora qualidade de vida. Estratégia: tratar o rash com doxiciclina profilática, não reduzir dose por rash leve — a dose terapêutica está beneficiando.

Referências Científicas

  1. Mok TS, Wu YL, Thongprasert S, et al. Gefitinib or carboplatin-paclitaxel in pulmonary adenocarcinoma (IPASS). N Engl J Med, 2009.
  2. Soria JC, Ohe Y, Vansteenkiste J, et al. (FLAURA investigators) Osimertinib in untreated EGFR-mutated advanced non-small-cell lung cancer (FLAURA). N Engl J Med, 2018.
  3. Skoulidis F, Li BT, Dy GK, et al. Sotorasib for lung cancers with KRAS p.G12C mutation (CodeBreak 100). N Engl J Med, 2021.
  4. Bokemeyer C, Bondarenko I, Makhson A, et al. Fluorouracil, leucovorin, and oxaliplatin with and without cetuximab in the first-line treatment of metastatic colorectal cancer (OPUS). J Clin Oncol, 2009.
  5. Wu YL, Tsuboi M, He J, et al. (ADAURA investigators) Osimertinib in resected EGFR-mutated non-small-cell lung cancer (ADAURA). N Engl J Med, 2020.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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