EGFR e a via RAS-RAF-MEK-ERK
EGFR (Epidermal Growth Factor Receptor / HER1/ErbB1) — receptor tirosina-quinase classe I, prototípico da família ErbB:
Ligantes: EGF, TGF-α, amphiregulina, betacelulina, epiregulin, epiregulina — todos ligam domínios L1 e L2 extracelulares
Ativação:
- Ligante → liga EGFR monômero → dimerização (homo ou hetero com HER2, HER3, HER4)
- Trans-autofosforilação de tirosinas intracelulares (Y992, Y1045, Y1068, Y1086, Y1148, Y1173)
- Tirosinas fosforiladas → recrutam adaptadores com domínio SH2 (Grb2, SHC, SRC, PLCγ, PI3K p85)
Via RAS-RAF-MEK-ERK (MAPK):
- Grb2-SOS → troca GDP→GTP em RAS → RAS-GTP (ativo)
- RAS → recruta RAF (B-RAF, C-RAF) → fosforila MEK1/2
- MEK → fosforila ERK1/2 (MAPK) → transcrição de ciclinas, c-Myc, outros → proliferação
- GAP (GTPase-Activating Proteins: NF1, RasGAP) → HidrólisE GTP → RAS inativo (feedback)
RAS — o proto-oncogene mais mutado em câncer humano:
- KRAS, NRAS, HRAS — família Ras; KRAS o mais mutado (~30% de todos os cânceres)
- Mutações oncogênicas (G12C, G12D, G12V, G12R, Q61H, G13D): impedem hidrólise de GTP (inativa RAS-GAP e autólise) → RAS-GTP constitutivo → MAPK e PI3K permanentemente ativados → bypass de EGFR
- Implicação: anti-EGFR (cetuximabe, panitumumabe) são ineficazes em RAS-mutado → testar KRAS/NRAS/BRAF antes de usar em CRC
EGFR em cânceres:
- Amplificado/superexpresso (sem mutação): CRC, cabeça e pescoço, gástrico, esofágico, cervical
- Mutado (sensível a TKI): NSCLC (10-15% brancos, 30-40% asiáticos) — mutações em exon 19 (deleção LREA) e exon 21 (L858R) tornam EGFR dependente de ligante mas sensível a TKI
TKIs de EGFR em NSCLC: erlotinibe, gefitinibe, afatinibe, dacomitinibe, osimertinibe
Mutações sensibilizantes de EGFR no NSCLC:
- Exon 19 deleção (∆Ex19) — 45% das mutações — deleta 15-18 bp (e.g., E746_A750del)
- L858R em exon 21 — 40% — substitui leucina por arginina
- Ambas aumentam afinidade por TKI e diminuem afinidade por ATP → TKI competem mais eficientemente
- Outras (exon 18 G719X, exon 20 S768I, exon 21 L861Q): raras mas responsivas
Geração de TKIs de EGFR:
1ª geração (reversíveis, seletivos EGFR):
- Erlotinibe (Tarceva® — Genentech/Roche): NSCLC com EGFR mutado 1ª linha; SATURN trial (manutenção); Ca pancreático com gemcitabina
- Gefitinibe (Iressa® — AstraZeneca): EGFR-mutado NSCLC; Iressa Pan-Asia Study (IPASS 2009): gefitinibe > carboplatin/paclitaxel em EGFR-mutados asiáticos
2ª geração (irreversíveis, pan-ErbB):
- Afatinibe (Giotrif® — Boehringer Ingelheim): inibe HER1, HER2 e HER4 irreversivelmente; LUX-Lung 3 e 6 → superior a QT em EGFR-mutado; eficaz em mutações raras
- Dacomitinibe (Vizimpro® — Pfizer): similar ao afatinibe; ARCHER 1050 → superior a gefitinibe em PFS
3ª geração — osimertinibe (Tagrisso® — AstraZeneca):
- Inibe mutações sensibilizantes E T790M (mutação de resistência à 1ª/2ª geração — 50-60% das resistências adquiridas)
- Seletivo para EGFR mutado → menos toxicidade em EGFR selvagem (menos rash, menos diarreia que 1ª/2ª geração)
- FLAURA trial (1ª linha): osimertinibe vs erlotinibe/gefitinibe em EGFR-mutado → PFS 18.9 vs 10.2 meses; OS 38.6 vs 31.8 meses → novo padrão de 1ª linha
- Adjuvante (ADAURA trial): osimertinibe 3 anos pós-ressecção → redução de risco de recidiva 80% → aprovado adjuvante 2020
- SNC: penetra bem no SNC → metástases cerebrais respondem (BLOOM trial para leptomeningeal)
T790M e resistência:
- T790M: substitui Thr790 por Met → "guardian of the kinase gate" → aumenta afinidade por ATP, reduz por TKI 1ª/2ª geração → resistência
- Osimertinibe supera T790M pela sua estrutura covalente irreversível que se liga à Cys797
- Resistência a osimertinibe: amplificação de MET, mutações em EGFR C797S, amplificação de ERBB2, transformação em SCLC → liquid biopsy (ctDNA) para detectar mecanismos de resistência
Anticorpos anti-EGFR em CRC e cabeça/pescoço: cetuximabe e panitumumabe
Cetuximabe (Erbitux® — Merck KGaA/BMS) — anticorpo IgG1 quimérico anti-EGFR:
Mecanismo:
- Liga ao domínio extracelular III de EGFR → bloqueia ligação de ligantes (EGF, TGF-α)
- Estabiliza EGFR em conformação inativa (sem dimerização)
- Induz endocitose e degradação de EGFR
- ADCC via região Fc (IgG1) — ativa NK cells
Câncer Colorretal (CRC) — condição de RAS-selvagem obrigatória:
- KRAS selvagem: cetuximabe + FOLFIRI ou FOLFOX → benefício significativo (OPUS, CRYSTAL trials)
- RAS mutado (KRAS ou NRAS): cetuximabe NÃO beneficia (RAS-GTP constitutivo bypass EGFR) → FDA contraindicação desde 2012 se KRAS mutado codon 12 ou 13; NRAS mutações também excluem
- BRAF V600E: mutação adicional (10-15% de CRC) → também prediz menor resposta a anti-EGFR isolados; BEACON-CRC: BRAF inibi (encorafenibe) + cetuximabe → 26% ORR vs quimioterapia em BRAF V600E-mutado CRC 2ª linha
- Lado esquerdo vs direito: tumores do colon esquerdo (descendente, sigmoide, reto) têm mais benefício de anti-EGFR; colon direito (ceco, ascendente) têm pior resposta — possível por diferente biologia molecular (mais KRAS/RAS mutado, microsatellite instability nos direitos)
Câncer de cabeça e pescoço (SCCHN):
- EXTREME trial: cetuximabe + cisplatina + 5-FU em 1ª linha de SCCHN recorrente/metastático → OS 10.1 vs 7.4 meses
- Cetuximabe + radioterapia (Bonner trial): cura ou controle local em SCCHN avançado localmente → OS superior à RT sozinha; alternativa à RT+cisplatina quando cisplatina contraindicada
Panitumumabe (Vectibix® — Amgen) — anticorpo IgG2 totalmente humano anti-EGFR:
- Menor risco de reação anafilática (totalmente humano vs quimérico cetuximabe)
- Mesmas indicações de CRC RAS-selvagem (PRIME trial: panitumumabe + FOLFOX vs FOLFOX)
Rash acneiforme — biomarcador surrogate de resposta:
- Anti-EGFR inibem EGFR em folículos capilares e queratinócitos → rash pustular, xerose, fissuras nos dedos, paroníquia
- Grau do rash se correlaciona com resposta tumoral (paradoxalmente quem tem mais rash tem mais resposta)
- Manejo: doxiciclina 100 mg/dia (preemptiva), creme de tetraciclina tópico, hidratação da pele
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KRAS G12C e inibidores de RAS: sotorasibe e adagrasibe
KRAS — o "undruggable" que foi drogado:
Por décadas, RAS foi considerado "undruggable" — a superfície de RAS não tem cavidades óbvias para pequenas moléculas, e inibidores precisariam competir com GTP em concentrações nanomolares impossíveis
Quebra do paradigma — KRAS G12C specificamente:
- G12C: glycine→cysteine → resíduo Cys12 na bolsa de switch-II de RAS
- Inibidores covalentes que se ligam especificamente à Cys12 (só presente em G12C, não em KRAS selvagem) → bloqueiam KRAS na conformação GDP-inativa (off-state) → bloqueio seletivo de G12C
Sotorasibe (Lumakras® / Lumykras® — Amgen):
- 1º inibidor de KRAS G12C aprovado (FDA 2021 acelerado, regular 2023)
- 960 mg/dia oral
- CodeBreak 100 e 200: NSCLC KRAS G12C (2ª linha) → ORR 37%, PFS 5.6 meses vs docetaxel
- Resistência: frequente, rápida — vias bypass (PI3K/AKT, amplificação RAS, EGFR upregulation) → combinações com EGFR, SHP2 inibidores investigadas
Adagrasibe (Krazati® — Mirati Therapeutics/BMS):
- 2º KRAS G12C inibidor (FDA acelerado 2022)
- 600 mg 2x/dia; meia-vida mais longa que sotorasibe
- KRYSTAL-1: NSCLC G12C → ORR 43%, mDOR 8.5 meses; CRC KRAS G12C → adagrasibe + cetuximabe (KRYSTAL-10): ORR 46% → aprovado FDA 2024 para CRC KRAS G12C
- Penetração em SNC melhor que sotorasibe → metástases cerebrais
KRAS G12D, G12V, G12R — próximos alvos:
- MRTX-1133 (Mirati) — KRAS G12D; ERAS-4693 — G12V; RMC-6236 (Revolution Medicines) — pan-RAS/KRAS
- Inibidores de SHP2 (RMC-4630, TNO155): bloqueiam ativação de RAS via RTKs → combinam com KRAS G12C para prevenir resistência mediada por RTK
MEK inibidores:
- Trametinibe (Mekinist® — Novartis): inibidor de MEK1/2 — combinado com dabrafenibe (BRAF inibidor) → padrão para melanoma BRAF V600E/K (COMBI-DT, COMBI-ED: 52.6% OS a 5 anos)
- Cobimetinibe (Cotellic®) + vemurafenibe: melanoma BRAF-mutado
- Binimetinibe (Mektovi®) + encorafenibe (Braftovi): melanoma BRAF V600 (COLUMBUS trial); CRC BRAF V600E (BEACON-CRC)
ERK inibidores (pós-resistência a MEK):
- Ulixertinibe, LY3214996 — fase 1/2; bloqueiam o nível terminal da via MAPK