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← Blog·peptideos23 de junho de 2026· 14 min de leitura

Donepezil, rivastigmina, galantamina e memantina — Alzheimer e demências: inibidores de AChE e antagonista NMDA

Donepezil, rivastigmina e galantamina inibem a acetilcolinesterase aumentando acetilcolina no cérebro. Memantina bloqueia receptores NMDA, reduzindo excitotoxicidade por glutamato. São os únicos medicamentos aprovados para Alzheimer — tratamento sintomático que retarda progressão, mas não cura. Eficácia modesta porém real em cognição e funcionalidade.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Doença de Alzheimer — fisiopatologia, cascata amiloide e hipótese colinérgica

Doença de Alzheimer (DA): demência neurodegenerativa progressiva mais prevalente; afeta ~50 milhões de pessoas mundialmente; prevalência dobra a cada 5 anos após os 65 (5% aos 65 anos → 50% aos 85 anos). A DA de início tardio (>65 anos) é a forma mais comum; DA de início precoce (<65 anos) representa ~5-10% e com frequência ligada a mutações genéticas (APP, PSEN1, PSEN2).

Neuropatologia — dois marcadores histopatológicos:

  1. Placas amiloide (placas senis): depósitos extracelulares de beta-amiloide (Aβ), especialmente Aβ42 — produto de clivagem anormal da proteína precursora do amiloide (APP) por β-secretase (BACE-1) e γ-secretase; no processamento normal, α-secretase cliva APP em domínio não-amiloidogênico; na DA, há desvio para clivagem amiloidogênica → acúmulo de Aβ → oligômeros tóxicos → placas
  2. Emaranhados neurofibrilares (tangles): intracelulares; formados por hiperfosforilação da proteína tau → tau não estabiliza microtúbulos → acumula como filamentos helicoidais emparelhados → disfunção de transporte axonal → morte neuronal

Cascata amiloide (hipótese dominante): acúmulo de Aβ → oligômeros solúveis tóxicos → inflamação neuronal (ativação microglial e astrocítica) → hiperfosforilação de tau → morte de sinapses e neurônios → atrofia cortical (hipocampo, córtex entorrinal, neocórtex) → declínio cognitivo

Hipótese colinérgica (base dos IAChE):

  • Neurônios colinérgicos do núcleo basal de Meynert (NbM) → projeções para hipocampo e córtex → fundamental para memória e cognição
  • Na DA, os neurônios colinérgicos do NbM são precocemente comprometidos → redução dramática de acetilcolina (ACh) no hipocampo e córtex → déficit colinérgico = principal causa do declínio cognitivo precoce
  • Hipótese colinérgica → inibir acetilcolinesterase (AChE = enzima que degrada ACh) → mais ACh disponível na fenda sináptica → melhora sintomática da cognição

Fatores de risco:

  • Genéticos: ApoE ε4 (maior fator de risco genético para DA esporádica tardio — ε4 aumenta risco 3× em heterozigotos, 12× em homozigotos ε4/ε4); ApoE ε2 é fator protetor
  • Mutações causativas (DA de início precoce familiar): APP (cromossomo 21 — por isso Síndrome de Down tem altíssima prevalência de DA), PSEN1 (cromossomo 14 — pré-senilina 1, componente da γ-secretase), PSEN2 (cromossomo 1)
  • Modificáveis: hipertensão, diabetes mellitus, obesidade, sedentarismo, depressão, baixa reserva cognitiva, perda auditiva (Lancet 2020 — 40% dos casos associados a fatores modificáveis)

Diagnóstico:

  • Clínico: declínio de memória episódica + outros domínios cognitivos + comprometimento funcional; avaliação neuropsicológica (MEEM, MoCA)
  • Biomarcadores (A/T/N framework): amiloide em PET (PIB, florbetapir), tau em PET, amyloid-β 42/40 e tau fosforilada no LCR; novos — Aβ42/40 e p-tau217 no plasma
  • Neuroimagem: RM com volumetria hipocampal (atrofia); PET com FDG (hipometabolismo parieto-temporal bilateral)

Estadiamento NIA-AA 2018: A (amiloide) + T (tau) + N (neurodegeneração) — status de biomarcadores independente de sintomas; mudou o conceito de DA de "clínica" para "biológica"

Inibidores de AChE: donepezil, rivastigmina, galantamina — mecanismo, doses e diferenças

Mecanismo dos Inibidores de Acetilcolinesterase (IAChE):

  • AChE degrada ACh na fenda sináptica → inibição de AChE → menos degradação → mais ACh disponível → melhor transmissão colinérgica → melhora sintomática de memória, atenção, linguagem
  • Butiriltilcolinesterase (BuChE) — enzima secundária que também degrada ACh; rivastigmina inibe ambas
  • Eficácia: modesta mas consistente; benefício médio: 2-3 pontos no ADAS-cog (escala 70-pontos) vs placebo; retarda institucionalização; melhora BPSD (sintomas comportamentais e psicológicos da demência)

Donepezil (Eranz® / Aricept® — Eisai/Pfizer; amplamente genérico):

  • Inibidor seletivo e reversível de AChE central; NÃO inibe BuChE periférica significativamente
  • Doses: 5 mg/dia × 4-6 semanas → 10 mg/dia; comprimido oral (1x/dia); para DA grave: 23 mg/dia (FDA aprovado, dados controversos sobre benefício adicional sobre 10 mg com mais efeitos adversos)
  • Meia-vida muito longa (~70h) → pode ser tomado 1x/dia, preferencialmente à noite (reduz náusea)
  • Indicações: DA leve a grave (único IAChE aprovado também para DA grave nos EUA); também usado off-label em outras demências
  • Evidências: AD2000 trial (Lancet 2004) — donepezil 5-10 mg vs placebo em DA leve-moderada: benefício cognitivo MMSE de ~0.8 pontos na semana 48; sem redução de institucionalização. Burns et al. (2011): benefício em qualidade de vida dos cuidadores

Rivastigmina (Exelon® — Novartis; genérico):

  • Inibidor PSEUDO-irreversível de AChE E BuChE (inibição dura horas mas dissociação ocorre — "pseudo-irreversível")
  • Dupla inibição (AChE + BuChE): BuChE aumenta conforme DA progride (especialmente em áreas donde AChE diminuiu); dupla inibição pode oferecer vantagem em DA moderada-grave
  • Disponível em adesivo transdérmico (Exelon Patch® 4.6 mg/24h → 9.5 mg/24h → 13.3 mg/24h): GRANDE vantagem → muito menos efeitos adversos gastrointestinais que oral; melhor adesão; não-fumante preferência à oral (tabagismo aumenta metabolismo)
  • Oral: 1.5 mg 2x/dia → aumentar 1.5 mg a cada 2-4 semanas → alvo 6 mg 2x/dia (muito mais náusea que adesivo)
  • Única aprovada para demência de Parkinson (DP-demência): EXPRESS trial (Emre 2004, NEJM) — rivastigmina melhorou cognição e ADAS-cog em pacientes com DP-demência; a única IAChE aprovada nessa indicação
  • Cuidado com retirada abrupta (rivastigmina): síndrome de retirada com piora cognitiva rápida; diminuir gradualmente

Galantamina (Reminyl® / Razadyne® — Janssen; genérico):

  • Inibidor AChE competitivo e reversível + alostérico modulador de receptores nicotínicos de ACh (nAChR) — potencializa efeito do ACh nos nAChR (duplo mecanismo; teoricamente pode estimular liberação de ACh pré-sináptica por mais receptor nicotínico ativado)
  • Doses: 8 mg/dia → 16 mg/dia → 24 mg/dia (comprimidos regulares 2x/dia ou cápsulas de liberação prolongada 1x/dia)
  • Metabolismo hepático via CYP2D6 e CYP3A4 → cuidado com inibidores de CYP2D6 (fluoxetina, paroxetina) — aumentam exposição à galantamina
  • Evidências: similar ao donepezil em meta-análises; o duplo mecanismo (AChE + modulação nAChR) não demonstrou superioridade clínica clara vs outros IAChE

Comparação dos IAChE para Alzheimer: | Droga | AChE | BuChE | Via | Frequência | DP-demência | |---|---|---|---|---|---| | Donepezil | Sim | Não | Oral | 1x/dia | Não aprovado | | Rivastigmina | Sim | Sim | Oral / Patch | 2x/dia / 1x/dia | Aprovado | | Galantamina | Sim | Não | Oral | 1-2x/dia | Não aprovado |

Efeitos Adversos dos IAChE (colinérgicos periféricos):

  • Náusea e vômito (mais comuns): efeito muscarínico; iniciar com dose baixa e aumentar gradualmente; tomar com comida; adesivo de rivastigmina tem muito menos náusea
  • Diarreia e cólicas abdominais: muscarínico intestinal
  • Bradicardia e bloqueio AV: efeito colinérgico cardíaco → usar com cautela em bradicardia, síndrome do nó sinusal, bloqueio AV, uso de betabloqueador ou diltiazem/verapamil
  • Síncope: pelo efeito bradicárdico + vasodilatação colinérgica
  • Anorexia e perda de peso: estimulação GI; problema em idosos já desnutridos
  • Pesadelos vívidos (donepezil): tomado à noite reduz mas pode causar sonhos intensos → tentar pela manhã se problemático

Contraindicações:

  • Bloqueio AV de 2º ou 3º grau
  • Bradicardia sintomática
  • Úlcera péptica ativa (aumenta secreção gástrica)
  • Asma grave ou DPOC severo (pode broncoconstrição)
  • Hipersensibilidade conhecida

Memantina — antagonista NMDA, excitotoxicidade e uso em Alzheimer moderado a grave

Hipótese do glutamato na DA: em paralelo ao déficit colinérgico, a DA também envolve disfunção glutamatérgica:

  • Glutamato = principal neurotransmissor excitatório; receptores NMDA (N-metil-D-aspartato) essenciais para plasticidade sináptica e memória (LTP — potenciação de longa duração)
  • Na DA: ativação excessiva de receptores NMDA por glutamato extracelular elevado → influxo excessivo de Ca²⁺ → excitotoxicidade → morte neuronal
  • Ativação tônica de receptores NMDA por glutamato basal elevado → despolarização persistente → "ruído" sináptico → dificulta transmissão de sinal cognitivo

Memantina (Namenda® / Ebixa® — Lundbeck; genérico):

  • Antagonista não-competitivo do canal do receptor NMDA de baixa afinidade e voltagem-dependente
  • Mecanismo: bloqueia o canal do NMDA quando ele está aberto por glutamato anormal (bloqueio voltagem-dependente) → mas quando NMDA é ativado fisiologicamente (sinal cognitivo = ativação intensa e transitória), memantina dissocia rapidamente → permite plasticidade normal
  • Em outras palavras: memantina "filtra" o ruído glutamatérgico excessivo sem bloquear o sinal fisiológico (LTP normal) → melhora relação sinal/ruído sináptico
  • Doses: 5 mg/dia × 1 semana → 10 mg/dia × 1 semana → 15 mg/dia × 1 semana → 20 mg/dia (alvo; dividir em 10 mg 2x/dia ou 28 mg liberação prolongada 1x/dia)
  • Indicação: DA moderada a grave (MMSE 3-14); também usada em DA leve-moderada combinada com IAChE (embora a evidência de benefício em DA leve-moderada seja mais fraca)
  • Indicação aprovada: DA moderada a grave; não aprovado para MCI (mild cognitive impairment)

Evidências:

  • ADAS-cog TRIAL (Reisberg 2003, NEJM): memantina 20 mg vs placebo em DA moderada-grave (MMSE 3-14) × 28 semanas; memantina superior em ADCS-ADL (atividades de vida diária) e CIBIC+ (impressão clínica global); benefício modesto mas estatisticamente significativo
  • MEMOX trial: eficácia em DA moderada-grave; benefício principalmente em funcionalidade (ADCS-ADL) mais do que em cognição pura
  • IAChE + memantina combinados: DOMINO trial (Howard 2012, NEJM) — donepezil + memantina vs donepezil + placebo vs memantina + placebo vs duplo placebo em DA moderada-grave; donepezil manteve benefício mesmo em DA grave; combinação não foi claramente superior a donepezil isolado; mas combinação é amplamente usada clinicamente (Namzaric® = donepezil 10 mg + memantina ER 28 mg em cápsula única)

Efeitos adversos (relativamente bem tolerado vs IAChE):

  • Tontura e confusão (mais comum)
  • Cefaleia
  • Constipação
  • Alucinações (raro mas relevante — antagonismo NMDA pode causar sintomas psicóticos em doses elevadas)
  • Agitação paradoxal (raro)
  • Muito poucos efeitos colinérgicos (mecanismo diferente dos IAChE) → pode ser adicionado ao IAChE sem sinergia de efeitos adversos colinérgicos

Ajuste renal: memantina é eliminada pelo rim → ajustar dose em insuficiência renal (ClCr <30 mL/min: dose máxima 10 mg/dia)

Novos tratamentos modificadores da DA (2023-2025):

  • Lecanemabe (Leqembi® — Eisai/Biogen): anticorpo anti-protofibrilas de Aβ; FDA aprovado (acelerado 2023; completo jan/2024); CLARITY AD trial (Alzforum 2022, NEJM 2023): 18 meses → redução de 27% no declínio (CDR-SB) vs placebo em DA leve/MCI com amiloide confirmado; efeitos adversos: ARIA-E (edema relacionado a amiloide) e ARIA-H (hemorragia/hemossiderina) → monitoramento com RM obrigatório; contraindicado em uso de anticoagulantes
  • Donanemabe (Kisunla® — Lilly): anti-Aβ plaques (amiloide); FDA aprovado julho 2024; TRAILBLAZER-ALZ 2: 35.1% menos declínio cognitivo vs placebo em 76 semanas; remove 100% das placas amiloide em maioria; após remoção das placas = possível descontinuação (dose limitada ao necessário)
  • Ambos estão disponíveis apenas nos EUA/Europa e em uso clínico muito restrito (custo ~$26.500/ano lecanemabe; rigorosa seleção de pacientes)
  • Perspectiva: primeiro tratamento modificador real da DA; porém benefício modesto em termos de funcionalidade percebida; seleção adequada de pacientes é crítica

Perguntas frequentes sobre Alzheimer e tratamentos farmacológicos

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Donepezil e memantina curam o Alzheimer?+

Não — nenhum dos tratamentos atualmente disponíveis (donepezil, rivastigmina, galantamina, memantina) cura ou interrompe a progressão da doença de Alzheimer. Esses medicamentos são tratamentos sintomáticos: eles melhoram temporariamente a transmissão de neurotransmissores (acetilcolina para os IAChE; glutamato para a memantina), o que pode melhorar moderadamente memória, cognição e capacidade funcional — mas os neurônios continuam morrendo e a doença continua progredindo. A analogia frequentemente usada: é como usar óculos para visão ruim — os óculos melhoram temporariamente a capacidade visual mas não corrigem o problema ocular subjacente. O benefício médio é modesto: 2-3 pontos no ADAS-cog (em uma escala de 70 pontos), equivalendo a um atraso de 6-12 meses na progressão da doença em alguns pacientes. Esse benefício, embora modesto estatisticamente, pode ser clinicamente significativo para o paciente e família (manter independência por mais tempo, reduzir sintomas comportamentais). Os novos anticorpos anti-amiloide (lecanemabe, donanemabe) são os primeiros tratamentos verdadeiramente modificadores — removem as placas amiloide e demonstraram retardo estatisticamente significativo da progressão em 27-35%. Mas também não curam, e seu acesso ainda é muito restrito e caro.

Em que fase do Alzheimer cada medicamento é indicado?+

A indicação varia por fase: (1) MCI (Comprometimento Cognitivo Leve — fase pré-demência): NENHUM medicamento aprovado para MCI por Alzheimer; os IAChE não demonstraram benefício claro no retardo da conversão de MCI para demência (MCI-AD estudos: Peterson 2005, NEJM). Os novos anticorpos anti-amiloide (lecanemabe, donanemabe) são indicados justamente nessa fase INICIAL com confirmação de amiloide; (2) DA LEVE a MODERADA (MMSE 10-26): IAChE de escolha (donepezil, rivastigmina ou galantamina); memantina tem benefício menos consistente nessa fase mas frequentemente combinado; (3) DA MODERADA a GRAVE (MMSE 3-14): IAChE (donepezil aprovado para DA grave) + memantina; combinação donepezil + memantina é a mais usada nesse estágio; (4) DA GRAVE (MMSE <10): memantina + IAChE continuados; focar mais em cuidados paliativos e BPSD (agitação, psicose) do que em tratamento cognitivo. Na prática brasileira, a combinação donepezil (ou rivastigmina patch) + memantina é muito usada em DA moderada-grave.

O adesivo de rivastigmina (Exelon Patch) é melhor que a cápsula oral?+

Para a maioria dos pacientes, sim — o adesivo (patch) transdérmico tem importantes vantagens sobre a forma oral. Vantagens do adesivo: (1) Muito menos efeitos adversos gastrointestinais (náusea, vômito, diarreia): a principal causa de descontinuação da rivastigmina oral é a intolerância GI. O adesivo entrega o medicamento lentamente através da pele, sem o pico de concentração que causa náusea pós-dose oral; estudos diretos mostram náusea em ~7% com adesivo vs ~23% com oral; (2) Maior adesão: apenas 1 adesivo/dia (troca diária), fácil de verificar se foi aplicado (cuidadores veem se está no corpo do paciente); (3) Evita dificuldade de deglutição: idosos com DA frequentemente têm disfagia; (4) Absorção constante sem variações alimentares. Desvantagens do adesivo: custo geralmente maior; irritação cutânea local (leve-moderada em ~15%); rotacionar sítio de aplicação (costas, peitoral, braços); não expor ao calor excessivo (banho quente, sauna, sol direto — aumenta absorção). Recomendação: iniciar com adesivo em pacientes novos, especialmente idosos frágeis e naqueles com risco de intolerância GI ou disfagia.

Existe algo que família e cuidadores podem fazer para retardar o Alzheimer além dos remédios?+

Sim — e a evidência sugere que intervenções não-farmacológicas têm efeito comparável ou superior aos medicamentos disponíveis em alguns aspectos, especialmente na prevenção e nos estágios iniciais. O que tem evidência em pesquisa: (1) Exercício físico: consistentemente associado a menor risco de DA; pelo menos 150 min/semana de atividade aeróbica moderada (caminhada rápida, natação, bicicleta) — melhora fluxo cerebral, neurogênese hipocampal, reduz inflamação; alguns estudos mostram melhora de 1-2 pontos no MMSE em pacientes com DA leve-moderada; (2) Estimulação cognitiva: atividades que desafiam o cérebro (leitura, puzzles, idiomas novos, música, dança) — aumentam 'reserva cognitiva' — o cérebro treina rotas alternativas quando os neurônios principais deterioram; (3) Controle de fatores de risco cardiovasculares: hipertensão, diabetes e dislipidemia tratadas adequadamente reduzem o risco de DA e de demência vascular associada; (4) Dieta: dieta mediterrânea e MIND diet (Mediterranean-DASH Intervention for Neurodegenerative Delay) mostraram associação com menor risco de DA em estudos observacionais; (5) Sono: sono de qualidade = tempo de clearance de amiloide pelo sistema glinfático (fossa cerebral se limpa de Aβ durante o sono, especialmente em ondas lentas); distúrbios do sono (apneia, insônia crônica) aumentam risco de DA; (6) Socialização: isolamento social é fator de risco para DA; manter vínculos, grupos, atividades sociais protege. Para o cuidador: o estresse do cuidador é real e documentado — há maior prevalência de depressão em cuidadores de pacientes com DA; grupos de apoio, psicoterapia e informação (Alzheimer's Association, ABRAz no Brasil) são fundamentais.

Referências Científicas

  1. Birks JS, Harvey RJ. (Cochrane review — donepezil for dementia) Donepezil for dementia due to Alzheimer's disease. Cochrane Database Syst Rev, 2018.
  2. Reisberg B, Doody R, Stöffler A, et al. (memantine NEJM — moderate-to-severe AD) Memantine in Moderate-to-Severe Alzheimer's Disease. N Engl J Med, 2003.
  3. van Dyck CH, Swanson CJ, Aisen P, et al. (CLARITY AD — lecanemab NEJM 2023) Lecanemab in Early Alzheimer's Disease. N Engl J Med, 2023.
  4. Howard R, McShane R, Lindesay J, et al. (DOMINO trial — donepezil + memantine) Donepezil and Memantine for Moderate-to-Severe Alzheimer's Disease (DOMINO trial). N Engl J Med, 2012.
  5. Emre M, Aarsland D, Albanese A, et al. (EXPRESS trial — rivastigmine in Parkinson dementia) Rivastigmine for Dementia Associated with Parkinson's Disease. N Engl J Med, 2004.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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