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← Blog·peptideos16 de julho de 2026· 12 min de leitura

Sedação em UTI — dexmedetomidina, propofol e midazolam: receptor α2, RASS, analgosedação e protocolos de despertares diários

Sedação em UTI evoluiu de sedação profunda universal para analgosedação dirigida por metas. Dexmedetomidina (agonista α2 — Locus coeruleus) oferece sedação com preservação do despertar, menos delírio e menos supressão respiratória. Propofol IV e midazolam são os hipnóticos padrão. RASS (Richmond Agitation-Sedation Scale) guia o alvo de sedação. Protocolos de despertar diário (interrupção espontânea de sedativos) reduzem ventilação mecânica e mortalidade. Delirium na UTI é monitorado pelo CAM-ICU.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Sedação em UTI — evolução do paradigma, RASS e CAM-ICU

PARADIGMA DA SEDAÇÃO EM UTI — evolução histórica:

Era da sedação profunda (anos 1980-2000): prática dominante de sedar profundamente todos os pacientes ventilados mecanicamente → sem dor, sem memória, sem movimentos → mas: prolongamento da ventilação mecânica, PICS (Post-Intensive Care Syndrome), disfunção cognitiva pós-UTI, miopatia do paciente crítico

Virada paradigmática (2000-presente): múltiplos estudos (ABCDEF Bundle, sedation vacations) demonstraram que sedação leve e analgosedação são superiores → metas modernas:

  • ABCDEF Bundle (Society of Critical Care Medicine):

- A: Avaliação e manejo de Analgesia (analgesia antes de sedação — analgosedação) - B: Despertar Espontâneo (SAT — Spontaneous Awakening Trials) + Ventilação Espontânea (SBT) - C: Escolha de sedação e analgesia - D: Delirium — monitoração e manejo - E: Exercício e mobilização precoce - F: Família — participação e suporte

RASS (Richmond Agitation-Sedation Scale) — a escala de sedação mais validada e usada:

  • +4: COMBATIVO (violento, perigo imediato para a equipe)
  • +3: MUITO AGITADO (puxa dispositivos, agressivo)
  • +2: AGITADO (movimentos não-propositais frequentes, luta com ventilador)
  • +1: INQUIETO (ansioso, movimentos não vigorosos)
  • 0: ALERTA E CALMO (meta em paciente colaborativo)
  • -1: SONOLENTO (resposta sustentada > 10s ao chamado/estímulo verbal)
  • -2: SEDAÇÃO LEVE (resposta breve < 10s ao estímulo verbal, abre olhos)
  • -3: SEDAÇÃO MODERADA (movimento ao estímulo verbal mas sem contato visual)
  • -4: SEDAÇÃO PROFUNDA (sem resposta ao verbal, movimento ao estímulo físico/doloroso)
  • -5: NÃO DESPERTA (sem resposta a qualquer estímulo)

Meta de RASS moderna: -1 a 0 (sonolento a alerta/calmo) para maioria dos pacientes ventilados mecanicamente; sedação profunda (≤ -3) é reservada para situações específicas: SDRA grave com low-tidal-volume, hipertensão intracraniana, status epilepticus, hipotermia terapêutica pós-PCR, paralisia neuromuscular

DELÍRIO NA UTI:

  • Delírio = síndrome neuropsiquiátrica aguda com distúrbio de atenção, consciência e cognição; flutuante
  • Prevalência em UTI: 30-80% dos pacientes ventilados; associado a aumento de mortalidade, duração de ventilação, internação prolongada, disfunção cognitiva persistente
  • Tipos: hiperativo (agitado, confuso — mais fácil de detectar), hipoativo (quieto, letárgico — mais frequente e mais grave, frequentemente não diagnosticado), misto
  • CAM-ICU (Confusion Assessment Method for ICU): ferramenta validada para diagnóstico de delírio em pacientes não-verbais (intubados); avalia: (1) mudança aguda no estado mental; (2) desatenção; (3) pensamento desorganizado; (4) nível de consciência alterado; positivo se 1+2 + (3 ou 4)
  • Prevenção do delírio: reorientação, ciclo sono-vigília (reduzir luzes/barulho à noite), mobilização precoce, óculos/aparelho auditivo do paciente, comunicação frequente, minimizar benzodiazepínicos (fortemente associados ao delírio)

ANALGOSEDAÇÃO (analgesia-first sedation):

  • Princípio: tratar a DOR antes de adicionar sedação → a dor não tratada é causa de agitação; em muitos pacientes, analgesia eficaz + minimização de sedação são suficientes para conforto
  • Analgesia em UTI: fentanil ou morfina em infusão contínua ou PCA; remifentanil em baixa dose; ketamina em dose sub-anestésica (0.1-0.3 mg/kg/h) como opioide-poupador; dipirona IV/paracetamol IV; cetoprofeno IV
  • Escala de dor em paciente não-verbal: BPS (Behavioural Pain Scale — 3-12; avalia expressão facial, movimento de membros superiores, compliance com ventilador) ou CPOT (Critical-Care Pain Observation Tool)

Dexmedetomidina, propofol e midazolam — farmacologia e comparação clínica

DEXMEDETOMIDINA (Precedex® — Pfizer/Hospira; Dexdor® — Orion; genérico):

Mecanismo: agonista α2-adrenérgico altamente seletivo (razão α2:α1 de 1600:1 — muito mais seletivo que clonidina que é ~200:1):

  • Locus coeruleus (núcleo noradrenérgico pontino — regulador do sono e vigilância): ativação dos autorreceptores α2 pré-sinápticos → inibição da descarga noradrenérgica → hiperpolarização dos neurônios do LC → indução de estado similar ao sono natural (estágio N2 de sono NREM) → sedação SEM amnésia total e com PRESERVAÇÃO DOS REFLEXOS PROTETORES DE VIAS AÉREAS
  • Medula espinhal (corno posterior): ativação de α2 no corno dorsal → inibição da transmissão de sinais nociceptivos → analgesia moderada (não equipotente a opioides, mas significativa — reduz consumo de opioides)
  • Periférico: receptores α2 pré-sinápticos vasculares → inibição de liberação de noradrenalina → vasodilatação (hipotensão); a ativação α2 pós-sináptica vascular pode causar vasoconstrição com doses altas/bolus

Características farmacológicas únicas:

  • Sedação cooperativa: o paciente sob dexmedetomidina pode ser despertado por estímulo verbal, responder a comandos simples, interagir, e depois voltar a dormir quando o estímulo cessa → ideal para procedimentos acordados (intubação acordada), desmame de ventilação, e durante SAT
  • SEM depressão respiratória clinicamente relevante em doses terapêuticas (não causa apneia; os reflexos de vias aéreas são preservados) → pode ser usada em pacientes não intubados ou durante desmame
  • Não tem efeito amnésico potente (ao contrário de midazolam/propofol)

Dose: 0.2-1.5 μg/kg/h em infusão contínua IV; dose de ataque: 1 μg/kg em 10 min (opcional — frequentemente omitida pelo risco de hipertensão transitória/hipotensão)

Indicações na UTI:

  1. Sedação de curta duração (< 24h) em pacientes ventilados mecanicamente — meta RASS -1 a -2
  2. Procedimentos em pacientes não intubados: broncoscopia, cardioversão, pequenas cirurgias sob sedação
  3. Alternativa ao benzodiazepínico para prevenção/tratamento de delírio — o MENDS2 e SEDCOM trials mostraram menor incidência de delírio com dexmedetomidina vs midazolam (redução de 36% no SEDCOM trial)
  4. Desmame de ventilação mecânica: facilita o weaning por manter o paciente calmo mas cooperativo
  5. Síndromes de abstinência (álcool — delirium tremens, opioides) — não é tratamento principal, mas adjuvante

Efeitos adversos:

  • Bradicardia: frequente (20-30%); manejo: reduzir dose, atropina, considerar marcapasso temporário em casos graves; CAUTELA ou CONTRAINDICAÇÃO em bloqueio AV avançado pré-existente, bradicardia sinusal grave
  • Hipotensão: frequente especialmente no início e na dose de ataque; manejo: fluidos, vasopressores (noradrenalina), reduzir dose
  • Hipertensão paradoxal com doses altas ou bolus (vasoconstrição α2 periférica)
  • SEM efeito no perfil neurológico-disfuncional (não causa delírio como benzo, mas não trata delírio ativo estabelecido de forma potente)

PROPOFOL — (veja também artigo sobre anestesia geral) — na UTI:

  • Infusão contínua 5-50 μg/kg/min para sedação; profundidade facilmente titulável; despertar rápido ao reduzir dose
  • Potencia receptor GABA-A → hipnose profunda, amnésia; causa mais amnésia que dexmedetomidina
  • PRIS (risco em infusões > 48h, dose > 4-5 mg/kg/h): monitorar triglicérides, CPK, bicarbonatemia; limitar dose
  • Preferido para sedação de curta duração (< 48h) e para pacientes que precisam de avaliação neurológica frequente (acorda rapidamente ao reduzir infusão)
  • Vantagem em SDRA: reduz pressão intracraniana em neurocríticos

MIDAZOLAM (benzodiazepínico) — em desuso como sedação de rotina:

  • Potencia receptor GABA-A por sítio diferente do propofol/barbitúricos → liga-se ao sítio benzodiazepínico (interface α-γ do GABA-A) → facilita abertura do canal Cl⁻
  • Metabolizado pelo fígado em α-hidroximidazolam (metabólito ativo) → acúmulo em insuficiência hepática e renal
  • Alta associação com delírio (maior que propofol ou dexmedetomidina) → EVITAR uso prolongado em UTI
  • Sedação prolongada → acúmulo tecidual → despertar lento e imprevisível ("sedação de longa cauda")
  • Uso atual em UTI: principalmente para controle agudo de agitação intensa, status epilepticus, abstinência de álcool/benzodiazepínico, pré-medicação antes de procedimentos

SEDAÇÃO NEUROCRÍTICA (TCE, hemorragia subaracnóidea, AVE, hipertensão intracraniana — HIC):

  • Propofol: de escolha em neurológicos — reduz metabolismo cerebral (CMRO2) e PIC; permite neurological check rápido
  • Fentanil: opioide de escolha (curta ação, controla dor pós-procedimento craniano)
  • Midazolam: segunda linha em HIC refratária
  • Dexmedetomidina: CAUTELA em HIC (hipotensão pode reduzir CPP — pressão de perfusão cerebral); pode ser usada com monitoramento

PARALISIA NEUROMUSCULAR (bloqueio neuromuscular — BNM) na UTI — distinto da sedação:

  • Agentes: vecurônio (esteroideal), cisatracúrio (benzilisoquinolinídeo — de escolha na SDRA pois não libera histamina e metabolismo independente de órgãos — Hofmann)
  • Indicações: SDRA grave (P/F < 150) com melhora de desfecho (ACURASYS trial — redução de mortalidade em 90 dias com cisatracúrio 48h vs placebo; ROSE trial posterior não confirmou — debate ainda aberto); hipotermia terapêutica pós-PCR (previne tremores que aumentam consumo de O2); status epilepticus refratário (BIS — eletroencefalograma de amplitude necessário para avaliar atividade epiléptica em paralisia)
  • O paciente em BNM DEVE ter sedação e analgesia ADEQUADAS — sem BNM, o paciente pode estar consciente e sentindo dor sem expressar clinicamente (NUNCA usar BNM sem sedação profunda garantida)

Perguntas frequentes sobre sedação em UTI

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Por que o médico pediu para acordar meu familiar que estava sedado na UTI todo dia?+

O que você está descrevendo é chamado de SAT (Spontaneous Awakening Trial) ou interrupção diária de sedativos (sedation vacation) — uma prática baseada em evidências sólidas que revolucionou o cuidado na UTI. O estudo pioneiro publicado no NEJM em 2000 (Kress JF et al.) e os estudos subsequentes do Bundle ABCDEF demonstraram que interromper diariamente a sedação e acordar o paciente (por 30-60 minutos, se seguro) tem múltiplos benefícios: reduz o tempo de ventilação mecânica (os pacientes saem mais cedo do respirador — no estudo original, em 2.4 dias a menos); reduz a internação na UTI e hospitalar; permite avaliação neurológica real; reduz a incidência de delírio; previne a miopatia do paciente crítico (quanto mais tempo o paciente fica imóvel e sedado, mais massa muscular perde — a famosa fraqueza pós-UTI que pode durar meses); pode reduzir mortalidade. O SAT é realizado com segurança — o paciente é monitorado intensamente durante o despertar, e a sedação é retomada imediatamente se houver: agitação perigosa, SpO2 < 88%, sinais de esforço respiratório excessivo, arritmia, ou remoção de dispositivos. Nem todo paciente é candidato diário ao SAT — contraindicações incluem: SDRA grave (P/F muito baixo, requer sedação/paralisia para proteger o pulmão), hipertensão intracraniana, convulsões ativas, instabilidade hemodinâmica grave. Para a família, poder conversar brevemente com o familiar — mesmo que confuso — pode ser terapêutico para ambos.

Delírio na UTI — como prevenir e tratar?+

Delírio na UTI é comum (30-80% dos pacientes ventilados) e está associado a pior prognóstico. O mais importante é a PREVENÇÃO, pois o tratamento farmacológico do delírio estabelecido tem eficácia limitada. Prevenção não-farmacológica (as mais importantes e com melhor evidência): reorientação frequente (dia, hora, local — dizer ao paciente onde está e o que está acontecendo); ciclo sono-vigília — reduzir luzes e ruídos à noite, permitir períodos sem interrupções; mobilização precoce — fisioterapia motora assim que seguro (mesmo em pacientes ventilados); uso de óculos e aparelho auditivo próprios do paciente (privação sensorial potencializa delírio); visita de familiares (comunicar com o paciente — tocar, falar — reduz delírio); minimizar benzodiazepínicos (fortemente associados ao delírio). Prevenção farmacológica: dexmedetomidina mostrou redução de delírio vs midazolam (SEDCOM); melatonina ou análogos (ramelteona) ajudam no ciclo circadiano e têm evidência crescente na prevenção. Tratamento do delírio estabelecido: haloperidol (antipsicótico típico — 0.5-5 mg IM/IV; sedação, mas sem redução de duração do delírio em grandes trials — MIND-USA trial; porém ainda usado para agitação perigosa); quetiapina (sedativo adicional na noite, pode ajudar no componente agitado); dexmedetomidina para delírio hiperativo em pacientes não extubados (Pandharipande 2007). Benzodiazepínicos tratam o delírio por abstinência de álcool (delirium tremens) mas PIORAM outros tipos de delírio — distinguir o tipo é crucial.

Referências Científicas

  1. Kress JP, Pohlman AS, O'Connor MF, Hall JB. (Sedation vacations — daily interruption of sedatives in ICU — N Engl J Med) Daily interruption of sedative infusions in critically ill patients undergoing mechanical ventilation. N Engl J Med, 2000.
  2. Riker RR, Shehabi Y, Bokesch PM, et al. (SEDCOM — dexmedetomidine vs midazolam in ICU sedation — JAMA) Dexmedetomidine vs midazolam for sedation of critically ill patients: a randomized trial. JAMA, 2009.
  3. Devlin JW, Skrobik Y, Gelinas C, et al. (SCCM PADIS Guidelines 2018 — pain, agitation, delirium, immobility, sleep disruption in adult ICU patients) Clinical practice guidelines for the prevention and management of pain, agitation/sedation, delirium, immobility, and sleep disruption in adult patients in the ICU. Crit Care Med, 2018.
  4. Papazian L, Forel JM, Gacouin A, et al. (ACURASYS — neuromuscular blockers in ARDS — N Engl J Med) Neuromuscular blockers in early acute respiratory distress syndrome. N Engl J Med, 2010.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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