Sedação em UTI — evolução do paradigma, RASS e CAM-ICU
PARADIGMA DA SEDAÇÃO EM UTI — evolução histórica:
Era da sedação profunda (anos 1980-2000): prática dominante de sedar profundamente todos os pacientes ventilados mecanicamente → sem dor, sem memória, sem movimentos → mas: prolongamento da ventilação mecânica, PICS (Post-Intensive Care Syndrome), disfunção cognitiva pós-UTI, miopatia do paciente crítico
Virada paradigmática (2000-presente): múltiplos estudos (ABCDEF Bundle, sedation vacations) demonstraram que sedação leve e analgosedação são superiores → metas modernas:
- ABCDEF Bundle (Society of Critical Care Medicine):
- A: Avaliação e manejo de Analgesia (analgesia antes de sedação — analgosedação) - B: Despertar Espontâneo (SAT — Spontaneous Awakening Trials) + Ventilação Espontânea (SBT) - C: Escolha de sedação e analgesia - D: Delirium — monitoração e manejo - E: Exercício e mobilização precoce - F: Família — participação e suporte
RASS (Richmond Agitation-Sedation Scale) — a escala de sedação mais validada e usada:
- +4: COMBATIVO (violento, perigo imediato para a equipe)
- +3: MUITO AGITADO (puxa dispositivos, agressivo)
- +2: AGITADO (movimentos não-propositais frequentes, luta com ventilador)
- +1: INQUIETO (ansioso, movimentos não vigorosos)
- 0: ALERTA E CALMO (meta em paciente colaborativo)
- -1: SONOLENTO (resposta sustentada > 10s ao chamado/estímulo verbal)
- -2: SEDAÇÃO LEVE (resposta breve < 10s ao estímulo verbal, abre olhos)
- -3: SEDAÇÃO MODERADA (movimento ao estímulo verbal mas sem contato visual)
- -4: SEDAÇÃO PROFUNDA (sem resposta ao verbal, movimento ao estímulo físico/doloroso)
- -5: NÃO DESPERTA (sem resposta a qualquer estímulo)
Meta de RASS moderna: -1 a 0 (sonolento a alerta/calmo) para maioria dos pacientes ventilados mecanicamente; sedação profunda (≤ -3) é reservada para situações específicas: SDRA grave com low-tidal-volume, hipertensão intracraniana, status epilepticus, hipotermia terapêutica pós-PCR, paralisia neuromuscular
DELÍRIO NA UTI:
- Delírio = síndrome neuropsiquiátrica aguda com distúrbio de atenção, consciência e cognição; flutuante
- Prevalência em UTI: 30-80% dos pacientes ventilados; associado a aumento de mortalidade, duração de ventilação, internação prolongada, disfunção cognitiva persistente
- Tipos: hiperativo (agitado, confuso — mais fácil de detectar), hipoativo (quieto, letárgico — mais frequente e mais grave, frequentemente não diagnosticado), misto
- CAM-ICU (Confusion Assessment Method for ICU): ferramenta validada para diagnóstico de delírio em pacientes não-verbais (intubados); avalia: (1) mudança aguda no estado mental; (2) desatenção; (3) pensamento desorganizado; (4) nível de consciência alterado; positivo se 1+2 + (3 ou 4)
- Prevenção do delírio: reorientação, ciclo sono-vigília (reduzir luzes/barulho à noite), mobilização precoce, óculos/aparelho auditivo do paciente, comunicação frequente, minimizar benzodiazepínicos (fortemente associados ao delírio)
ANALGOSEDAÇÃO (analgesia-first sedation):
- Princípio: tratar a DOR antes de adicionar sedação → a dor não tratada é causa de agitação; em muitos pacientes, analgesia eficaz + minimização de sedação são suficientes para conforto
- Analgesia em UTI: fentanil ou morfina em infusão contínua ou PCA; remifentanil em baixa dose; ketamina em dose sub-anestésica (0.1-0.3 mg/kg/h) como opioide-poupador; dipirona IV/paracetamol IV; cetoprofeno IV
- Escala de dor em paciente não-verbal: BPS (Behavioural Pain Scale — 3-12; avalia expressão facial, movimento de membros superiores, compliance com ventilador) ou CPOT (Critical-Care Pain Observation Tool)
Dexmedetomidina, propofol e midazolam — farmacologia e comparação clínica
DEXMEDETOMIDINA (Precedex® — Pfizer/Hospira; Dexdor® — Orion; genérico):
Mecanismo: agonista α2-adrenérgico altamente seletivo (razão α2:α1 de 1600:1 — muito mais seletivo que clonidina que é ~200:1):
- Locus coeruleus (núcleo noradrenérgico pontino — regulador do sono e vigilância): ativação dos autorreceptores α2 pré-sinápticos → inibição da descarga noradrenérgica → hiperpolarização dos neurônios do LC → indução de estado similar ao sono natural (estágio N2 de sono NREM) → sedação SEM amnésia total e com PRESERVAÇÃO DOS REFLEXOS PROTETORES DE VIAS AÉREAS
- Medula espinhal (corno posterior): ativação de α2 no corno dorsal → inibição da transmissão de sinais nociceptivos → analgesia moderada (não equipotente a opioides, mas significativa — reduz consumo de opioides)
- Periférico: receptores α2 pré-sinápticos vasculares → inibição de liberação de noradrenalina → vasodilatação (hipotensão); a ativação α2 pós-sináptica vascular pode causar vasoconstrição com doses altas/bolus
Características farmacológicas únicas:
- Sedação cooperativa: o paciente sob dexmedetomidina pode ser despertado por estímulo verbal, responder a comandos simples, interagir, e depois voltar a dormir quando o estímulo cessa → ideal para procedimentos acordados (intubação acordada), desmame de ventilação, e durante SAT
- SEM depressão respiratória clinicamente relevante em doses terapêuticas (não causa apneia; os reflexos de vias aéreas são preservados) → pode ser usada em pacientes não intubados ou durante desmame
- Não tem efeito amnésico potente (ao contrário de midazolam/propofol)
Dose: 0.2-1.5 μg/kg/h em infusão contínua IV; dose de ataque: 1 μg/kg em 10 min (opcional — frequentemente omitida pelo risco de hipertensão transitória/hipotensão)
Indicações na UTI:
- Sedação de curta duração (< 24h) em pacientes ventilados mecanicamente — meta RASS -1 a -2
- Procedimentos em pacientes não intubados: broncoscopia, cardioversão, pequenas cirurgias sob sedação
- Alternativa ao benzodiazepínico para prevenção/tratamento de delírio — o MENDS2 e SEDCOM trials mostraram menor incidência de delírio com dexmedetomidina vs midazolam (redução de 36% no SEDCOM trial)
- Desmame de ventilação mecânica: facilita o weaning por manter o paciente calmo mas cooperativo
- Síndromes de abstinência (álcool — delirium tremens, opioides) — não é tratamento principal, mas adjuvante
Efeitos adversos:
- Bradicardia: frequente (20-30%); manejo: reduzir dose, atropina, considerar marcapasso temporário em casos graves; CAUTELA ou CONTRAINDICAÇÃO em bloqueio AV avançado pré-existente, bradicardia sinusal grave
- Hipotensão: frequente especialmente no início e na dose de ataque; manejo: fluidos, vasopressores (noradrenalina), reduzir dose
- Hipertensão paradoxal com doses altas ou bolus (vasoconstrição α2 periférica)
- SEM efeito no perfil neurológico-disfuncional (não causa delírio como benzo, mas não trata delírio ativo estabelecido de forma potente)
PROPOFOL — (veja também artigo sobre anestesia geral) — na UTI:
- Infusão contínua 5-50 μg/kg/min para sedação; profundidade facilmente titulável; despertar rápido ao reduzir dose
- Potencia receptor GABA-A → hipnose profunda, amnésia; causa mais amnésia que dexmedetomidina
- PRIS (risco em infusões > 48h, dose > 4-5 mg/kg/h): monitorar triglicérides, CPK, bicarbonatemia; limitar dose
- Preferido para sedação de curta duração (< 48h) e para pacientes que precisam de avaliação neurológica frequente (acorda rapidamente ao reduzir infusão)
- Vantagem em SDRA: reduz pressão intracraniana em neurocríticos
MIDAZOLAM (benzodiazepínico) — em desuso como sedação de rotina:
- Potencia receptor GABA-A por sítio diferente do propofol/barbitúricos → liga-se ao sítio benzodiazepínico (interface α-γ do GABA-A) → facilita abertura do canal Cl⁻
- Metabolizado pelo fígado em α-hidroximidazolam (metabólito ativo) → acúmulo em insuficiência hepática e renal
- Alta associação com delírio (maior que propofol ou dexmedetomidina) → EVITAR uso prolongado em UTI
- Sedação prolongada → acúmulo tecidual → despertar lento e imprevisível ("sedação de longa cauda")
- Uso atual em UTI: principalmente para controle agudo de agitação intensa, status epilepticus, abstinência de álcool/benzodiazepínico, pré-medicação antes de procedimentos
SEDAÇÃO NEUROCRÍTICA (TCE, hemorragia subaracnóidea, AVE, hipertensão intracraniana — HIC):
- Propofol: de escolha em neurológicos — reduz metabolismo cerebral (CMRO2) e PIC; permite neurological check rápido
- Fentanil: opioide de escolha (curta ação, controla dor pós-procedimento craniano)
- Midazolam: segunda linha em HIC refratária
- Dexmedetomidina: CAUTELA em HIC (hipotensão pode reduzir CPP — pressão de perfusão cerebral); pode ser usada com monitoramento
PARALISIA NEUROMUSCULAR (bloqueio neuromuscular — BNM) na UTI — distinto da sedação:
- Agentes: vecurônio (esteroideal), cisatracúrio (benzilisoquinolinídeo — de escolha na SDRA pois não libera histamina e metabolismo independente de órgãos — Hofmann)
- Indicações: SDRA grave (P/F < 150) com melhora de desfecho (ACURASYS trial — redução de mortalidade em 90 dias com cisatracúrio 48h vs placebo; ROSE trial posterior não confirmou — debate ainda aberto); hipotermia terapêutica pós-PCR (previne tremores que aumentam consumo de O2); status epilepticus refratário (BIS — eletroencefalograma de amplitude necessário para avaliar atividade epiléptica em paralisia)
- O paciente em BNM DEVE ter sedação e analgesia ADEQUADAS — sem BNM, o paciente pode estar consciente e sentindo dor sem expressar clinicamente (NUNCA usar BNM sem sedação profunda garantida)