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← Blog·peptideos03 de agosto de 2026· 11 min de leitura

Colchicina cardiovascular — LoDoCo2 e COLCOT: mecanismo anti-inflamatório, redução de eventos coronários e indicação em gota e pericardite

Colchicina é um alcaloide que inibe a polimerização de tubulina — interfere com a formação do inflamassoma NLRP3 e a quimiotaxia de neutrófilos. LoDoCo2 (0.5 mg/dia em DAC crônica) e COLCOT (pós-IAM) demonstraram redução de eventos cardiovasculares maiores. Indicada para gota aguda, profilaxia de flares, pericardite aguda e recorrente. Diarreia é o principal EA; interações com CYP3A4 e P-gp.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Colchicina — mecanismo de ação molecular e indicações clássicas

COLCHICINA — um fármaco com >2.000 anos de história (extraída do Colchicum autumnale — açafrão-do-prado) mas com aplicações novas e emergentes:

MECANISMO DE AÇÃO MOLECULAR:

  1. Inibição da polimerização de tubulina:

- Colchicina se liga à tubulina na interface α/β (sítio de colchicina — distinto do sítio de paclitaxel) → impede a polimerização de α e β-tubulina em microtúbulos - Microtúbulos são essenciais para: divisão celular (fuso mitótico), transporte intracelular, motilidade celular, quimiotaxia e ativação de neutrófilos e macrófagos - Resultado: neutrófilos e macrófagos não conseguem migrar ao sítio inflamatório, não conseguem liberar seus grânulos (desgranulação inibida), e não conseguem ativar o inflamassoma da maneira usual

  1. Inibição do Inflamassoma NLRP3:

- O inflamassoma NLRP3 (NLR family pyrin domain-containing 3) é um complexo multiproteico que, quando ativado por cristais (urato, pirofosfato de cálcio — em gota e pseudogota) ou outros DAMPs/PAMPs → cliva pró-IL-1β e pró-IL-18 em suas formas ativas (IL-1β e IL-18 maduras) - IL-1β é a citocina MESTRA da inflamação da gota: recruta mais neutrófilos, aumenta síntese de IL-6 e outros mediadores → crise de gota - Colchicina → inibe o inflamassoma NLRP3 (possivelmente por estabilização do citoesqueleto que impede a montagem do inflamassoma + efeitos na mitocôndria) → menos IL-1β ativa → menos inflamação - Este mecanismo também explica o efeito em doenças com ativação do NLRP3: pericardite, febre familiar do Mediterrâneo, aterosclerose

  1. Inibição de quimiotaxia de neutrófilos: colchicina reduz a expressão de E-selectina e ICAM-1 no endotélio → menos adesão de neutrófilos; e reduz a migração dos próprios neutrófilos

INDICAÇÕES CLÁSSICAS:

GOTA AGUDA:

  • Colchicina é a alternativa aos AINEs na gota aguda (quando AINEs contraindicados — IR, anticoagulação, gastroenteropatia)
  • Dose baixa (LOW-DOSE COLCHICINE): 1.2 mg inicial → 0.6 mg 1h depois — estudo AGREE mostrou que esta dose baixa é tão eficaz quanto a dose alta mas com muito menos diarreia e EA GI; é o esquema ATUAL recomendado para gota aguda (não mais o protocolo de "até diarreia" que era antigo e perigoso)
  • Melhor eficácia se iniciada nas PRIMEIRAS 24-36h do início da crise; muito menos eficaz após 72h (os neutrófilos já infiltraram completamente)

PROFILAXIA DE FLARES DE GOTA:

  • Durante a introdução de hipouricemiantes (alopurinol, febuxostat) há mobilização de cristais → risco de flares paradoxais → colchicina 0.5 mg 1-2x/dia por 3-6 meses reduz esses flares

PERICARDITE AGUDA e RECORRENTE:

  • Colchicina é PADRÃO DE CUIDADO no 1º episódio de pericardite aguda e na recorrente
  • Inibe a inflamação pericárdica (cristais de colesterol + NLRP3 ativado no pericárdio?)
  • COPE trial e ICAP trial: colchicina adicional aos AINEs → reduz recorrência de pericardite de 32.3% para 10.7% em 18 meses
  • Dose: 0.5 mg 2x/dia por 3 meses (1º episódio) ou 6 meses (recorrência)

FEBRE FAMILIAR DO MEDITERRÂNEO (FMF):

  • Indicação histórica; único tratamento eficaz para FMF (mutações no gene MEFV → piro protein → inflamassoma ativado → crises de febre + peritonite + sinovite); colchicina previne crises e a amiloidose secundária

Colchicina cardiovascular — LoDoCo2, COLCOT e o paradigma da inflamação na aterosclerose

ATEROSCLEROSE COMO DOENÇA INFLAMATÓRIA: A hipótese inflamatória da aterosclerose é hoje bem estabelecida:

  • Macrófagos acumulam LDL-c oxidado → formam células espumosas na placa
  • Cristais de colesterol dentro da placa ativam o inflamassoma NLRP3 no macrófago → IL-1β liberada → cascata inflamatória → desestabilização da placa → ruptura → IAM/AVC
  • A prova conceito: CANTOS trial (2017): canakinumabe (anti-IL-1β, anticorpo monoclonal humano) em pós-IAM com PCR-as elevada → redução de MACE de 15% (mas com aumento de infecções fatais e custo altíssimo → canakinumabe não se tornou prática clínica na prevenção cardiovascular, mas provou a hipótese inflamatória)

COLCHICINA CARDIOVASCULAR — a via mais prática e barata:

COLCOT trial (2019, NEJM):

  • 4.745 pacientes com IAM recente (< 30 dias) + tratamento padrão (estatina, aspirina, P2Y12-i)
  • Colchicina 0.5 mg/dia vs placebo; seguimento mediano: 22.6 meses
  • Desfecho primário composto (MACE modificado: morte cardiovascular + ressuscitação PCR + IAM, AVC, angina instável com revascularização urgente): RR 0.77 (23% de redução, p=0.02)
  • Redução marcante: AVC (0.8% vs 1.8% — 56% de redução) + revascularização urgente
  • EA: diarreia mais frequente com colchicina (8.9% vs 6.2% — placebo)

LoDoCo2 trial (2020, NEJM) — DOENÇA ARTERIAL CORONÁRIA (DAC) CRÔNICA:

  • 5.522 pacientes com DAC crônica estável + tratamento padrão
  • Colchicina 0.5 mg/dia vs placebo; seguimento mediano: 28.6 meses
  • Desfecho primário (morte cardiovascular, IAM, AVC isquêmico, revascularização coronária urgente): HR 0.69 (31% de redução, p<0.001)
  • IAM: 43% de redução; AVC: 26% de redução
  • EA: efeitos não-cardiovasculares aumentados com colchicina (3.0% vs 2.1% — inclui raros casos de PAF/fibrilação atrial e pneumonite; o mecanismo da arritmia não está claro mas foi observado)

ZEUS trial (2024, Lancet) — ANÁLISE COMPLEMENTAR:

  • Colchicina pós-IAM em pacientes com implante de stent; similar benefício
  • Confirmou que os benefícios cardiovasculares são consistentes

APROVAÇÃO REGULATÓRIA:

  • FDA (2023): Lodoco® (colchicina 0.5 mg, formulação específica de baixa dose) aprovada para redução de risco cardiovascular em adultos com DAC estabelecida ou múltiplos fatores de risco
  • Torna a colchicina a 1ª terapia anti-inflamatória (não-hipolipemiante, não-antitromborretocá) aprovada para prevenção cardiovascular
  • No Brasil: colchicina genérica disponível, mas a formulação de 0.5 mg é a mais indicada (a formulação original de 0.5 mg/comprimido e 1 mg/comprimido estão disponíveis)

POSOLOGIA CARDIOVASCULAR: 0.5 mg 1x/dia (dose crônica); não há dose de ataque cardiovascular

FARMACOCINÉTICA E INTERAÇÕES:

  • Absorção oral variável (24-88%); metabolismo hepático via CYP3A4 e substrato de P-glicoproteína (P-gp)
  • Interações CRÍTICAS:

- Inibidores fortes de CYP3A4 (claritromicina, eritromicina, azólicos, ritonavir) + P-gp (ciclosporina, verapamil): aumentam colchicina → RISCO DE TOXICIDADE GRAVE (incluindo neuropatia, miopatia, citopenia, colapso) - Estatinas: maior risco de miopatia com combinação (colchicina + estatina via CYP3A4 competição) - Insuficiência renal grave (TFG < 30) e hepática grave: CONTRAINDICADO

EFEITOS ADVERSOS:

  • Diarreia (10-40% — dose-dependente): mais comum com 1 mg 2x/dia do que com 0.5 mg/dia
  • Náusea e vômito (GI geral)
  • Miopatia e neuropatia periférica: rara mas mais grave; especialmente com interações CYP3A4 ou IR
  • Pancitopenia: muito raro; monitorar hemograma em uso crônico
  • Alopecia reversível (uso crônico longo)
  • Oligospermia reversível em homens (interrupção normaliza)
  • Teratogênico: contraindicado na gestação (exceto na FMF onde o risco da doença supera)
  • Pneumonite (raros casos relatados nos trials cardiovasculares)

RILONACEPT e ANAKINRA em gota recorrente: quando colchicina e AINEs são contraindicados, os inibidores de IL-1 (rilonacept, anakinra — ambos anti-IL-1) são opções para flares agudos e profilaxia — especialmente em IR grave

Perguntas frequentes sobre colchicina

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Colchicina pode ser usada preventivamente para infarto mesmo sem gota?+

Sim — e isso é exatamente o que os grandes ensaios clínicos LoDoCo2 e COLCOT demonstraram. A colchicina em dose baixa (0.5 mg/dia) reduz o risco de infarto, AVC e necessidade de revascularização urgente em pacientes com doença arterial coronária estabelecida, mesmo sem gota. O FDA aprovou em 2023 a colchicina 0.5 mg (Lodoco®) especificamente para essa indicação cardiovascular. O mecanismo é diferente do uso na gota: na aterosclerose, a colchicina reduz a inflamação dentro da placa aterosclerótica (principalmente via inibição do inflamassoma NLRP3 e da IL-1β) — estabilizando a placa e reduzindo a chance de ruptura que causa o infarto. Quem pode se beneficiar: pacientes com DAC crônica já em estatina de alta intensidade e outros tratamentos padrão que ainda têm risco residual; pacientes pós-IAM recente (< 30 dias — conforme COLCOT). A adição da colchicina a esses pacientes representa uma camada adicional de proteção cardiovascular. Os pontos a considerar: diarreia é o EA mais comum (mas 0.5 mg/dia causa muito menos diarreia que doses maiores); interações importantes com claritromicina/azólicos (devem ser evitados juntos); contraindicação em IR grave. Converse com seu cardiologista sobre se você seria um bom candidato — não inicie por conta própria, pois requer avaliação de risco/benefício individual.

Qual é a dose certa de colchicina para crise de gota? O protocolo antigo 'até dar diarreia' ainda é válido?+

Não — o protocolo antigo de 'tomar colchicina até dar diarreia' é OBSOLETO e perigoso. Era usado décadas atrás mas causava toxicidade desnecessária. O regime atual, baseado no estudo AGREE (randomizado, 2010), é a dose baixa: 1.2 mg (2 comprimidos de 0.6 mg ou 2 comprimidos de 0.5 mg) imediatamente ao início da crise, seguido de 0.6 mg (1 comprimido) 1 hora depois. Total: 1.8 mg nas primeiras 2 horas. Isso é tudo para o episódio agudo — não continuar em doses altas. A dose baixa foi tão eficaz quanto a alta (1.8 mg inicial + 0.6 mg a cada hora por 6 doses) na redução de dor em 24 horas, mas com diarreia em apenas 23% vs 77% no esquema de alta dose. Para melhor resultado: iniciar DENTRO das primeiras 12-24 horas do início dos sintomas (quanto antes, melhor — após 72h, a eficácia cai muito). Após a fase aguda, pode-se continuar com colchicina profilática 0.5 mg 1-2x/dia por 3-6 meses se for iniciar alopurinol ou outro hipouricemiante. Lembre: a colchicina trata o flare de gota (dor e inflamação), mas NÃO diminui o ácido úrico — para tratamento definitivo, o alopurinol ou febuxostat são necessários.

Referências Científicas

  1. Tardif JC, Kouz S, Waters DD, et al. (COLCOT trial — colchicine post-MI — N Engl J Med) Efficacy and Safety of Low-Dose Colchicine after Myocardial Infarction. N Engl J Med, 2019.
  2. Nidorf SM, Fiolet ATL, Mosterd A, et al. (LoDoCo2 — colchicine in chronic CAD — N Engl J Med) Colchicine in Patients with Chronic Coronary Disease. N Engl J Med, 2020.
  3. Ridker PM, Everett BM, Thuren T, et al. (CANTOS trial — canakinumab post-MI — N Engl J Med) Antiinflammatory Therapy with Canakinumab for Atherosclerotic Disease. N Engl J Med, 2017.
  4. Terkeltaub RA, Furst DE, Bennett K, et al. (Low-dose vs high-dose colchicine for gout — Arthritis Rheum) High versus low dosing of oral colchicine for early acute gout flare: twenty-four-hour outcome of the first multicenter, randomized, double-blind, placebo-controlled, parallel-group, dose-comparison colchicine study. Arthritis Rheum, 2010.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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