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← Blog·peptideos07 de julho de 2026· 12 min de leitura

Tratamento da gota — colchicina, alopurinol, febuxostat e rasburicase: hiperuricemia, xantina oxidase e cristais de urato monossódico

Gota é a artropatia inflamatória mais prevalente em adultos — causada por depósito de cristais de urato monossódico (MSU) nas articulações em pacientes com hiperuricemia. Colchicina inibe a polimerização da tubulina nos neutrófilos bloqueando a inflamação aguda. Alopurinol e febuxostat inibem a xantina oxidase reduzindo a produção de ácido úrico. Rasburicase oxida rapidamente o urato em alantorna em situações de crise (síndrome de lise tumoral).

B
BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Fisiopatologia da gota — hiperuricemia, cristais de MSU e inflamação

Gota — a artropatia inflamatória cristalina mais importante:

Metabolismo do ácido úrico:

  • Ácido úrico (AU) é o produto final do catabolismo das purinas (adenina e guanina → hipoxantina → xantina → ácido úrico) pela xantina oxidase nos humanos; diferentemente de outros mamíferos (exceto símios), humanos perdem a uricase evolucionariamente → não convertem AU em alantoína (solúvel) → AU é o produto final pouco solúvel
  • Produção: 2/3 endógena (metabolismo celular e turnover de ácidos nucleicos), 1/3 exógena (alimentos ricos em purinas: carnes vermelhas, vísceras, frutos do mar; frutose → induz síntese de purinas; álcool → aumenta produção e reduz excreção de AU)
  • Excreção: 70% renal (ânion orgânico secretado pelos transportadores URAT1/OAT na membrana apical do túbulo proximal; reabsorvido em > 90% e secretado em pequena fração — balanço líquido: excreção de apenas 10% do AU filtrado) + 30% intestinal (ABCG2 transportador no epitélio intestinal)
  • Solubilidade do urato: máxima de 6,8 mg/dL no soro a 37°C (fisiológico); articulações periféricas mais frias (dedo do pé, tornozelo, joelho) têm solubilidade ainda menor (abaixo de 6 mg/dL) → cristalização preferencial nessas áreas frias
  • Hiperuricemia: nível sérico > 6,8 mg/dL (ponto de saturação bioquímica); > 7 mg/dL (critério clínico geralmente adotado); prevalência de 20% em adultos nos EUA; mas apenas 10-20% dos hiperuricêmicos desenvolvem gota clínica

Como os cristais de MSU causam artrite aguda:

  1. Cristais de MSU (monossódio urato monohidratado — forma em agulha, altamente birrefringente negativo na microscopia polarizada — diagnóstico definitivo de gota) depositam-se nas cartilagens, membranas sinoviais e tecidos periarticulares de articulações afetadas
  2. Liberação aguda de cristais (precipitada por trauma minor, cirurgia, dieta rica em purinas, álcool, início de alopurinol, medicações uricosúricas) → fagocitose por sinoviócitos e macrófagos residentes → ativação do inflamassoma NLRP3 (Nod-like receptor pyrin domain 3): cristais são reconhecidos como DAMPs → cristais lisam os lisossomos dos fagócitos → catepsina B liberada → ativa NLRP3 → processamento da caspase-1 → clivagem de pro-IL-1β → secreção de IL-1β ativa
  3. IL-1β ativa endotélio sinovial → liberação de IL-6, TNF-α, IL-8 (CXCL8) → recrutamento massivo de neutrófilos → NETose e mais liberação de cristais → ciclo auto-amplificador de inflamação
  4. Resultado: artrite monoarticular aguda MUITO intensa (extremamente dolorosa), com eritema, calor, edema — o primeiro dedo do pé (articulação metatarsofalangeana — "podagra") em 50-60% dos primeiros ataques; tornozelo, joelho, cotovelo também comuns

Fases clínicas da gota:

  1. Hiperuricemia assintomática (décadas antes da gota clínica)
  2. Artrite gotosa aguda (ataques de 3-10 dias que resolvem espontaneamente)
  3. Gota intercrítica (períodos sem sintomas entre os ataques; progressivamente mais curtos)
  4. Gota crônica tofácea: depósitos de urato (tofos) visíveis e palpáveis subcutaneamente (orelhas, tendão de Aquiles, cotovelo), artropatia crônica destrutiva, urolitíase (cálculos de ácido úrico)

Comorbidades associadas: hipertensão, síndrome metabólica, DRC, DCV, diabetes — o AU é marcador de risco cardiovascular independente; diuréticos tiazídicos e de alça, ciclosporina, pirazinamida (anti-TB), aspirina em dose baixa elevam o AU

Colchicina, AINEs, glicocorticóides, alopurinol, febuxostat e rasburicase

TRATAMENTO DA ARTRITE GOTOSA AGUDA:

COLCHICINA (Colchis® — EMS; genérico):

Mecanismo (antiinflamatório específico para gota):

  • Liga-se à tubulina (subunidade α-β da tubulina) na interface do heterodímero → impede a polimerização dos microtúbulos → microtúbulos são essenciais para quimiotaxia de neutrófilos (migração ativa usando filopódios citoesqueléticos) e para a liberação de grânulos (degranulação) → inibe seletivamente a migração de neutrófilos para a articulação e a fagocitose de cristais
  • Também inibe o processamento do inflamassoma NLRP3 e a secreção de IL-1β pelos neutrófilos
  • Não é analgésico; não reduz ácido úrico; age especificamente na inflamação por cristais de MSU e por cristais de pirofosfato de cálcio (DPCF/pseudogota)

Esquema para ataque agudo de gota: baixa dose (evidência do AGREE trial, Ann Intern Med 2010): colchicina 1,2 mg VO na primeira dose → 0,6 mg após 1h → depois 0,6 mg 2x/dia até resolução (máximo 3 dias); NÃO usar alta dose (1,2 mg a cada 2h até diarreia — esquema antigo obsoleto → mesmo eficácia, muito mais toxicidade GI)

Profilaxia de novos ataques durante início de terapia hipouricemiante: colchicina 0,5-0,6 mg 1-2x/dia por 6 meses (o início do alopurinol mobiliza depósitos de urato → pode precipitar ataques agudos → colchicina profilática previne isso)

Toxicidade:

  • GI dose-dependente: diarreia, náuseas, vômitos, cólica (inibição de microtúbulos em células intestinais de rápida divisão → atrofia vilositária) → dose baixa moderna reduz muito essa toxicidade
  • Miopatia e neuropatia: especialmente em uso crônico e em IR/IH → monitorar CK em uso crônico
  • Inibição de medula óssea: com superdose ou uso crônico em IR → pancitopenia
  • Interações: ciclosporina → nível de colchicina aumenta muito (P-gp e CYP3A4 compartilhados) → miopatia e neuropatia graves; também com eritromicina, claritromicina, fluconazol, estatinas (sinergismo para miopatia)
  • Contraindicações: IR grave (TFG < 30), IH grave, uso de inibidores de P-gp/CYP3A4 potentes

AINEs (naproxeno, indometacina, ibuprofeno): primeira linha alternativa; contraindicados em IR, DCV, úlcera péptica; indometacina 50 mg 3x/dia por 3-5 dias → eficaz mas mais efeitos GI e cardiovasculares que colchicina

Glicocorticóides (prednisona, prednisolona, metilprednisolona IV, betametasona/triamcinolona intra-articular): quando colchicina e AINEs são contraindicados (especialmente em IR, IC avançada, polimedicados); prednisona 30-40 mg/dia por 3-5 dias; injeção intra-articular de triancinolona é excelente em monoartrite acessível

ANAKINRA (Kineret® — Sobi): antagonista do receptor de IL-1 (IL-1Ra) → bloqueia IL-1β (central na gota); reservado para gota refratária ou quando todas as opções acima são contraindicadas; uso off-label mas eficaz

TRATAMENTO CRÔNICO — TERAPIA HIPOURICEMIANTE (ULT):

Quando iniciar ULT? ACR (American College of Rheumatology) guidelines 2020: iniciar quando: ≥ 2 ataques de gota por ano; OU ataque único + DRC estágio ≥ 3; OU tofos (clínicos ou radiológicos); OU urolitíase por ácido úrico; OU artropatia radiológica por gota. Alvo de AU sérico: < 6 mg/dL (< 5 mg/dL em presença de tofos para dissolver os depósitos)

ALOPURINOL (Zyloprim® — Aspen; genérico) — primeira linha, mais usada globalmente:

Mecanismo: inibe a xantina oxidase (XO) → sem conversão de hipoxantina → xantina → ácido úrico → acúmulo de hipoxantina e xantina (mais solúveis que ácido úrico, excretadas facilmente) → queda de AU sérico e urinário (ao contrário dos uricosúricos que deslocam o AU para a urina);

  • Alopurinol é metabolizado a oxipurinol (metabolito ativo de meia-vida longa — 18-30h) que é o inibidor principal de XO
  • Oxipurinol é eliminado por excreção renal → acumula em IR → reduzir dose (iniciar com 50 mg/dia em IR grave, aumentar lentamente)

Dosagem: iniciar com 100 mg/dia → aumentar 100 mg a cada 2-4 semanas monitorando AU sérico → dose alvo que alcance AU < 6 mg/dL (pode ser 200-800 mg/dia); começar ao mesmo tempo que profilaxia com colchicina

Toxicidade:

  • DRESS/SJS (Allopurinol hypersensitivity syndrome): reação rara mas potencialmente fatal; síndrome de hipersensibilidade grave com febre, rash, eosinofilia, hepatite, nefrite; especialmente risco com HLA-B*5801 (muito prevalente em coreanos — 6-8%, tailandeses — 8%, han-chineses — 6-8%; raro em europeus — 0.1%) → triagem HLA-B*5801 obrigatória antes de iniciar alopurinol em descendentes de grupos de alto risco
  • Rash maculopapular (2-5%): interromper imediatamente; após meses pode tentar dessensibilização
  • Azatioprina + alopurinol: CONTRAINDICAÇÃO ABSOLUTA — alopurinol inibe XO que metaboliza 6-mercaptopurina (produto ativo da azatioprina) → acúmulo massivo de 6-MP → pancitopenia fatal; se necessitar ambos, reduzir azatioprina para 25% da dose

FEBUXOSTAT (Adenuric® — Menarini; Uloric® — EUA; Takeda):

Mecanismo: inibidor NÃO-purínico (estrutura diferente do alopurinol) de xantina oxidase → inibe tanto a forma oxidada quanto reduzida de XO (mais completo que alopurinol que inibe só a forma reduzida) → mais potente na redução do AU

Vantagens sobre alopurinol: NÃO requer ajuste de dose em IR leve-moderada (metabolizado pelo fígado — não acumula em IR); NÃO tem risco de hipersensibilidade HLA-B*5801; pode ser usado em pacientes que tiveram reação leve ao alopurinol (estrutura diferente)

Dosagem: 40-120 mg/dia VO 1x/dia

Segurança cardiovascular: trial CARES (NEJM 2018): febuxostat vs alopurinol em cardiopatas com gota — mortalidade cardiovascular significativamente MAIOR com febuxostat (HR 1.34); FDA emitiu black box warning em 2019; usar com cautela ou preferir alopurinol em pacientes com DCV estabelecida; trial subsequente (FAST, Lancet 2020, pacientes de alto risco CV) não encontrou diferença significativa → debate permanece

PROBENECIDA / BENZBROMARONA (uricosúricos):

  • Inibem os transportadores de reabsorção de urato (URAT1 e OAT4) no túbulo proximal → mais urato excretado na urina → AU sérico cai
  • Problema: AU urinário AUMENTA → risco de cálculos renais e nefropatia úrica (hiperhidratação essencial); NÃO usar em IR (TFG < 30 — perdem eficácia) ou em urolitíase prévia
  • Alternativas de 2ª linha quando alopurinol e febuxostat são inadequados

RASBURICASE (Fasturtec® — Sanofi-Genzyme):

  • Uricase recombinante → oxida o urato diretamente em alantoína (muito mais solúvel) → queda rápida e drástica do AU sérico em horas
  • Indicação específica: profilaxia e tratamento da hiperuricemia na síndrome de lise tumoral (SLT) — leucemias agudas, linfomas de alto grau em quimioterapia: maciça lise de células tumorais libera DNA → hipoxantina → xantina → AU → depósito em rim → IRA por nefropatia úrica; rasburicase elimina esse AU com eficácia muito superior ao alopurinol na SLT grave
  • Contraindicação ABSOLUTA: deficiência de G6PD — rasburicase gera H₂O₂ como subproduto → hemólise grave em G6PD deficientes → TRIAGEM OBRIGATÓRIA de G6PD antes do uso (especialmente em africanos, mediterrâneos, asiáticos — populações de alto risco para déficit de G6PD)
  • Amostra de sangue para AU: deve ser coletada em tubo resfriado em gelo e processada imediatamente → rasburicase continua oxidando o urato in vitro na amostra após coleta → resultados falsamente baixos se amostra não for imediatamente resfriada/processada

Perguntas frequentes sobre gota e hiperuricemia

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Preciso cortar totalmente a carne e o álcool se tenho gota?+

A dieta impacta o ácido úrico, mas em menor grau do que se pensava historicamente. A hiperuricemia na gota é primariamente genética (variantes nos genes ABCG2, SLC22A12 que regulam a excreção de urato) — a dieta contribui mas raramente é a causa principal. Dito isso, modificações dietéticas podem reduzir o ácido úrico sérico em 1-2 mg/dL e reduzir a frequência de ataques: O que evitar ou moderar: carnes de órgãos/vísceras (fígado, rim, coração — altíssimas em purinas) e frutos do mar (sardinhas, mexilhão, anchovas, camarão — purinas concentradas) têm impacto mais significativo; bebidas alcoólicas, especialmente cerveja (rica em guanosina) e destilados (etanol eleva AU por reduzir a excreção renal de urato) — melhor eliminar durante ataques agudos e moderar cronicamente; frutose (refrigerantes com xarope de milho de alta frutose, sucos industrializados) — frutose eleva AU de forma independente da dieta purínica (via síntese de novo de purinas); carnes vermelhas em excesso. O que pode continuar com moderação: carnes magras de aves; laticínios com baixo teor de gordura (lacticínios são protetores — reduzem urato); vegetais ricos em purinas como espinafre, cogumelos, aspargos não parecem elevar significativamente o AU na prática clínica (purinas vegetais têm menor biodisponibilidade). O que ajuda: hidratação adequada (2-3L/dia) reduz concentração de urato e previne cálculos; café (2+ xícaras/dia associado a menor risco de gota); vitamina C (500 mg/dia tem pequeno efeito uricosúrico). Conclusão prática: modificações dietéticas são adjuvantes mas raramente suficientes sozinhas para controlar gota estabelecida com ataques frequentes — a terapia hipouricemiante (alopurinol) é o pilar do tratamento e não deve ser adiada esperando resultado apenas com dieta.

Por que o alopurinol pode precipitar um ataque de gota no início do tratamento?+

Paradoxalmente, iniciar ou aumentar a dose de alopurinol (ou febuxostat) pode precipitar ataques agudos de gota nos primeiros 6 meses de tratamento — isso é bem conhecido e tem explicação fisiopatológica clara. Quando o alopurinol reduz o nível sérico de ácido úrico subitamente, os depósitos de urato monossódico acumulados nos tecidos (cartilagens, sinoviais, tofos) começam a se mobilizar e se dissolver gradualmente. Durante esse processo de mobilização, cristais podem ser liberados das superfícies dos depósitos para o espaço articular → desencadeiam inflamação aguda indistinguível de um ataque espontâneo de gota. Isso NÃO significa que o alopurinol está fazendo mal — na verdade é sinal de que está funcionando (mobilizando os depósitos), mas pode ser alarmante para o paciente que acha que o remédio "piorou" a doença. Como prevenir esses ataques de mobilização: profilaxia anti-inflamatória concomitante é recomendada por 3-6 meses quando se inicia o alopurinol: colchicina 0,5-0,6 mg 1-2x/dia (preferencial, com menos efeitos que AINEs crônicos) OU AINE baixa dose diária OU prednisona baixa dose (se as outras são contraindicadas). A profilaxia deve ser mantida por pelo menos 6 meses, ou até que o AU sérico esteja bem controlado (< 6 mg/dL) por alguns meses consecutivos. Não suspender o alopurinol durante um ataque agudo — isso é um erro comum. Continuar o alopurinol durante o ataque e tratar o ataque com colchicina/AINE separadamente.

Referências Científicas

  1. Khanna D, Khanna PP, Fitzgerald JD, et al. (ACR guidelines for management of gout 2012 — part 2: therapy) 2012 American College of Rheumatology Guidelines for Management of Gout. Part 2: Therapy and Antiinflammatory Prophylaxis of Acute Gouty Arthritis. Arthritis Care Res (Hoboken), 2012.
  2. Terkeltaub RA, Furst DE, Bennett K, et al. (AGREE trial — low dose colchicine for acute gout) High versus low dosing of oral colchicine for early acute gout flare: Twenty-four-hour outcome of the first multicenter, randomized, double-blind, placebo-controlled, parallel-group, dose-comparison colchicine study. Arthritis Rheum, 2010.
  3. White WB, Saag KG, Becker MA, et al. (CARES trial — febuxostat cardiovascular safety vs allopurinol) Cardiovascular Safety of Febuxostat or Allopurinol in Patients with Gout. N Engl J Med, 2018.
  4. Richette P, Doherty M, Pascual E, et al. (EULAR recommendations for the management of gout 2016) 2016 updated EULAR evidence-based recommendations for the management of gout. Ann Rheum Dis, 2017.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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