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← Blog·peptideos11 de julho de 2026· 12 min de leitura

Antimaláricos — cloroquina, hidroxicloroquina e artesunato: mecanismo no heme, malária grave, lúpus e artrite reumatoide

Antimaláricos têm ação diversa: cloroquina e hidroxicloroquina inibem a heme polimerização no lisossomo do Plasmodium → acúmulo tóxico de heme livre. Artesunato (derivado da artemisinina) gera radicais livres que danificam proteínas do parasita. Hidroxicloroquina é amplamente usada em lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatoide por seus efeitos imunomoduladores e antiinflamatórios independentes do Plasmodium.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Malária — ciclo do Plasmodium e mecanismo dos antimaláricos clássicos

MALÁRIA — infecção pelo protozoário Plasmodium (5 espécies que infectam humanos: P. falciparum, P. vivax, P. ovale, P. malariae, P. knowlesi):

  • ~250 milhões de casos anuais + 600.000 mortes (2022, OMS) — principalmente África subsaariana e Sul/Sudeste Asiático; no Brasil: Amazônia (P. vivax em 80%, P. falciparum em 20%)
  • P. falciparum = mais grave: citoaderência (eritrócitos infectados se ligam ao endotélio via PfEMP1 → obstrução microvascular) → malária grave (cerebral, pulmonar, renal), coma, morte
  • P. vivax: hipnozoítas dormentes no fígado → recaídas meses-anos depois

Ciclo de vida (simplificado):

  1. Esporozoítos injetados pelo mosquito Anopheles → hepatócitos → esquizontes hepáticos → merozoítos liberam para corrente sanguínea (fase hepática = assintomática)
  2. Merozoítos invadem eritrócitos → trofozoítos → esquizontes eritrocitários → ruptura eritrócito (liberação de merozoítos, hemozoína, toxinas) → febre, calafrios, anemia (fase eritrocitária = sintomática; ciclos de 48h para P. falciparum/vivax, 72h para P. malariae)
  3. Gametócitos (feminino + masculino) → mosquito os ingere → fertilização no intestino do mosquito → oocistos → esporozoítos nas glândulas salivares → próxima picada

Digestão de hemoglobina pelo Plasmodium (alvo do cloroquina):

  • O Plasmodium na fase eritrocitária digere a hemoglobina no VACÚOLO DIGESTIVO (organela ácida, pH 5.0-5.5 — compartimento lisossomal) para obter aminoácidos para sua própria síntese proteica
  • Libera o grupo prostético heme (ferroprotoporfrina IX = FP) → heme livre é ALTAMENTE TÓXICO (gera ROS, lisa membranas)
  • O Plasmodium cristaliza o heme em hemozoína (malária pigment — β-hematina) → forma insolúvel e não-tóxica; essa cristalização é realizada pela proteína PfHRP2 e outras proteínas

MECANISMO DOS ANTIMALÁRICOS QUINOLÍNICOS:

Cloroquina e Hidroxicloroquina — inibem a heme polimerização:

  1. São bases fracas → concentram-se nos compartimentos ácidos (vacúolo digestivo) por ion trapping (molécula protonada → carregada → fica presa no compartimento ácido) → concentração 1000x maior que no plasma
  2. Ligam-se ao heme monômero e dímero → bloqueiam a polimerização → acúmulo de heme livre tóxico → ROS → dano de membrana → morte do parasita
  • Também interagem com a membrana lisossomal das células hospedeiras (imunossupressão — base para uso em lúpus/AR — discutido abaixo)

Resistência à cloroquina (P. falciparum):

  • Mutações no gene pfcrt (P. falciparum chloroquine resistance transporter — CRT) → bomba de efluxo que expulsa a cloroquina do vacúolo digestivo → cloroquina não se acumula → não age
  • Resistência à cloroquina em P. falciparum é praticamente universal na África subsaariana, partes da Ásia, América do Sul; P. vivax tem resistência à cloroquina crescente no Sudeste Asiático e Papua Nova Guiné; No Brasil, P. falciparum é tratado com ACT (artemisina + lumefantrina) desde 2010 porque a resistência à cloroquina é elevada; P. vivax ainda é tratado com cloroquina + primaquina no Brasil

MECANISMO DA ARTEMISININA e ARTESUNATO:

  • Artemisinina: endoperóxido sesquiterpenoide extraído de Artemisia annua (qinghao) — descoberta pela chinesa Tu Youyou (Nobel de Fisiologia 2015)
  • O heme (ferro heme do hemoglobina digerida) ATIVA o artesunato → clivagem da ponte endoperóxido (O-O) → radical centrado no carbono → alquilação de proteínas do parasita (PfATP6 — Ca-ATPase, proteínas do complexo ribossomal, proteínas de biosíntese da parede) → morte parasitária
  • Artesunato: pró-fármaco mais solúvel (hemisuccinato da dihidroartemisinina — DHA) → convertido rapidamente a DHA no plasma → alta biodisponibilidade IV e oral; ação MUITO RÁPIDA (clearance parasitário em horas vs dias com outros antimaláricos)
  • Resistência à artemisinina: mutações no gene PfKelch13 → delay na clearance parasitária (artemisinina-partial resistance = ART-R) → Sudeste Asiático (Mekong Greater region) e agora crescendo na África oriental (Ruanda, Uganda) → preocupação global

Tratamento da malária, primaquina, profilaxia e hidroxicloroquina em doenças autoimunes

TRATAMENTO DA MALÁRIA:

Malária não grave por P. falciparum (critérios sem gravidade: sem alteração neurológica, sem insuficiência de órgão):

  • ACT (Artemisinin Combination Therapy): artemisina + parceiro de longa ação → reduz seleção de resistência; no Brasil: Artemeter + Lumefantrina (Coartem® — Novartis) 4 comprimidos VO 2x/dia por 3 dias (80+480 mg); ou Artesunato + Amodiaquina (ASAQ); eficácia > 95%
  • Mefloquina: usada em algumas regiões, mas maior toxicidade neuropsiquiátrica

Malária GRAVE por P. falciparum (malária cerebral, SDRA, IRA, hiperparasitemia > 5%):

  • Artesunato IV — tratamento de ESCOLHA (superior a quinina IV no trial AQUAMAT em Africa — NEJM 2011: artesunato IV reduz mortalidade em 22% vs quinina IV); 2.4 mg/kg IV na admissão, 12h, 24h, depois 1x/dia até poder fazer VO
  • Quinina IV (mais disponível em alguns países em desenvolvimento): 20 mg/kg em infusão lenta (4h) ataque → 10 mg/kg 8/8h manutenção; efeitos adversos: cinconismo (zumbido, vertigem, cefaleia), hipoglicemia (estimula insulina diretamente), arritmias (prolongamento de QTc/QRS — monitorar ECG)

Malária por P. vivax/P. ovale:

  • Cloroquina 600 mg base no D1 + 300 mg D2 e D3 (total 1500 mg base) → eficaz em P. vivax sensível (ainda funciona no Brasil, mas resistência crescente em partes do mundo)
  • + Primaquina: 0.25-0.5 mg/kg/dia por 14 dias → elimina hipnozoítas hepáticos (única droga que cura a forma latente/dormente e previne recaídas) → contraindicada em gestantes (risco fetal) e em deficientes de G6PD (risco de hemólise grave → TRIAGEM de G6PD obrigatória antes de iniciar primaquina)
  • Tafenoquina (Arakoda® — GSK): nova 8-aminoquinolina de longa ação; dose única 300 mg (vs primaquina 14 dias) → maior adesão; mesma contraindicação em G6PD deficientes

PROFILAXIA DA MALÁRIA (para viajantes):

  • Atovaquona + Proguanil (Malarone® — GSK): 1 comprimido/dia (início 1-2 dias antes da viagem, durante, + 7 dias após); bem tolerado; indicado para viagens curtas
  • Mefloquina: 1 comprimido/semana (início 2 semanas antes); efeito adverso neuropsiquiátrico (ansiedade, pesadelos, psicose) → contraindicado em epilepsia, psiquiátrico, piloto
  • Doxiciclina: 100 mg/dia; fotossensibilizante; inicio 1-2 dias antes e continuar 28 dias após
  • Cloroquina: ainda usada para destinos com P. vivax sem resistência (não para P. falciparum)

HIDROXICLOROQUINA (HCQ) em Doenças Autoimunes:

Mecanismo imunomodulador (além de acúmulo em lisossomos):

  1. Inibição do TLR7/TLR9 endossomal (Toll-like receptors): TLR7 e TLR9 reconhecem ácidos nucleicos (RNA e DNA de dupla fita) nos endossomos → ativam plasmacytoid DCs (pDCs) → produção massiva de IFN-α (interferon tipo I) — papel central no lúpus; HCQ bloqueia acidificação dos endossomos → TLR7/9 não ativados → menos IFN-α → menos ativação de células dendríticas, B e T → menos autoanticorpos e inflamação
  2. Redução da apresentação de antígenos: lisossomas ácidos são necessários para processar peptídeos para MHC-II → HCQ reduz a eficiência da apresentação de autoantígenos
  3. Inibição de citocinas pró-inflamatórias: reduz IL-1, IL-6, TNF-α, IL-17 indiretamente

Hidroxicloroquina no Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES):

  • Indicada para TODOS os pacientes com LES salvo contraindicação → pilar do tratamento
  • Evidências: reduz atividade da doença (flares), melhora sobrevida em longo prazo (reduz mortalidade em 25%), diminui lesão de órgão acumulada, protege contra trombose (ação anti-plaquetária, antitrombótica — importante na antiSAF), reduz dano cardiovascular, previne recaídas durante a gestação (continuar durante gravidez e amamentação — segura), melhora síntomas musculoesqueléticos e cutâneos
  • Dose: 200-400 mg/dia (máximo 5 mg/kg/dia de peso corporal real para reduzir toxicidade retiniana)
  • Toxicidade retiniana (a principal contraindicação para uso prolongado): depósito de HCQ na retina → retinopatia que pode ser irreversível se não detectada → monitoramento OBRIGATÓRIO: oftalmoscopia + OCT (tomografia de coerência óptica) basal → anual após 5 anos de uso (ou mais cedo se TFG < 60, doença de mácula, uso > 5 mg/kg/dia, alto grau de lipofuscina em OCT basal)
  • Efeitos adversos leves: náuseas (tomar com alimento), cefaleia, descoloração cutânea (raramente), exacerbação de psoríase

Hidroxicloroquina na Artrite Reumatoide (AR):

  • DMARD sintético (sDMARD) convencional de menor potência — usado como parte de combinações
  • HCQ + sulfassalazina + metotrexato = terapia tripla (Saag et al., NEJM 1995): tão eficaz quanto MTX + anti-TNF em AR moderada; muito menos cara e mais segura que biológicos → preferida como abordagem inicial em AR sem fatores de mau prognóstico
  • HCQ tem vantagens únicas em AR: sem mielossupressão (diferente do MTX), sem hepatotoxicidade, melhora perfil lipídico, reduz DM2 (melhora sensibilidade à insulina por inibição de PTP1B), antitrombótica
  • Síndrome de Sjögren primária: HCQ 200-400 mg/dia reduz fadiga e sintomas sistêmicos; evidência modesta mas utilizada amplamente

QUININA — além da malária: câibras noturnas (controverso — FDA retirou a aprovação para câibras por relação risco/benefício desfavorável — arritmias graves); bebidas tônicas contêm quinina em dose subclínica (< 80 mg/L)

Perguntas frequentes sobre antimaláricos

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Hidroxicloroquina é segura durante a gravidez no lúpus?+

Sim — a hidroxicloroquina é considerada segura durante toda a gestação em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES), e a orientação atual das sociedades de reumatologia é CONTINUAR (não suspender) a HCQ durante a gravidez. As evidências de segurança fetal são sólidas: estudos de registro de gestação com LES (Hopkins Lupus Cohort e outros) mostram que a exposição fetal à HCQ não aumenta o risco de malformações congênitas, aborto ou complicações neonatais. A HCQ atravessa a placenta, mas os dados de crianças nascidas de mães que tomaram HCQ durante toda a gestação não mostram toxicidade ocular, auditiva ou de crescimento. Benefícios de manter a HCQ durante a gravidez no LES: redução da atividade da doença durante a gestação (flares durante a gravidez associam-se a pré-eclâmpsia, parto prematuro, restrição de crescimento intrauterino); redução do risco de bloqueio cardíaco neonatal (anti-Ro/SSA+) — a HCQ reduz o risco de bloqueio AV neonatal em mães com anticorpos anti-Ro positivos; redução do risco de trombose placentária (antitrombótica). Contracepção e HCQ: a HCQ não interfere com anticoncepcionais hormonais (não induz CYP). Amamentação: HCQ é excretada em pequena quantidade no leite materno — considerada compatível com a amamentação pelas principais diretrizes (AAP, Lactmed). Quando a HCQ deve ser prescrita com cautela na gravidez: apenas se doença cardíaca congênita grave que contraindique prolonamento de QTc; monitoramento de ECG pode ser considerado em gestantes com LES grave usando combinações de medicamentos.

Preciso tomar primaquina para malária por Plasmodium vivax — o que é esse medicamento e por que é diferente?+

A primaquina é o único medicamento disponível para erradicar os hipnozoítas — formas dormentes do Plasmodium vivax e P. ovale que ficam latentes nos hepatócitos por meses ou anos e causam recaídas de malária. Isso a torna indispensável no tratamento do P. vivax, pois sem a primaquina, mesmo após curar a fase aguda com cloroquina, o paciente pode ter recaídas múltiplas ao longo dos meses seguintes (as recaídas são provenientes dos hipnozoítas dormentes que reativam, não de nova infecção). Mecanismo: a primaquina é uma 8-aminoquinolina que se acumula nas mitocôndrias das formas hepáticas do parasita → gera espécies reativas de oxigênio → dano mitocondrial → morte dos hipnozoítas; também é gametocitocida (elimina gametócitos — a forma transmissível ao mosquito). Duração: 14 dias (0.25-0.5 mg/kg/dia) — a duração longa é a maior barreira para adesão; tafenoquina (dose única) está em desenvolvimento como alternativa. Por que a triagem de G6PD é obrigatória antes da primaquina: a 8-aminoquinolina gera metabólitos oxidantes que em células normais são eliminados pelo sistema glutationa (dependente de G6PD). Em indivíduos com deficiência de G6PD (gene X-linked — mais comum em africanos, mediterrâneos, asiáticos), os eritrócitos não conseguem neutralizar esse estresse oxidativo → hemólise grave, anemia hemolítica aguda, potencialmente fatal. A triagem deve ser feita com teste rápido ou dosagem quantitativa antes de iniciar; se G6PD deficiente grave: NÃO usar primaquina; alternativa não disponível no Brasil (tafenoquina tem a mesma contraindicação); se G6PD intermediário: uso com cautela em doses menores (0.75 mg/kg 1x/semana por 8 semanas — esquema alternativo). No Brasil, o teste de G6PD qualitativo está disponível em postos de malária na Amazônia.

Referências Científicas

  1. Dondorp AM, Fanello CI, Hendriksen ICE, et al. (AQUAMAT — artesunate vs quinine for severe malaria in Africa — Lancet 2010) Artesunate versus quinine in the treatment of severe falciparum malaria in African children (AQUAMAT): an open-label, randomised trial. Lancet, 2010.
  2. Ruiz-Irastorza G, Ramos-Casals M, Brito-Zeron P, Khamashta MA. (Hydroxychloroquine in SLE — clinical review) Clinical efficacy and side effects of antimalarials in systemic lupus erythematosus: a systematic review. Ann Rheum Dis, 2010.
  3. O'Neil KM, Bhatt DL. (Malaria — treatment and prevention — review NEJM 2023) Advances in Malaria: Treatment and Prevention. N Engl J Med, 2023.
  4. Marmor MF, Kellner U, Lai TY, Melles RB, Mieler WF. (AAO revised hydroxychloroquine recommendations 2016) Recommendations on Screening for Chloroquine and Hydroxychloroquine Retinopathy. Ophthalmology, 2016.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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