Farmacologia dos agentes alquilantes — mecanismo de ação e classes
Agentes alquilantes são os primeiros quimioterápicos desenvolvidos (derivados do gás mostarda da 1ª Guerra Mundial — observação de que causava leucopenia grave levou ao seu uso terapêutico em leucemias por Gilman e Goodman em 1943). São a classe mais antiga e ainda muito usada.
Mecanismo de ação geral — alquilação do DNA:
- Os agentes alquilantes contêm grupos reativos eletrofílicos (carbocátions ou intermediários altamente reativos) que formam ligações covalentes com átomos nucleofílicos do DNA
- Alvo principal: N-7 da guanina (mais nucleofílico) → crosslinks intracadeias (mesma fita) ou intercadeias (fitas opostas — mais letal)
- Crosslinks intercadeias: as duas fitas de DNA ficam ligadas covalentemente → DNA polimerase não consegue separar as fitas para replicação → célula não consegue se dividir → morte celular por apoptose ou parada no ciclo em G2/M
- Bifuncionais (têm dois grupos alquilantes) → crosslinks intercadeias → mais potentes e mais tóxicos; monofuncionais → menos potentes
- Fase-independentes do ciclo celular: alquilam DNA independente de a célula estar em divisão ativa → eficazes mesmo em tumores de crescimento lento
Classes de agentes alquilantes:
- Mostardas nitrogenadas: ciclofosfamida, ifosfamida, clorambucila, melfalan, bendamustina
- Nitrosoureias: carmustina (BCNU), lomustina (CCNU), estreptozocina — atravessam a BHE (lipofílicas) → usadas em tumores do SNC
- Alquil sulfonatos: bussulfano — muito usado em condicionamento de transplante de medula
- Triazinas: dacarbazina (DTIC — melanoma), temozolomida (Temodar® — glioblastoma)
- Aziridinas: mitomicina C, tiotepa
- Platinas (compostos de platina — tecnicamente similares mas mecanismo próprio): cisplatina, carboplatina, oxaliplatina
Resistência aos alquilantes:
- Upregulation de enzimas de reparo do DNA (MGMT = metilguanina-DNA metiltransferase — remove o grupo alquil antes do dano; expressão de MGMT é marcador de resistência do glioblastoma à temozolomida)
- Aumento de glutationa (GSH) intracelular → conjugação e inativação dos agentes alquilantes
- Eficiência aumentada de pumps de efluxo (MDR1/P-gp)
- Apoptose defeituosa (mutação de p53)
Ciclofosfamida e ifosfamida — mostardas nitrogenadas em oncologia e autoimunidade
Ciclofosfamida (Endoxan® — Baxter; genérico):
Pró-fármaco e ativação hepática:
- Ciclofosfamida é inativa → metabolizada pelo CYP2B6 (e CYP3A4) no fígado → 4-hidroxiciclofosfamida → espontaneamente equilibra com aldofosfamida → decompõe em fosforamida mustarda (agente alquilante ativo) + acroleína (subproduto tóxico para bexiga)
- Fosforamida mustarda: bifuncional → crosslinks de DNA → efeito antineoplásico
- Acroleína: urotóxico → cistite hemorrágica (complicação urológica grave)
Indicações oncológicas:
- Linfomas: CHOP (ciclofosfamida + doxorrubicina + vincristina + prednisona) = protocolo padrão para LDGCB (linfoma difuso de grandes células B) e NHL agressivos; CMF para câncer de mama; regimes intensivos com HSCT
- Leucemia linfocítica crônica (LLC): FC (fludarabina + ciclofosfamida) ± rituximabe (FCR) — protocolo histórico
- Câncer de mama: AC (doxorrubicina + ciclofosfamida) ± taxano; CMF (ciclofosfamida + metotrexato + fluorouracil)
- Câncer de ovário: CAP (cisplatina + doxorrubicina + ciclofosfamida) — histórico; hoje platina + taxano
- Mieloma múltiplo: VAD, VCD em regimes de condicionamento
- Condicionamento de HSCT: doses altas (150-200 mg/kg total) antes de transplante de medula
Indicações não-oncológicas (autoimunidade e transplante):
- Nefrite lúpica proliferativa (LES classe III/IV): protocolo NIH = pulsos mensais de ciclofosfamida IV (0.5-1 g/m²) × 6 meses + manutenção; ou protocolo Euro-Lupus (dose baixa: 500 mg IV a cada 2 semanas × 3 meses — igualmente eficaz, menos toxicidade gonadal)
- Vasculite ANCA-associada (granulomatose com poliangiite/GPA, poliangiite microscópica): indução com ciclofosfamida + glicocorticoide × 3-6 meses → manutenção com azatioprina ou rituximabe
- Nefrite por IgA grave: protocolos específicos
- Artrite reumatoide grave (historicamente; hoje substituída por biológicos)
- Síndrome nefrótica resistente em crianças
Toxicidades da ciclofosfamida:
Cistite hemorrágica (a mais característica):
- Acroleína irrita o urotélio da bexiga → hemorragia
- Prevenção OBRIGATÓRIA com doses altas: MESNA (2-mercaptoetanosulfonato de sódio) = inativador de acroleína na bexiga (MESNA é oxidado a dimetilosulfeto que não tem atividade, mas na bexiga é reduzido de volta ao tiol livre que conjuga acroleína); dose MESNA = 60-100% da dose de ciclofosfamida, em 3 tomadas (0, 4 e 8h após ciclofosfamida); hiper-hidratação (≥2 L/dia de fluidos durante e após ciclofosfamida de alta dose)
- Em doses baixas orais (autoimunidade): risco menor mas monitorar hematúria; hiper-hidratação oral + urinar frequentemente
Mielossupressão (nadir de neutrófilos em dia 10-14): infecção bacteriana e fúngica; monitorar CBC, profilaxias conforme protocolo
Toxicidade gonadal:
- Insuficiência ovariana prematura em mulheres (dose-cumulativa dependente; maior risco >30 anos e com dose total >20g de ciclofosfamida)
- Azoospermia em homens (geralmente reversível mas pode ser permanente)
- Preservação de fertilidade obrigatória antes de tratamento: ver seção de reprodução assistida (criopreservação de gametas)
Cardiotoxicidade: em doses muito altas (condicionamento de HSCT > 150 mg/kg) → miocardite e pericardite hemorrágica (rara em doses de autoimunidade)
Leucemia secundária (com latência de 5-10 anos): mielodisplasia e LMA (leucemia mieloide aguda) por alquilação do DNA de células-tronco hematopoéticas; risco aumenta com dose cumulativa maior e em combinação com radioterapia
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Ifosfamida (Holoxan® — Baxter; genérico):
- Isômero da ciclofosfamida com diferenças importantes
- Também pró-fármaco ativado por CYP → metabolismo mais lento que ciclofosfamida → exposição mais prolongada a metabólitos tóxicos
- Dose: 1.2-2.4 g/m²/dia × 5 dias (ou 3-5 g/m² em dose única) + MESNA obrigatório
- Indicações específicas: sarcomas de partes moles, sarcoma de Ewing, osteossarcoma refratário; tumores de células germinativas (GCT refratário — regime VIP: vinblastina + ifosfamida + platina); câncer de pulmão de pequenas células
- Encefalopatia por ifosfamida: toxicidade neurológica idiossincrática (NÃO ocorre com ciclofosfamida); mecanismo: cloroacetaldehído (metabólito da ifosfamida) → disfunção cerebral; manifestações: confusão, alucinações, convulsões, coma; trata com azul de metileno IV (reverte a encefalopatia por mecanismo ainda debatido); geralmente reversível
- Cistite hemorrágica: mesma prevenção com MESNA que ciclofosfamida
Platinas (cisplatina, carboplatina, oxaliplatina) — complexos de platina em oncologia
Compostos de platina — formalmente não são alquilantes mas têm mecanismo similar: formam crosslinks com o DNA via coordenação do átomo de platina com bases do DNA (N-7 da guanina e adenina)
Cisplatina (Platinol® — Bristol-Myers Squibb; genérico):
- O primeiro e mais potente composto de platina; descoberto acidentalmente por Barnett Rosenberg (1965) quando observou que corrente elétrica em eletrodos de platina inibia divisão bacteriana — a platina estava contaminando o meio e causando o efeito
- Mecanismo: cisplatina entra na célula (via aquatação — troca de Cl⁻ por OH no meio intracelular de baixo Cl⁻) → platina se coordena com N-7 da guanina → principalmente aductos intracadeia 1,2-d(GpG) e 1,2-d(ApG) → curvatura e distorção do DNA → bloqueio de síntese de DNA e transcrição → apoptose
- Indicações: câncer de células germinativas (testicular, ovariano — base dos regimes BEP e PEB); câncer de pulmão não-pequenas células (NSCLC) — combinações com gemcitabina, vinorelbina, docetaxel, pemetrexede; câncer de bexiga (MVAC, GC); câncer de cabeça e pescoço (combinado com 5-FU ou taxano); SCLC (câncer de pulmão de pequenas células — EP); câncer cervical (cisplatina + radioterapia = padrão-ouro)
- Toxicidades características de cisplatina (perfil único — diferente das outras platinas):
- Nefrotoxicidade (a mais grave e limitante): cisplatina acumula nos túbulos renais proximais → necrose tubular; ocorre em 30% sem prevenção; prevenção: hiper-hidratação (2-3 L de SF antes e depois) + manitol para diurese forçada + evitar AINEs e aminoglicosídeos concomitantes; monitorar creatinina antes e após cada ciclo; dose máxima cumulativa limitada pela função renal - Neurotoxicidade periférica: neuropatia sensorial cumulativa (parestesias, hipoestesia distal) — dose-limitante em doses > 300-400 mg/m² cumulativos; reversão parcial após suspensão; coasting (progressão da neuropatia após parar a cisplatina por meses) - Ototoxicidade: perda auditiva sensorineural de frequências altas (6.000-8.000 Hz) + zumbido; irreversível; audiograma antes e durante o tratamento; mais grave em crianças - Êmese grave: o quimioterápico mais emetogênico; protocolo antiemético obrigatório: serotonina 5-HT3 antagonista (ondansetrona) + aprepitante (NK1-RA) + dexametasona (triple antiemetic therapy) - Hipocalemia e hipomagnesemia (perdas renais tubulares) - Mielossupressão moderada
Carboplatina (Paraplatin® — Bristol-Myers Squibb; genérico):
- Análogo da cisplatina com maior estabilidade química → menos reativo → menos nefrotóxico e neurotóxico
- Dose calculada pela fórmula de Calvert: Dose (mg) = AUC alvo × (TFG + 25), onde AUC alvo = 4-6 mg/mL·min; necessita de função renal para calcular
- Toxicidade predominante: mielossupressão (especialmente trombocitopenia) → nadir plaquetário dia 21; menos nefrotoxicidade, menos neurotoxicidade, menos êmese que cisplatina
- Indicações: câncer de ovário (carboplatina + paclitaxel = 1ª linha); NSCLC; câncer de mama HER2+; endométrio; cabeça e pescoço em pacientes que não toleram cisplatina
Oxaliplatina (Eloxatin® — Sanofi; genérico):
- 3ª geração; tem grupo diaminociclohexano (DACH) → forma aductos de DNA diferentes da cisplatina que evitam alguns mecanismos de resistência cruzada com cisplatina/carboplatina
- Indicações específicas: câncer colorretal → FOLFOX (leucovorin + 5-FU + oxaliplatina) ou XELOX (capecitabina + oxaliplatina) = padrão 1ª e 2ª linhas; câncer gástrico; adenocarcinoma de pâncreas
- Neuropatia periférica específica: dois padrões: (1) aguda (doses-pós — horas): disestesia pelo frio (contato com frio desencadeia dor e parestesias — orienta paciente para evitar geladeira, bebidas frias); mediado por canal de Na+; (2) crônica cumulativa (doses > 800-1000 mg/m² total): neuropatia sensitiva clássica permanente; sem tratamento eficaz
- Menos nefrotóxico que cisplatina; não é emetogênica de alto grau; mielossupressão moderada