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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 14 min de leitura

PD-1, PD-L1, CTLA-4 e checkpoints imunológicos: pembrolizumabe, nivolumabe, atezolizumabe e ipilimumabe

Checkpoints imunológicos (PD-1/PD-L1, CTLA-4) suprimem a resposta imune antitumoral. Anticorpos bloqueadores (pembrolizumabe, nivolumabe, atezolizumabe, ipilimumabe) desinibem linfócitos T, revolucionando melanoma, pulmão, bexiga e outros cânceres.

B
BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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O sistema imune anti-tumoral e como o câncer o suprime

Ciclo imunidade anti-tumoral (Chen & Mellman, 2013):

  1. Células tumorais morrem → liberam antígenos tumorais (DAMPs + antígenos)
  2. Células dendríticas capturam antígenos → migram para linfonodo
  3. DCs apresentam antígenos em MHC-I (para CD8+) e MHC-II (para CD4+)
  4. Ativação de linfócitos T via TCR + coestimulação (CD28-B7)
  5. Expansão clonal de T efetores no linfonodo
  6. Migração de T efetores para o tumor via homing (quimiocinas, integrinas)
  7. Infiltração tumoral de T-cells (TILs)
  8. Reconhecimento e morte de células tumorais via citotoxicidade (CD8+) e citocinas (CD4+)
  9. Morte → libera novos antígenos → amplifica ciclo (immunogenic cell death)

Como o câncer suprime esse ciclo:

  • Passo 1: baixa imunogenicidade (poucos neoantígenos em tumores de baixo TMB)
  • Passo 3-4: regulação negativa de MHC-I nas células tumorais (escapando apresentação)
  • Passo 7-8: expressão de ligantes inibitórios de checkpoint — mecanismo mais clinicamente relevante:

- Células tumorais expressam PD-L1 (programmed death-ligand 1 / CD274) → liga PD-1 em T-cells → inativa T efetores no microambiente tumoral - Células imunes supressoras: Tregs, macrófagos M2, MDSCs — recrutados ao microambiente; secretam IL-10, TGF-β, VEGF que suprimem T efetores

O conceito de "checkpoint":

  • Checkpoints imunológicos são moléculas co-inibitórias em linfócitos T que funcionam como freios fisiológicos — previnem auto-imunidade e regulam intensidade da resposta imune
  • Em câncer: tumores "sequestram" esses freios fisiológicos para escapar do sistema imune
  • ICI (Immune Checkpoint Inhibitors) = anticorpos que bloqueiam esses freios → desinibem T cells no tumor

Outros checkpoints além de PD-1/CTLA-4 (em desenvolvimento):

  • LAG-3 (Lymphocyte activation gene 3): relatlimabe (anti-LAG-3) + nivolumabe aprovado em melanoma (RELATIVITY-047)
  • TIM-3 (T-cell immunoglobulin mucin-3): comalitamab, sabatolimab em desenvolvimento
  • TIGIT (T-cell Ig and ITIM domain): tiragolumabe; ensaios em NSCLC com atezolizumabe (SKYSCRAPER-01 — negativo em não-selecionados)
  • VISTA, BTLA, CD47 ("don't eat me" signal em macrófagos/DCs): em investigação

PD-1 e PD-L1: mecanismo molecular e inibidores aprovados

PD-1 (CD279) — receptor inibitório em linfócitos T ativados, NK, B:

  • Ligantes: PD-L1 (CD274, expresso em tumor e células imunes) e PD-L2 (CD273, mais restrito a macrófagos/DCs)
  • Sinalização inibitória: PD-1 liga PD-L1 → recruta SHP-2 phosphatase → desfosforila ZAP70 e outros sinalizadores de TCR → reduz TCR signaling + CD28 costimulation → T-cell exhaustion (expressão de fatores de transcrição de exaustão: TOX, TOX2; redução de IL-2, IFN-γ, perforina)
  • T-cell exhaustion = estado de hipofuncionalidade com alta expressão de múltiplos checkpoints (PD-1, LAG-3, TIM-3, TIGIT)

Anti-PD-1 (bloqueiam PD-1 no T-cell):

Pembrolizumabe (Keytruda® — MSD/Merck) — maior portfólio de aprovações oncológicas:

  • Anti-PD-1 humanizado IgG4
  • Melanoma: KEYNOTE-006 vs ipilimumabe; ORR 33% vs 12%; 5 anos OS 38% vs 31%
  • NSCLC PD-L1 ≥50%: KEYNOTE-024 (pembrolizumabe vs platina-QT) → PFS 10.3 vs 6.0 meses; OS 26.3 vs 14.2 meses → padrão 1ª linha (monoagente se PD-L1 ≥50%)
  • NSCLC PD-L1 qualquer: KEYNOTE-189 (+pemetrexedo+platina): OS 22 vs 10.7 meses independente de PD-L1
  • Tumor-agnostic: KEYNOTE-158/KEYNOTE-052 → pembrolizumabe aprovado para MSI-H/dMMR qualquer tumor sólido (2017, 1º tumor-agnostic); TMB-H ≥10 mut/Mb (2020, pansolidtumor)
  • Outros: TNBC (KEYNOTE-355), endometrial, gástrico (KEYNOTE-590), CRC MSI-H 1ª linha (KEYNOTE-177), urothelial (KEYNOTE-052)

Nivolumabe (Opdivo® — BMS):

  • Anti-PD-1 humanizado IgG4; similar à pembrolizumabe em eficácia de classe
  • Melanoma (CheckMate 066, 067 dupla com ipilimumabe): CheckMate 067 → nivolumabe+ipilimumabe → OS a 5 anos 52% vs 44% nivolumabe vs 26% ipilimumabe
  • NSCLC (CheckMate 017, 057: 2ª linha escamoso e não-escamoso); CheckMate 227 (+ipilimumabe) 1ª linha
  • Hepatocelular (HCC): CheckMate 459; esofágico (CheckMate 648); gástrico; CRC MSI-H
  • Renal (checkmate 025, 214 com ipilimumabe, dupla ICI aprovada 1ª linha renal clear cell)

Anti-PD-L1 (bloqueiam PD-L1 na célula tumoral/imune):

Atezolizumabe (Tecentriq® — Roche) — anti-PD-L1 IgG1 mutante (sem ADCC):

  • NSCLC: IMpower110 (1ª linha PD-L1 alto), IMpower150 (+bevacizumabe+QT — interessante por incluir EGFR e ALK mutados, tipicamente não respondedores)
  • SCLC: IMpower133 (+carboplatina+etoposídeo) → 1ª imunoterapia aprovada em SCLC
  • Bexiga, mama triplo-negativa

Durvalumabe (Imfinzi® — AstraZeneca): PACIFIC trial → consolidação durvalumabe após QT-RT em NSCLC estágio III irresecável → OS 47.5 vs 29.1 meses → padrão

Avelumabe (Bavencio® — Pfizer/Merck KGaA): carcinoma de células de Merkel (JAVELIN Merkel 200)

CTLA-4 e ipilimumabe: o primeiro checkpoint aprovado

CTLA-4 (CD152) — checkpoint co-inibitório na priming de T-cells (linfonodo):

Mecanismo:

  • CD28 no T-cell liga B7-1/B7-2 (CD80/CD86) na DC → sinal coestimulatory → T-cell ativação (CD28 = acelerador)
  • CTLA-4 expressa em T-cells ativados (e constitutivamente em Tregs) — liga B7-1/B7-2 com MUITO maior afinidade que CD28 → competição → retira B7 → menos CD28 ativação = freio competitivo no linfonodo
  • Anti-CTLA-4 bloqueia CTLA-4 → CD28 volta a ligar B7 sem competição → mais ativação de T-cells no linfonodo
  • Também: depleta Tregs intratumorais por ADCC (IgG1 Fc) — efeito adicional de ipilimumabe

Ipilimumabe (Yervoy® — BMS) — 1º checkpoint i aprovado (FDA 2011, melanoma):

  • Anti-CTLA-4 IgG1 humano
  • MDX010-20: ipilimumabe vs gp100 vacina → OS 10.1 vs 6.4 meses → primeiro agente a demonstrar OS em melanoma metastático
  • 10 anos OS: ~20% com ipilimumabe (plateau de sobrevida longo = característica de resposta imune) vs ~5% de QT
  • Dose: 3 mg/kg q3 semanas × 4 (melanoma), 1 mg/kg se combinado com nivolumabe (10 mg/kg dose mais alta correlaciona com mais toxicidade)

Ipilimumabe + nivolumabe (dual ICI) — CheckMate 067:

  • Nivolumabe + ipilimumabe vs nivolumabe vs ipilimumabe em melanoma 1ª linha
  • OS a 5 anos: 52% dupla vs 44% nivolumabe vs 26% ipilimumabe → dupla superior
  • Mas toxicidade irAE grau 3-4: 55% dupla vs 16% nivolumabe vs 27% ipilimumabe

Tremelimumabe (Imjudo® — AstraZeneca):

  • Anti-CTLA-4 IgG2 (sem ADCC — diferente de ipilimumabe IgG1)
  • POSEIDON trial: dose única tremelimumabe + durvalumabe + QT em NSCLC → OS 14.0 vs 11.7 meses vs QT
  • HCC: HIMALAYA trial → tremelimumabe dose única + durvalumabe ("STRIDE regimen") → OS 16.4 vs 13.8 meses vs sorafenibe

Toxicidades imune-relacionadas (irAEs) — classe crítica:

  • Colite/diarreia: mais com CTLA-4 i (40% grau 1-2 com ipilimumabe, 15% grau 3-4); mais raro com PD-1 i (10-20% qualquer grau)
  • Pneumonite: mais com PD-1 i em NSCLC (3-5% grau 3-4)
  • Hepatite: transaminases elevadas — ambas classes
  • Endocrinopatias (hipotiroidismo, hipofisíte, adrenal insuficiency): mais com anti-PD-1 (10-30% hipotiroidismo; 1% hipofisíte com ipilimumabe — às vezes permanente)
  • Vitiligo (benigno — correlaciona com resposta em melanoma): muito comum com PD-1 i em melanoma
  • Manejo: corticoide sistêmico (prednisona 1-2 mg/kg) para grau 2+; infliximabe (anti-TNF) para colite grave; permanente descontinuação se toxicidade severa

Biomarcadores preditivos de resposta: PD-L1, TMB, MSI e outros

PD-L1 expressão (IHC):

  • Mais estabelecido em NSCLC: PD-L1 ≥50% (TPS — tumor proportion score) → pembrolizumabe 1ª linha monoterapia; PD-L1 ≥1% → candidato a combinação ICI+QT
  • Limitações: heterogeneidade tumoral (biopsia amostral pode não representar todo tumor), variação entre plataformas de IHC (22C3 Dako para pembrolizumabe, 28-8 para nivolumabe, SP142 para atezolizumabe — não totalmente intercambiáveis), PD-L1 negativo não exclui resposta (~10-15% de PD-L1 negativo respondem)

TMB (Tumor Mutational Burden):

  • Número de mutações somáticas por megabase de DNA codificante
  • Raciocínio: mais mutações → mais neoantígenos → mais reconhecimento imune
  • TMB-H ≥10 mut/Mb (Foundation One CDx): aprovação tumor-agnóstica pembrolizumabe (KEYNOTE-158 pooled)
  • Limitações: TMB varia muito por histologia (melanoma UV, SCLC fumante têm TMB alto nativo); TMB não prediz uniformemente em todos os tumores; biopsia líquida de TMB (bTMB) ainda em validação

MSI-H (Microsatellite Instability-High) / dMMR (mismatch repair deficient):

  • MMR (mismatch repair): sistema de correção de erros de DNA durante replicação (genes MLH1, MSH2, MSH6, PMS2)
  • dMMR → MSI-H: falha no reparo → alta taxa de mutações em microssatélites → altíssimo TMB → muitos neoantígenos
  • MSI-H = melhor biomarcador de resposta a ICI após tumor-agnostic (ORR ~40-50% com pembrolizumabe pan-tumor)
  • Teste: IHC para 4 proteínas MMR ou PCR/NGS para instabilidade de microssatélite
  • CRC MSI-H metastático: KEYNOTE-177 → pembrolizumabe 1ª linha → PFS 16.5 vs 8.2 meses vs FOLFOX/FOLFIRI → padrão 1ª linha

EBV (Epstein-Barr virus) e outras assinaturas imunes:

  • Gástrico EBV+ e MSI-H respondem melhor a ICI (SPA e 2ª linha pembrolizumabe)
  • Assinatura IFN-γ (gene expression profiling de tumores inflamados — "hot") correlaciona com resposta
  • "Cold tumors" (sem TILs, sem IFN-γ) = resistência primária a ICI; estratégias: combinação com agonistas de STING/TLR, vacinas, quimio-imuno

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Perguntas frequentes sobre imunoterapia e checkpoints

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Imunoterapia funciona para qualquer câncer?+

Não igualmente. Tumores que melhor respondem: melanoma (~40-50% de resposta a anti-PD-1), NSCLC PD-L1 alto (35-45%), SCLC (adiciona à QT), bexiga, renal, MSI-H de qualquer histologia (40-50%), HCC, linfoma de Hodgkin (90% com pembrolizumabe), MCC, câncer cervical. Tumores com resposta mais baixa ou resistência frequente: próstata (exceto MSI-H), pâncreas (exceto MSI-H), glioblastoma (microambiente extremamente supressor), mama (exceção TNBC e MSI-H). A regra: high TMB, MSI-H, alto PD-L1, e microambiente inflamado ('hot tumor') predizem melhor resposta. Tumores com baixo TMB, microambiente imunossupresso ('cold') têm resposta muito limitada.

Por que imunoterapia pode causar respostas duradouras que quimioterapia não consegue?+

Quimioterapia age diretamente nas células tumorais — quando a droga é removida, o tumor pode crescer novamente pois não houve mudança no sistema imune. Imunoterapia trabalha ativando o sistema imune adaptativo, que tem memória imunológica. T-cells de memória específicas para antígenos do tumor persistem por anos — são os 'guardas' que reconhecem e eliminam células tumorais recorrentes. Isso explica o 'plateau' de sobrevida observado em melanoma e outros tumores: ~20% dos pacientes com melanoma tratados com ipilimumabe ficam vivos a 10 anos (alguns curados) enquanto com quimio a curva de sobrevida continua caindo. Quando a resposta ocorre, pode ser durável por anos.

PD-L1 negativo significa que imunoterapia não vai funcionar?+

Não necessariamente. PD-L1 negativo reduz a probabilidade de resposta mas não a elimina. Dados do KEYNOTE-189 (pembrolizumabe+QT em NSCLC) mostram benefício de OS mesmo no subgrupo PD-L1 <1%. Para pembrolizumabe mono em NSCLC: resposta rara com PD-L1 <1% (~5%) mas existe. Em melanoma, respostas em PD-L1 negativo são documentadas. Possível explicação: PD-L1 é medido em biópsia amostral, o tumor pode ser heterogêneo; também PD-L1 é dinâmico (muda com inflamação, QT). Outro ponto: MSI-H ou alto TMB independe de PD-L1 — esses biomarcadores são independentes.

O que são irAEs e como são tratados?+

irAEs (immune-related adverse events) são efeitos colaterais autoimunes causados pela desinibição de T-cells — quando o freio é removido no tumor, pode também causar inflamação em tecidos normais. Os mais comuns: colite (diarreia com sangue, dor abdominal), pneumonite (tosse seca, falta de ar), hepatite (transaminases), tireoidite (hipo ou hipertireoidismo), dermatite (rash, vitiligo). Tratamento padrão: para grau leve (G1) — observar e suporte; grau moderado (G2) — suspender ICI temporariamente, corticoide; grau grave (G3-4) — hospitalizar, corticoide IV 1-2 mg/kg/dia, e se não responder em 48-72h, adicionar infliximabe (anti-TNF) ou micofenolato (hepatite), rituximabe (casos raros). Muitos irAEs são reversíveis se tratados rapidamente.

Referências Científicas

  1. Robert C, Long GV, Brady B, et al. (KEYNOTE-006) Pembrolizumab versus ipilimumab in advanced melanoma (KEYNOTE-006). N Engl J Med, 2015.
  2. Reck M, Rodriguez-Abreu D, Robinson AG, et al. (KEYNOTE-024) Pembrolizumab versus chemotherapy for PD-L1-positive non-small-cell lung cancer (KEYNOTE-024). N Engl J Med, 2016.
  3. Wolchok JD, Chiarion-Sileni V, Gonzalez R, et al. (CheckMate 067) Overall survival with combined nivolumab and ipilimumab in advanced melanoma (CheckMate 067). N Engl J Med, 2017.
  4. Le DT, Durham JN, Smith KN, et al. Mismatch repair deficiency predicts response of solid tumors to PD-1 blockade. Science, 2017.
  5. Andre T, Shiu KK, Kim TW, et al. (KEYNOTE-177) Pembrolizumab versus chemotherapy for microsatellite instability-high colorectal cancer (KEYNOTE-177). N Engl J Med, 2020.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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