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← Blog·peptideos05 de julho de 2026· 13 min de leitura

Anticonvulsivantes clássicos e modernos — carbamazepina, fenitoína, levetiracetam e lacosamida: canais de sódio, SV2A e mecanismos de ação antiepiléptica

Anticonvulsivantes bloqueiam os canais de Na⁺ dependentes de voltagem (carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína, lacosamida), modulam SV2A (levetiracetam) ou potenciam GABA (benzodiazepínicos, fenobarbital). Carbamazepina e fenitoína têm janela terapêutica estreita com monitoramento de nível plasmático obrigatório. Levetiracetam tem perfil de interação mínimo. Fenitoína tem farmacocinética de Michaelis-Menten com saturação enzimática.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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Mecanismos de ação dos anticonvulsivantes — canais iônicos, SV2A e sinapse

Fisiopatologia da epilepsia — o alvo dos anticonvulsivantes:

  • Epilepsia é uma síndrome de hiperexcitabilidade neuronal anormal e recorrente; a descarga epileptiforme ocorre quando neurônios disparam em alto nível de forma sincronizada e generalizada, superando os mecanismos inibitórios normais
  • Balanço excitação/inibição: glutamato (AMPA, NMDA — excitação) vs GABA (GABA-A, GABA-B — inibição); em epilepsia: excesso de glutamato, déficit de inibição GABAérgica, ou alterações nos canais iônicos que tornam os neurônios hiperexcitáveis
  • Canal de Na⁺ dependente de voltagem (Nav): quando um potencial de ação ocorre, Nav abre (estado ativado → entrada de Na⁺ → despolarização) → inativa rapidamente (estado inativado → bloqueio do poro por motif Ball-and-Chain do segmento intracellular III-IV) → retorna ao estado fechado/repousante; na epilepsia, neurônios disparam repetitivamente (alta frequência) → Nav fica oscilando entre ativado e inativado rapidamente
  • A maioria dos anticonvulsivantes clássicos age estabilizando o estado inativado do Nav → seletivamente reduzem disparos de alta frequência (que ocorrem em crises) sem afetar muito o disparo fisiológico de baixa frequência (uso-dependência)

Principais mecanismos de ação dos anticonvulsivantes:

  1. Bloqueio de canais Nav (sódio): carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína, lacosamida, lamotrigina, zonisamida, eslicarbazepina
  2. Bloqueio de canais Cav (cálcio): etosuximida (T-type Ca²⁺ channels — específica para ausência); pregabalina/gabapentina (Cav2.2 α2δ subunit — dor neuropática e convulsões)
  3. Modulação de vesículas sinápticas via SV2A: levetiracetam (liga-se à proteína SV2A nas vesículas de neurotransmissores e reduz liberação de neurotransmissor em alta frequência)
  4. Potenciação GABAérgica: benzodiazepínicos (GABA-A Cl⁻ canal — aumentam frequência de abertura), fenobarbital (GABA-A — aumentam duração de abertura), ácido valproico (múltiplos mecanismos — inibição de GABA transaminase, modulação de Nav e Cav)
  5. Bloqueio de AMPA (glutamato): perampanel (AMPA antagonista — mais recente; indicado em crises focais e generalizadas tônico-clônicas como adjuvante)
  6. Inibição de anidrase carbônica: zonisamida, acetazolamida, topiramato (mecanismo secundário)

Carbamazepina, fenitoína, levetiracetam e lacosamida — farmacologia e monitoramento

CARBAMAZEPINA (CBZ) — Tegretol® (Novartis; genérico):

Mecanismo: bloqueia canais Nav em estado inativado → reduz disparo de alta frequência; seletividade uso-dependente

Farmacocinética:

  • Absorção oral variável (biodisponibilidade 70-80%); altamente lipofílica; atravessa bem a BHE
  • Induz fortemente o CYP3A4 e o CYP2C19 → autoindutor: acelera seu próprio metabolismo com o tempo → nos primeiros 1-2 meses, a dose pode precisar ser aumentada porque a CBZ induz CYP3A4 que a metaboliza mais rapidamente; o mesmo ocorre com outros fármacos metabolizados por CYP3A4
  • Nível terapêutico: 4-12 μg/mL (colher no vale, antes da dose matinal)
  • Meia-vida: 12-24h (diminui com o tempo pela autoindutura — pode cair para 8-12h após semanas de uso)
  • Metabólito ativo: carbamazepina-10,11-epóxido (CBZ-E) → também tem atividade antiepiléptica e é responsável por toxicidade quando acumulado (inibição da epóxido hidrolase por valproato aumenta CBZ-E)

Indicações:

  • Epilepsia parcial (focal) → de escolha
  • Epilepsia tônico-clônica generalizada
  • Nevralgia do trigêmio → de escolha (único aprovado para essa indicação; mecanismo: bloqueia Nav nos neurônios trigeminais hiperexcitados)
  • Transtorno bipolar (estabilizador do humor — 2ª linha após lítio/valproato)

Efeitos adversos importantes:

  • SNC dose-dependentes: diplopia, visão turva, ataxia, sedação, tontura (especialmente no início e picos pós-dose) → tomar com alimentos, iniciar com dose baixa
  • Hiponatremia (SIADH — síndrome de secreção inapropriada de ADH): CBZ/oxcarbazepina estimulam a liberação de ADH → retenção de água → Na⁺ diluicional baixo; monitorar Na⁺ sérico, especialmente em idosos
  • Exantema (rash): comum (5-10%); em asiáticos com HLA-B*1502 → risco altíssimo de síndrome de Stevens-Johnson/NET (necrólise epidérmica tóxica) → triagem genética obrigatória antes de iniciar CBZ em populações de ascendência asiática (tailandeses, chineses, malaios); em caucasianos: HLA-A*3101 associado com síndrome DRESS e SJS de menor risco
  • Mielossupressão: leucopenia transitória comum (10%), agranulocitose rara mas grave; monitorar hemograma mensalmente nos primeiros 3 meses
  • Teratogenicidade: defeitos do tubo neural, defeitos cardíacos → não usar em gestação se possível; suplementar com ácido fólico
  • Interações (CYP3A4 indutor forte): reduz nível de pílula anticoncepcional hormonal (falha anticonceptiva), varfarina, digoxina, lamotrigina, venlafaxina, quetiapina, haloperidol, erlotinibe

OXCARBAZEPINA (OXC) — Trileptal® (Novartis; genérico):

  • Pró-fármaco da eslicarbazepina; mecanismo similar à CBZ (bloqueio Nav); NÃO induz CYP3A4 fortemente (menos autoindutura, menos interações que CBZ)
  • Hiponatremia mais frequente que CBZ (15-25%)
  • Menor risco de mielossupressão; menor risco de SJS em HLA-B*1502 (mas ainda presente)
  • Indicações: similares à CBZ; preferida em pacientes com múltiplas medicações por menor interação

FENITOÍNA/FOSFENITOÍNA — Dilantin® (Pfizer; EUA); Hidantal® (Eurofarma; Brasil):

Mecanismo: bloqueia canais Nav (estado inativado); bloqueio uso-dependente de alta frequência

Farmacocinética não-linear (Michaelis-Menten) — A MAIS IMPORTANTE:

  • A maior parte dos fármacos segue cinética de 1ª ordem (dose dobrada → concentração dobra); a fenitoína segue cinética de 0ª ordem acima de certa concentração — quando a enzima CYP2C9 que a metaboliza está saturada
  • Na zona terapêutica (10-20 μg/mL), a fenitoína já satura parcialmente a CYP2C9 → aumentar a dose um pouquinho → grande aumento na concentração → toxicidade
  • Prático: em concentração de 15 μg/mL, aumentar a dose de 300 para 350 mg/dia pode fazer a concentração saltar para 30 μg/mL (tóxico)
  • Ajuste de dose: aumentar no máximo 50 mg/vez acima de 300 mg/dia; nunca fazer grandes aumentos de uma vez; monitorar nível plasmático após cada ajuste
  • Nível terapêutico: 10-20 μg/mL (nível total — mas a fenitoína é altamente ligada a proteínas plasmáticas 90%; em hipoalbuminemia, gravidez, insuficiência renal → medir nível LIVRE ou usar fórmula de ajuste)
  • Fórmula de Sheiner-Tozer (nível corrigido para hipoalbuminemia): nível corrigido = nível medido / (0,2 × albumina g/dL + 0,1)

Indicações:

  • Status epilepticus (IV — emergência; preferir fosfenitoína IV pela menos flebite)
  • Epilepsia focal e generalizada tônico-clônica
  • Profilaxia de convulsões pós-neurocirurgia ou TCE grave (7 dias)

Efeitos adversos:

  • Dose-dependentes: nistagmo (sinal precoce), ataxia, disartria, confusão → toxicidade grave se > 30 μg/mL: encefalopatia, coma
  • Crônicos: hiperplasia gengival (clássico, especialmente em jovens — higiene oral escrupulosa é obrigatória), hirsutismo, acne, engrossamento de traços faciais (face coarsening), neuropatia periférica
  • IV rápido: hipotensão + arritmias (especialmente com propylene glycol no veículo; fosfenitoína evita esse problema)
  • Exantema/DRESS/SJS: possível (HLA-B*1502 em asiáticos também eleva risco)
  • Indutor de CYP2C9, CYP2C19, CYP3A4 → múltiplas interações (varfarina — BIDIRECIONAL: fenitoína inicia + inibe warfarina → checar RNI; contracep oral hormonal — falha; corticosteróides)

LEVETIRACETAM (LEV) — Keppra® (UCB; genérico):

Mecanismo: liga-se à proteína SV2A (Synaptic Vesicle glycoprotein 2A) nas vesículas sinápticas → interfere com o ciclo de exocitose de neurotransmissores, reduzindo liberação de neurotransmissores excitadores em alta frequência → mecanismo único, sem tolerância

Por que o levetiracetam é tão popular?:

  • Excreção renal 66% sem metabolização hepática → sem interações com CYP450 → sem interferência com outros antiepilépticos ou com pílula anticoncepcional
  • Não induz nem inibe metabolismo de outros fármacos
  • Absorção oral excelente (biodisponibilidade quase 100%); linear (dose ↑ → concentração ↑ proporcional)
  • Sem hiponatremia, sem hiperplasia gengival, sem teratogenicidade grave (apesar de cruzar a placenta)
  • Início de ação relativamente rápido

Indicações (muito amplas):

  • Coadjuvante em crises focais (com ou sem generalização)
  • Crises mioclônicas (especialmente na Epilepsia Mioclônica Juvenil — EMJ = droga de escolha em monoterapia)
  • Crises tônico-clônicas generalizadas
  • Status epilepticus (IV — infusão em 15 min, eficaz e seguro)
  • Profilaxia após TCE, HSA (hemorragia subaracnóidea)

Efeito adverso principal: irritabilidade, agitação, alterações de comportamento/humor (especialmente em crianças e em pacientes com histórico psiquiátrico) — "Keppra rage" no jargão clínico; ocorre em 10-15%; geralmente reversível ao reduzir dose ou associar vitamina B6 (piridoxina 100-200 mg/dia, que tem alguma evidência de reduzir esse efeito); outros: cefaleia, sonolência leve

LACOSAMIDA — Vimpat® (UCB):

  • Mecanismo novo: bloqueia Nav com INATIVAÇÃO LENTA (slow inactivation) — enquanto fenitoína e CBZ estabilizam o estado de inativação rápida, lacosamida estabiliza o estado de inativação lenta → mecanismo complementar, boa opção para combinar com outros bloqueadores de Nav
  • Indicações: crises focais (aprovação FDA e ANVISA); útil como adjuvante
  • Perfil de tolerabilidade bom; pequeno prolongamento do PR no ECG → cautela em bloqueio AV
  • Excreção renal; poucas interações CYP

LAMOTRIGINA — Lamictal® (GSK; genérico):

  • Bloqueia Nav (inativado) + inibe liberação de glutamato nas sinapses glutamatérgicas
  • Indicações: epilepsia focal e generalizada; muito eficaz na EMJ (mas precipita exacerbação de mioclonias se usado sem agente antimioclônico em monoterapia); transtorno bipolar (especialmente fase depressiva — aprovado)
  • Titulação LENTA obrigatória: SJS risco de 0.8% em adultos e 1-2% em crianças → diminui muito com titulação lenta (aumentar 25 mg a cada 2 semanas até dose alvo)
  • Com valproato: valproato inibe glucuronidação da lamotrigina → lamotrigina acumula → dose habitual é a METADE; com indutores (CBZ, fenitoína, fenobarbital): lamotrigina é degradada mais rapidamente → dose habitual é o DOBRO

Perguntas frequentes sobre anticonvulsivantes

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

Carbamazepina e pílula anticoncepcional — existe risco de falha contraceptiva?+

Sim, existe risco real e clinicamente significativo. A carbamazepina é um indutor potente de CYP3A4, a enzima responsável por metabolizar os estrogênios e progestinas dos anticoncepcionais hormonais. Como resultado, a CBZ aumenta o metabolismo dos hormônios anticoncepcionais, reduzindo suas concentrações plasmáticas e a eficácia contraceptiva. Estudos mostram que mulheres em uso de CBZ têm concentrações de etinilestradiol e levonorgestrel significativamente menores que mulheres sem CBZ, associadas a falhas contraceptivas documentadas. As mesmas interações ocorrem com oxcarbazepina, fenitoína, fenobarbital, primidona e topiramato (em doses > 200 mg/dia). Opções de manejo: (1) Trocar o anticonvulsivante: levetiracetam, lamotrigina (cautela com a interação reversa), lacosamida, valproato, gabapentina e pregabalina NÃO afetam significativamente os anticoncepcionais hormonais — discutir com o neurologista a possibilidade de mudança do antiepiléptico se a contracepção é prioritária; (2) Método de barreira ou DIU de cobre (não hormonal): altamente eficaz independentemente do anticonvulsivante; (3) DIU hormonal (levonorgestrel intrauterino): libera hormônio localmente no útero com ação predominantemente local → muito menor impacto do metabolismo sistêmico da CBZ → considerado método confiável mesmo com CBZ; (4) Implante subdérmico de etonogestrel: concentrações altas locais reduzem o impacto, mas ainda pode ser afetado em uso de CBZ; usar DIU de cobre ou levonorgestrel intrauterino. A pílula combinada oral (mesmo em alta dose) não é considerada confiável com carbamazepina.

O que é status epilepticus e como ele é tratado com anticonvulsivantes intravenosos?+

Status epilepticus (SE) é definido como uma crise epiléptica que dura mais de 5 minutos OU duas ou mais crises sem recuperação completa da consciência entre elas. É uma emergência neurológica com mortalidade de 10-30% dependendo da etiologia, e com risco crescente de lesão cerebral permanente quanto mais dura. O tratamento segue protocolo sequencial em estágios: Estágio 1 — Crise 0-5 min (suporte): posição lateral de segurança, vias aéreas, O2, acesso venoso, glicemia, tiamina; Estágio 2 — SE estabelecido (5-30 min): BENZODIAZEPÍNICO IV imediatamente — diazepam 5-10 mg IV (0.1-0.2 mg/kg, máx 10 mg) OU lorazepam 4 mg IV (não disponível em muitos serviços brasileiros) OU midazolam IM 10 mg (intramuscular — alternativa quando não há acesso venoso imediato) → primeira linha, mais eficaz quanto mais cedo administrado; Estágio 3 — SE refratário a benzodiazepínico (30-60 min): anticonvulsivante IV de 2ª linha: fenitoína/fosfenitoína IV (20 mg/kg IV a até 50 mg/min; monitorar ECG e PA), OU valproato sódico IV (40 mg/kg IV a 3-6 mg/kg/min — boa evidência, menos cardiovascular), OU levetiracetam IV (60 mg/kg IV — perfil favorável, sem hipotensão; evidência crescente), OU fenobarbital IV (15-20 mg/kg); Estágio 4 — SE super-refratário (> 60 min ou refratário à 2ª linha): indução de coma anestésico (midazolam infusão contínua, propofol, pentobarbital ou ketamina), intubação orotraqueal, monitoramento EEG contínuo. No Brasil, a sequência mais usada é: diazepam IV → fenobarbital IV (muito disponível nos serviços de emergência) ou levetiracetam IV → valproato IV → coma anestésico.

Referências Científicas

  1. Glauser T, Ben-Menachem E, Bourgeois B, et al. (ILAE treatment of epilepsy — evidence-based guideline 2013) Updated ILAE evidence review of antiepileptic drug efficacy and effectiveness as initial monotherapy for epileptic seizures and syndromes. Epilepsia, 2013.
  2. Treiman DM, Meyers PD, Walton NY, et al. (Lorazepam vs diazepam in status epilepticus — VEST trial) A comparison of four treatments for generalized convulsive status epilepticus. N Engl J Med, 1998.
  3. Kapur J, Elm J, Chamberlain JM, et al. (ESETT trial — fosphenytoin vs valproate vs levetiracetam in established SE) Randomized Trial of Three Anticonvulsant Medications for Status Epilepticus. N Engl J Med, 2019.
  4. Crawford P. (Antiepileptic drugs and contraception — clinical review) Best practice guidelines for the management of women with epilepsy. Epilepsia, 2005.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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