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← Blog·peptideos19 de junho de 2026· 14 min de leitura

CAR-T, TCR-T e terapias celulares adotivas: tisagenlecleucel, axicabtagene, ciltacabtagene e TILs em oncologia

CAR-T cells (Chimeric Antigen Receptor T-cells) são linfócitos T do paciente geneticamente modificados para atacar células tumorais. Aprovados para LLA, DLBCL, mieloma e outros, com remissões completas em doenças previamente incuráveis. Revisão dos mecanismos, ensaios e toxicidades.

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BioPeptídeos Editorial
Equipe Peptídeos Bio
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O que é CAR-T: arquitetura molecular e processo de fabricação

CAR (Chimeric Antigen Receptor) — proteína de fusão artificial expressa em linfócitos T que combina:

Domínios do CAR:

  1. scFv extracelular (single-chain variable fragment): derivado de anticorpo; reconhece antígeno de superfície tumoral de forma MHC-independente (diferente do TCR natural)
  2. Região hinge/espaçador: flexibilidade espacial para o scFv alcançar o antígeno
  3. Domínio transmembrana: ancora o CAR na membrana do T-cell
  4. Domínios intracelulares de co-estimulação: CD28 ou 4-1BB (CD137) — ativam T-cell durante engajamento do CAR
  5. CD3-ζ (zeta): domínio principal de ativação — cadeia do complexo TCR/CD3 que sinaliza via ITAMs → ativação de T-cell

Gerações de CARs:

  • 1ª geração: scFv + CD3-ζ apenas → ativação fraca, sem persistência
  • 2ª geração: scFv + 1 coestimulador (CD28 ou 4-1BB) + CD3-ζ → ativação e persistência muito melhores → todos os aprovados são 2ª geração
  • 3ª geração: 2 coestimuladores + CD3-ζ → em investigação
  • 4ª geração ("TRUCK" ou armored CAR): 2ª gen + payload secretado (IL-12, IL-15, anti-PD-L1) → tumores sólidos em investigação

CD28 vs 4-1BB como co-estimulador — diferenças clínicas:

  • CD28-ζ (axicabtagene, brexucabtagene): expansão mais rápida e robusta → resposta mais rápida mas pode exaurir mais cedo; mais CRS e neurotoxicidade
  • 4-1BB-ζ (tisagenlecleucel, lisocabtagene): expansão mais lenta mas persistência mais longa; memória de longo prazo; menos CRS/neurotoxicidade

Processo de fabricação (autóloga — do próprio paciente):

  1. Leucoférese (coleta de células mononucleares do sangue do paciente, incluindo T-cells)
  2. Ativação in vitro com beads anti-CD3/CD28 ou anticorpos + citocinas (IL-2, IL-7, IL-15)
  3. Transdução viral: vetor lentiviral ou retroviral portando o gene CAR → integra no genoma dos T-cells
  4. Expansão ex vivo em biorreatores por 10-14 dias
  5. Quality check: viabilidade, CAR expression %, potência
  6. Criopreservação e envio para o centro
  7. Linfodepleção do paciente (fludarabina + ciclofosfamida 3-5 dias antes) → cria "espaço" imunológico para as CAR-T cells
  8. Infusão IV das CAR-T cells (dose única geralmente)
  9. Expansão in vivo nas primeiras 2 semanas → pico de expansão → contração e geração de memória

CAR-T aprovados: ensaios clínicos e indicações

CAR-T anti-CD19 em hematologia B:

Tisagenlecleucel (tisa-cel, Kymriah® — Novartis) — 1ª CAR-T aprovada (FDA 2017):

  • LLA B pediátrica e adulta jovem (≤25 anos): ELIANA trial → CR/CRi 81%; ORR 83% → aprovado
  • DLBCL recidivado/refratário (adultos): JULIET trial → ORR 52%, CR 40% → aprovado 2ª linha tardia
  • 4-1BB coestimulador → maior persistência

Axicabtagene ciloleucel (axi-cel, Yescarta® — Kite/Gilead):

  • DLBCL: ZUMA-1 → ORR 83%, CR 58% em ≥3ª linha; DLBCL CD19+ refratário a 2 linhas
  • DLBCL 2ª linha (ZUMA-7): axi-cel vs transplante autólogo de células-tronco (SCT) → EFS 8.3 vs 2.0 meses → aprovado 2022 como 2ª linha em DLBCL r/r
  • Linfoma folicular avançado (ZUMA-5): ORR 92%, CR 79% → aprovado 2021
  • CD28 coestimulador → expansão muito rápida; maiores taxas de CRS/ICANS

Lisocabtagene maraleucel (liso-cel, Breyanzi® — BMS/Juno):

  • DLBCL 2ª linha (TRANSFORM): liso-cel vs SCT → EFS 10.1 vs 2.3 meses
  • CD4+ e CD8+ cells infundidas em ratio definido (1:1) → abordagem mais controlada
  • 4-1BB coestimulador; menos CRS que axi-cel
  • Também em LLC em combinação com ibrutinibe

Brexucabtagene autoleucel (brexu-cel, Tecartus® — Kite):

  • MCL (Mantle Cell Lymphoma) r/r: ZUMA-2 → ORR 87%, CR 62% → aprovado 2020
  • LLA B adulta r/r: ZUMA-3

CAR-T anti-BCMA em Mieloma Múltiplo:

Idecabtagene vicleucel (ide-cel, Abecma® — BMS/bluebird):

  • KarMMa trial: mieloma ≥3 linhas → ORR 73%, CR 33%; DOR mediana ~11 meses

Ciltacabtagene autoleucel (cilta-cel, Carvykti® — Janssen/Legend Biotech):

  • CARTITUDE-1 e 4: ORR 98%, CR 83%, sCR 67% (!) → os maiores CRs em mieloma; PFS 34.9 meses
  • CARTITUDE-4 (2ª/3ª linha): cilta-cel vs pomalidomida+dexametasona (Pd) ou daratumumabe+Pd → PFS 24.0 vs 11.8 meses → aprovado 2ª linha 2024
  • scFv biespecífico (dois binding domains para BCMA) → maior afinidade

CAR-T em tumores sólidos — desafios:

  • Falta de target tumor-restrito (risco de on-target/off-tumor toxicity)
  • Microambiente imunossupressor
  • Tráfego e infiltração ruins → TIL (tumor-infiltrating lymphocytes) abordagens alternativas

Toxicidades de CAR-T: CRS e ICANS — reconhecimento e manejo

CRS (Cytokine Release Syndrome) — toxicidade mais frequente:

Mecanismo: expansão maciça de CAR-T cells → ativação de macrófagos → liberação de IL-6, IFN-γ, GM-CSF, TNF, IL-10 → síndrome sistêmica de inflamação

Gradação ASTCT 2019: | Grau | Critérios | |------|----------| | 1 | Febre ≥38°C | | 2 | + hipotensão responsiva a fluidos OU hipóxia respondendo a <40% FiO2 | | 3 | + hipotensão precisando de vasopressor OU hipóxia precisando ≥40% FiO2 | | 4 | Hipotensão com vasopressor + norepinefrina dose alta OU hipóxia com intubação |

Timing: pico de CRS é tipicamente dias 5-10 após infusão (coincide com pico de expansão)

Manejo:

  • Grau 1: monitoramento, antitérmico
  • Grau 2: tocilizumabe 8 mg/kg IV (anti-IL-6R) → 1ª linha → resolução em horas; repetir se não melhora em 12h
  • Grau 3-4: tocilizumabe + corticoide (dexametasona 10 mg IV) + UTI; vasopressores se necessário
  • Evitar corticoide precoce para não prejudicar expansão de CAR-T (mas usar sem hesitar em CRS grave)

ICANS (Immune Effector Cell-Associated Neurotoxicity Syndrome):

  • Síndrome neurológica pós-CAR-T: confusão, afasia, encefalopatia, convulsões, edema cerebral
  • Mecanismo: citocinas (IL-6, IFN-γ, TNF) → disrupção de barreira hemato-encefálica → edema; possivelmente CAR-T cells no SNC
  • Timing: costuma ser pós-CRS (dias 7-15) ou paralelo
  • Gradação: ICANS grau 1-4 pela pontuação ICE (Immune Effector Cell-Associated Encephalopathy score) + critérios clínicos
  • Manejo: corticoide (dexametasona) é 1ª linha para ICANS (ao contrário de CRS onde tocilizumabe é preferido); anti-epiléptico profilático (keppra) em muitos centros; para edema cerebral grau 4 → cuidados intensivos, possível anakinra ou siltuximabe
  • Tocilizumabe NÃO melhora ICANS (bloqueia IL-6 na periferia mas não no SNC onde IL-6 pode já ter causado dano)

Outros efeitos adversos de CAR-T:

  • Aplasia de células B (on-target/off-tumor): CAR-T anti-CD19 mata células B normais → hipogamaglobulinemia → infecções → IVIG de reposição por anos
  • Citopenias: linfodepleção prévia + CRS podem causar anemia, trombocitopenia prolongada
  • Infecções oportunistas: imunossupressão profunda → CMV, EBV reativação, infecções fúngicas
  • Síndrome de macrófago (HLH): rara mas grave (5-10% após CAR-T) — febre, esplenomegalia, citopenias, ferritina >10.000, hipertrigliceridemia → etoposídeo + dexametasona + anakinra

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TILs, bispecifics e próximas fronteiras em terapia celular

TILs (Tumor-Infiltrating Lymphocytes) — terapia celular "off-the-shelf style" com células naturais:

Lifileucel (Amtagvi® — Iovance Biotherapeutics) — 1ª TIL aprovada (FDA 2024):

  • Tumor (melanoma) ressecado → digestão → extração de TILs que naturalmente reconhecem o tumor → expansão ex vivo maciça → infusão
  • C-144-01 trial: melanoma metastático r/r após ICI e BRAF i → ORR 31.5%, algumas remissões durável (CRs 3.6%) → aprovado melanoma 2ª+ linha
  • Vantagem: não precisa de engenharia genética; TILs já são naturalmente reativos ao tumor do paciente
  • Desafio: necessita biópsia/cirurgia, processo de expansão demorado (3-6 semanas)

Anticorpos Bispecíficos (BsAbs) — "off-the-shelf" alternativa a CAR-T:

  • BsAb = anticorpo que liga simultaneamente 2 alvos; quando um braço liga CD3 em T-cell e outro liga antígeno tumoral → forma sinapses imunológicas → T-cell mata célula tumoral sem precisar de reconhecimento via TCR/MHC
  • Blinatumomabe (Blincyto® — Amgen): CD19×CD3 BiTE (Bispecific T-cell Engager); LLA B recidivada → CR ~40% e OS superiores a QT; infusão contínua IV (meia-vida <2h) — pump subcutâneo; MT103 de formato muito pequeno
  • Epcoritamabe (Epkinly® — AstraZeneca/Genmab): CD20×CD3 subcutâneo; DLBCL r/r → ORR 63%, CR 39% — subcutâneo vs infusão
  • Glofitamabe (Columvi® — Roche): CD20×CD3; DLBCL r/r → CR 39%; duração fixa de tratamento (12 ciclos)
  • Teclistamabe, elranatamab (BCMA×CD3): mieloma (ver BCL-2 section)
  • Talquetamabe (Talvey® — J&J): GPRC5D×CD3 → mieloma r/r → ORR 74%
  • Toxicidades BsAb: também causam CRS (mas geralmente mais suave que CAR-T, grau 1-2); ICANS menos frequente; "step-up dosing" para mitigar CRS

CAR-NK cells:

  • NK (Natural Killer) cells com CAR anti-CD19 alogénico (de doador, off-the-shelf — não precisa ser autólogo)
  • MD Anderson trial: CAR-NK alogénico de sangue de cordão → ORR 73% em LLC/linfomas
  • Vantagens: off-the-shelf (sem tempo de fabricação), menor risco de GvHD (NK não causam), menos CRS

CAR-T alogénico (off-the-shelf CAR-T):

  • Usa T-cells de doadores (não do paciente) → "pronto para usar" mas problema de GvHD e rejeição
  • Edição genômica (CRISPR/Cas9): knock out de TCR (evita GvHD) e MHC-I (evita rejeição pelo receptor)
  • ALLO-501, CTX110 (CRISPR), PBCAR0191: fase 1 em linfomas; ainda inferiores a autólogos

Próximas fronteiras:

  • CAR-T em tumores sólidos: mesothelioma (MSLN), gástrico (HER2, CLDN18.2), próstata (PSMA), GBM (EGFRvIII) — ensaios fase 1/2
  • CAR-T para doenças autoimunes: CD19 CAR-T em LES, miosite — fase 1 com CRs surpreendentes (Mackensen 2022, Schett 2023)

Perguntas frequentes sobre CAR-T e terapia celular

Aviso Editorial

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional, produzido pela equipe editorial da Peptídeos Bio com base em evidências científicas disponíveis até a data de publicação. Não constitui conselho médico, diagnóstico ou prescrição terapêutica. Peptídeos de pesquisa não possuem aprovação regulatória da ANVISA para uso clínico. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado antes de iniciar qualquer protocolo. Leia o aviso médico completo.

Perguntas Frequentes

CAR-T cura o câncer?+

Em alguns pacientes, sim — especialmente LLA B pediátrica (tisagenlecleucel) e alguns DLBCL. Em LLA B, ~20-30% dos respondedores à CR ficam sem evidência de doença por >5 anos — possivelmente curados. No DLBCL com axicabtagene, ~30% das CR são duradouras (5+ anos). O conceito de 'plateau' na curva de sobrevida — a curva para de cair após certo tempo — é indicativo de possível cura em um subgrupo. Em mieloma com cilta-cel, as CRs profundas são impressionantes mas o tempo de seguimento ainda é curto (3-4 anos). A resposta honesta: em hematológicos B, CAR-T pode curar uma fração de pacientes; em outros contextos, ainda é principalmente controle de doença.

Qual a diferença entre CAR-T e bispecific antibodies?+

Ambos redirecionam T-cells contra tumores, mas de formas muito diferentes. CAR-T: (1) processo laboratorial demorado (3-6 semanas de fabricação) e caro (~400-500k USD/tratamento); (2) autólogo (células do próprio paciente); (3) dose única; (4) T-cells modificados persistem e formam memória; (5) expansão intensa → maior CRS/ICANS; (6) remissões mais profundas e duradouras em respondedores. Bispecifics: (1) off-the-shelf (pronto para infundir); (2) muito mais barato; (3) administração contínua (semanal/mensal) sem persistência; (4) T-cells do paciente ativados in vivo sem modificação genética; (5) CRS mais suave; (6) remissões menos profundas em média. A tendência é usar bispecifics mais precocemente (mais acessíveis) e reservar CAR-T para pacientes selecionados em centros especializados.

Posso fazer CAR-T em qualquer hospital?+

Não — CAR-T cells são tratamentos de alta complexidade que exigem centros certificados (FACT/JACIE/REMS) com infraestrutura específica: equipe experiente em manejo de CRS/ICANS, UTI disponível 24/7, acesso imediato a tocilizumabe e corticoides, capacidade de monitoramento de citocinas. No Brasil, há poucos centros autorizados a administrar CAR-T (principalmente grandes centros de referência em oncohematologia nas capitais). O processo inclui: avaliação de elegibilidade, leucoférese, aguardar fabricação (3-6 semanas), internação para linfodepleção e infusão, monitoramento intensivo pós-infusão por 2-4 semanas. Pacientes precisam ter cuidador dedicado e residência próxima ao centro.

O que é CRS e como reconhecer em casa?+

CRS (Cytokine Release Syndrome) é a principal complicação aguda do CAR-T — ocorre nos primeiros 5-14 dias após infusão. Sintomas que o paciente/cuidador deve reconhecer e reportar imediatamente: febre ≥38°C (mesmo sem calafrio, qualquer febre após CAR-T é sinal de alerta), hipotensão (tonteira ao levantar, fraqueza), falta de ar, taquicardia. Sintomas neurológicos: confusão, dificuldade de falar, letargia, convulsões → ir imediatamente ao pronto-socorro do centro de CAR-T (ou mais próximo, com comunicação imediata ao centro). Não tentar tratar febre em casa com antitérmico e aguardar — qualquer febre pós-CAR-T precisa de avaliação médica urgente pois CRS pode progredir rapidamente de grau 1 para grau 3 em horas.

Referências Científicas

  1. Maude SL, Laetsch TW, Buechner J, et al. (ELIANA) Tisagenlecleucel in children and young adults with B-cell lymphoblastic leukemia (ELIANA). N Engl J Med, 2018.
  2. Neelapu SS, Locke FL, Bartlett NL, et al. (ZUMA-1) Axicabtagene ciloleucel CAR T-cell therapy in refractory large B-cell lymphoma (ZUMA-1). N Engl J Med, 2017.
  3. Locke FL, Miklos DB, Jacobson CA, et al. (ZUMA-7) Axicabtagene ciloleucel as second-line therapy for large B-cell lymphoma (ZUMA-7). N Engl J Med, 2022.
  4. San-Miguel J, Dhakal B, Yong K, et al. (CARTITUDE-4) Cilta-cel or standard care in lenalidomide-refractory multiple myeloma (CARTITUDE-4). N Engl J Med, 2023.
  5. Chesney JA, Klobuch S, Pasam A, et al. (lifileucel) Efficacy and safety of lifileucel, a one-time autologous tumor-infiltrating lymphocyte (TIL) cell therapy, in patients with unresectable or metastatic melanoma (C-144-01). J Clin Oncol, 2023.

Ver Metodologia Editorial para critérios de seleção e classificação das evidências. Ver Política Editorial para padrões de qualidade.

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