O que é autofagia?
Autofagia (do grego *auto* = si mesmo + *phagein* = comer) é o processo pelo qual células degradam e reciclam seus próprios componentes via lisossoma. Yoshinori Ohsumi descobriu os genes essenciais de autofagia em levedura, recebendo o Nobel de Fisiologia/Medicina de 2016.
Três tipos principais de autofagia:
- Macroautofagia (simplesmente "autofagia"): formação de dupla-membrana autofagossomo que envolve cargo → fusão com lisossoma → degradação por hidrolases
- Microautofagia: invaginação direta da membrana lisossomal → engloba cargo
- Autofagia mediada por chaperone (CMA): proteínas com motivo KFERQ são reconhecidas por Hsc70 → translocadas diretamente para o lisossoma via LAMP2A
Selective autophagy (autofagia seletiva): A maioria dos eventos de autofagia é seletiva (não aleatória) — receptores de autofagia (p62/SQSTM1, NBR1, NDP52, OPTN, TAX1BP1) ligam o cargo ubiquitinado à maquinaria do autofagossomo (via LC3):
- Mitofagia: mitocôndrias disfuncionais → PINK1/Parkina → receptor de mitofagia NIX/BNIP3L ou FUNDC1
- Lipofagia: gotículas lipídicas
- Reticulofagia: ER
- Xenofagia: patógenos intracelulares
- Ribofagia: ribossomos
- Aggrefagia: agregados proteicos
A maquinaria molecular da autofagia: mTOR, ULK1, Beclin, LC3
Regulação por mTOR e AMPK:
- mTORC1 ativo (nutrientes/crescimento): fosforila e inibe ULK1 (Ser638, Ser758) → autofagia INIBIDA
- mTORC1 inativo (jejum, baixa energia, rapamicina): ULK1 desfosforilado + fosforilado por AMPK (Ser317, Ser777) → ULK1 ATIVO → autofagia iniciada
Cascade de iniciação:
- ULK1/2 + FIP200 + ATG13 + ATG101: complexo de iniciação → fosforila e ativa complexo PI3K-III
- PI3K-III / VPS34 + Beclin-1 + VPS15 + ATG14L: gera PI3P → recruta proteínas WIPI1/2 e DFCP1 à membrana de isolamento (phagophore)
- Sistemas de conjugação ATG: ATG12-ATG5-ATG16L + LC3-PE (PE = fosfatidiletanolamina)
LC3 (LC3-I e LC3-II):
- LC3-I: citosólico, livre
- LC3-II: conjugado a PE (lipidation) → integra à membrana do autofagossomo → marcador de autofagia
- LC3 tem motivo LIR que liga receptores de autofagia seletiva (p62, NBR1, etc.)
Maturação e fusão:
- Autofagossomo (dupla membrana) → fusiona com lisossoma → autolisossoma
- Hidrolases lisossomais (catepsinas B, D, L) degradam o conteúdo
- Aminoácidos, ácidos graxos e nucleotídeos são reciclados
Autofagia no câncer: protetora vs. pró-sobrevivência
Paradoxo da autofagia no câncer — dual role:
Supressora tumoral (fase inicial):
- Autofagia basal elimina organelas danificadas, ERO e proteínas mal-dobradas → reduz mutagênese
- Beclin-1 (gene *BECN1*) é frequentemente deletado em cânceres de mama, ovário, próstata → perda de autofagia contribui para instabilidade genômica
- Camundongos Beclin-1+/- desenvolvem tumores espontâneos
Pró-sobrevivência tumoral (fase avançada):
- Tumores estabelecidos em hipóxia/privação de nutrientes → autofagia como mecanismo de sobrevivência → reciclagem de proteínas e organelas para fornecer aminoácidos e energia
- Resistência a quimioterapia via autofagia:
- Doxorrubicina → autofagia protetora em células de mama - Imatinibe em GIST/LMC → autofagia protetora - Bortezomibe → acúmulo de proteínas ubiquitinadas → tenta reciclar via autofagia
- Tumores com KRAS mutado são especialmente dependentes de autofagia (KRAS reduz macropinocitose e aumenta dependência de autofagia para aminoácidos)
Cloroquina e Hidroxicloroquina (HCQ) em câncer:
- Inibem fusão autofagossomo-lisossoma ao aumentar pH lisossomal → acúmulo de autofagossomos → morte celular em tumores autofagia-dependentes
- Dezenas de ensaios clínicos com HCQ em combinação (gemcitabina+HCQ em pâncreas, temozolomida+HCQ em glioblastoma, bortezomibe+HCQ em mieloma)
- UWLAX-MT2012-01: HCQ + Velcade + dex em mieloma — resposta melhorada com HCQ
- Resultados mistos geral — biomarcadores de autofagia basal tumoral necessários
Autofagia em neurodegeneração, longevidade e imunidade
Autofagia em Parkinson:
- α-sinucleína mutante (A53T, A30P) ou oxidada forma agregados resistentes ao proteassoma → via autofagia
- CMA (autofagia mediada por chaperone) degrada α-sinucleína normal, mas mutante bloqueia LAMP2A
- Mitofagia via PINK1/Parkina: mutações causam acúmulo de mitocôndrias disfuncionais → neurodegeneração dopaminérgica
Autofagia em Alzheimer:
- Aβ e tau são substratos de autofagia
- Disfunção de autofagia → acúmulo de autofagossomos com precursores de Aβ não-digeridos em neurônios (autofagic vacuoles)
- Rapamicina (mTOR-i → ativa autofagia) melhora patologia em modelos de AD em camundongos
Autofagia e longevidade:
- Em C. elegans: mutações em genes de autofagia reduzem extensão de vida por restrição calórica
- Jejum prolongado → AMPK ativa → mTOR inativo → autofagia ativa → reciclagem de dano acumulado → uma das hipóteses centrais dos benefícios do jejum intermitente e restrição calórica
- Spermidina (poliamina presente em germe de trigo, queijo, soja): ativa autofagia via inibição de acetilatransferases → correlacionada em estudos observacionais com longevidade
Autofagia e imunidade inata:
- Xenofagia: células imunes usam autofagia para eliminar patógenos intracelulares (Mtb, Legionella)
- NF-κB e STING sinalizam autofagia em resposta a infecção
- ATG16L1 (gene de autofagia): variante T300A associada a doença de Crohn — autofagia deficiente em células de Paneth → microbioma intestinal alterado
Conheça reguladores de autofagia e biossíntese lisosomal em nosso catálogo.