Antivirais para influenza: oseltamivir, zanamivir e baloxavir
Influenza — vírus RNA de fita simples negativa, família Orthomyxoviridae; tipos A (H1N1, H3N2 — pandêmicos) e B (influenza B/Victoria, B/Yamagata)
Ciclo replicativo do influenza e alvos dos antivirais:
- Hemaglutinina (HA) — proteína de superfície; liga ao ácido siálico de células respiratórias; fusão de membranas
- Replicação intracelular → novos vírus montados
- Neuraminidase (NA) — cliva o ácido siálico → libera novos vírions da superfície celular para infectar novas células; SEM neuraminidase: vírus ficam presos, não se disseminam
Oseltamivir (Tamiflu® — Roche/Genentech):
- Pró-fármaco (éster etílico) → convertido a oseltamivir carboxilato (ativo) pelo fígado → inibidor competitivo e reversível da neuraminidase de influenza A e B
- 75 mg q12h × 5 dias (tratamento); 75 mg/dia (profilaxia); ajuste renal (ClCr < 30: 30 mg q12h); disponível em xarope para crianças
- Eficácia: reduz duração dos sintomas em ~1 dia (vs 7 dias para placebo → 6 dias) se iniciado dentro de 48h; reduz complicações (pneumonia, hospitalização) em estudos observacionais; RCTs: benefício modesto em pacientes saudáveis mas mais claro em alto risco (>65 anos, grávidas, imunossuprimidos, DM, DPOC)
- Resistência: H275Y na NA → resistência de alto nível (H1N1 sazonal 2008 quase 100% resistente; H1N1 pandêmico 2009 < 1% resistente; monitorar por season)
- Indicações fortes: gripe confirmada com início < 48h, grau moderado-grave ou fator de risco; profilaxia pós-contato (75 mg/dia × 10 dias) em contatos de casos confirmados com fatores de risco
Zanamivir (Relenza® — GSK):
- Inibidor de neuraminidase inalado (pó seco); minimamente absorvido → concentra-se no trato respiratório; 2 inalações 5 mg q12h × 5 dias
- Alternativa para oseltamivir-resistente (H1N1/H275Y geralmente mantém sensibilidade ao zanamivir)
- IV disponível (zanamivir parenteral) para influenza grave hospitalar
- Contraindicado em DPOC grave (broncoespasmo)
Peramivir (Rapivab® — BioCryst):
- IV dose única 600 mg (1 infusão) — conveniente para influenza grave hospitalar; 30 min infusão
Baloxavir marboxil (Xofluza® — Roche/Shionogi):
- Mecanismo diferente: inibidor de cap-snatching (atividade de endonuclease PA subunit do complexo de polimerase viral, RdRp) → sem síntese de RNAm viral → replicação bloqueada
- Dose única oral 40 mg (<80 kg) ou 80 mg (≥80 kg) → mais conveniente; reduz duração similar ao oseltamivir mas viremia cai mais rápido
- Resistência I38T na PA → emergência em ~3% em adultos tratados, mais em crianças; resistência cruzada com outros PA-inhibidores
- Importante: NÃO combinar com antiácidos polivalentes (Mg²⁺, Al³⁺, Ca²⁺ = quelam baloxavir → reduzem absorção)
Amantadina e rimantadina (adamantanos):
- Antigos antivirais para Influenza A somente; bloqueiam canal de prótons M2
- Resistência generalizada (>99% H3N2 e H1N1): NÃO recomendados para influenza (CDC 2011)
- Amantadina ainda tem uso para Parkinson (mecanismo anticolinérgico e dopaminérgico)
Aciclovir, valaciclovir e antivirais para herpes: mecanismo de ativação e uso clínico
Herpesvírus humanos e seus antivirais:
- HSV-1, HSV-2 (herpes simples): aciclovir, valaciclovir, famciclovir
- VZV (varicela-zoster): aciclovir, valaciclovir, famciclovir
- CMV (citomegalovírus): ganciclovir, valganciclovir, foscarnet, cidofovir, letermovir (profilaxia em transplante)
- EBV (Epstein-Barr): aciclovir tem baixa eficácia; sem tratamento específico aprovado para mononucleose
Mecanismo do aciclovir (Zovirax® — GSK):
- Fosforilação pela timidina quinase (TK) viral → aciclovir monofostato (aciclovir-MP); a TK viral faz isso 3000x mais eficientemente que a TK humana → SELETIVIDADE: apenas células infectadas por herpesvírus ativam o pró-fármaco
- Quinases celulares → aciclovir-DP → aciclovir-TP (trifosfato — forma ativa)
- Inibição competitiva da DNA polimerase viral (aciclovir-TP vs dGTP natural) → incorporação no DNA viral → terminação da cadeia (aciclovir carece de OH 3' → sem elongação adicional) → bloqueio da replicação viral
- Resistência: mutação ou deleção da TK viral → vírus incapaz de ativar aciclovir; mais comum em imunossuprimidos (HSV resistente → tratar com foscarnet ou cidofovir que não precisam de TK para ativação)
Aciclovir IV/oral: oral absorção ~15-20%; IV para formas graves
- HSV encefalite: 10 mg/kg IV q8h × 14-21 dias (emergência — iniciar empiricamente antes de confirmação por PCR no LCR; mortalidade sem tratamento > 70%)
- Herpes neonatal: 20 mg/kg IV q8h × 14-21 dias (doença disseminada/SNC)
- VZV em imunossuprimido: 10-12 mg/kg IV q8h × 7-10 dias
- Herpes genital 1º episódio: aciclovir 400 mg 3x/dia × 7-10 dias ou valaciclovir 1g 2x/dia × 7-10 dias
Valaciclovir (Valtrex® — GSK / Zelitrex®):
- Pró-fármaco L-valina éster do aciclovir → absorção oral ~55% (vs 15-20% do aciclovir) → altos níveis plasmáticos com dosagem menos frequente → preferido para uso oral
- Herpes genital recorrente: 500 mg 2x/dia × 3-5 dias; terapia supressiva (para reduzir recorrências e transmissão): 500 mg/dia ou 1g/dia (se >9 recorrências/ano) indefinidamente
- Herpes labial (cold sore): 2g q12h × 1 dia (2 doses) — dose alta curta; valaciclovir topicamente não tem utilidade; aciclovir tópico: muito pouco eficaz
- Herpes-zóster (cobreiro): valaciclovir 1g 3x/dia × 7 dias ou aciclovir 800 mg 5x/dia × 7 dias — reduz duração e a neuralgia pós-herpética se iniciado < 72h do exantema; idealmente < 24h
- Profilaxia de CMV pós-transplante: valganciclovir ou valaciclovir em altas doses (2g 4x/dia) para transplante renal soronegativo com doador CMV+
Famciclovir (Famvir® — Novartis):
- Pró-fármaco de penciclovir; mecanismo similar; maior biodisponibilidade oral que aciclovir; alternativa para herpes-zóster e herpes genital
Ganciclovir e valganciclovir — CMV:
- Ganciclovir IV: análogo de guanosina; ativado pela fosfotransferase UL97 do CMV (não TK como herpes simples) + quinases celulares → inibe DNA polimerase UL54 do CMV
- Valganciclovir (Valcyte® — Roche): pró-fármaco oral de ganciclovir; absorção ~60%; 900 mg 2x/dia (tratamento), 900 mg/dia (profilaxia)
- Indicações: retinite por CMV em AIDS, doença por CMV em transplantados, profilaxia em transplantados de órgão sólido e CTMO CMV+/receptor
- Mielotoxicidade: neutropenia dose-limitante (ganciclovir > valganciclovir > foscarnet) — monitore CBC semanal
- Resistência: UL97 mutation (perde fosforilação de ganciclovir) → usar foscarnet; UL54 mutation (dupla resistência ganciclovir + foscarnet) → cidofovir
Foscarnet (Foscavir® — AstraZeneca):
- Análogo pirofosfato; NÃO precisa de ativação por TK ou quinase viral → ativo em HSV/VZV TK-resistentes, CMV resistentes ao ganciclovir
- Inibe diretamente DNA polimerase viral (sítio pirofosfato)
- Altamente nefrotóxico + hipocalcemia, hipomagnesemia, hipofosfatemia (sequestro de cátions por quelação) → hidratação vigorosa obrigatória
Letermovir (Prevymis® — Merck):
- Mecanismo único: inibe o complexo terminase do CMV (UL56/UL51/UL89) — NÃO é análogo de nucleosídeo; sem resistência cruzada com ganciclovir ou foscarnet
- Profilaxia de reativação de CMV em transplantados de CTMO soropositivos: 480 mg/dia oral ou IV × 100 dias — Trial PREVAIL: 38% vs 61% de infecção clinicamente significante por CMV (letermovir vs placebo)
- Sem mielotoxicidade (vantagem sobre valganciclovir em CTMO com aplasia)
Cidofovir (Vistide®):
- Análogo de citidina; monofosforilado celularmente (sem necessidade de kinase viral) → ativo em CMV resistente, adenovírus, BK vírus (em transplantados renais), HSV/VZV resistentes; nefrotóxico (pré-hidratação + probenecida obrigatórios)
Tenofovir, emtricitabina e lamivudina: NRTIs para HIV e hepatite B
NRTIs (Nucleoside/Nucleotide Reverse Transcriptase Inhibitors) — a espinha dorsal da terapia do HIV e hepatite B:
Mecanismo geral dos NRTIs:
- Pró-fármaco nucleosídeo/nucleotídeo → fosforilado por quinases celulares → trifosfato ativo
- O trifosfato é incorporado na cadeia nascente de DNA viral pela transcriptase reversa (HIV) ou DNA polimerase do HBV
- Falta o grupo 3'-OH (para os NRTIs clássicos) → terminação de cadeia (chain terminator)
- A transcriptase reversa tem ~4x maior sensibilidade aos NRTIs que a DNA polimerase humana → alguma seletividade (imperfeita — daí a toxicidade mitocondrial)
Toxicidade mitocondrial dos NRTIs:
- DNA polimerase γ mitocondrial pode ser inibida por NRTIs (principalmente os mais antigos: zalcitabina, ddI, d4T) → disfunção mitocondrial → acidose lática, esteatose hepática, lipodistrofia, neuropatia periférica
- NRTIs modernos (tenofovir, abacavir, emtricitabina, lamivudina) têm muito menos toxicidade mitocondrial
Tenofovir (TDF = Tenofovir Disoproxil Fumarate; TAF = Tenofovir Alafenamide):
- TDF (Viread® — Gilead): nucleotídeo (já monofosforilado como tenofovir); pró-fármaco → ativo nas células; excelente potência; excreção renal → nefrotóxico (tubulopatia proximal tipo síndrome de Fanconi com uso prolongado) + perda de densidade mineral óssea
- TAF (tenofovir alafenamide — presente no Descovy®, Biktarvy®, Genvoya®): pró-fármaco intracelu lar melhorado → 90% menos exposição plasmática → mesma eficácia antiviral com muito menos nefrotoxicidade e menos perda óssea; PREFERIDO sobre TDF nas formulações modernas
- Atividade: HIV (NRTIs backbone em todos os esquemas modernos) + HBV (TDF/TAF são 1ª linha para hepatite B crônica — com emtricitabina ou lamivudina em co-infecção; como monoterapia: TDF 300 mg/dia para HBV monoinfectado)
- PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV): TDF + emtricitabina (Truvada® — diário) ou TAF + emtricitabina (Descovy® — diário) = eficácia >90% em reduzir infecção pelo HIV em populações de alto risco (HSH, casais sorodiscordantes, UDI) se uso diário; também PrEP 2-1-1 (evento-driven/PrEP 2x1x1 para HSH: 2 comp 2-24h antes + 1 comp 24h + 1 comp 48h após
Emtricitabina (FTC — Emtriva® — Gilead):
- Análogo de citidina; meia-vida intracelular longa (~39h); bem tolerada; coadministrada com tenofovir (sinérgicos e complementares em resistência)
- Atividade: HIV + HBV; presente em Truvada® (FTC+TDF), Descovy® (FTC+TAF), Biktarvy® (FTC+TAF+bictegravir), Triumeq® (FTC+TDF+dolutegravir variant); resistência M184V → reduz 4x a potência; mas M184V aumenta sensibilidade a AZT e TDF → pode ser mantida estrategicamente
Lamivudina (3TC — Epivir® — ViiV/GSK):
- Análogo de citidina; a mais antiga do grupo ainda muito usada; bem tolerada, barata; ativa para HIV + HBV
- Hepatite B crônica (HBV): lamivudina 100 mg/dia era padrão mas resistência YMDD em 70% após 4-5 anos (mutação M204I/V) → TDF ou entecavir são preferidos por maior barreira à resistência
- HBV em co-infecção HIV/HBV: TDF + FTC (ou TDF + 3TC) cobrem ambos os vírus como backbone do esquema HAART
Entecavir (Baraclude® — BMS):
- Análogo de guanosina; triplamente fosforilado → inibe iniciação da replicação HBV (DNA pol, transcriptase reversa e DNA-pol de 1ª fita); alta barreira à resistência (<1%/ano em naive); 0.5 mg/dia (naive), 1 mg/dia (refratário a lamivudina)
- HBV monoinfectado sem HIV: entecavir ou TDF = 1ª linha (AASLD/EASL guidelines)
Abacavir (ABC — Ziagen® — ViiV):
- Análogo de guanosina; alta potência; presente em formulações de 1 comprimido/dia (Epzicom® = ABC+3TC; Triumeq® = ABC+3TC+dolutegravir)
- HIPERSENSIBILIDADE A ABACAVIR: reação multiorgânica grave (febre, erupção, GI, mal-estar) em ~5-8% dos portadores do alelo HLA-B*5701 (teste obrigatório antes de prescrever abacavir — farmacogenômica); portadores de HLA-B*5701 NÃO devem receber abacavir; prevalência HLA-B*5701: ~8% em caucasianos, 3% em afrodescendentes, 1% em asiáticos
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